Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O clamor dos deserdados da terra

Em novo livro, Whisner Fraga reúne 55 minicontos que reproduzem o drama dos excluídos que vivem nas ruas de São Paulo. E o faz sem perder a ternura

                I

Histórias dos deserdados da terra que habitam as ruas de São Paulo compõem As fomes inaugurais (Editora Sinete, 2024), o mais recente livro de Whisner Fraga, autor de mais de uma dezena de obras nos gêneros romance e contos, algumas premiadas. Desta vez, são 55 minicontos sobre personagens que se acostumaram a viver à margem de uma sociedade que não só não tem interesse em acolhê-los como faz questão de enxotá-los de suas calçadas. 

Para tanto, o autor, já experimentado no ofício, vale-se de vários recursos de estilo, como o realismo mágico, o fluxo de consciência e as narrativas em terceira e primeira pessoas, sem deixar de recorrer, às vezes, à linguagem do teatro, em textos sempre entremeados por prosa poética. 

No miniconto “brasões, flâmulas, insígnias”, o autor observa que “mendigo é diferente de morador de rua e pessoa em situação de rua é pior, morador de rua escolhe morar na rua, e pessoa em situação de rua pousa no abrigo, sem o cachorro, pois não recebem bichos lá”. E acrescenta que os burgueses “estão se lixando se dormem na rua ou no asilo ou o modo que são denominados, dependendo do lugar em que pernoitam”. 

Se se pode acrescentar alguma coisa a esse miniconto, é para lembrar que, segundo depoimento ouvido recentemente de um sem teto, muitas vezes, é melhor dormir na rua, de preferência debaixo de uma marquise, do que pernoitar num asilo público, correndo o risco de ser roubado por aqueles que lá também pernoitam e precisam de seu parco dinheirinho para alimentar o vício das drogas. Eita, que mundo cão!     

                        II

Em alguns minicontos, aparecem o dono de um bar, conhecido como Seu Manuel, e Helena, sempre dialogando com o narrador. Em outros, mulheres em situação de rua buscam dinheiro em lives eróticas e uma família que mora em um carro abandonado e começa a adaptá-lo para transformá-lo em uma casa. No miniconto “usualmente a heresia”, há um flagrante da vida de um casal de excluídos: “a aguardente brilha debaixo do holofote mirrado do poste, a mulher espera que ele desembuche e deposite o litro em seu colo: não é capaz de despertar sem uma talagada (...)”.

Já no miniconto “seiva”, o leitor vai se deparar com o drama de uma excluída, procedente de Manari, município de Pernambuco que, no início deste século, foi considerado o mais pobre do Brasil. Ela está grávida e procura assistência médica em unidades públicas: “quatro meses?, não acompanha, estava aflita porque não descia, decide ir ao postinho, sorte que uma enfermeira de plantão a examina, recomenda pré-natal, chispa, se ela pede endereço, diz o quê?, não, não retorna, prefere o relento de são paulo à laje de manari, não adianta teimar: não avisa a mãe, o que fará daquela lonjura, na escassez irrepreensível?, vive, com a soberania dos brutalizados, a altivez dos autodenominados puros? quer distância de santos, essas beatas que adoram operar o chicote, terá o filho, amará o filho (...), afaga o ventre e admira os edifícios com suas fachadas brutais, deglutindo famílias, acobertando tanto egoísmo e desigualdade: o que oferecerá ao filho?, a cidade enlaça suas quimeras, como um parasita atocaiando a presa”. 

Por aqui, como ressalta o escritor Hugo Almeida, no posfácio que leva o título “Cântico aos excluídos”, vê-se que o leitor irá se deparar nesses contos com “um filme atual da exclusão dos desassistidos, párias de uma sociedade egoísta e cruel”. Mas, acrescente-se, o que torna esta obra singular é exatamente a intenção do autor de não romantizar seus personagens, sem deixar de imprimir em tudo “um toque de poesia, ainda que dolorosa”, como observa Almeida, igualmente romancista, contista e ensaísta, autor de Vale das ameixas (romance) e A voz dos sinos (ensaio), ambos também publicados pela Editora Sinete. 

