Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 16 de março de 2019

Goa - Fado promove língua e cultura portuguesas

Entre diversas iniciativas, o fado assume popularidade em Goa na promoção da língua e cultura portuguesas

Num país onde alguns milhares ainda falam a língua portuguesa, o dedilhar das guitarras faz com que, para além de falar, também se cante. O legado de Amália Rodrigues faz-se ouvir nas noites tropicais de Goa, onde «a história do fado remonta há mais de um século e tem vindo a ganhar enorme popularidade» afirmou Delfim Correia da Silva, leitor do Camões - Instituto da Cooperação e Língua da Universidade de Goa (UG) em entrevista à agência Lusa.

Pela voz Sónia Shirsat, de 38 anos, «a principal intérprete de fado e uma das mais dinâmicas na sua promoção», de acordo com Delfim Silva, a canção património cultural e imaterial da humanidade continua a viver e a inspirar «jovens que podem a breve trecho seguir-lhe as pisadas», como é o exemplo de Nádia Rebelo, de 22 anos, mestre em Estudos Portugueses pela UG.

Em 2014, o concerto de Cuca Roseta no I Concurso de Fado na Kala Academy e no restaurante Alfama do Hotel Cidade de Goa, «revelou-se decisivo para impulsionar o projeto de revitalizar o fado», contou Delfim SIlva.

A inundar de música os poemas da saudade, Orlando de Noronha e Franz Schubert Cotta acompanham, respetivamente, Sónia e Nádia, a quem, entre outros, costumam juntar-se Allen de Abreu, Carlos Menezes, Reiniel Costa Martins e Shiddarth Cotta.

O representante do Camões explicou que «as artes performativas e o canto em particular permitem otimizar as estratégias de aperfeiçoamento das competências da compreensão oral e da interação e expressão oral, na aprendizagem do Português como língua estrangeira (PLE)». Delfim Silva é também o responsável pelo Concurso de Fado da Semana da Cultura Indo-Portuguesa apoiada pelo Camões, pelo Consulado Geral de Portugal e pela Fundação Oriente.

O fado português está hoje bastante integrado nos programas de Estudos Portugueses «como estratégia didática para desenvolver as competências linguísticas e comunicativas no contexto do ensino e aprendizagem do PLE» revelou Delfim, como é o caso do bacharelato em Artes dos colégios de Goa, que inclui a disciplina “Reading, Listening and Signing the Fado” (ler, ouvir e assinar o fado, em português).

O projeto "Fado de Goa", um dos principais patrocinadores do Concurso de Fado, tornou-se, em 2017, uma iniciativa decisiva «para manter e aumentar a popularidade» do fado na região. No âmbito deste projeto, concertos e outras ações de promoção do fado foram feitas, algumas delas sob orientação de Sónia Shirsat, artista de estatuto internacional que, quando cantou fado pela primeira vez, fê-lo «sem praticamente saber falar português» realçou Delfim Silva.

A Companhia de Teatro da Universidade de Goa foi premiada a dobrar no Midas Trophy 2018, no estado de Maharashtra, «em grande medida devido à magistral interpretação de trechos» dos imortais hinos “Chuva” de Mariza e “Fado Português” de Amália, cantados numa adaptação do “Auto da Índia” de Gil Vicente. In “Mundo Português” - Portugal


Ouça na ligação a voz de Sonia Shirsat:


sábado, 10 de março de 2018

Lusofonia – Vamos ouvir fado desde Goa

Galiza, Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Macau… No Grandes Vozes estamos sempre dispostos a ir além para conhecer culturas através do nosso maior elemento de união: a língua. Depois de três temporadas, no nosso programa 70 conseguimos finalmente pagar uma antiga dívida e chegar à Índia. Nesta semana esteve connosco a fadista Sonia Shirsat, uma artista de reconhecido prestígio que já levou aos palcos de meio mundo a cultura da cidade do Goa. A Sonia é uma das artistas que melhor representa o espírito do nosso programa; uma verdadeira ponte musical entre as culturas tradicionais indianas. Através da sua música no nosso idioma poderemos conhecer também a produção musical na língua original de Goa, o concani, e tradições nascidas do encontro entre povos.



Sonia Shirsat, muito boa tarde! É um grandíssimo prazer poder conversar consigo.

Obrigada, igualmente.

Vou-lhe apresentar o meu companheiro Edilson.
[Edilson]. Sonia, boa tarde.

Olá!

Já sabemos que aí é de noite. Diga-nos, que horas são aí exatamente?

Aqui faltam  10 minutos para meia-noite.

Agradecemos especialmente que tenha atendido o nosso telefonema hoje que está a trabalhar. Onde irá atuar esta noite?

Hoje atuei na capital de Goa, em Pangim.

A Sonia chegou ao mundo do fado de forma quase casual. Como foi a sua tomada de contacto com a música na nossa língua?

