Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 30 de julho de 2026

Brasil - Golpe, invasão e roubo de nossas terras raras

Infelizmente não tenho bola de cristal e não posso prever o futuro, mas, com base em certas evidências, podemos imaginar certos riscos próximos à democracia e à soberania brasileiras. A existência desses riscos decorre da tolerância mantida com relação a certos políticos dispostos a traírem o país em favor dos Estados Unidos e aceitarem desempenhar funções de lacaios, em troca de terem apoio para instaurar uma ditadura familiar, uma dinastia, e assim desfrutarem do poder.

Ainda recentemente, o candidato Flávio Bolsonaro confirmou sua vocação golpista ao afirmar que libertará imediatamente seu pai, preso por tentativa de golpe, e reagirá contra o STF se seus ministros quiserem impedir essa libertação em nome de inconstitucionalidade.

Faz alguns dias, afirmou com seu sorriso cínico, que seu pai subirá com ele a rampa do Planalto na posse como presidente.

Diante dessa declaração, o jornalista e crítico político Reinaldo Azevedo disse, no canal Metrópoles, querer ter mais detalhes. Como seu pai poderá subir a rampa sem ter sido libertado e como Flávio poderá libertar seu pai antes de ser empossado? Ora, só depois de eleito Flávio poderia decretar o indulto e, mesmo assim, teria de esperar a reação do STF! Ou Flávio estaria programando um golpe logo depois das eleições, ou mais precisamente, logo depois de sua derrota nas eleições?

E outra: num encontro para o qual foram convidados embaixadores e representantes de diversos países, Flávio Bolsonaro veio com a velha história de urnas não seguras, defendida pelo pai e que lhe custou a inelegibilidade: a de que a Smartmatic, empresa venezuelana fabricante das urnas eletrônicas, não garante invulnerabilidade. Por que teria repetido o mesmo argumento já desmentido? Sua expectativa é a de que o Tribunal Superior Eleitoral, agora dirigido pelo ministro Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, aceite a história das urnas não seguras e crie um caos logo após a apuração, na hipótese mais provável de ser derrotado?

São três narrativas golpistas ou mesmo três projetos golpistas fadados ao fracasso, piores e menos consistentes que o plano golpista paterno. Mas aqui poderia entrar um apoio inexistente na derrota de Jair Bolsonaro: em lugar de apelar às Forças Armadas como costuma ocorrer nos países sul-americanos, Flávio e seu irmão Eduardo, mais o foragido neto de ditador, Paulo Figueiredo estariam negociando uma intervenção norte-americana no Brasil, a pretexto a priori de ter havido eleições fraudulentas, tema preferido do presidente Donald Trump. Um golpe rápido capaz de impedir reações e evitar uma guerra civil, perto do modelo aplicado na Venezuela. Para isso contariam com o apoio dos Estados governados por bolsonaristas e suas estruturas policiais e militares. O apoio de São Paulo e Estados sulistas seria decisivo, junto com o apoio religioso evangélico.

Si non è vero è bene trovato, como diria o filósofo Giordano Bruno, queimado pela Inquisição em 1600.

Descrevemos o quadro e os riscos, mas ficaria a pergunta: por que os EUA endossariam a intervenção e apoiariam o golpe?

Razões existem e seria bom ficarmos alertas. A imprensa francesa deu eco aos temores brasileiros do uso da força militar e a Agência France Presse e o jornal Le Figaro não deixaram por menos: "O Brasil se inquieta quanto ao risco dos EUA recorrerem à força militar no seu território, depois que Washington classificou como organizações terroristas dois grupos criminosos brasileiros". Na verdade, essa classificação é pretexto para justificar qualquer intervenção norte-americana no Brasil, mesmo porque, diz o jornal, "a oposição de direita saudou a decisão de Washington".

E por que tanto interesse pelo Brasil?

Antes já havia muitos países de olho nas riquezas da Amazônia. Agora, isso continua, mas reforçado com a cupidez pelas chamadas terras raras. E o jornal suíço Le Temps sintetiza bem essa ganância no título de primeira página - "O Brasil no centro de uma guerra fria econômica entre a China e os Estados Unidos por suas terras raras".

