Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 29 de novembro de 2022

Macau - Rota das Letras recorda Saramago, reflecte sobre o “Romance dos Três Reinos” e mostra autores locais

Está de regresso o Rota das Letras – Festival Literário de Macau. Desta vez, ao longo dos próximos dois fins-de-semana, a iniciativa divide-se entre a Livraria Portuguesa e o Art Garden. Na sua 11.ª edição, o festival acompanha as efemérides dos centenários do nascimento de José Saramago e de Maria Ondina Braga. A publicação integral do “Romance dos Três Reinos” comemora o 5.º centenário e, por isso, o Rota das Letras propõe uma reflexão sobre a obra. Por outro lado, o festival vai também dar a conhecer as obras mais recentes de vários autores locais


O Rota das Letras – Festival Literário de Macau está de volta. Desta vez, a iniciativa divide-se entre os primeiros dois fins-de-semana de Dezembro: Entre 2 e 4 de Dezembro, na Livraria Portuguesa; e entre 9 e 11 de Dezembro, no Art Garden. Saramago, Maria Ondina Braga, James Joyce, T. S. Eliot e Virginia Woolf são alguns dos nomes em foco.

Esta, que é a 11.ª edição do Festival Literário, começa então esta sexta-feira, na Livraria Portuguesa, com a apresentação, a partir das 18h30, dos mais recentes trabalhos dos autores chineses de Macau Lawrence Lei e Cheong Kin Han. As suas obras, “Rostos Mascarados” e “Ying”, respectivamente, foram distinguidos na 13.ª edição dos Prémios Literários de Macau. Ainda na sexta-feira, Wong Teng Chi apresenta uma performance onde explora temas como a observância social e questões de identidade e género.

Já sábado as primeiras sessões destinam-se ao público infantil e começam pelas 11h com a Livraria Júbilo a mostrar os trabalhos da ilustradora Yang Sio Maan. Logo depois, Tony Lam fará a apresentação de uma aventura para crianças que se passa em boa parte nos subterrâneos do Templo de A-Má.

Da parte da tarde, é proposta uma reflexão sobre o importante contributo da literatura para a História. A sessão – que terá como oradores os professores Wang Di e Wang Sihao, da Universidade de Macau, estando a moderação a cargo de Yao Jingming – vai centrar-se no 5.º centenário da primeira publicação integral do “Romance dos Três Reinos”.

Mais tarde, acontece um diálogo sobre a ficção gótica de Daniel Defoe, que escreveu o “Diário do Ano da Peste” há 300 anos. Nick Groom e William Hughes, académicos ligados à Universidade de Macau, vão explicar como a literatura de terror nos pode ajudar a compreender a pandemia do coronavírus.

Os centenários das publicações de “Ulisses”, de James Joyce, e de “A Terra Devastada”, de T. S. Eliot, também estarão em destaque numa sessão conduzida por Glenn Timmermans. O programa de sábado termina com o lançamento da segunda edição de “Macau – o Livro dos Nomes”, de Carlos Morais José. Nesta edição, são publicados 88 textos acompanhados de fotografias de Sara Augusto.

No domingo, dia 4, volta a literatura infantil, com a editora Mandarina a dar a conhecer o seu último título, “Em Casa”, que contará com a apresentação de Catarina Mesquita. A recém-criada editora Lits revela o seu primeiro livro infantil, “O Menino que Queria Ver o Mar”, um conto de António Correia que agora é publicado a título póstumo. Por fim, Andreia Martins mostra às crianças “Uma Casa com Asas”.

Na tarde de domingo é organizada uma sessão online com vários autores lusófonos – Krishna Monteiro, Manuel da Costa, Hélder Macedo, entre outros – sobre o seu contributo para uma nova antologia bilingue de contos lusófonos, traduzidos para chinês, “Viagens”.

Finalmente, serão celebrados os centenários do nascimento de José Saramago e de Maria Ondina Braga. No tributo a Saramago serão apresentados trabalhos de Miguel Real e José Luís Peixoto que têm como referência a vida e a obra do único escritor português até aqui distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. A sessão contará também com a participação da artista chinesa de Macau Kay Zhang, que, em conversa com Carlos Marreiros, falará sobre o seu projecto artístico inspirado no “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. Maria Ondina Braga será recordada com a projecção do documentário “O que Vêem os Anjos”, de Tiago Fernandes. Haverá também uma evocação da autora, a cargo da Professora Vera Borges.

No fim-de-semana seguinte, entre 9 e 11 de Dezembro, o Rota das Letras muda-se então para o Art Garden, sede da associação Art for All (AFA), onde será apresentado o projecto plurianual “A Room of One’s Own”, que é baseado na obra de Virginia Woolf e que inclui uma série de sessões de debate, seminários, concertos e performances que vão explorar o tema da condição feminina. A primeira mesa-redonda acontece pelas 18h30 e junta Agnes Lam, Glenn Timmermans e a psicanalista Natalie Si num debate sobre o conceito de literatura feminina e as suas implicações psicológicas, a partir da obra de Virginia Woolf.