Para Almeida, Whisner Fraga é, hoje, “um dos mais vigorosos e criativos escritores brasileiros em atividade”, sempre preocupado em “denunciar a desigualdade socioeconômica, sem, contudo, dispensar o apuro estético”, cumprindo o papel de todo verdadeiro escritor, que é o de denunciar as mazelas do mundo. É o que o autor faz, pois, os seus contos, na maioria, trazem um fecho que “é um susto, o soco de nocaute da receita cortaziana”, como define Almeida, citando a técnica de escrita do autor argentino Julio Cortázar (1914-1984).  

               III

Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, em 1971, Whisner Fraga é formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia. Em Engenharia Mecânica, fez também mestrado na mesma universidade e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Mas, atraído pelas Letras, curso que iniciou, mas não concluiu, ainda durante o mestrado, publicou o livro de contos Seres e sombras (edição de autor, 1997). É formado também em Pedagogia e Marketing Digital.

Durante o doutoramento, publicou o seu segundo livro de contos, Coreografia dos danados (Edições Galo Branco, 2002), título inspirado em verso de Augusto dos Anjos (1884-1914). Concluiu o doutoramento em 2003 e, desde então, prestou concurso para a docência e vem lecionando para jovens e adultos. Ao mesmo tempo, atua como crítico literário em jornais impressos e sites dedicados à literatura. Também resenha obras de literatura contemporânea no canal Acontece nos Livros, no YouTube, e é editor na Sinete.

Nos últimos tempos, publicou Usufruto de demônios, contos (Ofícios Terrestres Edições, 2022) e O que devíamos ter feito, contos (Editora Patuá, 2020). É autor ainda de A cidade devolvida, contos (Editora 7 Letras, 2005); As espirais de outubro, romance (Nankin, 2007), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Abismo poente, romance (Ficções Editora, 2009), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; O livro da carne, poemas (Editora 7 Letras, 2010); Sol entre noites, romance (Ficções Editora, 2011), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Lúcifer e outros subprodutos do medo, contos (Editora Penalux, 2015), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; A verdade é apenas uma versão dos fatos (Editora Penalux, 2017); e  O privilégio dos mortos, romance (Editora Patuá, 2019). 

Participou de antologias como Os cem menores contos brasileiros do século (Editora Ateliê, 2018), organizada por Marcelino Freire; e Geração zero zero: fricções em rede (Editora Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira. Alguns de seus contos foram traduzido para o inglês, alemão e árabe e publicados em antologias. Adelto Gonçalves - Brasil 

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As fomes inaugurais, de Whisner Fraga, com posfácio de Hugo Almeida. São Paulo-SP, Editora Sinete 88 páginas, R$ 55,00., 2024. Site: www.editorasinete.com.br E-mail: editorasinete@gmail.com 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Whisner Fraga: contos perpassados por sentimento de revolta

                                                                    I

Depois de lançar, em 2020, O que devíamos ter feito, contos (Editora Patuá), o romancista, contista, poeta e crítico literário Whisner Fraga (1971) chega ao seu décimo-segundo livro com Usufruto de demônios (Ofícios Terrestres Edições, 2022), em que se mantém fiel ao gênero, depois de experiências bem-sucedidas em outras modalidades textuais.

A obra, composta por 64 narrativas curtas, a maioria com menos de uma página, todas escritas em letra minúscula, mas com uma linguagem sensível e poética, é uma das primeiras a ter como pano de fundo o trágico período da pandemia de coronavírus (covid-19) em que estão presentes “o horror, o negacionismo, o isolamento social e a perplexidade ante o cinismo fascista”, como observa o poeta, professor e crítico literário Gabriel Morais Medeiros, mestre em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no posfácio que escreveu para este livro.

Como já ressaltou o jornalista e escritor Hugo Almeida, nesta coletânea, “atravessa os contos um sopro de revolta, por vezes recheada de candura”, mas sem deixar de manifestar o inconformismo diante da indiferença e do deboche dirigido aos mortos pelas autoridades da época, especialmente o principal mandatário, que sempre ficou indiferente ao genocídio que ocorria com a proliferação da peste e a falta de vacinas e pronto-atendimento às vítimas, como se lê na narrativa que leva por título “ele acompanha aviões”:

“(...) é como se setecentas mil pessoas tivessem sido apagadas – e se fossem vinte boeing deletados de suas rotas, em um único dia?, cadentes, se tornassem quebra-cabeças em pastos?, será que assim eles se comoveriam?”