O texto trata do controle da sociedade mineira e de minerais Terra Brasil Minerals pelos EUA e Emirados Árabes com a participação da Inglaterra, Canadá, Austrália e União Europeia para a exploração de terras raras no Brasil, com o objetivo de concorrer com a China, detentora das maiores jazidas dessas terras.

O Brasil possui grandes jazidas mas é um simples exportador dessa matéria-prima, como ocorre com o ferro e a soja. O Brasil sabe extrair mas não tem o controle do processo que permite transformar a rocha em tecnologia e a tecnologia em soberania, comenta o jornal. E dá um exemplo, o lítio bruto exportado por 800 dólares a tonelada é importado, já transformado em hidróxido de lítio, por 8000 dólares.

O Brasil quer ter sua soberania nesse setor, mas a ganância norte-americana por essas terras pode criar mudanças políticas e fazer o Brasil continuar como simples exportador. Isso é o que tramam os chamados patriotas, na verdade traidores da pátria políticos e entreguistas de nossas riquezas. É o limiar de uma luta pela soberania e controle das terras raras como foi a luta da Petrobras pelo petróleo e que os patriotas também querem privatizar. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Brasil - Soberania nacional é para ser respeitada

Um grupo de nove governadores se reuniu na casa do governador do Distrito federal, Ibaneis Rocha, para discutir o tarifaço, sem se referirem às ações desenvolvidas junto ao governo Trump pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro e sem se reportarem às ameaças, chantagem e ingerência na soberania brasileira feitas pelo presidente Trump com o objetivo de forçar o Supremo Tribunal Federal a anular o processo por golpismo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e lhe conceder uma ampla anistia para poder disputar as eleições presidenciais no próximo ano.

Ignorando o aspecto político do tarifaço aplicado ao Brasil, os governadores, representados junto à imprensa pelo governador Tarcísio de Freitas, se limitaram a criticar o presidente Lula por não ter ido a Washington negociar com Trump, como se não soubessem das tratativas feitas pelo vice-presidente Alkmin. Essa argumentação também utilizada numa entrevista pelo governador mineiro Romeu Zema, foi considerada como discurso de palanque com objetivo eleitoral pelo comentarista da Jovem Pan, Cristiano Vilela, pois a presidenta suíça voou para Washington, depois da Suíça ter sido taxada em 39%, mas nada conseguiu e sequer foi recebida pelo presidente Trump.

No caso do Brasil, a situação se complica, pois as ameaças de Trump repercutidas pela própria embaixada dos EUA em Brasília, e a ingerência ditando o que deve fazer o Judiciário brasileiro, consideradas pelo presidente Lula como atentatórias à soberania nacional, impedem uma negociação direta. Muitos comentários na imprensa, como as falas de Reinaldo Azevedo no Uol são pela defesa da soberania brasileira e contra uma interferência norte-americana no Judiciário brsileiro.

Diante dessa diferença de comportamento de cerca de uma dezena de governadores, entre eles três declaradamente pré-candidatos à presidência, Tarcísio, Zema e Caiado, não vendo nenhuma ameaça à soberania brasileira nas exigências de Trump, é normal nos lembrarmos do ocorrido no passado, na Europa. Mesmo depois da invasão da França pelas tropas nazistas alemãs, havia políticos complacentes com Hitler, a ponto de constituírem um governo colaboracionista, comandado pelo marechal Philippe Pétain e Pierre Laval, o chamado regime de Vichy, de 1940 a 1944.

Esse regime de sujeição aos invasores alemães transformou em leis francesas as exigências de Hitler, foi o caso da perseguição e caça aos judeus enviados aos campos de concentração e extermínio nazistas, num plano antissemita de genocídio. O lema Deutsche Uber Alles nazista não é muito diferente do Brasil Acima de Tudo, da extrema-direita evangélicobolsonarista, e do Make America Greater Again. 

Trump não é Hitler, mas é evidente estar assumindo atitudes despóticas, mesmo dentro dos EUA, interferindo no funcionamento da Justiça e Universidades, passando por cima dos direitos humanos no tratamento e na expulsão dos imigrantes, convocando um reforço da Guarda Nacional em Washington como quem se prepara para aumentar seu poder discricionário e impedir resistências.

