Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 3 de junho de 2024

A visita de Mário de Andrade a Alphonsus Guimaraens

Mariana (1745) foi a primeira vila de Minas Gerais, a Cidade Primaz, um marco histórico nesses campos de ouro e minérios, de picos altos, fria e úmida, no meio da Mata Atlântica. Conserva a arquitetura barroca colonial, em igrejas encantadoras com altares de madeira torneada, lustres de cristal e notas musicais vindas de um antigo órgão alemão.


Foi para Minas Gerais que a caravana modernista, organizada pelo escritor e folclorista Mário de Andrade (1893-1945), se dirigiu em 1924. Integravam a caravana Oswald de Andrade, Godofredo da Silva Telles, René Thiollier, Tarsila do Amaral, Olívia Guedes Penteado e o poeta de origem suíça em visita ao Brasil, Blaise Cendrars. Encontraram no século XVIII mineiro, na área das artes visuais, o “lastro cultural de uma identidade nacional”. Mário havia publicado um longo ensaio no Jornal do Brasil sobre a arte religiosa em Ouro Preto, Mariana, Congonhas do Campo e São João del-Rei. Escreveu também sobre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e suas magníficas esculturas. A partir daí, propõe a proteção do patrimônio cultural brasileiro, através do serviço histórico e artístico nacional, que se tornou realidade no dia 30 de novembro de 1937, em ato do presidente Getúlio Vargas. Mário via nas cidades mineiras uma “sociedade de pensamento que fala em independência e república”, já com a participação de mulatos e artesãos.

Mário anteriormente fora para Mariana, com o intuito de visitar o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, conhecido como “o solitário de Mariana”. Alphonsus nascera em Ouro Preto, foi apaixonado por sua prima Constança, desde muito cedo escrevendo versos para ela. Constança morreu prematuramente de tuberculose e essa tragédia pessoal, amor e morte, está presente em toda a sua obra poética. Quem não se lembra de “Ismália”?

Quando Ismália enlouqueceu,

Pôs-se na torre a sonhar...

Viu uma lua no céu,

Viu outra lua no mar.

 

No sonho em que se perdeu,

Banhou-se toda em luar...

Queria subir ao céu,

Queria descer ao mar...

 

E, no desvario seu,

Na torre pôs-se a cantar...

Estava perto do céu,

Estava longe do mar...

 

E como um anjo pendeu

As asas para voar...

Queria a lua do céu,

Queria a lua do mar...

 

As asas que Deus lhe deu

Ruflaram de par em par...

Sua alma subiu ao céu,

Seu corpo desceu ao mar...

 

Alphonsus formou-se em Direito em 1895. Já juiz e casado com Zenaide, mudou-se para Mariana vivendo em isolamento completo, morrendo nessa cidade em 1921, com cinquenta anos. Compunha loucamente poemas de forte misticismo, numa atmosfera branca de sonhos e melancolia.

Mário de Andrade, jovem de vinte e seis anos, dedicado à promoção cultural nacional, pesquisador incansável de ritmos novos para a poesia, bem como de uma linguagem genuinamente brasileira, no léxico e na sintaxe, sentia-se impactado pelos poemas que atravessaram cachoeiras e vales até o Rio de Janeiro e São Paulo.

Como teria sido essa visita? Esse inusitado encontro entre Mário de Andrade e Alphonsus de Guimaraens? O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) imaginou esse encontro e registrou-o num magnífico poema narrativo, um denso diálogo entre duas gerações de poesia, onde o poeta modernista reverencia o simbolista. Uma soberba homenagem à herança deixada pelos simbolistas. O poema “A visita” de Drummond começa assim:

“1919. 10 de julho.

Palmas. A porta aberta não responde.

Ô de casa! Mais palmas. A menina

Manda entrar. O corredor abre à esquerda,

Na tristeza de cinza do escritório baixo.

Dentro, o homenzinho,

50 anos por fazer, mas feitos secamente

No rosto grave: — O senhor deseja?

— Vim conhecer o Príncipe, vim saudar o Príncipe

Dos Poetas das Alterosas Montanhas.”

E aí tem início a respeitosa conversa, pois é bom conversar com aquele que contempla o deserto das cidades mortas. Dois obcecados pela vertigem do poema no cristal da linguagem. Mário veio de longe, de baldeados trens de ferro, da chuvosa São Paulo, para conhecer o estranho poeta encravado naquelas paragens sonolentas. Mário confessa que toca piano, que a música é uma forma de poesia, pede que Alphonsus lhe mostre alguns poemas guardados. Mário começa a ler em voz alta: “Tens um lis de ternura, que desliza à flor da pele em mágoa suavizante...” Mário delira diante do poeta que diz o indizível. Interpreta versos em francês, sua segunda língua. Tudo se transfigura em redor e dentro desses poetas gigantes, entre as montanhas de Minas. Tudo se dissolve e a luz os traspassa. Despedem-se. É dolorida a despedida, mas a visita foi completa. Alphonsus agradece, Mário retruca, pois é ele quem se rende e se alegra. Desaparece pela rua vazia, como uma ave desconjuntada e grande. A memória nunca se diluirá, embora não fique na folhinha de Mariana. Dois anos depois, a alma de Alphonsus de Guimaraens será uma cruz enterrada no céu.

Essas belezas todas estão no livro A Visita, uma edição particular, homenagem a Carlos Drummond de Andrade. Foram apenas 125 exemplares numerados e recebi esse presente valioso das mãos do bibliófilo José Mindlin (1914-2010), quando lhe fiz uma visita em São Paulo para conhecer sua famosa biblioteca.