 

                                                                    II

O fantasma da pandemia, porém, não percorre todas narrativas, limitando-se às três primeiras. Nas demais, o que se pode observar é a desesperança da velhice, o desespero diante da possibilidade de se morrer diante de um moleque que na rua agita um revólver, exigindo do passante a entrega do dinheiro, do celular e do relógio, o drama do morador de rua que “garimpa algumas moedas no semáforo e logo as troca por pinga” ou ainda a decepção sentida por uma jovem autora diante da má vontade com que teria sido recebida sua obra por resenhistas desde o primeiro livro:

          “(...) eles são assim, leem a primeira página, lambiscam resenhas chinfrins e se vendem por essas trivialidades (...)”.

 Na maioria das narrativas, o que se observa é o recurso ao monólogo interior ou ao fluxo de consciência, como se o narrador desfiasse um novelo da memória ou tecesse os acontecimentos de forma extrospectiva, ainda que mergulhado na introspecção e sem perder a cadência da prosa poética.

Alguns contos são datados, ou seja, é possível localizá-los em 2014, época da realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, em que praticamente teve início a orquestração por meio das redes sociais dos protestos contra a presidente eleita que funcionaram como uma preparação para o golpe parlamentar de 2016 que redundaria na eleição de um candidato de orientação nazifascista.

Outros contos não deixam de funcionar como crítica à mentalidade fascista que parece insuflada por algumas empresas privadas preocupadas em manter a maioria da população à beira da miséria absoluta ou mesmo condenada ao desaparecimento, como no caso da política desencadeada contra remanescentes indígenas. Ou ainda contra a mentalidade nefasta de arquitetos que não se recusam a imaginar meios de produzir uma arquitetura hostil, que procura dificultar a vida dos moradores de rua.

Enfim, são contos perpassados por um sentimento de revolta que se justifica diante de um futuro que se projetava cada vez mais tenebroso. E ainda parece ameaçador.

 

                                                                   III

Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, Whisner Fraga é formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia. Em Engenharia Mecânica, fez também mestrado na mesma universidade e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Mas, atraído pelas Letras, curso que iniciou, mas não concluiu, ainda durante o mestrado, publicou o livro de contos Seres e sombras (edição de autor, 1997). Durante o doutoramento, publicou o seu segundo livro de contos, Coreografia dos danados (Edições Galo Branco, 2002), título inspirado em verso de Augusto dos Anjos (1884-1914). Concluiu o doutoramento em 2003 e, desde então, prestou concurso para a docência e vem lecionando para jovens e adultos. Ao mesmo tempo, atua como crítico literário em jornais impressos e sites dedicados à literatura. Também resenha obras de literatura contemporânea no canal Acontece nos Livros, no YouTube.

É autor ainda de A cidade devolvida, contos (Editora 7 Letras, 2005); As espirais de outubro, romance (Nankin, 2007), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Abismo poente, romance (Ficções Editora, 2009), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; O livro da carne, poemas (Editora 7 Letras, 2010); Sol entre noites, romance (Ficções Editora, 2011), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Lúcifer e outros subprodutos do medo, contos (Editora Penalux, 2015), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; A verdade é apenas uma versão dos fatos (Editora Penalux, 2017); e  O privilégio dos mortos, romance (Editora Patuá, 2019);

Participou de antologias como Os cem menores contos brasileiros do século (Editora Ateliê, 2018), organizada por Marcelino Freire; e Geração zero zero: fricções em rede (Editora Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, alemão e árabe e publicados em antologias. Adelto Gonçalves - Brasil