Não se falava, na época, em Hitler ungido por Deus, mas uma grande parte da igreja luterana alemã apoiava Hitler e - ao contrário da teologia do domínio criada nos EUA pelos pentecostais, baseada no Deus guerreiro do Velho Testamento - a extrema-direita religiosa hitlerista queria se desfazer da herança judaica do cristianismo por um Jesus ariano. A igreja luterana anti-Hitler teve dois mártires, executados pelo governo nazista: Martin Niemoller e Dietrich Bonhoeffer

Por que essa lembrança do regime colaboracionista de Vichy com os invasores nazistas dirigido de 1940 a 1944 pelo marechal Pétain? Porque numa entrevista ao Uol, e apesar da insistência de três entrevistadores, o governador Ronaldo Caiado minimizou, ignorou, descartou com uma certa hipocrisia a evidência de que o tarifaço de Trump contra o Brasil é político.

O governdor Caiado não mostrou nenhuma repulsa ou reação aos ataques do presidente Trump à soberania brasileira e à intromissão do presidente norte-americano no funcionamento do Judiciário brasileiro, mas criticou a reação nacionalista do presidente Lula, como se ao Brasil caberia se sujeitar e cumprir as exigências norte-americanas de Trump. Lula deveria ter ido a Washington negociar com Trump até onde vai a soberania brasileira e até onde podem legislar os ministros do Supremo Tribunal Federal?

Caiado, assim como Zema e Tarcísio aceitam como normal para o Brasil um tratamento de colônia ou de país sujeito às leis e pressões autocráticas de um autoritário presidente estrangeiro, desvinculadas dos organismos internacionais de regulação do comércio exterior e taxas aduaneiras? Caso afirmativo, esses três líderes presidenciáveis estariam abrindo mão da soberania e independência brasileiras, em favor de uma relação de sujeição e colaboração com os EUA, inspirada no regime petainista da França ocupada de Vichy.

Alguma coisa estranha nas últimas críticas do governo Trump ao Brasil, focadas no desrespeito aos direitos humanos e violências policiais. Não passaram despercebidas as denúncias às violências cometidas pela polícia de Guilherme Derrite, secretário de confiança do governador Tarcísio de Freitas, já citadas aqui no Observatório da Imprensa.

Como os articuladores e fornecedores de informações ao ministro Marco Rúbio e presidente Trump nos EUA contra o governo e Judiciário brasileiros são o neto do ditador João Figueiredo, Paulo Figueiredo, e o filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, auto-candidato à sucessão de Lula e preferido pelo pai, fica a suspeita de que tais denúncias são destinadas a inviabilizar junto a Trump uma candidatura, nas próximas eleições, do nome de Tarcísio de Freitas. Uma espécie de golpe entre amigos. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Depois da União Europeia e Suíça, tarifaço chega ao Brasil

Quem viu a presidente da Suíça confessar a impotência da Suíça, "um país pequeno" disse ela, para fazer frente ao presidente Trump, imaginou que dias difíceis viverá o Brasil, mesmo sendo um país muito maior! Mas não poderia imaginar a ousadia de Trump em desfechar uma tentativa de atentado à soberania brasileira, utilizando da pressão econômica e política contra o STF e contra o governo brasileiro.

Ainda há alguns dias, Trump reafirmava indiretamente estar decidido a punir o Brasil ao mostrar, numa entrevista, sua preocupação por Bolsonaro, definindo-o como um homem de bem injustiçado, que não deveria ser processado.

Os temores se confirmaram com a decisão do presidente Trump de utilizar o tarifaço como instrumento político e de chantagem contra o Brasil, mais especificamente contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, enquadrando-o na lei Magnitsky.

No domingo, numa propriedade de Trump na Escócia, era a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, praticamente obrigada a apertar a mão de Trump, que "comemorava" a celebração de um acordo comercial de exportação e importação com os Estados Unidos, considerado uma derrota pela maioria da imprensa e políticos europeus, um acordo qualificado de capitulação, humilhação e submissão pela correspondente do jornal suíço Le Temps.