Em casa da minha mãe, a família falava português; a mamã e a avó gostavam muito do fado. A mamã cantava em casa e eu ouvia em casa e adorava, mas tentei cantar em português só com a idade de 23 anos.

Continua no mundo da docência ou a música ocupa totalmente toda a sua vida?

Principalmente agora é só a música. A maioria do meu trabalho é só fado, mas além do fado canto outras coisas. Deixei de ensinar no colégio, mas qualquer dia volto.

Para além de cantar em português, também canta em outras línguas. Quais são?

Já cantei em  14 línguas, mas falo só 6: inglês, português, francês, hindi, concani de Goa e marati, entre outras línguas da Índia.

O que apareceu antes na sua vida? O fado na nossa língua ou a música em concani.

É claro que foi a música em concani, porque é a língua da terra. Cantava em concani, em inglês e na língua nacional hindi também. Também já cantei em francês antes de cantar em português.

A Sonia recebeu em 2016 um prestigioso prémio: o Yuva Puraskar. Diga-nos, o que é esse prémio?

Esse foi um prémio nacional, dado pelo Estado. Yuva quer dizer “jovens”, portanto é a categoria correspondente aos cantores com menos de 40 anos. Concedem este prémio em várias categorias: dança, teatro, música tradicional e folclore… Eu ganhei o prémio nesta categoria, dado que o fado é música tradicional e música folque. Para mim foi muito importante o facto de ter recebido um prémio nacional mesmo sem se tratar de uma língua nem um estilo espalhados pela Índia inteira, pois cantamos fados e falamos português em Goa, que é um estado pequenino do país.

Além deste prémio, também ganhou outro à melhor cantora pela Academia de Tiatr de Goa. Explique-nos o que é o Tiatr.

Tiatr é teatro. Nós em Goa temos um teatro em língua concani, que faz parte da cultura portuguesa. É muito parecido com o teatro de revista, um teatro que a gente escreve que trata de temas correntes, de coisas que estão a acontecer na política do mundo inteiro. Este teatro inclui cantigas no meio e nestes intervalos é que eu cantei e na Academia de Teatro de Goa deram-me o prémio na categoria “Melhor cantora”. Ganhei este prémio dois ou três anos já.

A sua primeira participação num disco na nossa língua foi o álbum Lisgoa de António Chaínho. Como foi trabalhar com o mestre português?

Foi um prazer, o mestre António Chaínho é uma joia. Conheci o mestre cá em Goa quando veio ensinar a tocar a guitarra portuguesa. Naquela altura eu não falava português, foi no ano 2004 ou 2005. Cantei um fado, gostou muito e desde então trabalhei muito com ele em Lisboa e cá em Goa. Quando o mestre pensou em fazer este projeto, Lisgoa, junção de Lisboa e de Goa, pediu-me para cantar umas coisas e foi um grande prazer.

Em 2010 publicou o primeiro álbum a solo, Saudades de Fado. Como foi o acolhimento?

Saudados de Fado foi um álbum que gravei em Lisboa, com guitarristas de lá. Foi o primeiro álbum do estado lançado em Goa e logo foi esgotado. A editora já vendeu tudo e acabou, tínhamos de fazer mais CDs para a venda. Em Goa as pessoas que falam português gostam de comprar, de dar como presente de Natal, e foi muito bem sucedido,

A Sonia já quase atuou em todo o mundo: Portugal, Luxemburgo, França, Kuwait, Reino Unido… Quando é que a vamos poder ver de novo em Europa?

Para este ano ainda não tenho nada marcado em Europa, são mais concertos na Índia. Espero que possa voltar a Lisboa, à Alfama e a outros países da Europa para cantar o fado. Ainda não marquei nada.

Como foi o concerto desta noite?

Foi ótimo. Foi um grupo de pessoas de Nova Delhi, da capital da Índia, que queria conhecer o fado. São pessoas que não têm ligação com Goa nem com o mundo português de cá, mas já viajaram e conheceram Lisboa. Gostaram do fado e gostaram do facto de nós termos fado cá em Goa.

Para além do fado, que outros tipos de músicas tocou?

Hoje foi só fado.

Qual foi o repertório?

Foi uma mistura de fados antigos, fados da Amália, e de fadistas novas, como Raquel Tavares, Katia Guerreiro, Carminho… Além disso também cantei dois fados originais meus que amigos de Lisboa escreveram para mim.

Cantaste numa língua ou em várias?

Tudo em português.

A todas as pessoas que passam pelo nosso programa, pedimos sugestões musicais na nossa língua. Quais são as suas preferências?

Para mim é sempre fado.

Sonia, foi um verdadeiro prazer poder conversar consigo. Muito obrigado, muita sorte. Deixamo-la com a sua música.

Obrigada, foi um grande prazer!

In "Grandes Vozes" - Galiza