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Usufruto de demônios, de Whisner Fraga, com posfácio de Gabriel Morais Medeiros. Campinas-SP: Ofícios Terrestres Edições, 86 páginas, R$ 50,00, 2022. Site: www.oficiosterrestres.com.br  E-mail: oficiosterrestreseditora@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




quarta-feira, 17 de agosto de 2022

“Usufruto de demônios”, a lapidação da dor

Nos anos 1970/80, o escritor Ricardo Ramos (1929-1992) era considerado nos meios literários o maior conhecedor do conto brasileiro contemporâneo. Como sempre houve, hoje existem vários grandes leitores de contos de autores nacionais. Entre os primeiros está Whisner Fraga (Ituiutaba-MG, 1971; vive em São Paulo), também um grande contista, a exemplo do filho de Graciliano Ramos (1892-1953). Desde que criou o canal Acontece nos Livros, no YouTube, há seis anos, Whisner já comentou cerca de 200 obras de ficção, a maioria contos de escritores brasileiros, principalmente publicados por pequenas editoras. Whisner acaba de lançar o seu 12º livro, Usufruto de demônios (Ofícios Terrestres Edições), volume de minicontos, alguns editados em vídeos no YouTube. Em 2020, ele havia lançado O que devíamos ter feito (Patuá), contos originais, poéticos e por vezes cruéis. Na nova coletânea, prevalecem o tom e o tema da dor, como da pandemia da Covid-19, mas agora ainda mais incisivos, em narrativas lapidadas, concisas. Atravessa os contos um sopro de revolta, por vezes recheada de candura.

“É um livro que insiste, que continua a insistir no dizer do colapso, persiste em manter em evidência aquilo que ainda não passou: seja a devastação biológica, sejam suas consequências econômicas, subjetivas e sociais”, escreve no posfácio o editor Gabriel Morais Medeiros. Mas não se trata de uma literatura panfletária, acrescenta, “e por isso, sempre sedutora”. De fato, são contos de palavras medidas, enxutas, cortantes, como as dez linhas de “a quina do equilíbrio”, talvez o melhor conto do volume. Um texto afiado de dor e doação extrema de pai a filho, fatias de desespero e amor.

Do mesmo nível, “nossa terra” (o sorriso, o “temor” e o “arrebatamento” de uma criança diante dos primeiros mistérios da vida). Há várias outras histórias dolorosas em que narrador, personagens e leitor enfrentam de mãos dadas medo, dor, susto, ansiedade, pânico, tudo desfrutado por demônios. Esse clima prevalece em quase todos os 70 textos do volume, a maioria com menos de uma página, muitos com poucas linhas, esmeradas linhas. Alguns das dezenas de textos maiúsculos do livro (curioso: o autor não use letras maiúsculas), sempre com títulos instigantes: “cuidado com o embrulho na calçada”, “a dor”, “surpresa”, “rodoviária”, “embuste”, “eclosão”, “profilaxia de muros”, “germinação”, “a decomposição do aço”, “todo sinal”, “a menina que ri”, “duelo”, “a guerra nas unhas do abismo”, “onde estará o pai?”, “dois profissionais não se amam”, “ela está no quarto”. Etc. etc.

De certa forma, e ressalvada a diferença entre os gêneros poesia e conto, vale para as narrativas de Usufruto de demônios o que Mário de Andrade (1893-1945) escreveu sobre o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) no artigo “A raposa e o tostão”, de O empalhador de passarinho (Livraria Martins Editora, 2ª edição, 1955): “[...] um escritor culto, um esteta, que sabe o dinamismo de um ritmo, o segredo de adequação de uma forma ao seu conteúdo, o valor da expressão linguística exata, e o perigo de uma palavra em falso, capaz de sacrificar uma mensagem”. Whisner Fraga adota esse cuidado desde o título da coletânea.