O tarifaço imposto por Trump à Suíça é de 31%, as negociações prosseguem nos EUA, mas como diz a presidenta Karin Keller-Sutter, às vésperas da Festa Nacional suíça, "nós não somos uma superpotência. Temos uma certa força econômica mas não política, temos de levar isso em conta. Agora está nas mãos dos Estados Unidos, nas mãos do presidente Donald Trump".

Com esse tipo de capitulação declarada, a Suíça dá a impressão de não estar negociando com Trump mas esperando um favor.

Porém, antes dessa declaração ser tomada como submissão e aceitação de uma derrota, a presidenta suíça acrescenta, numa tentativa de salvar as aparências: "mas não devemos nos fazer mais pequenos do que somos".

Difícil de reagir diante de um Trump prepotente, cheio de si, capaz mesmo de dar um ultimato a Putin para acabar com a guerra à Ucrânia, valendo-se de sua maioria absoluta na Câmara, Senado e na Suprema Corte, agindo com a arrogância de um ditador ou imperador absolutista.

A orgulhosa alemã Ursula von der Leyen, representando os 27 países da União Europeia, foi obrigada a ir à Escócia para negociar com Trump, no intervalo de suas partidas de golfe, e obter a diminuição das tarifas aduaneiras de 30% a 15% para os produtos europeus exportados para os EUA, enquanto os produtos norte americanos entrarão livremente na Europa.

Uma verdadeira capitulação contra a qual os europeus não vão usar o instrumento anti-coerção, a prometida "bazuca europeia" contra a pressão de Trump. A União Europeia terá de comprar petróleo, seus derivados, armamentos e investir nos EUA uma parte de sua economia, sem contrapartida dos norte-americanos.  Até agora, só a China foi capaz de peitar o super-presidente Trump.

Um ex-presidente do Banco Mundial, Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, elogiou a atual resistência do presidente Lula ao tarifaço de Trump e esperava reação semelhante, que não houve, de outros líderes mundiais. Tão logo foi conhecida a decisão de Trump de manter o tarifaço contra o Brasil, acompanhado do vergonhoso enquadramento do ministro Alexandre de Moraes na lei Magnitsky, o presidente Lula, falando em nome de todos os brasileiros, repudiou o ataque de Trump à nossa independência e à soberania brasileira.

O economista Stiglitz também se referiu ao ataque dos seguidores de Bolsonaro aos prédios dos Três Poderes, em Brasília, já presos e punidos severamente, e ao ataque do Capitólio pelos seguidores de Trump, já anistiados, afirmando serem mais firmes as instituições brasileiras.

Outro Prêmio Nobel de Economia, em 2008, Paul Krugman, defendeu a decretação de um impeachment de Trump depois de ter taxado em 50% as exportações brasileiras.

E aqui, diferente das taxas aduaneiras para a Suíça e União Europeia, entra outro fator. O tarifaço contra o Brasil não é só uma regulamentação econômica aduaneira, mas tem um objetivo político: punir o Brasil e utilizar o tarifaço como chantagem contra os ministros do STF, para proteger o ex-presidente Bolsonaro, prestes a ser condenado à prisão por tentativa de golpe, para implantar uma ditadura no Brasil.

Os dois prêmios Nobel de Economia não falaram, mas Trump parece agora também interessado em utilizar o tarifaço para fazer também chantagem ao Brasil, a fim de permitir aos EUA a exploração dos minerais estratégicos brasileiros.

Mostrando ser um especialista em chantagens, Trump parece oferecer ao Brasil, com a entrega da exploração dos minerais estratégicos aos EUA, uma variante à anulação do processo de Bolsonaro e decretação de anistia geral aos golpistas. Essa variante eliminaria o atual despertamento do nacionalismo em defesa das instituições brasileiras, contra a ameaça de pressão e intervenção norte-americanas no Executivo e Judiciário.