Importante o que Dr. Mindlin me contou sobre o planejamento gráfico desse livro. Que chamou a fotógrafa Maureen Bisiliat (1931), inglesa naturalizada brasileira, que atuou na formação do acervo de arte popular da Fundação Memorial da América Latina, em São Paulo, para ilustrar o poema. Aí ela teve uma ideia: ilustrar com fotografias de pedras preciosas. As pedras das Minas Gerais: a opala da noite em estilhaços; o topázio cravado na terra; a ametista negra da solidão; as águas-marinhas, as turmalinas, blocos gelados de insuportável silêncio. Gemas coradas, diamantes, berilos azuis e amarelos. Ficou de uma lindeza pura e mineral.

 Por que só hoje relembrei dessas visitas? De quando Mário de Andrade visitou Alphonsus Guimaraens, de quando Drummond visitou as antigas lembranças dos poetas, de quando eu visitei o Dr, Mindlin, um homem raro? Não sei o motivo, mas foram visitas perfeitas, dessas que não se repetem. Raquel Naveira - Brasil in Blog de São João del-Rei

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Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei)

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Raquel Naveira, nascida em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, é professora universitária, escritora, ensaísta, poeta e crítica literária. Formada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco, na cidade de São Paulo, é mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, também de São Paulo, e doutora em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, da França. 

Deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa na Universidade Católica Dom Bosco. Residiu no Rio de Janeiro, onde deu aulas na Universidade Santa Úrsula, e em São Paulo, na Faculdade Anchieta. Deu também aulas de pós-graduação na Universidade Nove de Julho (Uninove) e na Universidade Anhembi-Morumbi, de São Paulo. Ministrou palestras e cursos em escolas e em várias instituições culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida e Casa Mário de Andrade, em São Paulo. Na Academia Paulista de Letras, participou do Ciclo de Memória da Literatura, discorrendo sobre o trabalho das romancistas Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989) e Stella Carr (1932-2008).

É autora de mais de trinta livros de poesia, ensaios e romances, entre eles: Abadia, poemas (Editora Imago,1996), e Casa de tecla, poemas (Editora Escrituras, 1999), indicados ao Prêmio Jabuti de Poesia, pela Câmara Brasileira do Livro. Escreveu ainda o livro infanto-juvenil Pele de jambo e o de ensaios Fiandeira. Além de Manacá, publicou outro livro de crônicas, Leque aberto, pela Editora Penalux.

Publicou também os romanceiros Guerra entre irmãos, poemas inspirados na Guerra do Paraguai (1864-1870), e Caraguatá, poemas inspirados na Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, a partir de luta entre posseiros e pequenos proprietários pela posse de um território, livro que se transformou no filme de curta-metragem Cobrindo o céu de sombra, monólogo com a atriz Christiane Tricerri, sob a direção de Célio Grandes. Lançou o CD Fiandeiras do Pantanal, em que declama seus poemas, acompanhada pela voz e a craviola da cantora Tetê Espíndola.

Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras, de São Paulo-SP, à Academia de Letras do Brasil, de Brasília, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil. Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado-MS, Jornal de Letras-RJ, Linguagem Viva-SP, Jornal da ANE-DF, e O Trem-MG, entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil


quinta-feira, 29 de junho de 2023

Brasil - Ministério Público de Minas recupera centenas de documentos históricos, em Brasília

Apurações demonstraram que um negociante de artes e antiguidades estaria na posse de diversos documentos, dentre eles, alvarás, decretos e regimentos referentes à exploração de ouro em Minas Gerais na segunda metade do século XVIII


Centenas de documentos históricos, caracterizados como bens culturais fora do comércio, de origem pública e valor permanente, que não podem ser livremente comercializados, foram recuperados na manhã desta quarta-feira, dia 28, durante a Operação Devolva-me. Os trabalhos foram coordenados pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), com o apoio do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e das Polícias Militares de MG e DF.

A investigação teve início a partir de informações recebidas pela Coordenadoria do Patrimônio Cultural (CPPC/MPMG), que conseguiu apurar que um negociante de artes e antiguidades de Brasília estaria na posse de diversos documentos, dentre eles, alvarás, decretos e regimentos referentes à exploração de ouro em Minas Gerais na segunda metade do século XVIII.

Segundo MPMG, as diligências realizadas no Procedimento Investigatório Criminal apontaram indícios de que alguns dos documentos poderiam ter sido ilicitamente subtraídos de arquivos e outras instituições localizadas em solo mineiro.

Na residência onde estava o material, a equipe do MPMG procedeu uma minuciosa triagem, catalogação e embalagem dos documentos antes de apreendê-los e transportá-los para a sede do MPMG. O material apreendido durante a operação será periciado e, comprovada a autenticidade e identificada a origem, serão oportunamente devolvidos aos arquivos e instituições dos quais não deveriam ter saído.

O número exato e a origem dos documentos ainda não foram oficialmente divulgados, pois as investigações estão em andamento. Em uma análise preliminar, verificou-se que diversos documentos podem ser oriundos do estado de Minas Gerais, sendo que alguns deles podem ter sido subtraídos do acervo do Arquivo Público Mineiro, sediado em Belo Horizonte.

Dentre o material apreendido também estão diversos documentos públicos referentes ao Período Pombalino (1750-1780), os quais ainda apresentam vestígios de cola e linhas de costura, indicando que podem ter sido arrancados de encadernações oficiais. Muitos desses documentos foram impressos em papel trapo, típico do período colonial, com marca d´água e com o padrão dos documentos da Oficina Régia Tipográfica.

Foram identificados alvarás, decretos, e regimentos impressos com ordens e regulamentações da coroa portuguesa e endereçados às autoridades da colônia, principalmente governadores das capitanias.