O escritor detalha em vídeo no Acontece nos livros o sinuoso e consciente percurso da definição do título Usufruto de demônios. Didático, em linguagem simples, Whisner como que orienta novos autores e candidatos à carreira literária. Ao usar a preposição de, em vez de dos, ele parece ter preferido não destacar o sutil “segredo de adequação” citado por Mário de Andrade. O genérico “de” exclui o sentido digamos religioso de “demônios”, que nos contos não são os capetas do inferno além-túmulo ainda pregados por certas crenças, mas os transformam em símbolo, em metáfora de tudo e todos que infernizam a vida na Terra. Como esse novo volume de contos, de dor cristalizada, lapidada, Whisner Fraga segue em trajetória ascendente. Hugo Almeida - Brasil


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Whisner Fraga é autor, entre outros livros, dos romances As espirais de outubro (Nankin, 2007) e O privilégio dos mortos (Patuá, 2019), dos contos Abismo poente (Ficções, 2009), Lúcifer e outros subprodutos do medo (Penalux, 2017), O que devíamos ter feito (Patuá, 2020). Participa das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, (Ateliê Editorial, 2018), organização de Marcelino Freire, e Geração zero zero (Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira, que mapeou os melhores escritores brasileiros surgidos no início deste século. Whisner tem textos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Engenheiro mecânico com doutorado pela USP, é professor titular do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo.

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Hugo Almeida (1952), mineiro residente em São Paulo desde 1984, é autor de mais de dez livros de ficção, entre eles o romance Mil corações solitários, Prêmio Bienal Nestlé-1988, que teve três edições pela Scipione, o infantojuvenil Viagem à Lua de canoa (PNBE-2011), lançado pela Nankin em 2010, e os contos Certos casais (Laranja Original, 2021). Tem inédito o romance Vale das ameixas. Organizou as coletâneas de contos Nove, novena: variações (Olho d’Água, 2016) e Feliz aniversário, Clarice (Autêntica, 2020), selecionado pelo PNLD de 2021. Jornalista pela UFMG e doutor em Literatura Brasileira pela USP, Almeida organizou Osman Lins: o sopro na argila (Nankin, 2004), que reúne ensaios de dezoito osmanianos, como Modesto Carone e Sandra Nitrini.



 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Whisner Fraga: narrativas curtas e bem urdidas

                                                               I

Já conhecido nos meios literários mais refinados por seu estilo despojado e ousado, Whisner Fraga (1971) volta, em seu décimo-primeiro livro, às narrativas curtas, depois de experiências bem-sucedidas no gênero romance. O que devíamos ter feito (São Paulo, Editora Patuá, 2020) é essa obra constituída por 14 narrativas curtas, mas bem urdidas, todas com uma linguagem sensível e poética, em que uma personagem que não se identifica conversa, na maioria dos contos, com uma interlocutora chamada helena (assim mesmo sem maiúscula. Aliás, o autor, sem que se saiba a razão, decidiu proscrever a letra maiúscula de todos os textos deste seu livro).

O conto que mais chama a atenção do leitor é exatamente aquele que abre e dá título ao livro, “o que devíamos ter feito”, em que um pai de família se dirige à mulher para tentar recuperar o tempo perdido e pesar se, com a filha doente, a menina bia, os passos que tinham dado teriam ou não contribuído para o desaparecimento prematuro dela. É com ela que divide o seu fluxo crítico e de consciência, como bem observa o escritor Ronaldo Cagiano no prefácio que escreveu para esta obra, para quem este conto faz recordar versos famosos de Manuel Bandeira (1886-1968), exatamente o poema “Pneumotórax”, em que o poeta rememora “a vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Diz Cagiano: “O título do livro instiga-nos a um eterno questionamento sobre a transitoriedade e relatividade das coisas, um ponderar sobre o nosso (de)lugar num mundo coisificado, remetendo-nos ao antológico poema bandeiriano (...).

Baseado talvez na convivência mais próxima que teve com o autor, com quem já dividiu a autoria de Moenda de silêncios: encontros & desencontros na metrópole (São Paulo, Dobra Editorial, 2021), prêmio Programa de Ação Cultural (ProAC) do Governo do Estado de São Paulo, “novela de formação e escrita a quatro mãos”, o prefaciador explica que “o ambiente narrativo desencadeado por Whisner Fraga transmuta-se num caleidoscópio de sutilezas estilísticas, em que muitas vezes prescinde da linearidade ou da coerência das histórias (pois onde há caos não há estabilidade formal, mas ruptura (...)”.

Eis aqui uma amostra do estilo original do contista: “(...)e se voltássemos ao hospital, autorizados a encontrar bia, e exibíssemos a ela esse novo germe em ebulição dentro de você, helena?, essa nova vida efervescendo, interferindo nos meandros de seus órgãos, esse impulso que apresentaremos a bia como uma espécie de perdão?, sem nos apercebermos que a  morte é uma particularidade da existência, e ela sempre será mais forte do que nós mesmos”.

 

                                                             II

Em “promessa”, o terceiro conto, não há um interlocutor silencioso como helena, mas um narrador que descreve a luta de um pai para dar a seu filho a oportunidade de se tornar um grande jogador de futebol, daqueles que se dão bem na vida e acabam fazendo fortuna no exterior. Para isso, porém, o menino júlio precisa passar por várias provas, até deixar o tejuco, pequeno arraial que remete para o núcleo bandeirante que deu origem à hoje cidade de Diamantina, no interior de Minas Gerais. Uma delas é que não basta fazer uma jogada genial, dar um passe bem medido e correr praticamente sem parar os 90 minutos do jogo, mas atender também a muitos interesses que incluem até à tara sexual de um “olheiro”, que promete levá-lo para a Europa e a um destino similar ao de Messi ou de Cristiano Ronaldo.

Já no conto “você é mulher” quem narra é uma voz feminina que não esconde sua preferência por outras mulheres, embora seja bastante atraente diante dos olhos masculinos. E, volta e meia, é assediada por colegas de trabalho, especialmente durante uma viagem de negócios. Essa voz feminina é quem descreve um episódio que teria ocorrido, à noite, num restaurante, numa reunião em que colegas de um mesmo departamento se confraternizavam. E ela, irritada com o assédio, que algumas caipirinhas a mais estimulavam, conta como chegou aos ouvidos do assediador e espicaçou frases como: “você nunca vai me comer, eu não curto você, meu negócio é mulher, sacou? (...)”.

Por aqui, o leitor já pode perceber o que o espera na leitura deste livro: textos permeados de uma prosa poética que, embora escritos pouco antes da eclosão da pandemia de coronavírus (covid-19), instigam muitas reflexões acerca da vida insossa que levamos neste Brasil do começo do século XXI, em que somos sobreviventes de um desastre que se avizinha cada vez mais hediondo, marcado todos os dias pela notícia do desaparecimento de familiares ou de amigos ou conhecidos.

 

                                                             III

Nascido em Ituiutaba, Minas Gerais, Whisner Fraga é formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Uberlândia. Em Engenharia Mecânica, fez também mestrado na mesma universidade e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Mas, atraído pelas Letras, curso que iniciou, mas não concluiu, ainda durante o mestrado, publicou o livro de contos Seres e sombras (edição de autor, 1997). Durante o doutorado, publicou o seu segundo livro de contos, Coreografia dos danados (Edições Galo Branco, 2002), título inspirado em verso de Augusto dos Anjos (1884-1914). Concluiu o doutorado em 2003 e, desde então, prestou concurso para a docência e vem lecionando para jovens e adultos. Ao mesmo tempo, atua como crítico literário em jornais impressos e sites dedicados à literatura.

É autor também de A cidade devolvida, contos (Editora 7 Letras, 2005); As espirais de outubro, romance (Nankin, 2007), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Abismo poente, romance (Ficções Editora, 2009), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; O livro da carne, poemas (Editora 7 Letras, 2010); Sol entre noites, romance (Ficções Editora, 2011), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; Lúcifer e outros subprodutos do medo, contos (Editora Penalux, 2015), prêmio ProAC do Governo do Estado de São Paulo; A verdade é apenas uma versão dos fatos (Editora Penalux, 2017); e O privilégio dos mortos, romance (Editora Patuá, 2019).

Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século (Editora Ateliê, 2018), organizada por Marcelino Freire; e Geração zero zero: fricções em rede (Editora Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, alemão e árabe e publicados em antologias. Adelto Gonçalves - Brasil

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O que devíamos ter feito, de Whisner Fraga. São Paulo: Editora Patuá, 164 páginas, R$ 40,00, 2020. Site: www.editora.patua.com.br  E-mail: editorapatua@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br