Uma reação visível no distanciamento de uma parte da direita à armadilha montada, nos EUA, pelo deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro com apoio de Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo, para salvar Jair Bolsonaro ao preço de uma crise econômica no Brasil. A trama de Eduardo Bolsonaro, pela qual tem sido qualificado como entreguista e traidor da pátria, tem provocado crescimento de Lula nas sondagens, divergência entre os líderes do agronegócio e queda dos prováveis candidatos bolsonaristas à presidência Tarcísio, Zema e Caiado. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Timor-Leste - O preço do isolamento

Vinte anos depois do referendo da independência, Timor-Leste tem praticamente concluída a definição da soberania terrestre e marítima. As negociações com a Austrália terminaram com fronteiras permanentes e as com a Indonésia, sobre terra e mar, estão a avançar. O país está no entanto cada vez mais isolado por depender de monopólios em áreas como as telecomunicações e a aviação



Timor-Leste continua a depender de soluções muito mais caras do que qualquer país vizinho. O país depende de monopólios que nem sequer controla e permanece condicionado a vontades externas, incluindo, de empresas estatais de outros territórios.

Sucessivos Governos timorenses foram-se acomodando a uma realidade de menor qualidade e preços mais caros, sem autonomia nacional nas ligações internacionais nem aéreas, nem por cabo de fibra.

A postura governativa deixou o país a pagar preços astronómicos pela internet. Os operadores pagam 200 dólares norte-americanos por megabit por segundo, quando os países vizinhos pagam entre três a oito dólares. No que diz respeito às viagens aéreas, os preços chegam a ser 10 vezes mais caros. A situação tem-se vindo a agravar e permanece, apesar de anos de debates e de sucessivos projetos.

Na área das telecomunicações, por exemplo, os operadores gastam 12 milhões de dólares por ano a comprar internet por satélite - a preços elevadíssimos - porque o Governo não tomou ainda uma decisão sobre uma ligação internacional por cabo de fibra ótica.

Um recente estudo, o "Speed Matters", sobre o setor em Timor-Leste, referia que a ligação de fibra ótica poderia ter benefícios anuais superiores a cerca de 45 milhões de dólares.

Estimativas da International Telecommunications Union (ITU) indicam que a velocidade média da internet em Timor-Leste é 25 vezes mais lenta do que a de outros países da Ásia e Pacífico.

O estudo mostra que só 12 por cento das ligações por telemóvel em Timor-Leste incluem acesso 3G - apesar da rede abranger já 97 por cento da população, que ilustra a potencial "elevada procura" com o progressivo uso crescente de internet móvel.

Só 25 por cento dos timorenses usa a internet regularmente, bastante aquém da média mundial que ultrapassa os 46 por cento e da média da Ásia e Pacífico que é de 41,5 por cento.

Estudos do setor mostram que o problema poderia ser resolvido, em poucos meses, com uma das várias opções de ligação por cabo, com custos reduzidos.

Isolamento aéreo

No caso das ligações aéreas o problema é idêntico com tendência para se agravar.

O país vai ficar mais isolado, com o fim dos voos entre Díli e Singapura, uma das únicas três ligações internacionais que o país tem. As outras duas, para Bali na Indonésia, e para Darwin, na Austrália, são das mais caras do mundo, em preço por quilómetro.

A ligação a Singapura caiu por indecisões e polémicas em torno da licença da Air Timor. Os problemas tiveram origem no Serviço de Verificação Empresarial (SERVE) que queria que a empresa a quem a Air Timor fazia o charter do avião, a SilkAir, tivesse registada em Díli.

O fecho de operações afeta não só o transporte de passageiros, mas também o de carga. Produtos farmacêuticos, peças para automóveis e aviação, e carga geral são normalmente transportados nos voos de Singapura para a capital timorense.

Várias empresas, incluindo a Heineken - a única fábrica internacional do país - já escreveram ao Governo a pedir uma intervenção que evite que a rota cesse de operar, o que não vai ocorrer, pelo menos para já.

A situação reforçou a insistência para que haja uma companhia aérea de bandeira no país.

Pedro Miguel Carrascalão, especialista do setor aéreo e um dos responsáveis de um novo projeto apresentado ao Governo para a criação de uma companhia de bandeira timorense, defende que a opção de uma empresa 100 por cento pública é a melhor para o país.