Para o promotor de Justiça Marcelo Azevedo Maffra, coordenador da CPPC, a apreensão é, certamente, uma das importantes de todos os tempos para o patrimônio arquivístico brasileiro, seja pela quantidade ou pela relevância do material apreendido. “São documentos de valor permanente e de elevado interesse social, que deveriam estar disponíveis em arquivos públicos para a livre consulta de quaisquer interessados. Pela legislação brasileira, os documentos apreendidos são de comércio proibido e não poderiam estar em poder do investigado”.

O promotor explica que o patrimônio arquivístico é formado por documentos que constituem acervo e fonte de comprovação de eventos históricos e estão sujeitos a um especial regime jurídico relativo a seu gozo e disponibilidade. A Lei nº 4.845/65A impõe um regime jurídico especial aos ofícios produzidos no país, até o fim do período monárquico, em clara demonstração da importância desses bens e necessidade de sua proteção.

Em reforço, a Lei nº 8.159/91, que dispõe sobre a política nacional de arquivos, determina que os documentos de valor permanente são inalienáveis e imprescritíveis, sujeitando os infratores à responsabilidade penal, civil e administrativa. Do ponto de vista penal, a conduta perpetrada pelo investigado pode caracterizar, em tese, os crimes de receptação qualificada e deterioração de bem cultural especialmente protegido. In “Mundo Lusíada” - Brasil




quinta-feira, 28 de julho de 2022

Brasil – Cidade de Diamantina, em Minas Gerais, sedia encontro de cidades históricas e patrimônio mundial


Promover o uso sustentável do patrimônio de localidades históricas de forma a fortalecer o turismo e gerar desenvolvimento, especialmente no pós-pandemia, é o objetivo do 9º Encontro Brasileiro das Cidades Históricas Turísticas e Patrimônio Mundial.

O encontro está marcado para o período de 11 a 13 de agosto na cidade de Diamantina, Minas Gerais, e conta com a participação do Ministério do Turismo.

Durante o evento, realizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) e a Organização das Cidades Brasileiras Patrimônio Mundial (OCBPM), serão abordados temas como políticas públicas de turismo e patrimônio, a preservação de municípios históricos, o financiamento e a captação de investimentos a estas regiões e mecanismos de incentivo ao patrimônio cultural.

O encontro também será palco de palestras nacionais e internacionais, incluindo gestores da própria Diamantina, de Pirenópolis (GO), de São Miguel das Missões (RS) e de Portugal. António Manuel Torres da Ponte, Diretor do Museu Nacional Soares dos Reis é o participante de Portugal.

O evento celebra os 50 anos da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural, adotada em 1972 pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Ciência, a Educação e a Cultura).

A programação engloba, ainda, a presença de representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), da Secretaria Especial da Cultura, da Embratur, do Sebrae Nacional e da Unesco, entre outros. Interessados em acompanhar as apresentações, de forma presencial ou on-line, devem se inscrever no sítio oficial do encontro.

A Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural busca incentivar a preservação de bens culturais e naturais considerados significativos para a humanidade. Trata-se de um esforço internacional de valorização de ativos que, por sua importância como referência e identidade das nações, possam ser considerados patrimônio de todos os povos.

Originária de um povoado surgido por volta de 1722, Diamantina guarda um rico casario colonial de inspiração barroca, além de igrejas seculares e de uma bela paisagem natural. Em 1938, o conjunto arquitetônico do Centro Histórico da cidade foi tombado pelo Iphan e, no ano de 1999, o município recebeu da Unesco o título de Patrimônio Mundial. In “Mundo Lusíada” - Brasil


 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Brasil – Arqueólogos encontram objetos de até 300 anos sob praça do município de Mariana

Moedas, louças e outros artefatos que datam desde o século 18 foram achados durante obras de compensação pelo rompimento da barragem de Fundão em 2015


O município de Mariana (MG) acabou conhecido pelo rompimento da barragem de Fundão em novembro de 2015, que resultou no pior desastre ambiental do Brasil. Seis anos após o ocorrido, a cidade virou palco de uma descoberta de artefatos do século 18 encontrados na praça Gomes Freire, uma das atrações turísticas da cidade.

Os achados ocorreram durante obras de requalificação executadas no terreno como forma de compensação pelo rompimento da barragem. A iniciativa faz parte dos compromissos firmados entre a Fundação Renova e a prefeitura local para aumentar o potencial turístico e socioeconômico da região.

Entre os itens descobertos estão louças, cravos de ferro, vidros de tinteiros e cachimbos de cerâmicas usados por escravos no século 18, no início da ocupação da cidade. Também foram encontradas moedas de vários períodos, provavelmente depositadas pela antiga população em um chafariz na intenção de fazer pedidos e realizá-los.

Além de evidências antigas, foram localizados itens mais recentes como fragmentos de garrafas de vidro e pingentes de metais — dois possíveis sinais do uso atual da praça. E as descobertas não pararam por aí: havia ainda bolinhas de gude e cabeças de bonecas de porcelana, que mostram a contínua ocupação do jardim como área de lazer das crianças.


Para Danielle Lima, especialista em arqueologia da Fundação Renova, os achados permitem contar um pouco mais sobre comportamentos, costumes, religiões e relações sociais e econômicas da população da região nos séculos passados.

“Esse foi um trabalho cuidadoso de pesquisa arqueológica, no qual conseguimos evidenciar e registrar com detalhes os fragmentos e todas as estruturas encontradas, evidenciando assim, a apropriação da comunidade no espaço ao longo do tempo”, diz a profissional, em comunicado.

Ângelo Lima, arqueólogo coordenador-geral das pesquisas, conta que mesmo antes da área sofrer intervenções para virar praça, a população já utilizava o espaço com intensidade, conforme comprovam os vestígios.

“Fragmentos de vasilhas de pedra sabão, louça e cerâmica, por exemplo, mostram que desde o século 18 as pessoas utilizavam a praça em momentos festivos para se alimentarem”, afirma Ângelo Lima, que cita ainda a presença de vasilhas quebradas e ossos de porco, boi e de frango.


Estrutura da praça

Além dos artefatos, a pesquisa revelou que o subsolo da praça Gomes Freire é cortado por galerias de pedra, que possivelmente foram usadas para transportar água para o abastecimento das casas e chafarizes do centro histórico de Mariana.

Segundo a Fundação Renova, as estruturas foram registradas antes de serem desmanchadas para implantar novas e, em alguns casos, foi possível preservá-las intactas. Já os achados serão catalogados, identificados e entregues ao Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, em Belo Horizonte, onde ficarão armazenados para futuros estudos.

Discussões coletivas e de participação popular foram consideradas para tomar decisões sobre a praça, desde a concepção à execução da obra, aprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “As intervenções na praça respeitaram o valor histórico, simbólico e afetivo do local e permitiram melhorias na acessibilidade, iluminação e paisagismo”, diz a fundação. In “Revista Galileu” - Brasil






segunda-feira, 26 de julho de 2021

Brasil - Novo acordo de cooperação intensifica negócios entre Minas Gerais e Portugal

“Nosso estado é o mais português do Brasil”, diz vice-governador de Minas Gerais, Paulo Brant


A tradicional cultura de negócios existente entre Minas Gerais e Portugal será intensificada. O Governo de Minas, por meio do Indi, assinou um acordo bilateral de cooperação com a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (Aicep) que prevê estreitar ainda mais os laços comerciais entre investidores dos dois territórios, fomentando novas possibilidades de parcerias e desenvolvimento econômico.

A cerimônia, realizada no último dia 21 na sede do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), contou com a participação do vice-governador de Minas Gerais, Paulo Brant, do diretor- presidente do Indi, João Paulo Braga, do diretor do Centro de Negócios do Brasil da Aicep, Francisco Saião Costa, do Embaixador de Portugal, Luís Faro Ramos e da subsecretária de Promoção de Investimentos e Cadeias Produtivas, Kathleen Garcia Nascimento, entre outros.

O acordo prevê que as agências identifiquem áreas específicas com potencial de cooperação e ampliem a troca de informações, com o objetivo de expandir negócios bilaterais.

O documento define, por exemplo, a coordenação de esforços com a finalidade de estabelecer uma rede de contatos empresariais que facilitem a circulação de informação sobre a oportunidade de negócios.

Segundo o governo mineiro, a meta é fomentar o fluxo recíproco de informações econômicas e estatísticas voltadas para as duas comunidades empresariais, prestando assistência aos empreendedores parceiros e interessados na geração de oportunidades.

Repercussão

O vice-governador de Minas Gerais, Paulo Brant, destaca que o Brasil tinha a tradição de uma economia muito fechada, realidade que vem se transformando. “Portugal é um país muito querido pelos mineiros e digo, sem medo de errar, que nosso estado é o mais português do Brasil. Esse memorando abre possibilidades enormes e muito positivas de estreitar esses laços comerciais indispensáveis para o desenvolvimento econômico”, enfatiza.

O vice-governador ressalta ainda o papel da Agência mineira em mais essa iniciativa. “O Indi é uma instituição exemplar. Quando o empresário chega aqui ele é acolhido por uma equipe muito competente e que encara o empreendedor como um amigo. Isso já permitiu a Minas Gerais receber projetos inéditos, ultrapassando a marca de R$ 129 bilhões em atração de investimentos privados, apenas nessa gestão”, afirma.

Para o diretor do Centro de Negócios do Brasil da Aicep, Francisco Saião Costa, a efetivação do acordo com o Indi foi um passo importante. “Garante o estabelecimento de um canal direto com os gestores estaduais, que muito nos apoiam na identificação de parceiros de negócio locais para as empresas portuguesas e mineiras”, observa.

Ainda segundo Costa, “a expectativa é que essa parceria se traduza em incremento significativo das relações econômicas bilaterais, no aumento da promoção de Portugal em Minas e de Minas em Portugal, além da geração de mais negócios”.

Para o diretor executivo da Câmara Portuguesa de Minas Gerais, Vittorio Lanari Junior, há muitas oportunidades a serem exploradas e a intenção é ampliar as transações comerciais entre os dois territórios, trazendo para o estado know-how e investimentos em áreas nas quais Portugal já não tem mais espaço (vinho e queijo, por exemplo). Já no caminho inverso, exportar inovação.

“As perspectivas são muito boas no intercâmbio de negócios em setores como: novas energias, smart cities, gestão de resíduos, vitivinicultura, azeites, entre outros. Existem muitas empresas mineiras e portuguesas dispostas a inovar e em busca de apoio para projetos de internacionalização”, conclui Lanari Junior.

Visita oficial

O Embaixador de Portugal cumpre uma visita oficial ao estado de Minas, onde conheceu o Centro da Comunidade Luso-Brasileira e teve oportunidade de conversar com o seu corpo diretivo.

Na manhã do segundo dia em Minas Gerais, o embaixador Luís Ramos, acompanhado pelo cônsul em Belo Horizonte e pelo diretor da AICEP no Brasil, visitou as instalações do Consulado e reuniu com o presidente e diretoria da Câmara Portuguesa de Comércio, que comemora este ano o seu 25.º aniversário.

No terceiro dia da sua visita de trabalho, Ramos esteve na Cimentos Liz, de Luís Champalimaud, além de ter reunião com a coordenadora da Cátedra do Camões IP na CESPUC, Raquel Guimarães, e visita à Academia Mineira de Letras.

Também o embaixador de Portugal e o cônsul em Belo Horizonte visitaram, no dia 24, a cidade de Ouro Preto, quando foram recebidos pelo Prefeito Ângelo Oswaldo Araújo. In “Mundo Lusíada” - Brasil


quinta-feira, 12 de março de 2020

Brasil - Sistema agrícola da Serra do Espinhaço torna-se património mundial

O anúncio foi feito pela Organização para Alimentação e Agricultura, FAO, que gere os Sistemas Importantes do Património Agrícola Mundial, SIPAM. Para a agência, o sistema localizado no estado de Minas Gerais, é fundamental para a melhoria da biodiversidade e do conhecimento tradicional



Um sistema agrícola da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, no Brasil, foi nomeado esta quarta-feira para a lista de patrimónios mundiais.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, que gere os Sistemas Importantes do Património Agrícola Global, SIPAM, afirma que a escolha se deve à contribuição que o sítio natural tem dado à biodiversidade e aos saberes tradicionais.

Único

O sistema agrícola é praticado em seis comunidades nos municípios de Diamantina, Buenópolis e Presidente Kubitscheck. As seis ocupam uma área de aproximadamente 100 mil hectares e chegam a manejar mais de 400 espécies. A distinção reconhece o trabalho das famílias colhedoras das flores “Sempre-Vivas”.

Segundo a agência, os vários ecossistemas constituem “a savana com mais biodiversidade do planeta” e “desempenham um papel crucial na regulação das chuvas da região.”

Os agricultores, conhecidos como colhedores de flores sempre-vivas, desenvolveram um sistema que combina a apanha de flores, jardinagem agroflorestal, pastoreio de gado e cultivos. Tudo isto acontece em várias altitudes que chegam até aos 1400 metros.

O sistema requer uma ampla gama de conhecimentos e práticas tradicionais passados ​​de geração em geração, ajudando as pessoas a alcançarem a harmonia com o meio ambiente e, ao mesmo tempo, a garantir a sua segurança alimentar.



Reconhecimento

Numa nota, o coordenador da rede SIPAM, Yoshihide Endo, disse que "graças à profunda compreensão dos ciclos e ecossistemas naturais e ao amplo conhecimento da flora nativa, as comunidades locais gerem todos os tipos de atividades agrícolas bem adaptadas a cada tipo de solo, características geográficas e climáticas para sustentar as suas vidas."

Segundo ele, "essas atividades também contribuem para preservar valiosas variedades de culturas, vegetação nativa e paisagens da região".

Deslocando-se pelas montanhas, as pessoas enriquecem os campos com uma variedade de espécies, permitindo que os ecossistemas e paisagens se regenerem, diversificando os fluxos naturais de sementes e genes.

O acesso e uso sustentável da flora são controlados por cada comunidade de acordo com os ciclos naturais das espécies e a intensidade da colheita.

Sistema

Com esta nova nomeação, existem agora 59 sistemas distinguidos pelo SIPAM em 22 países.

O programa destaca formas únicas desenvolvidas pelas comunidades para promover a segurança alimentar, meios de subsistência, ecossistemas resilientes e altos níveis de biodiversidade. ONU News – Nações Unidas

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Brasil – Projeto de aprendizagem numa favela que traz esperança e inovações com a participação da Unesco

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, está participando de um projeto de aprendizado numa comunidade do estado de Minas Gerais, que trata de promover esperança e inovações.

Segundo a Unesco, a iniciativa da comunidade Vila Betânia, em Belo Horizonte, serve como oportunidade de estudo para outras 6,3 mil espalhadas por todo o país. A estimativa é que 12 milhões de pessoas vivam neste universo e em contextos diversos, com características próprias.

Comunidades

Para a agência da ONU, as favelas não são entidades territoriais homogêneas. Mesmo que os surgimentos dos assentamentos tenham traços semelhantes como muitas pessoas ainda guardam na memória com base nos movimentos migratórios, na topografia e nas relações sociais e econômicas da época.

De acordo com um estudo do ONU-Habitat, existem duas amplas categorizações das favelas brasileiras. Comunidades de esperança identificadas como assentamentos em 'progresso' e bairros em declínio em processo de degeneração.

Vila Betânia

No caso da parceria com a Vila Betânia, em Belo Horizonte, a iniciativa de aprendizagem baseada em projetos, PBL, busca levar ao local as características de um assentamento progressivo e esperançoso.

Segundo a Unesco, o PBL é descrito como uma metodologia focada nas partes interessadas que trabalham juntas para desenvolver capacidades e lidar com situações complexas enquanto desenvolvem habilidades críticas, criativas e práticas.

Currículo

O currículo do projeto desenvolvido na Vila Betânia foi formado dentro da estrutura de Educação para o Desenvolvimento Sustentável da Unesco. A ideia é permitir que os moradores desenvolvam suas habilidades em três dimensões da sustentabilidade, que envolvem o meio ambiente, a sociedade e a economia.

O programa interativo foi baseado nas teorias de boas práticas e métodos desenvolvidos por redes dentro dos movimentos de comércio justo, eco comunidades e agroecologia.

Desafios

Para a Unesco, o grande desafio do projeto foi como firmar o conceito de desenvolvimento urbano regenerador no meio de um território considerado distópico.

A agência da ONU acredita que existem várias maneiras de se ler a história da Vila Betânia. Mas, olhando de dentro, sente-se o vínculo de solidariedade, fundamental em qualquer forma de vida comunitária.

A agência da ONU avalia que, por muito tempo, as favelas foram “sinônimo de violência de gangues, tráfico de drogas e privações”. Porém, na Vila Betânia, como em muitas outras comunidades brasileiras, os próprios moradores começam a reescrever uma história de esperança com iniciativas e parcerias. ONU News – Nações Unidas

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Um raio-X da Inquisição em Minas Gerais

                                                          I
Como tantas manifestações sociais registradas na História do Brasil que sofreram um certo abrandamento ao longo dos tempos, também o antissemitismo foi amenizado e começa agora a passar por um revisionismo graças a pesquisas nos arquivos brasileiros e portugueses, que deixam claro que a Inquisição, por intermédio de seus comissários, familiares, padres e bispos, perseguiu, torturou e queimou muitos cristãos-novos, especialmente os mais abastados. É o que mostra a historiadora Neusa Fernandes em A Inquisição em Minas Gerais no século XVIII (Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2014) e A Inquisição em Minas Gerais: processos singulares (Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2016).

Em suas pesquisas, a professora valeu-se principalmente dos processos inquisitoriais que estão no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, que revelam que os cristãos-novos alcançados pelas malhas da Inquisição, na maioria, estavam envolvidos no comércio do ouro e diamantes e de escravos, ainda que se dedicassem a outras práticas comerciais.  Através das redes comerciais espalhadas por Portugal, Brasil e várias regiões da África, esses cristãos-novos alcançaram notoriedade social e até mesmo poder em suas comunidades, o que lhes garantia a segurança necessária para que continuassem a desenvolver as práticas judaicas, de que nunca se desvinculariam.

Mas, como mostra a historiadora, essas práticas só começaram a incomodar as classes poderosas a partir do momento em que as atividades comerciais desenvolvidas por esses cristãos-novos passaram a subverter o projeto metropolitano que queria a colônia voltada para o comércio exterior, ou seja, para o fornecimento de matérias-primas para os grandes comerciantes de Portugal, que, como se sabe, eram também dependentes daqueles círculos europeus mais fortes, especialmente ingleses, holandeses, franceses e italianos. Aliás, como registrou em 1755, à época do terremoto, o insuspeito ministro Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o marquês de Pombal, no século XVIII, “Portugal estava sem poder e sem força, e todos os seus movimentos eram regulados pelos desejos da Inglaterra” (vol. 2, pag.239).

À medida, porém, que a colônia americana se expandia, esse esquema começava a sair fora do controle metropolitano e europeu, especialmente em Minas Gerais, onde a descoberta do ouro e outras riquezas levou à formação em pouco tempo de uma sociedade urbana e mercantilista, que atraindo não só portugueses do Reino, formou um comércio interno e intercolonial, pois os comerciantes tinham também ligações com Angola, Moçambique e demais colônias portuguesas.

Como diz a autora em suas conclusões, esse mercado criava seus próprios elos e hierarquias, que se confrontavam com o poder de uma metrópole um tanto mambembe que lutava para manter sua própria autonomia na Europa, sempre preocupada com o possível avanço da vizinha Espanha em seu território, a exemplo do que já ocorrera na Galiza. E que precisava da Inglaterra para manter sua alegada independência.

                                               II
De fato, como corria risco o seu esquema de poder, a metrópole não encontrou outra saída que não fosse recorrer à Inquisição, que já tinha grande experiência na prática da repressão na Península Ibérica. E a instituição foi usada para perseguir aqueles que praticavam não só o descaminho do ouro e a sonegação fiscal como aqueles que faziam a ponte América-Europa, enviando a Londres ouro e pedras preciosas, como diamantes, esmeraldas e topázios, sem a intermediação dos grandes comerciantes da Metrópole. Na maioria, essas pessoas eram cristãos-novos. Ou melhor: cerca de 60% dos comerciantes na capitania de Minas Gerais eram cristãos-novos.

Um deles, Joseph da Costa, dedicava-se quase exclusivamente ao comércio negreiro em Angola. Obviamente, essa atividade era quase sempre clandestina e praticada de modo particular, como observa a historiadora. Portanto, os escravos passavam pela alfândega sem pagar os direitos aduaneiros, quase sempre com a complacência do juiz da alfândega e demais autoridades, que eram bastante susceptíveis ao suborno, quando não eram os próprios responsáveis pelo tráfico negreiro.

Aliás, embora pouco se diga isto nos livros de História do Brasil, a sonegação fiscal sempre esteve por trás dos planos que levaram à conjuração mineira de 1789, pois, se colocada na rua, a sublevação teria por objetivo também perdoar as dívidas dos grossos devedores, que eram exatamente aqueles que, como arrematantes de contratos de entradas e outros, recolhiam os impostos, sem repassá-los para a Coroa, obviamente, depois de “molhar as mãos” de governadores e capitais-generais, ouvidores e outros representantes da alta burocracia colonial para que fizessem vistas grossas.

Como observa a professora Neusa Fernandes, além de escravos, os cristãos-novos faziam a importação de todos os produtos necessários à população, desde gêneros de primeira necessidade até artigos de luxo. Não só eram os “donos do comércio” como também rancheiros, lavradores, vendedores ambulantes, ourives e fazendeiros. Naturalmente, também levavam suas crenças às casas onde se hospedavam ou comerciavam. De Lisboa, havia também cristãos-novos que comandavam essa grande rede de negociações.

Como a Coroa começava a se sentir lesada por essa prática, o governo metropolitano, ao perceber a presença maciça de cristãos-novos em Minas Gerais e outras capitanias, tratou de pressionar a Inquisição para que barrasse a ascensão dessa nova classe de mercadores na colônia, a burguesia cristã-nova que nascia do comércio, do dinheiro e do crédito.

Segundo a pesquisa empreendida pela professora Neusa Fernandes, em Minas Gerais, 11 cristãos-novos foram condenados à morte, entre centenas que foram presos pelo Santo Ofício. Na Bahia, teriam sido 160 os presos; no Rio de Janeiro, menos de 400; na Paraíba, 49, dos quais 28 mulheres – desses, dois foram condenados à pena capital e oito morreram nos cárceres.

Na maioria, os prisioneiros eram condenados por crime de judaísmo, mas havia aqueles que o eram por bruxaria, sodomia, bigamia, sacrilégio, idolatria, blasfêmia, superstições e outros. As penas variavam entre o garrote, a fogueira e o banimento, que atuava como uma forma de purificação dos pecados. Segundo a pesquisa, os banimentos para a África e para o Brasil eram as penas mais comuns, abrangendo 53% dos casos. Desses condenados, 60% eram cristãos-novos e a maioria formada por mulheres.

Como ressalta no prefácio o historiador Nachman Falbel, professor titular de História Medieval na Universidade de São Paulo (USP), este trabalho constitui uma nova e importante contribuição da autora aos estudos sobre os cristãos-novos. De fato, depois de infatigáveis pesquisas, a professora levantou 903 nomes de cristãos-novos que atuaram e passaram por Minas Gerais, “contrariando todas as expectativas e suposições dos estudiosos”. O que mostra, desde já, a importância do segundo volume (A Inquisição em Minas Gerais: processos singulares), que vem complementar as volumosas pesquisas que formam o primeiro volume, cuja primeira edição saiu à época da comemoração dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Brasil.

                                               III
Neusa Fernandes, nascida no Rio de Janeiro, tem graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), 1960, e em Museologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), 1968, além de mestrado em História Social, 1999, e doutorado em História Social pela USP, 2002, e pós-doutorado pela UERJ, 2009. É pós-graduada em História pela Universidade de Madri.

Professora de História do Estado do Rio de Janeiro, título conquistado por meio de concurso público, no qual obteve o primeiro lugar, atuou em várias universidades cariocas. Foi pró-reitora de Pesquisa na Universidade Severino Sombra, em Vassouras, e diretora do Museu da República, Museu do Primeiro Reinado, Museu da Cidade e outras instituições. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), presta serviços ao Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação. É vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ) e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras (IHGV).

É autora de 14 livros de História e de Museologia, entre os quais Eufrásia e Nabuco (Rio de Janeiro, Mauad, 2012), Efemérides Cariocas (Rio de Janeiro, 2016), em co-autoria com Olinio Gomes P. Coelho (Rio de Janeiro, 2016), e Dicionário Histórico do Vale do Paraíba Fluminense, em co-autoria com  Irenilda Cavalcanti e Roselene de Cássia Coelho Martins (Vassouras, IHGV/Nova Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2016). Adelto Gonçalves - Brasil


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Inquisição em Minas Gerais no século XVIII, vol. I, 3ª ed. revista e ampliada, 280 p., 2014; e Inquisição em Minas Gerais: processos singulares, vol. II, 1ª ed., 296 p., 2016, de Neusa Fernandes. Rio de Janeiro: Mauad Editora. Site: www.mauad.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela USP e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Brasil - Cientistas relacionam surto de febre amarela com degradação ambiental

Um grupo de especialistas de diferentes estados do Brasil está se articulando para investigar a relação entre o surto de febre amarela e a degradação do meio ambiente. Eles acreditam que se houvesse mais conhecimento sobre o assunto, a propagação repentina do vírus de tempos em tempos poderia ser prevenida.

O surto de febre amarela em Minas Gerais já provocou 38 mortes confirmadas em 2017, segundo o boletim epidemiológico mais recente da Secretaria de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), divulgado ontem (24). Outros 45 óbitos estão em análise.

Causada por um vírus da família Flaviviridae, a febre amarela é uma doença de surtos que atinge, repentinamente, grupos de macacos e humanos. As razões deste comportamento da doença ainda não são bem conhecidas. Mas os especialistas dão como certa a influência do meio ambiente. Segundo Sérgio Lucena, primatólogo e professor de zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o surto de febre amarela é um fenômeno ecológico.

A doença é transmitida em áreas rurais e silvestres pelo mosquito Haemagogus. Em área urbana, ela pode ser transmitida pelo Aedes aegypti, o mesmo da dengue, do vírus Zika e da febre chikungunya. No entanto, não há registros no Brasil de transmissão da febre amarela em meios urbanos desde 1942. No surto atual, nenhum dos casos confirmados e suspeitos em Minas Gerais são urbanos.

Sérgio Lucena explica que o vírus da febre amarela está estabelecido em algumas matas e regiões silvestres com baixa ocorrência. De repente, por algum motivo ainda a ser desvendado, ele se propaga rapidamente, atingindo macacos e humanos. Os animais começam a morrer primeiro. “São sentinelas. Se o vírus começa a se propagar em determinada área, a morte dos macacos nos enviará um alerta”, explica.

Para o primatólogo, o Brasil poderia ter um sistema bem articulado para se antecipar aos surtos, mas não há investimentos neste sentido. Se houvesse mais conhecimento, Minas Gerais poderia, por exemplo, ter dado início mais cedo à campanha de vacinação nos municípios da área de risco, reduzindo a disseminação da doença. A vacina é a principal medida de combate à febre amarela.

Florestas

Na semana passada, especialistas que estudam a febre amarela sob a ótica do ecossistema se reuniram em Belo Horizonte em um seminário organizado pela Fundação Renova, ligada à mineradora Samarco. Na ocasião, eles fizeram uma revisão de tudo o que se sabe até o momento acerca do tema, com o objetivo de dar um primeiro passo para mudar o panorama.

Uma das hipóteses dos pesquisadores é que o desmatamento ao longo dos anos deixou as espécies de macacos em fragmentos muito pequenos de florestas, o que traz diversos desdobramentos. “Sistemas ecológicos empobrecidos podem favorecer o crescimento das populações de mosquitos. Mosquitos infectados encontrando populações grandes de macacos em pedaços de mata atlântica isolados podem ser a origem destes surtos”, alerta Sérgio Lucena.

Evidências científicas também dão a entender que florestas saudáveis, com elevada biodiversidade, dificultariam a proliferação dos vírus. Embora o surto não deixe de ocorrer, sua intensidade pode ser menor em um meio ambiente preservado. É o que explica Servio Ribeiro, biólogo e professor de ecologia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

Segundo o pesquisador, a cada surto, a população de macacos se reduz bastante e vai se recuperando devagar nos anos seguintes. “Um novo surto provavelmente acontece naquele momento em que o vírus encontra na natureza macacos com quantidade, condições e características genéticas favoráveis. E quando há muitos animais infectados, é fácil que a doença chegue aos humanos”, explica.

Uma floresta onde há maior disponibilidade de frutos e sombras e onde não há poluição faz com que os macacos se desenvolvam mais saudáveis e sem estresses, com um sistema imunológico mais eficiente, oferecendo mais resistência à doença. Servio Ribeira destaca que a genética também influencia.

“No período quando o vírus é raro, as populações de macacos se reproduzem sem essa pressão seletiva. Significa que, por um intervalo de anos, ser ou não ser resistente ao vírus da febre amarela, não é um fator que muda o sucesso reprodutivo dos macacos. Acontece que vivendo em pequenos fragmentos de florestas, sem corredores interligando as matas, essas populações crescem com parentes cruzando entre si. Desta forma, os indivíduos são muito parecidos geneticamente. Quando um vírus alcança um macaco de uma população sem diversidade genética ele rapidamente se dissemina.”

Por esta razão, a existência de corredores interligando as matas pode ajudar a conter a febre amarela. Através desses corredores, grupos de macacos podem se misturar. Os cruzamentos entre grupos distintos levariam à troca de genes e criariam populações com mais diversidade genética. Neste contexto, uma disseminação do vírus teria menor probabilidade de causar febre amarela em muitos macacos de uma só vez.

Uma preocupação que vem sendo apresentada pela secretaria de Saúde do estado diz respeito à violência contra macacos, registrada em alguns municípios. Isso porque há pessoas que acreditam que sacrificar os animais pode ajudar a evitar a doença em humanos. O órgão publicou em seu blog uma postagem para desmistificar essa ideia e esclarecer que os animais são, na verdade, aliados que ajudam a mapear a doença. “Os macacos não transmitem a febre amarela para o homem e NÃO são os responsáveis pelo transmissão da febre amarela. Eles são as principais vítimas. As mudanças climáticas e a degradação ambiental provocadas pelo homem são as principais responsáveis pelo recente aparecimento de inúmeras doenças infecciosas. Especialistas acreditam que o avanço da doença tem sido facilitado pelo deslocamento de pessoas infectadas ou pela dispersão dos mosquitos.”, acrescenta o texto.

Tragédia de Mariana

Outras linhas de estudos voltadas para elucidar os motivos que levam ao início de cada surto buscam entender se as alterações nas áreas das florestas estão expondo as pessoas aos mosquitos infectados e se fatores climáticos favorecem o crescimento da população de mosquitos.

Por outro lado, Servio Ribeiro considera remota a possibilidade de influência da tragédia de Mariana (MG) neste surto de febre amarela em Minas Gerais. Alguns dos municípios afetados pela circulação da doença se localizam no Vale do Rio Doce. Uma parcela dos 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos que foram liberados no rompimento da barragem da mineradora Samarco, em novembro de 2015, escoou por todo o Rio Doce e chegou ao litoral do Espírito Santo.

“A febre amarela é uma doença de interior de floresta. O mosquito que a transmite põe ovos em cavidades de árvores e em bromélias. É um mosquito da estrutura da floresta. Ele não se relaciona muito com grandes corpos d’água e com rios. As cidades afetados pela doença estão em uma região onde os rejeitos não chegaram com força para derrubar a floresta”, diz o biólogo.

Para Servio Ribeiro, a hipótese teria mais força caso o surto tivesse ocorrido próximo à Mariana (MG) onde o impacto da tragédia foi mais agressivo e levou ao desmatamento. “No Vale do Rio Doce, esse rejeito se acumulou nas margens. Claro que há uma degradação. Mas esta degradação, pelos conhecimentos que temos, não deve estar afetando a relação entre os vetores e os macacos no interior da floresta”, acrescentou.

Espécies ameaçadas

De acordo com o boletim epidemiológico SES-MG, há 18 municípios com mortes de macacos em análise. Outros 70 registram rumores de óbitos entre os primatas. Para Sérgio Lucena, estes dados não dão a dimensão da mortandade dos animais. “Macacos estão morrendo em grande quantidade. Estive com uma equipe de pesquisadores na zona rural de Caratinga (MG). Andamos na mata, conversamos com pessoas e constatamos a alta mortalidade”, conta.

De acordo com o primatólogo, o fenômeno teve início em Minas Gerais, mas já ocorre com intensidade no Espírito Santo. A situação põe em risco espécies ameaçadas de extinção, como o muriqui. Os mais afetados, porém, são os bugios. Segundo Sérgio Lucena, estudos realizados durante o surto de 2009 no Rio Grande do Sul mostraram que populações de bugios foram reduzidas a 20%. “Enquanto sete pessoas faleceram naquele ano, cerca de 2 mil macacos foram a óbito”, afirma.

O pesquisador destaca que os bugios são justamente as maiores vítimas da febre amarela. “Eles são altamente suscetíveis à doença, diferente dos humanos. Na população humana, poucas pessoas desenvolvem um quadro grave e muitas infecções são assintomáticas. A pessoa nem fica sabendo que contraiu o vírus”, explica. Leo Rodrigues – Brasil in “Agência Brasil”