Virginia Woolf continuará como tema central no concerto do músico meditativo de Hong Kong Paul Yip, que se junta aos poetas locais M. Chow e Isaac Pereira e à bailarina Tina Kan, inspirando-se na escrita poética da autora britânica para criarem um espectáculo que combina a palavra, a música e o gesto.

De 10 a 11 de Dezembro, terão também lugar seminários subordinados ao mesmo tema. Agnes Lam e a psicoterapeuta Jojo Lam, vão dirigir uma série de workshops experimentais sobre a condição feminina com elementos literários e teatrais de experiências sociais e terapêuticas. Ainda no sábado haverá uma sessão de poesia onde poderão ouvir-se poemas de José Craveirinha, de T.S. Eliot e de outros poetas, de diferentes espaços e tempos.

No domingo, dia 11, a fechar esta edição do Festival Literário recordar-se-á o II Raid Macau-Lisboa, que é agora tema de um livro de banda desenhada; Shee Va irá fazer a apresentação de “Uma Breve História Cultural do Chá da China”, de Rui Rocha; João Rato e vários outros fotógrafos amadores do território mostram o trabalho conjunto recentemente lançado, intitulado “Macau: My Story”; e a revista Halftone dá a conhecer a sua 4.ª edição, que inclui trabalhos de João Nuno Ribeirinha, David Lopo, Dinamene, Sofia Mota, Alina Bong e Barry Tsang. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Macau - Leong Fei In e Zhang Xinjun seleccionados para intercâmbio artístico através da organização Art For All Society

Os artistas Leong Fei In e Zhang Xinjun apresentam uma exposição no Macau Art Garden, que cria uma história visual sobre uma ilha desconhecida e reúne também memórias de Macau. Durante este ano vão realizar uma residência artística e uma nova exposição conjunta



A exposição “One Plus One · Macau and Overseas Artists Exchanged Exhibition: Island”, organizada pela Art For All Society (AFA), está aberta ao público até dia 27 de Janeiro no Tak Chun Macau Art Garden. É a segunda edição de um programa de intercâmbio cultural, que conta desta vez com obras da artista local Leong Fei In, e do artista Zhang Xinjun, da China Continental.

No local da exposição nasceram nove pequenas ilhas de tamanhos e formatos distintos, construídas a partir de materiais como areia de quartzo tingida e especiarias antigas. As paredes revelam agora diferentes montanhas pintadas em cores vivas, acompanhadas de algumas palavras. Durante a visita, o público pode andar entre o trabalho.

“Leong Fei In alargou o conceito de ‘ilha’ a um sentido do corpo e visão do mundo, usando dados históricos das ilhas de Macau e do Sudeste Asiático que foram afectadas durante a era náutica, como pano de fundo para criar a história visual virtual ‘ilha desconhecida’”, comunicou a AFA.

Por sua vez, Zhang Xinjun juntou imagens relacionadas com a história, paisagens e pessoas de Macau. O artista organizou assim memórias do território, que assumem forma visual de tecido, em que os traços foram feitos através de queima de incenso. Estas imagens, explica a nota da AFA, “advieram de mal-entendidos do artista sobre o território através de informação indirecta”.

Em 2019 realizou-se pela primeira vez a exposição “one plus one”, com artistas de Macau e do exterior, em Pequim. A mostra da nova edição foi inaugurada no final de 2020, e está patente ao público entre as 11h e 19h, de segunda a sábado.

Tempo para criar

Ao longo de 2021, os dois artistas seleccionados vão realizar residências artísticas em Macau e uma nova exposição conjunta numa galeria local. O “One Plus One” é um programa de intercâmbio cultural, que pretende fortalecer as trocas artísticas e culturais entre Macau e artistas do exterior. Neste âmbito, a cada dois anos, a AFA seleciona um artista em representação de Macau e outro do exterior, cooperando com institutos artísticos da China Continental, Hong Kong ou do estrangeiro para organizar uma exposição conjunta.

Desta vez, foram Leong Fei In e Zhang Xinjun os eleitos. “Através deste projecto, a AFA espera trazer mais estímulos externos aos artistas [locais], dando-lhes uma oportunidade de ganharem mais experiências fora de Macau e obterem uma experiência criativa numa cena artística mais ampla”, indicou a entidade.

A artista Leong Fei In concluiu o mestrado em Artes Visuais na University of the Arts London, em 2016. O seu trabalho abrange técnicas como gravuras, livros, esculturas de papel e instalações, através das quais explora temas como espaço, memória e tensão. As exposições a solo incluem “In between”, em Kyoto no ano de 2017, ou “The Weight of Context” na AFA, em 2018.