"Podemos resolver os problemas de preços, baixando o custo das viagens para a Indonésia e Austrália, e ganhamos mais autonomia", defendeu, numa referência aos custos, que considerou "desproporcionadamente elevados", mantidos pelas companhias aéreas da Indonésia e da Austrália.

Uma empresa "100 por cento do Estado" é a melhor opção porque teria mais força do que uma empresa privada para competir na Indonésia, o principal mercado, com as empresas da transportadora estatal Garuda que voam para Díli.

A aposta daria opções de rotas a horários diferentes dos atuais, ligações a centros regionais, viagens de ida e volta e até voos com outras empresas em "code sharing".

Na proposta apresentada ao Governo, a estratégia poderá custar até 45 milhões de dólares norte-americanos ao Estado. Já as receitas, salientou, podem "chegar aos 80 milhões" de dólares com um amplo impacto na economia timorense. Pedro Miguel Carrascalão acrescentou que a solução pode ser uma forma direta de combater os preços abusivos dos monopólios australiano e indonésio.

Com um monopólio, desde 1999, na ligação a Darwin, a AirNorth, da gigante australiana Qantas, continua a manter preços por quilómetro especialmente elevados.

Em abril, o preço indicativo de uma viagem de ida e volta Díli-Darwim (722 quilómetros para cada percurso) é superior a 600 dólares norte-americanos. No mesmo período, um voo de ida e volta entre Darwin e Singapura (3.350 quilómetros para cada percurso) custa perto de metade. O preço de um bilhete entre Díli e Darwin - 722 quilómetros - custa praticamente o triplo do que custa, por exemplo, viajar mais do dobro da distância entre Macau e Banquecoque.

A ligação com a Indonésia depende igualmente de um monopólio, neste caso, do grupo Garuda com as marcas Citilink e Sriwijaya. Nos últimos seis meses, os preços dos voos das transportadoras mais do que triplicaram, forçando muitos em Timor-Leste a procurar alternativas mais baratas para sair do país.

Uma viagem ida e volta entre Díli e Denpassar, capital de Bali, Indonésia, (1.140 quilómetros cada percurso) custa mais de 590 dólares, enquanto um voo entre Kupang, capital de Timor Ocidental, e Surabaya, segunda maior cidade indonésia (1.236 quilómetros cada percurso) custa apenas 150. Isto significa que o preço por quilómetro e por lugar Díli-Bali é de 26 cêntimos, 20 cêntimos mais que os seis cêntimos entre Kupang-Surabaya. António Sampaio - Macau In “Plataforma”

terça-feira, 3 de abril de 2018

Brasil: a questão democrática e a soberania

Seminário

Brasil: a questão democrática e a soberania

Adão Villaverde (Professor na Escola Politécnica da PUCRS)

4 de abril de 2018, 19h00

Casa do Alentejo (Lisboa)

Discute-se a conjuntura brasileira atual, comparando as ameaças à democracia com o cenário que levou ao golpe no ano de 1964 e descortinou uma ditadura no país por mais de 25 anos. Na sua exposição, baseada em livro publicado recentemente, o autor aborda vários temas desde o ajuste fiscal e o Estado mínimo, ao neoliberalismo e à ameaça aos direitos sociais, principalmente aos trabalhistas. Em geral, trata-se de contrariar o argumento dos adversários da democracia de que um mundo sem política e sem políticas seria melhor.

Nota biográfica

Adão Roberto Rodrigues Villaverde é Professor na Escola Politécnica da PUCRS, foi Secretário de Estado do Rio Grande do Sul-Brasil, nas áreas de Ciência, Tecnologia e Inovação e Coordenação e Planeamento, na administração do Governador Olívio Dutra.

Foi também Presidente do Fórum Nacional de Ciência e Tecnologia do Brasil e da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul.

Deputado estadual do Partido dos Trabalhadores, é o autor da designada "Lei Villaverde" que estabelece o controle sobre o enriquecimento ilícito do gestor público e da "Lei Kiss" de segurança e prevenção contra incêndios, depois da tragédia que vitimou 242 jovens numa boate na cidade de Santa Maria. Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra