Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Internacional - Investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto revela “mapas” cerebrais de risco psiquiátrico

Estudo internacional cruzou genética e neuroimagem para perceber porque certas áreas do cérebro são mais vulneráveis a doenças como a depressão ou a esquizofrenia


Um estudo com a participação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) desenvolveu mapas de risco genético para doenças psiquiátricas com base em imagens da estrutura do cérebro e numa técnica de biologia molecular que analisa a expressão de genes num determinado momento, designada transcriptómica.

Publicado na prestigiada revista científica Molecular Psychiatry, do grupo Nature, “este trabalho revela como o risco genético para doenças psiquiátricas se organiza no cérebro humano e se relaciona com alterações estruturais cerebrais observadas em neuroimagens”, explica Daniel Martins, professor e investigador da FMUP na área das Neurociências.

Os investigadores utilizaram um método inovador que integra dados genéticos de larga escala e a neuroimagem para analisar sete doenças psiquiátricas, incluindo depressão, esquizofrenia, perturbação de hiperatividade/défice de atenção (PHDA), autismo e perturbação obsessivo-compulsiva. O objetivo era “compreender por que certas regiões cerebrais são mais vulneráveis em cada uma das doenças psiquiátricas”.

Embora estas doenças tenham causas multifatoriais resultantes da interação entre fatores genéticos, ambientais e do neurodesenvolvimento, as abordagens tradicionais tendem a analisar a suscetibilidade genética e as alterações neuroanatómicas separadamente.

Este novo estudo permite, assim, “projetar o impacto do risco genético no espaço do cérebro, com base em mapas de risco derivados da expressão génica. Esta abordagem estabelece uma ponte direta entre genes, processos moleculares e alterações anatómicas observadas por ressonância magnética”.

“As alterações estruturais do cérebro observadas em algumas doenças psiquiátricas não surgem ao acaso, mas refletem, em parte, a organização molecular do próprio cérebro. Na depressão major e na esquizofrenia, por exemplo, há uma correspondência clara entre padrões de expressão génica associados ao risco genético e as regiões cerebrais mais afetadas”, explica Daniel Martins.

Segundo o docente da FMUP, os resultados indicam ainda que diferentes doenças psiquiátricas parecem envolver mecanismos biológicos distintos. “Enquanto a depressão e a esquizofrenia mostram forte envolvimento de vias imunitárias e inflamatórias, a PHDA apresenta maior associação a processos de neurodesenvolvimento”, elucida.

Os autores sublinham, aliás, que “esta abordagem não é reducionista” e que “os genes não determinam isoladamente a doença, antes interagem com fatores ambientais, desenvolvimento e experiência ao longo da vida”.

“A publicação na Molecular Psychiatry — uma das revistas mais prestigiadas na área da psiquiatria biológica — reforça a visibilidade internacional da investigação desenvolvida com participação da FMUP e o seu contributo para os avanços na área da psiquiatria”, conclui Daniel Martins.

Além de Daniel Martins, que integra a área de Neurociências e Saúde Mental da FMUP, liderada por Lia Fernandes (ambos FMUP/RISE-Health), esta investigação é assinada também por cientistas do King’s College London, Universidade de Londres (Reino Unido), Universidade Goethe (Alemanha) e Universidade de Padova (Itália). Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 30 de março de 2026

Portugal – Universidade do Porto oferece primeiro doutoramento em Física Médica do país

Com sede na FCUP, o doutoramento em Física Médica pretende formar investigadores de ponta numa área fundamental e com grande aplicação à área de saúde, sobretudo à oncologia


A Universidade do Porto acaba de criar o primeiro Programa Doutoral em Física Médica em Portugal. O objetivo é claro: formar os físicos que vão desenvolver tratamentos de saúde do presente e do futuro, através de técnicas de diagnóstico mais precisas e de terapias mais seguras. As candidaturas já estão abertas para o próximo ano letivo.

Este novo ciclo de estudos resulta de uma colaboração inédita entre a Faculdade de Ciências (FCUP), a Faculdade de Medicina (FMUP), o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e o Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO Porto).

O que faz, afinal, um físico médico? Na prática, é o cientista que garante que a tecnologia de ponta usada nos hospitais funciona em perfeita harmonia. Esta profissão, pouco conhecida do grande público, é uma peça fundamental no funcionamento de qualquer serviço de oncologia, radiologia ou medicina nuclear.

“O físico médico deve aplicar conceitos físicos extremamente avançados para assegurar que a radiação é uma ferramenta de cura e não um risco acrescido. É ele que equilibra a proteção do doente com a eficácia do tratamento»”, explica Pedro Teles, docente da FCUP e diretor deste novo programa doutoral.

Parceria com o maior núcleo de física médica em Portugal

Este doutoramento, com aplicação direta em investigação ligada ao cancro, surge em parceria com o IPO Porto, onde está localizado o maior núcleo de física médica em Portugal. Nesta instituição, será construído, em breve, um novo centro de protonterapia, uma forma avançada de radioterapia que utiliza feixes de protões para destruir células cancerígenas.

Nos últimos anos, a medicina transformou-se. Os tratamentos contra o cancro são hoje mais eficazes, mais personalizados e menos agressivos do que há uma década. Por trás desta evolução está, em grande parte, a Física Médica — a disciplina que assegura que cada dose de radiação é calculada ao pormenor, que cada imagem de diagnóstico é otimizada, e que os novos equipamentos funcionam com a máxima segurança.

Entre as saídas profissionais deste ciclo de estudos estão a carreira académica e de investigação em universidades e centros de I&D, a investigação clínica em hospitais e instituições do SNS, indústria de equipamentos médicos e farmacêutica, e a consultoria técnica e regulamentar em proteção radiológica.

Um curso personalizável e a pensar em quem já está a trabalhar

O programa tem a duração de três anos e combina uma componente curricular avançada no primeiro semestre com uma tese de investigação original. “A estrutura é modular: cada estudante pode escolher os módulos que melhor se ajustam ao seu perfil e à sua área de investigação, em domínios que vão da física das radiações e da imagiologia à nanomedicina e à fotónica biomédica”, detalha Pedro Teles.

Este curso irá funcionar em regime misto — diurno e/ou pós-laboral — permitindo que profissionais já a trabalhar em hospitais e clínicas possam frequentar o doutoramento sem interromper a sua atividade. Uma resposta concreta a uma necessidade antiga da comunidade de física médica em Portugal.

O programa admite até 20 estudantes por ano e está aberto a titulares de 2.º ciclo em Física Médica, Física, Engenharia Física ou áreas afins, com um mínimo de 36 ECTS em Física e Matemática.

A criação deste doutoramento dá continuidade a um percurso pioneiro da U.Porto: em 2008, foi a primeira universidade portuguesa a lançar um Mestrado em Física Médica, com sede na FCUP, antecipando em mais de uma década as exigências que a legislação europeia viria a impor na formação destes profissionais.

A Física Médica é uma das áreas com maior crescimento a nível global. As novas terapias contra o cancro, a personalização dos tratamentos e a integração de novas tecnologias na prática clínica criam uma procura crescente de investigadores altamente qualificados.

Antes, quem se queria especializar nesta área tinha de sair do país e geralmente não voltava. Agora, este novo doutoramento, com uma primeira fase de candidaturas aberta até 2 de abril de 2026, vai mudar esta realidade e fixar talento nacional para assegurar mais e melhor saúde em Portugal. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 2 de março de 2026

Internacional - Cancro do colo do útero: Papanicolau "inteligente" pode revolucionar diagnóstico

Fernando Schmitt (FMUP/RISE-Health) assina artigo na "Nature" que revela novo método para a deteção de células cancerígenas, com base em inteligência artificial e tecnologia 3D


Uma equipa internacional de cientistas, da qual faz parte o cientista português Fernando Schmitt, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e diretor da Unidade de Investigação RISE-Health, promete revolucionar o diagnóstico do cancro do colo do útero com uma abordagem inovadora em relação à citologia cervical, mais conhecida como teste de Papanicolau.

O trabalho agora publicado na revista Nature, uma das mais importantes revistas científicas a nível mundial, demonstrou as vantagens de uma nova forma de análise automatizada de amostras de células do colo do útero com recurso à inteligência artificial, em comparação com o método tradicional de citologia clínica. O objetivo é avançar mais precocemente para tratamentos que salvam vidas.

“A utilização da inteligência artificial na clínica permite avaliar as características celulares e classificá-las como normais ou anómalas”, explica Fernando Schmitt, reconhecido a nível internacional como uma das maiores referências mundiais nas áreas de citopatologia.

Intitulado “Clinical-grade autonomous cytopathology through whole- slide edge tomography”, este trabalho de investigação contou também com cientistas, hospitais e empresas de referência do Japão, China e EUA.

De acordo com o professor da FMUP, a automatização deste rastreio vem acelerar o diagnóstico de cancro do colo do útero, doença causada principalmente pela infeção por Papilomavírus Humano (HPV), transmitido por via sexual, e que representa um dos principais tipos de cancros nas mulheres.

Atualmente, as células colhidas são avaliadas no microscópio pelo olhar do profissional. O processo tem, no entanto, algumas desvantagens, como a subjetividade da interpretação e a variabilidade do resultado.

Este novo sistema de inteligência artificial aplicado à citologia tradicional é o primeiro que consegue, de forma completamente autónoma, fazer uma triagem das células anormais, permitindo um diagnóstico mais rápido, mais preciso e mais objetivo.

Como explica Fernando Schimtt, “a automatização da citopatologia pode também detetar lesões precoces, acelerando e melhorando o diagnóstico do cancro”.

O novo método faz um scan das células e reconstrói, em tempo real, uma imagem em 3D que permite “ver” melhor as suas características. Depois, a plataforma utiliza algoritmos avançados para agrupar perfis semelhantes e identificar células anormais com maior exatidão, diminuindo o risco de erro humano.

Do laboratório para a clínica

Esta abordagem com recurso à IA, já testada e validada com milhares de amostras de doentes reais, poderá agora ajudar profissionais e laboratórios de anatomia patológica, ao fornecer um “mapa visual” da classificação das células, o que constituirá uma mais-valia relativamente ao método convencional

Os autores do estudo partilham o entusiasmo e a vontade de implementar este novo método de diagnóstico na prática clínica, num futuro próximo, com ganhos previsíveis para os doentes, para os sistemas de saúde e para a qualidade de vida das populações à escala global.

Espera-se que esta tecnologia possa estar acessível em vários países, constituindo-se como um importante instrumento na abordagem ao cancro do colo do útero, que continua a afetar mulheres em todo o mundo. Os sintomas de alerta incluem hemorragia vaginal anormal, aumento do corrimento vaginal, dor pélvica e dor durante as relações sexuais. Universidade do Porto – Portugal


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto mostra que solidão leva idosos a utilizar mais recursos de saúde

Estudo da Faculdade de Medicina revela que a maior procura por cuidados médicos poderá refletir a ausência de relações sociais significativas


“Quanto maior o nível de solidão, maior é a utilização de recursos de saúde”. A conclusão resulta de um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que identificou um maior número de consultas, mais episódios de ida às urgências e um consumo mais elevado de medicamentos entre idosos que apresentam solidão severa.

De acordo com os investigadores, a solidão surge como um determinante clínico que aumenta a procura de cuidados médicos, não por agravamento da doença, mas frequentemente como forma de substituir a ausência de relações sociais, com potenciais impactos humanos e económicos relevantes.

Neste estudo, os investigadores realizaram um inquérito a mais de 300 pessoas idosas residentes no Baixo Alentejo, uma região predominantemente rural, envelhecida e socialmente vulnerável. Os resultados mostram que mais de metade dos participantes referiram solidão leve e cerca de 15% apresentaram níveis de solidão severa.

“A solidão severa associou-se a uma média de quase sete medicamentos por dia, cerca de seis consultas anuais nos cuidados de saúde primários e duas visitas ao serviço de urgência, números substancialmente superiores aos observados nos participantes sem solidão”, revela Paulo Santos, professor da FMUP e um dos autores do estudo.

Solução não pode passar por prescrever mais comprimidos

Os investigadores alertam também que “a falta de identificação da solidão como qualquer outro fator de risco contribui para a medicalização do sofrimento social e para respostas de saúde menos ajustadas às necessidades reais das pessoas idosas”, lembrando que “a solidão é prevenível, identificável e dispõe de tratamento adequado”.

Publicado na revista European Geriatric Medicine, os resultados do estudo sublinham a necessidade de mudanças estruturais na forma como a solidão é reconhecida e tratada, incluindo um reforço do investimento em transportes, espaços públicos, programas comunitários e estratégias de envelhecimento ativo.

Para os autores, medidas como integrar o rastreio sistemático da solidão nos cuidados de saúde e implementar modelos de prescrição social, tais como atividades comunitárias, programas intergeracionais ou grupos de vizinhança, são uma resposta eficaz e alinhada com a evidência internacional.

“A solidão afeta negativamente a saúde dos idosos e acarreta uma maior pressão sobre o sistema de saúde. A solução não pode passar pela prescrição de mais comprimidos, mas sim por reforçar este sentido de comunidade”, conclui Paulo Santos.

O estudo, intitulado “A solidão como determinante da utilização dos serviços de saúde em idosos”, contou ainda com a participação de Ângela Mira e Cristina Galvão, médicas e investigadoras da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 14 de abril de 2025

Portugal - Faculdade de Ciências da Universidade do Porto na vanguarda do combate à doença de Parkinson

O desenvolvimento de novos fármacos e a nanomedicina são algumas das estratégias que estão a mobilizar os cientistas da Faculdade de Ciências



Na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), mais especificamente no Departamento de Química e Bioquímica, há duas equipas focadas em novas terapias para o tratamento da doença de Parkinson. Neste Dia Mundial da Doença de Parkinson, fomos conhecer duas abordagens diferentes, mas complementares, para dar conta da investigação da FCUP no âmbito desta doença.

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa que afeta as regiões do cérebro humano responsáveis pelo controlo dos movimentos, resultando principalmente da deterioração de neurónios dopaminérgicos. Para além de fármacos para aumentar os níveis de dopamina no cérebro, existem outras estratégias como o recurso a agonistas dopaminérgicos que visam potenciar e prolongar a ação da dopamina: os inibidores da monoamina oxidase B (MAO-B) e os inibidores da catecol-O-metiltransferase (COMT).

É precisamente sobre os inibidores COMT que o grupo de Química Biológica e Medicinal do Centro de Investigação em Química da Universidade do Porto (CIQUP-IMS), liderado pela docente da FCUP, Fernanda Borges, tem estado a trabalhar nos últimos anos, entre outras abordagens.

Em concreto, os investigadores recorreram à nanomedicina, nomeadamente através da utilização de nanopartículas poliméricas ou lipídicas como veículos para fármacos. O objetivo é fazer chegar ao seu destino e de forma mais eficiente os inibidores da COMT.

“No contexto dos inibidores da COMT atualmente aprovados para uso clínico, destacam-se três compostos com estrutura nitrocatecólica: tolcapona, entacapona e opicapona. A tolcapona é um inibidor potente, com ação a nível central e periférico, mas o seu uso clínico está limitado pelo risco de toxicidade hepática grave, sendo, ainda assim, utilizada pela sua elevada eficácia”, explicam os investigadores deste grupo.

Neste âmbito, os cientistas desenvolveram uma formulação de tolcapona encapsulada em nanopartículas poliméricas funcionalizadas com oligossacarídeos, o que resultou numa marcada redução da toxicidade hepática em modelos celulares, mantendo-se a eficácia farmacológica.

Este trabalho pioneiro, dado que esta abordagem nunca havia sido aplicada à tolcapona, foi publicado na revista ACS Applied Materials & Interfaces, com um fator de impacto de 8.5.

Estes avanços reforçam a relevância da nanotecnologia na reformulação de fármacos já existentes, com vista à melhoria do seu perfil de segurança e eficácia.

Um novo e mais seguro inibidor 

O grupo também desenvolveu um novo inibidor da COMT que poderá ser usado como alternativa às opções atualmente disponíveis na prática clínica. Em colaboração com a Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP), demonstraram, em modelos celulares, que este novo inibidor poderá constituir uma alternativa mais segura à tolcapona e, contrariamente à entacapona e à opicapona, poderá exercer o seu efeito terapêutico ao nível do cérebro.

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do projeto “COMT4BRAIN: Development of centrally-active and safe catechol O-methyltransferase inhibitors”, financiado em 250 mil euros pelo COMPETE/ Fundação para a Ciência e Tecnologia. Os resultados obtidos com o novo inibidor da COMT foram recentemente patenteados a nível nacional e encontram-se também publicados na revista Journal of Medicinal Chemistry.

Atualmente, em dois projetos de investigação em conjunto com a FMUP, um deles financiado ao abrigo do programa BIP Proof, estão a desenvolver ensaios pré-clínicos mais robustos em modelos in vitro e in vivo, para avaliar outros efeitos benéficos do novo inibidor da COMT para minimizar (ou até mesmo prevenir) a neurodegeneração na doença de Parkinson. 

A equipa do Grupo de Química Biológica e Medicinal do CIQUP-IMS envolvida neste trabalho integra ainda os investigadores Carlos Fernandes, Daniel Chavarria, Sofia Benfeito e Carla Lima.

Novo fármaco para o tratamento do Parkinson em desenvolvimento

Os fármacos existentes no mercado têm como objetivo aumentar a produção de dopamina no sistema nervoso central. No entanto, ao longo dos anos, estes medicamentos perdem eficácia, havendo necessidade de administrar doses mais elevadas, o que resulta em efeitos secundários que, em muitos casos, podem até exacerbar os sintomas da doença.

Uma equipa de cientistas do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV-REQUIMTE) tem estado a avançar com um novo fármaco para o tratamento da doença de Parkinson, mais eficiente e com menos efeitos secundários do que os atualmente usados.

“O que acontece na doença de Parkinson é que os baixos níveis de dopamina não são suficientes para ativar os recetores de forma adequada e, por conseguinte, comprometem a ativação dos circuitos dopaminérgicos. O que nós pretendemos é aumentar a afinidade destes recetores para a dopamina e, assim, conseguir que os sintomas motores sejam atenuados mesmo a concentrações baixas deste neurotransmissor”, salienta Ivo Dias, que lidera a equipa de investigadores do LAQV-REQUIMTE, que iniciou este trabalho com o projeto DynaPro, financiado pela FCT e que está a dar continuidade a esta investigação num novo projeto.

Com resultados promissores, a equipa já conseguiu identificar moléculas inovadoras capazes de aumentar a afinidade dos recetores de dopamina. Aliás, foram recentemente alvo de patente em Portugal e em Espanha.

Os investigadores conseguiram também já provar que estas moléculas são seguras, não apresentando toxicidade hepática ou cardíaca, e possuem capacidade de atravessar a barreira hematoencefálica, alcançando o sistema nervoso central, como pretendido.

Ensaios in vivo 

Com esses avanços, a investigação segue agora para ensaios in vivo, uma etapa crucial para determinar o potencial terapêutico das moléculas em modelos de Parkinson em roedores.

Esta equipa da FCUP é uma das poucas do mundo a trabalhar nesta abordagem terapêutica e é a única em Portugal a focar-se nos moduladores dos recetores de dopamina, nos quais se incluem a melanostatina.

A equipa está agora focada no projeto Pep2mer, financiado pela FCT, para complementar a investigação desenvolvida em moduladores dos recetores de dopamina como alternativa farmacológica para o tratamento da doença de Parkinson e conta com a colaboração da FF-USC e o Centro de Investigação em Química Biológica e Materiais Moleculares da Universidade de Santiago de Compostela (CiQUS).

Deste grupo da FCUP fazem parte Ivo Dias e José Enrique Borges, professores na FCUP e investigadores integrados do LAQV-REQUIMTE, e os investigadores do LAQV-REQUIMTE, Sara Reis, Hugo Almeida, Beatriz Lima e Xavier Correia, estudantes de doutoramento em Química Sustentável da FCUP. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 10 de março de 2025

Portugal - Estudo da Universidade do Porto alerta para impacto da «fast food» no sistema nervoso

Trabalho conduzido pela investigadora Diana Silva (FMUP) mostra resposta rápida de “stress” após ingestão de açúcares e gorduras saturadas e alerta para importância das escolhas alimentares diárias



Uma simples refeição com fast food, rica em açúcares e gorduras saturadas, pode ter um impacto negativo imediato no nosso sistema nervoso e nas nossas vias aéreas, induzindo stress e inflamação. A conclusão é de um estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) com o objetivo de comparar o efeito de duas refeições – mediterrânica (com sopa, salada, azeite, sardinhas, massa integral, fruta e água) e fast food (com hambúrgueres, batatas fritas e bebidas açucaradas) – nas vias respiratórias e no sistema nervoso autónomo, que regula processos fisiológicos da área digestiva, cardiovascular e de resposta ao stress.

A equipa de Imunologia da FMUP, em cooperação com a Faculdade de Ciências de Nutrição e Alimentação (FCNAUP) e a Faculdade de Desporto (FADEUP) da Universidade do Porto, realizou um ensaio clínico que contou com 46 voluntários entre os 18 e os 35 anos, incluindo pessoas saudáveis, com excesso de peso/obesidade e com asma. Todos os participantes ingeriram ambas as refeições, com um intervalo de sete dias entre cada.

Os resultados, publicados na revista científica Nutrients, indicam que basta uma única refeição com alimentos ricos em açúcares, gorduras saturadas, mas pobre em fibras e micronutrientes para desregular o sistema nervoso autónomo, ao passo que uma única refeição de tipo mediterrânico terá um efeito protetor instantâneo, defendendo do stress e da inflamação.

“O nosso estudo mostra que uma única refeição é capaz de induzir uma resposta rápida do sistema nervoso e de influenciar imediatamente o nosso bem-estar e a nossa saúde”, afirma Diana Silva, investigadora da FMUP e principal autora deste estudo.

De acordo com os resultados obtidos, “o sistema nervoso autónomo reage de forma diferente a uma refeição mediterrânica ou à fast food, com as mesmas quilocalorias. A refeição mediterrânica induz uma maior resposta do sistema nervoso parassimpático, protegendo do stress. Pelo contrário, a fast food ativa sobretudo o sistema nervoso simpático, mais ligado ao stress”.

Neste trabalho, a ativação do sistema nervoso foi medida através de pupilometria (resposta da pupila à luz). “A pupila dilata quando há uma ativação do sistema nervoso simpático, nomeadamente em situações de stress. No caso de ativação do sistema nervoso parassimpático, há uma maior constrição da pupila”, explica.

Como esclarece a investigadora da FMUP, a ativação do sistema nervoso simpático observada com a fast food é uma resposta involuntária do nosso organismo em situações de perigo ou ameaça, gerando uma reação fisiológica de luta e fuga (“fight and flight”).

Esta investigação analisou também a função respiratória dos participantes, com recurso a espirometria, e a resposta inflamatória das vias aéreas, através do óxido nítrico no ar exalado (FENO), antes e após cada refeição. Embora a redução da função respiratória tenha sido independente do tipo de refeição, observou-se uma tendência para uma maior inflamação com a fast food.

Vários estudos haviam já evidenciado que a fast food, quando consumida de forma contínua, aumenta o risco de obesidade, asma e de doenças metabólicas e cardiovasculares a longo prazo. Estas novas descobertas vêm chamar a atenção para a importância das escolhas alimentares que fazemos no dia a dia.

Para Diana Silva, “é importante escolhermos bem o que comemos hoje. As nossas opções diárias têm impacto no nosso bem-estar e na nossa saúde. Ao melhorarmos a nossa alimentação, melhoramos também a regulação do nosso sistema nervoso autónomo. Não podemos ser extremistas, mas se estivermos numa situação de maior stress, se não estivermos tão bem, é importante que a nossa escolha, naquele dia, seja mais saudável”, recomenda. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 3 de março de 2025

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto revela antidiabético promissor no tratamento da infertilidade

Descoberta poderá ter repercussões no tratamento de doentes com endometriose. Investigadores comprovaram benefícios de fármaco no modelo animal



A infertilidade em mulheres com endometriose está mais perto de ter tratamento. Um grupo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) identificou um fármaco que consegue reverter a infertilidade associada à endometriose, doença que impede muitas mulheres de serem mães, além de provocar dor e incapacidade.

A descoberta, feita em modelo animal, permite revelar mecanismos até aqui desconhecidos e abre caminho a novas abordagens terapêuticas na prática clínica, de acordo com o artigo publicado já este ano na revista científica Reproductive Biomedicine Online (RBMO).

Liderado por Delminda Neves, este grupo demonstrou que a metformina, um antidiabético oral usado há muitos anos na diabetes tipo 2 para controlar os níveis de açúcar no sangue (glicemia), é eficaz a tratar a infertilidade.

Mas não é tudo. Neste trabalho, que integra o Doutoramento em Biomedicina de Ana Catarina Neto, os investigadores da FMUP demonstraram outros efeitos benéficos do fármaco na endometriose, o que, no futuro, poderá levar ao seu reaproveitamento.

“A metformina não só aumenta a fertilidade, de modo estatisticamente significativo, como estabiliza o crescimento do tecido do endométrio com localização anormal (ectópico), aumenta a expressão de moléculas antioxidantes e diminui a fibrose (tecido não funcional típico das lesões endometrióticas) no endométrio. Isto é muito promissor”, afirma Delminda Neves.

De acordo com a professora e investigadora da FMUP, o facto de este fármaco já ser usado na diabetes gestacional (diabetes que surge durante a gravidez) pode ser uma mais-valia. Atualmente, os tratamentos mais eficazes para a endometriose têm de ser descontinuados antes da gravidez. “É importante saber que, caso haja recomendação para a prescrição deste fármaco na endometriose, ele pode ser usado na preconceção e na gravidez”, indica.

A infertilidade associada à endometriose será explicada, pelo menos em parte, pelas características do endométrio, camada que reveste o útero e que, nestas mulheres, está alterado, o que dificulta ou impede a gestação, mas também por razões sistémicas, envolvendo diferentes órgãos e tecidos, como é o caso do tecido adiposo.

A equipa de Delminda Neves já havia constatado que o tecido adiposo visceral (na zona abdominal e pélvica) sofre alterações da sua forma e da sua função, como um aumento de moléculas pró-inflamatórias e um gasto mais rápido de energia (hipermetabolismo), tal como acontece no cancro, por exemplo. Publicada na revista científica Archives of Medical Research, esta conclusão resulta da análise molecular a tecidos de mulheres com endometriose, no âmbito de uma colaboração com a ULS S. João, e do trabalho desenvolvido por José Pedro Abobeleira, no Mestrado Integrado em Medicina da FMUP.

“Havendo outros órgãos a influenciar a progressão da endometriose, poderão surgir fármacos que tenham como alvo não somente a regulação de hormonas como o estrogénio, como acontece atualmente, mas que atuem também no tecido adiposo. A metformina é, por isso, um forte candidato”, acrescenta a investigadora.

O grupo vai agora tentar perceber se este fármaco, para além de controlar a endometriose, poderá ser utilizado também para prevenir a possível progressão para tumores, como o cancro do endométrio e o cancro do ovário. “Vamos continuar a estudar de que modo reagem ao tratamento as células de tecido humano, provenientes de mulheres com endometriose. Queremos entender se o efeito da metformina nas células em cultura é sobreponível ao que vimos no modelo animal”, indica.

A equipa que desenvolveu estes trabalhos é composta por vários cientistas da FMUP e do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da U.Porto, nomeadamente, Alexandra Gouveia, Adriana Rodrigues, Henrique Almeida, além de Delminda Neves. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto alerta para sintomas de endometriose em adolescentes e jovens

Estudo analisou métodos não invasivos para diagnóstico mais precoce desta doença, que é uma causa frequente de abstinência escolar



As dores menstruais são o principal sintoma de endometriose em adolescentes e jovens mulheres, como indica um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), publicado no Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology.

Coordenada por Pedro Viana Pinto e João Bernardes, docentes da FMUP, a equipa avaliou estudos internacionais envolvendo cerca de 2200 adolescentes e jovens com idades compreendidas entre os 8 e os 25 anos e suspeita de endometriose.

Descrita pela primeira vez na década de 1940, a endometriose é uma reação inflamatória causada pela presença de tecido endometrial fora do útero, principalmente nos ovários, peritoneu e órgãos adjacentes, como bexiga e reto. Embora seja considerada benigna, esta patologia pode causar dor incapacitante, lesões severas nos órgãos afetados e infertilidade, além de ter um forte impacto na qualidade de vida.

O estudo da FMUP analisou os sintomas e a eficácia de métodos de diagnóstico não invasivos, designadamente a ecografia ginecológica e a ressonância magnética, na obtenção de um diagnóstico precoce. Atualmente, estima-se que seis em cada dez mulheres com doença não têm um diagnóstico estabelecido.

Os resultados deste estudo mostram que as cólicas menstruais (que habitualmente precedem a menstruação e afetam sobretudo o abdómen) e a dor pélvica persistente são os sintomas mais comuns da doença na população em estudo.

“A dor menstrual intensa não deve ser considerada normal e deve ser avaliada o mais precocemente possível, com vista a melhorar a qualidade de vida destas mulheres. Neste grupo de adolescentes e jovens, a dor parece ser mesmo mais severa do que em mulheres mais velhas, favorecendo a teoria de que a doença mais inicial pode ser mais sintomática e progressiva”, refere Pedro Viana Pinto, da FMUP.

As faltas às aulas constituem outro sinal de alerta.” A endometriose é uma causa frequente de abstinência escolar, sendo este um sinal que deve chamar a atenção para esta doença”, aconselha o investigador da FMUP.

“É essencial reconhecer precocemente os sintomas”

Para Pedro Viana Pinto, “é essencial reconhecer precocemente os sintomas e procurar fazer o diagnóstico, de forma proativa, de modo a ajudar as mulheres que sofrem desta condição ginecológica”.

Este trabalho realça, a propósito, a importância do diagnóstico não invasivo de endometriose entre as adolescentes. “A ecografia e, sobretudo, a ressonância magnética poderão ter um papel importante, podendo dispensar a necessidade de cirurgia, tal como já acontece nas mulheres adultas”, reforçam os autores.

Com efeito, entre as adolescentes e jovens com sintomas suspeitos de endometriose, cerca de 33% apresentaram pelo menos um sinal da doença em ecografia. Entre as que tinham endometriose confirmada ecograficamente, 48,5% tinham endometriose profunda, infiltrativa, e 45% apresentavam endometriose ovárica. Nas raparigas e jovens selecionadas e que se submeteram a ressonância magnética, metade tinha sinais de endometriose.

“A ressonância magnética parece ser uma ferramenta de diagnóstico promissora, mesmo em doentes com ecografia prévia considerada normal. Nesta faixa etária, pelas eventuais limitações à técnica de ecografia inerentes, a ressonância pode apresentar um lugar ainda mais relevante para um diagnóstico mais precoce e atempado desta doença”, admitem.

O estudo, intitulado “Non-invasive diagnosis of endometriosis in adolescents and young female adults: a systematic review”, contou com a participação deInês Jerónimo Oliveira, no âmbito do Mestrado Integrado em Medicina na FMUP, a par de Pedro Viana Pinto e João Bernardes, professores de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina. Universidade do Porto - Portugal 


terça-feira, 8 de outubro de 2024

Portugal - Investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto calcula valor monetário de envelhecer com saúde

Estudo mostra que ser saudável depois dos 65 anos constitui um “ganho financeiro”. O Dia Internacional do Idoso comemorou-se no passado dia 1 de outubro


Historicamente, o crescimento económico tem sido atribuído à população em idade ativa, esquecendo sistematicamente os mais velhos, que são encarados, erradamente, como um fardo e prejudicando a aposta no envelhecimento saudável das populações.

Os países estão preocupados com o aumento da despesa que poderá advir do envelhecimento da população. Mas, longe de darem apenas despesa, as pessoas idosas podem gerar ganhos económicos consideráveis em atividades que estão “fora do mercado” e que habitualmente não são medidas em “preços” ou não são remuneradas. Num trabalho publicado na revista científica Social Science & Medicine, e no âmbito do trabalho desenvolvido através do European Observatory on Health Systems and Policies, João Vasco Santos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), propõe um novo método que permite estimar o valor monetário de envelhecer com saúde.

De acordo com a análise realizada, que utilizou o Reino Unido como caso de estudo, a diferença entre estar de “boa saúde” ou de “má saúde” pode representar cerca de 19% do Produto Interno Bruto (PIB) per capita entre os 65 e os 74 anos e 27% do PIB per capita na população entre os 75 e 84 anos.

Este estudo indica que as pessoas que envelhecem de forma saudável representam um ganho financeiro que pode ser traduzido em euros ou em qualquer outra moeda. Para isso, há que contabilizar o tempo que estas pessoas passam em atividades como arrumar a casa, cozinhar, tratar das compras, levar as crianças à escola, prestar cuidados a um familiar ou fazer voluntariado, por exemplo.

“Envelhecer com saúde pode gerar um valor económico”

Como sublinha João Vasco Santos, estas atividades, embora essenciais para a sociedade, “permanecem invisíveis nas avaliações económicas convencionais”, não sendo compensadas financeiramente, apesar de apresentarem valor económico”.

“Envelhecer com saúde pode gerar um valor económico que não é observável se utilizarmos medidas tradicionais. O nosso método quantifica o valor monetário da saúde nos mais velhos e pode ser utilizado como argumento para investir no envelhecimento saudável”, afirma.

Historicamente, o crescimento económico tem sido atribuído à população em idade ativa, esquecendo sistematicamente os mais velhos, que são encarados, erradamente, como um fardo e prejudicando a aposta no envelhecimento saudável das populações.

“Pelo contrário, sabemos que investir na saúde destas pessoas pode ser uma decisão política e económica estratégica. No entanto, o investimento no envelhecimento saudável deve ser visto sob outro prisma, tentando manter uma boa saúde em vez de apenas recuperar da doença”, considera o professor da FMUP.

Além de professor e investigador, João Vasco Santos é investigador do CINTESIS@RISE, médico de saúde pública na ULS Santo António, e Presidente da EUPHA Public Health Economics. Assina também o estudo Jonathan Cylus, do responsável do hub de Londres do European Observatory on Health Systems and Policies e economista da saúde do Barcelona Office for Health Systems Financing da Organização Mundial da Saúde. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto apresenta resultados do projeto que está a estudar o coração das grávidas

A Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) vai promover, no próximo dia 4 de outubro, o “I Encontro PERIMYR & OralBioBorn”, com o objetivo de apresentar os resultados do projeto que está a estudar o coração de mulheres grávidas para investigar a insuficiência cardíaca


A sessão, que terá início às 14h00, na biblioteca do Departamento de Cirurgia e Fisiologia (piso 6 do CIM-FMUP), irá reunir investigadores e participantes do projeto iniciado em 2019.

“Pretendemos divulgar os resultados obtidos durante estes cinco anos, bem como criar um momento de networking entre os diversos envolvidos e fomentar a discussão de planos futuros, para que possam surgir novas colaborações para o “PERIMYR & OralBioBorn”, adianta Inês Falcão Pires, professora da FMUP e uma das coordenadoras do projeto.

O programa deste encontro terá início com uma sessão de boas-vindas e uma breve apresentação de cada um dos estudos por parte das investigadoras principais: Inês Falcão Pires (FMUP), Benedita Sampaio Maia (FMDUP), e Egija Zaura, investigadora principal do consórcio internacional METAHEALTH.

Seguir-se-á a apresentação dos principais resultados de teses de doutoramento e de mestrado já concluídas no âmbito desta coorte, e de outros trabalhos em curso.

Antes da apresentação dos resultados à comunidade, nomeadamente às participantes grávidas recrutadas para este estudo, haverá um momento de discussão sobre quatro áreas temáticas do projeto: saúde cardiovascular da mulher, saúde oral da mãe e da criança, microbioma humano e medicina de estilos de vida.

As pessoas interessadas em participar neste encontro devem realizar inscrição previamente, através do preenchimento do respetivo formulário.

Estudo mantém recrutamento de mais mulheres grávidas

Atualmente, o “PERIMYR & OralBioBorn” continua a recrutar participantes para responderem a novos objetivos que foram crescendo a partir do projeto inicial.

Recorde-se que o projeto é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a Maratona da Saúde 2017 e pela Bolsa João Porto 2019, atribuída pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Em 2022, o projeto recebeu financiamento internacional, o que permitiu a extensão do follow-up às grávidas recrutadas até aos três anos após o parto. Universidade do Porto - Portugal

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto alerta para riscos de injeções com “fillers” para rejuvenescimento facial

Investigadores apelam a uma maior consciencialização para os riscos envolvidos no procedimento e pedem uma "fiscalização mais apertada”


Embora sejam geralmente seguras, as injeções com “fillers” para rejuvenescimento ou harmonização facial podem resultar em complicações graves, como cegueira, infeção, perda de pele e cicatrizes. O alerta é de uma investigação desenvolvida na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Coordenado por Marisa Marques, professora da FMUP e especialista em Cirurgia Plástica, este trabalho analisou dados de mais de 9600 pacientes (94% mulheres) e mais de 9800 procedimentos com “fillers”, em diferentes países. A esmagadora maioria dos preenchimentos (99%) foi feita com ácido hialurónico, a substância mais usada a nível mundial e a mais segura.

Os investigadores verificaram que 701 pacientes desenvolveram uma ou mais complicações relacionadas com o procedimento, num total de 1116 complicações, sendo que 750 ficaram a dever-se a oclusão vascular, o que significa que o produto foi aplicado num vaso sanguíneo, levando à obstrução do fluxo do sangue e à morte das células.

Apesar de mais de dois terços dos pacientes com complicações terem recuperado completamente, houve com sequelas graves, sendo a mais frequente a perda de pele do rosto. Dos 153 pacientes que perderam a visão, apenas três a recuperaram.

“Cerca de 21% dos pacientes com complicações ficaram com cicatrizes na face, com défices significativos na visão ou mesmo cegos”, indica Marisa Marques.

A maioria das complicações ocorreu nas denominadas “zonas perigosas”, que incluem as áreas acima das sobrancelhas e entre estas, abaixo dos olhos, nos lábios, nariz e no vulgarmente conhecido como “bigode de chinês”.

“É fundamental que as pessoas estejam conscientes dos riscos”

Face a estas conclusões, a equipa da FMUP quer que exista uma maior informação ao público sobre os riscos envolvidos. “É fundamental que as pessoas estejam conscientes dos riscos associados a estes procedimentos, que são muitas vezes publicitados nas redes sociais como fáceis e isentos de riscos, o que não é verdade”, alerta Inês Sousa, estudante da FMUP que concluiu o Mestrado Integrado em Medicina com este trabalho.

Marisa Marques considera “imperativo” que estes procedimentos sejam efetuados por médicos, mas apenas pelos médicos que estão qualificados para tal, isto é, que tenham formação nesta área ou uma competência homologada.

Como sublinha a docente da FMUP, “as complicações podem surgir com qualquer profissional, mas a falta de qualificações e de experiência clínica aumenta substancialmente o risco”.

Por isso, “além de ser mandatório o conhecimento da anatomia do rosto, os profissionais envolvidos devem respeitar as recomendações técnicas, como a desinfeção da pele, utilização de luvas e material esterilizado, colocar pequenas quantidades de “filler” e aspirar antes de injetar o produto, para assegurarem que não estão a injetar dentro de um vaso sanguíneo”.

Investigadores pedem “fiscalização mais apertada”

Em 2023, a Ordem dos Médicos aprovou a criação da Subespecialidade em Medicina Estética dentro das especialidades de Cirurgia Plástica e Dermatologia, que estão de antemão habilitadas para a sua prática, sendo necessário às restantes especialidades obter a denominada Competência em Medicina Estética.

De acordo com Marisa Marques, esta medida visa regular a prática desta atividade médica, vedando-a a médicos sem formação ou com formação deficitária na área, bem como a não-médicos (o chamado intrusismo), num setor ainda “muito carente de legislação, regulação e fiscalização”.

A coordenadora do estudo considera que as complicações de injeções com “fillers” podem estar subestimadas, tendo em conta que “muitos procedimentos não são sequer realizados por médicos, nem em clínicas ou unidades de saúde competentes para o efeito, e que as complicações não são reportadas”. No entanto, reconhece que podem estar sobrestimadas porque “quando não se tem qualquer complicação, normalmente não se publica”.

Nesse sentido, a professora da FMUP considera que as autoridades de saúde têm de fazer “uma fiscalização mais apertada” aos locais onde os “fillers” são injetados e aos profissionais que os aplicam, de modo a garantir a segurança dos pacientes.

Esta revisão sistemática de artigos científicos incluiu mais 43 artigos publicados em três bases de dados, selecionados a partir 1699 artigos com “fillers” aprovados pela Food and Drug Administration (FDA). O trabalho contou com orientação de Marisa Marques, professora da FMUP, e coorientação de António Sousa Barros, investigador da FMUP e especialista na área da análise estatística. Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 22 de abril de 2024

Portugal - Investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto cria biomaterial para tratar infeções ósseas

O produto desenvolvido por Nuno Alegrete desenvolveu já está patenteado a nível internacional e tem gerado o interesse de várias empresas


Uma investigação realizada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) permitiu criar um novo biomaterial para tratar infeções ósseas comuns, altamente incapacitantes e potencialmente catastróficas. O produto tem uma patente internacional e no Brasil e já há empresas a demonstrar interesse em apostar na sua comercialização.

Conduzido por Nuno Alegrete, doutorado pela FMUP, este trabalho é o culminar de mais de uma década de experiências realizadas em laboratório (in vitro) e em modelo animal (in vivo). O objetivo era preencher uma lacuna na investigação e desenvolver um substituto ósseo mais eficaz, mais seguro e muito mais barato.

O biomaterial, produzido em laboratório, é composto por hidroxiapatite (um mineral baseado em fosfato de cálcio e o principal constituinte do osso), à qual se acrescentou colagénio (proteína que estimula a formação de osso), heparina (um anticoagulante) e antibiótico (no caso, a vancomicina).

Depois de colocado na cavidade óssea infetada, o antibiótico é libertado durante o tempo necessário para eliminar a infeção óssea (osteomielite) e o biomaterial é progressivamente incorporado, levando ao preenchimento da cavidade por novo osso.

“Conseguimos obter um produto que liberta o antibiótico por um período de 19 dias, de forma a tratar a infeção, ao mesmo tempo que promove a osteointegração, com segurança do ponto de vista da toxicidade celular. A maior parte das osteomielites poderá ser tratada desta forma”, congratula-se o investigador da FMUP.

O processo obrigou a ultrapassar diversos desafios, desde o cálculo da temperatura ideal para sinterizar o material, até à determinação das doses de concentrações mais eficazes de colagénio e de heparina.

Nuno Alegrete defende que este novo biomaterial permitirá melhorar o tratamento das infeções ósseas, um problema de saúde que diagnostica com frequência na sua prática clínica enquanto médico ortopedista.

“As infeções ósseas são um desafio, em Ortopedia, porque são extremamente difíceis de tratar, apresentam um risco elevado de recaída e de disseminação à distância, e obrigam a tratamentos prolongados com antibióticos sistémicos, que se associam a efeitos adversos, por vezes graves”, esclarece.

De acordo com o investigador, “a osteomielite resulta do atingimento do osso por um micróbio, habitualmente uma bactéria, que pode transmitir-se pela corrente sanguínea (sobretudo em crianças), através de uma ferida, de uma fratura exposta ou cirurgia, ou a partir de uma infeção numa zona próxima”. O aumento das cirurgias para colocação de implantes, placas e próteses potencia o risco destas infeções de uma forma “preocupante”.

“Por mais esterilização que exista, há uma corrida entre as bactérias e as defesas dos doentes. Quando as bactérias se ligam ao osso, começam a multiplicar-se e criam zonas de osso morto (“sequestros”), onde o sangue e os antibióticos não conseguem chegar. Essa infeção pode arrastar-se durante anos ou décadas, tornando-se crónica”, descreve.

Se não for tratada, a osteomielite destrói progressivamente o osso, podendo disseminar-se, provocar fraturas, dor crónica e fístulas, requerendo múltiplas cirurgias e podendo causar incapacidade grave e mesmo morte. Em termos de autoavaliação da qualidade de vida do doente, a osteomielite tem piores resultados do que a patologia oncológica, do que os AVC e do que patologia respiratória.

Até agora, “as osteomielites obrigam à realização de cirurgia para remover os tecidos mortos infetados, o que resulta num “buraco” que tem de ser preenchido. A estratégia clássica consistia em usar um cimento ósseo (PMMA) carregado com antibiótico. No entanto, esse cimento tinha de ser retirado numa nova cirurgia porque funcionava como um corpo estranho, podendo ser, ele próprio, um foco de novas infeções”.

Segundo Nuno Alegrete, este novo substituto ósseo reúne “as características adequadas para poder ser implantado no local da infeção, libertar o antibiótico e matar as bactérias remanescentes, ao mesmo tempo que permite o preenchimento da cavidade como osso novo, sem necessidade de mais uma cirurgia. Existe ainda a possibilidade de dispensar o antibiótico por via sistémica (por via endovenosa ou oral)”.

“A produção e comercialização deste biomaterial poderá ter ainda a vantagem de diminuir as despesas em saúde uma vez que o custo de produção estimado é muito inferior ao dos substitutos ósseos existentes”, contabiliza.

Realizado no âmbito do doutoramento de Nuno Alegrete na FMUP, com orientação de Manuel Gutierres, professor da FMUP, e co-orientação de Fernando Jorge Monteiro, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP)/i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, e Susana Sousa, professora do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP)/i3S, e em conjunto com o grupo Biocomposites, do i3S , este projeto foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER). Universidade do Porto - Portugal


segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Portugal – Universidade do Porto em projeto pioneiro para melhorar alimentação em Angola

Equipa da Universidade esteve envolvida na criação da “Tabela da Composição de Alimentos do Sul de Angola”, a primeira do género a ser desenvolvida para aquele país


Foi apresentada, no passado dia 6 de dezembro, a versão preliminar da nova “Tabela da Composição de Alimentos do Sul de Angola”, a primeira tabela da composição de alimentos a ser desenvolvida naquele país africano e em cuja elaboração estiveram envolvidas docentes da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação (FCNAUP) e da Faculdade de Medicina (FMUP) da Universidade do Porto.

A “Tabela da Composição de Alimentos do Sul de Angola” foi desenvolvida no quadro do programa “FRESAN – Fortalecimento da Resiliência e da Segurança Alimentar e Nutricional em Angola”, dinamizado pela U.Porto em colaboração com o Governo de Angola, com a gestão do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., das agências locais das Nações Unidas, FAO e PNUD, e do Hospital Val D’Hebron, e com financiamento da União Europeia.

O objetivo desta parceria é contribuir para a redução da fome, da pobreza e da vulnerabilidade à insegurança alimentar e nutricional nas províncias do sul do país mais afetadas pelas alterações climáticas – o Cunene, a Huíla e o Namibe.

No caso específico da nova “Tabela”, o objetivo passa por permitir uma melhor compreensão do valor nutricional dos alimentos e das receitas locais. Trata-se, por isso, de um instrumento essencial para a intervenção nutricional e alimentar em Angola, para o desenvolvimento de intervenções e políticas públicas na área alimentar e, em particular, para combater situações de insegurança alimentar que afetam a região.


No âmbito desta parceria internacional, desenvolveu-se ainda um Pacote Pedagógico de Educação Alimentar e Nutricional que prevê a disseminação de materiais a utilizar em ações de sensibilização junto das comunidades rurais, bem como ações de formação para os profissionais de saúde e outros técnicos que intervém juntos das comunidades locais.

Liderada pelos docentes Duarte Torres, da FCNAUP, e Carla Lopes, da FMUP, a equipa técnica da U.Porto teve um papel importante na recolha de dados sobre hábitos alimentares e gastronomia local e na elaboração dos recursos educativos.

Para esse trabalho foram decisivas as visitas realizadas, entre março e  junho de 2022, pelas nutricionistas Rita Pereira Luís e Isa Viana, às províncias de Cunene, Huíla e Namibe, no sul de Angola. Nesta missão, as profissionais tiveram a oportunidade de recolher dados sobre práticas alimentares, gastronomia local e alimentos consumidos e produzidos nas três províncias, bem como de implementar diversas atividades, nomeadamente formações para profissionais de saúde das unidades sanitárias locais.

Aos representantes da Universidade coube ainda apoiar a implementação de ações de formação, nomeadamente os Grupos Temáticos de Nutrição sobre Cestas Alimentares e Demonstrações Culinárias, e a formação em nutrição para a aplicação do Questionário de Linha de Base FRESAN/Camões, I.P., dirigida aos técnicos das organizações da sociedade civil. Universidade do Porto - Portugal




segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Internacional - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto propõe nova abordagem para reduzir risco cardiovascular em doentes com diabetes tipo 2

Estudo desenvolvido por investigadores da Faculdade de Medicina avaliou a eficácia de dois fármacos combinados para reduzir de forma adicional o risco cardiovascular

Um estudo internacional liderado por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) concluiu que a combinação de dois fármacos específicos, bem conhecidos pelos médicos, pode reduzir o risco de doença cardiovascular em doentes com diabetes tipo 2.

Neste trabalho, a equipa avaliou dois grupos de fármacos com benefícios significativos e amplamente usados e seguros, mas cujo impacto do tratamento sob a forma combinada ainda não era suficientemente claro.

Segundo João Sérgio Neves, médico e investigador da FMUP, os resultados revelaram que “a utilização dos dois fármacos em simultâneo reduz de forma adicional o risco cardiovascular”, podendo contribuir para que os médicos e os doentes passem a optar com maior frequência pela utilização deste tratamento.

O investigador salienta que este é mais um pequeno passo para combater a morbilidade e a mortalidade associadas à doença cardiovascular na diabetes tipo 2, sublinhando que “os diabéticos têm um risco de enfarte do miocárdio ou AVC duas a quatro vezes superior à restante população”.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores efetuaram uma análise ao estudo internacional Harmony Outcomes, no qual havia sido avaliado o impacto do tratamento com um medicamento antidiabético da classe dos agonistas do recetor do GLP-1 em doentes diabéticos com alto risco cardiovascular.

Nesta população, os investigadores avaliaram o impacto do tratamento com um agonista do recetor do GLP-1 nos doentes com e sem tratamento simultâneo com medicamentos da classe dos inibidores SGLT2 (outro grupo de medicamentos com benefícios cardiovasculares conhecidos). Posteriormente, os resultados obtidos foram combinados com os dados de um outro estudo internacional – Amplitude-O – o que permitiu avaliar o impacto da terapêutica combinada em mais de mil doentes.

Nova recomendação em vigor

Já após a publicação deste estudo, a Sociedade Europeia de Cardiologia atualizou as suas guidelines, passando a recomendar que todos os doentes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular sejam tratados com as duas classes de fármacos em combinação, “desde que tenham indicação clínica e não apresentem contraindicações ou intolerância”, salientam os investigadores.

O artigo científico foi recentemente publicado na “Revista do Colégio Americano de Cardiologia”, uma das mais relevantes publicações da área cardiovascular.

Intitulado «GLP1 Receptor Agonist Therapy with and Without SGLT2 Inhibitors in Patients with Type 2 Diabetes», o trabalho é assinado pelos investigadores da FMUP João Sérgio Neves, Marta Borges-Canha, Francisco Vasques-Nóvoa, Davide Carvalho, Adelino Leite Moreira e João Pedro Ferreira. Universidade do Porto - Portugal