O artista Zhang Xinjun nasceu em Zhengzhou, Henan. Terminou a formação na Academia de Belas Artes de Sichuan em 2005, e na Academia Central de Belas Artes em 2009. “Mine”, na Alemanha, ou “Hou Zhairen not surnamed Hou”, em Pequim, são exemplos de exposições a solo. Salomé Fernandes – Macau in “Hoje Macau”


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Macau – Simbiose cultural exposta na fachada do “Macau Art Garden”

Foram azulejos portugueses que serviram de inspiração base ao projecto de renovação da fachada do “Macau Art Garden”, mas as cores que lhe dão forma têm influência cultural chinesa, indicou à Tribuna de Macau o artista Joaquim Franco, envolvido no projecto



A fachada do “Macau Art Garden”, um edifício dedicado à criação artística, está em transformação. A renovação está a ser conduzida pelas mãos do artista Joaquim Franco. A ideia inicial era fazer a decoração da fachada voltada para a Avenida D. Rodrigo Rodrigues, com o objectivo de chamar a atenção dos transeuntes para o edifício. Mas, desde o início do seu planeamento, em finais de Outubro de 2018, houve algumas mudanças e as cores estenderam-se por mais paredes.

A ideia teve como inspiração azulejos portugueses, embora a pintura esteja a ser feita com cores chinesas. O interesse do projecto, apontou Joaquim Franco à Tribuna de Macau, está nessa simbiose entre as culturas portuguesa e chinesa. “Normalmente os azulejos portugueses usam mais os azuis, brancos e amarelos, e aqui existem poucos azuis porque na realidade optou-se por usar umas cores de influência cultural chinesa”, indicou.

O artista considera que fazem falta projectos de fusão no território. “Se somos uma sociedade multicultural, e quando pretendemos que Macau seja uma sociedade de turismo internacional, seria uma belíssima forma de mostrar às pessoas que [nos] visitam o que é de facto Macau. Vejo às vezes por aí painéis de ‘street art’ bastante interessantes, mas que no fundo, do ponto de vista cultural, acabam por ser muito o que se vê em toda a parte do mundo. Este projecto tem este interesse de ser uma coisa diferente”, explicou.

Da fachada, onde se usou uma modelação de três azulejos para fazer a decoração, passou-se para outras paredes do edifício e para a entrada no mesmo, onde não havia um projecto definido. Aí, Joaquim Franco decidiu “desmontar” os azulejos, recriando imagens “mais dialécticas” e “movimentadas”. Admitindo de forma ligeira ser suspeito na análise, considera que esta mudança resultou bem.

O projecto é do artista Sio Kit mas nele estão também envolvidos nomes como o de Alice Kok, presidente da Associação “Art For All”, e James Chu, responsável pelo “Art Garden”. É aí que Joaquim Franco tem actualmente o seu atelier. Foi-lhe pedido para fazer a pintura da fachada por ter o cartão da segurança passado pelo Governo, necessário para utilizar o tipo de elevador exterior requerido para a execução do trabalho. “Sou a única pessoa do ‘Art Garden’ que tem esse cartão e que está válido. Portanto, por uma questão de segurança, pediram-me para fazer o projecto e disponibilizei-me”, disse.

Apesar disso, quando chegou ao terceiro andar sentiu que “as condições de segurança não eram as melhores”, tendo parado a pintura da fachada, que deverá retomar num modelo um pouco diferente. “O que se fez foi destruir o padrão para evoluir de outra forma. Acho mais interessante do que repetir o padrão constantemente. E é isso que vai acontecer na fachada ao nível do 4º andar. Quando chegar lá acima começa a destruir-se em vez de se manter igual”, explicou.

O artista caracterizou a reacção das pessoas como fantástica, e espera que o projecto fique concluído no espaço de duas semanas. Entretanto, como projectos que considerava interessante serem abraçados por Macau, deu como exemplo as estações do Metro Ligeiro, que “podiam ser decoradas pelos artistas locais”, à semelhança da estação dos autocarros da nova Ponte do Delta. “Apesar de estar forrada a pedra podia ser decorada com trabalhos de artistas de Macau. Há imensos sítios que podiam ser decorados e desenvolvidos no sentido de criar esta ‘street art’ que está em voga”, sugeriu.

Joaquim Franco nasceu em Portugal e veio para Macau com 33 anos, para trabalhar na equipa de arqueologia do Projecto de Recuperação e Reabilitação das Ruínas de São Paulo, a convite do arquitecto Manuel Vicente. Acabou por ficar, e actualmente sente que se aculturou não apenas à cultura de Macau, mas também à asiática e chinesa. Pelo caminho, deu-se uma mudança natural no seu trabalho, tendo-se apercebido na Colômbia de que começou a misturar a composição horizontal ocidental com a composição de tradição chinesa que é vertical, e da direita para a esquerda. Salomé Fernandes – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”