Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Portugal - Coletivo de Poesia da Universidade do Porto celebra Eugénio de Andrade

A proposta passa por ler, explorar, debater e celebrar um dos mais relevantes poetas portugueses contemporâneos. É na companhia de Eugénio de Andrade que o Coletivo de Poesia da Universidade do Porto vai abrir o novo ano. Será no dia 20 de janeiro, às 21h30, no auditório da Casa Comum (à Reitoria) da U.Porto. A entrada é livre e todos os contributos são bem-vindos.


O amor, a solidão e uma forte ligação à natureza. E o recurso a uma linguagem simples e simultaneamente profunda com a qual muito rapidamente nos identificamos. Assim é ler Eugénio de Andrade, nome maior da literatura portuguesa, que a U.Porto homenageou, ainda em vida, com o título de Doutor Honoris Causa, juntamente com a também escritora Agustina Bessa-Luís. Um gesto “retribuído” em 2022, com a cedência do acervo de Eugénio de Andrade ao Centro de Estudos da Cultura em Portugal da Universidade do Porto (CECUP).

José Fontinhas, que conhecemos como Eugénio de Andrade, nasceu a 19 de janeiro de 1923, há precisamente 103 anos, na Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão. Publicou mais de vinte volumes de poesia, é um dos poetas mais lidos em Portugal e um dos mais traduzidos nas mais diversas línguas. Tem também obras em prosa e traduções de autores como Frederico Garcia Lorca e José Luís Borges.

Recebeu inúmeras distinções, entre as quais o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001). Em 1982 foi feito Grande-Oficial da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico e, em 1989, foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.

Falecido a 13 de junho de 2005, apenas três meses depois de se ter tornado Doutor Honoris Causa da U.Porto, encontra-se sepultado no cemitério do Prado do Repouso, no Porto, em campa desenhada pelo arquiteto e amigo Siza Vieira, e onde se inscreveram os versos Terra: se um dia lhe tocares / o corpo adormecido, /  põe folhas verdes onde pões silêncio,/  sê leve para quem o foi contigo (retirados do livro As Mãos e os Frutos).

A casa onde viveu, no número 584 da Rua do Passeio Alegre, e que funcionou como Fundação Eugénio de Andrade, é hoje um novo núcleo da Biblioteca Municipal do Porto que acolhe ciclos de conversas e leituras em torno da poesia.

Outras vozes para celebrar nos próximos meses

É sempre à terceira terça-feira de cada mês que o Coletivo se reúne para descobrir novas perspectivas, ouvir e ler através de outras vozes, tornar mais abrangente o que já conhecemos, ou simplesmente descobrir um determinado património poético e literário.

E se cabe a Eugénio de Andrade inaugurar o novo ano, já há, no entanto, outros universos, pensamentos e diferentes narrativas na agenda. O mês de fevereiro será dedicado a David Mourão Ferreira; em março, iremos ler Vasco Gato; abril será o mês de Adília Lopes; em maio, outra voz no feminino, Luiza Neto Jorge; para junho, deixamos o legado de Fernando Pessoa; e, por fim, em julho, o poeta e jornalista brasileiro Mário Quintana.

Com entrada livre, os encontros acontecem sempre na terceira terça-feira de cada mês, pelas 21h30 na Casa Comum.

Para além dos membros permanentes, o público é convidado para participar através das leituras que pretender. O encontro começa com uma breve contextualização do universo a explorar, recuperando, sempre que possível, alguns elementos que ajudem à construção de uma biografia como notícias ou entrevistas.

Os poetas eleitos têm, habitualmente, uma ligação ao mês em que são celebrados (seja pelas datas de nascimento ou morte) e correspondem ao universo da lusofonia. Universidade do Porto - Portugal


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Moçambique – O escritor Dany Wambire participa no IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos que se realiza na Venezuela

O escritor e editor Dany Wambire vai participar, sexta-feira, no IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos, realizado na Venezuela. A iniciativa integra as comemorações do centenário do nascimento do poeta Eugénio de Andrade.

Desde ontem até sábado, decorre o IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos, na Cidade de Caracas, capital da Venezuela. Conforme esclarece a organização, o encontro está “integrado nas comemorações do centenário do nascimento do poeta português Eugénio de Andrade e reúne escritores de diferentes nacionalidades, que escrevem sobre realidades e temas diversos, todos utilizando o português como língua comum.

Entre os autores convidados ao IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos, de Itália, Portugal, Macau, Moçambique e Brasil, faz parte Dany Wambire. Para o escritor e editor, “O IV encontro Virtual de Escritores Lusófonos na Venezuela é uma oportunidade para quebrar fronteiras à busca deste espaço comum, que é a língua portuguesa, ingrediente com o qual temos estado a confeccionar a nossa literatura. O número de falantes da língua portuguesa tem estado a crescer imenso no mundo, ampliando-se por via disso o campo de circulação da literatura”.

Durante a sua participação no evento venezuelano, o autor de A mulher sobressalente falará do lugar da literatura na sua trajectória e da possibilidade que a arte literária lhe dá de converter em coisas comuns uma data de fenómenos estranhos ou incompreensíveis. “Falarei, ainda, do crescimento que a literatura está a registar, com o surgimento de novas editoras e de novas vozes literárias, que chegam ao mercado já como uma certeza. Por fim, falarei do contributo que outras línguas nacionais têm dado à língua portuguesa, para o seu enriquecimento”, sublinhou Dany Wambire.

No IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos, Dany Wambire vai intervir às zero horas de Maputo de sexta-feira, num painel com Ana Cristina Silva (Portugal), Frederico Bertolazzi (Itália), Luiz Eduardo de Carvalho (Brasil) e Shee Vá (Macau).

O IV Encontro Virtual de Escritores Lusófonos será inaugurado pelo professor italiano Federico Bertolazzi, professor de literatura portuguesa na Universidade de Roma “Tor Vergata” e especialista na obra de Eugénio de Andrade, e conta com o apoio da Embaixada de Portugal em Caracas, do Instituto Camões, da Coordenação para o Ensino do Português na Venezuela, do Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços), do Correio da Venezuela e dos Centros de Língua Portuguesa de Maracay y de Caracas. José dos Remédios – Moçambique in “O País”


quarta-feira, 29 de março de 2023

Goa - Quando os artistas encontram 'Poesia em Cores'

Exposição 'Poesia a Cores' está a decorrer no Centro de Língua Portuguesa do Camões


Por ocasião do Dia Mundial da Poesia e do Dia Internacional da Cor, o Camões – CLP acolheu 'Poesia a Cores', uma sessão exposição-poesia.

Esta iniciativa partiu de artistas e poetas goeses em colaboração com o Centro de Língua Portuguesa de Camões.

A inauguração

Na ocasião, Damodar Mauzo foi o principal convidado do evento.

O programa contou com duas sessões de leitura de poesia – a primeira foi uma homenagem aos escritos de Laxmanrao Sardessai e Manoharrai Sardessai, interpretada por Pritha Sardessai, arquiteta praticante e entusiasta do património.


Os poemas

A segunda sessão de leitura foi para celebrar o centenário do nascimento de um dos mais celebrados e traduzidos poetas portugueses, Eugénio de Andrade, também conhecido pelo seu próprio nome, José Fontinhas.

No total foram lidos cinco poemas em português, inglês e italiano. Os leitores dos seus poemas foram o Maestro Matteo Fraboni, (músico de jazz – percussionista, compositor) Jeanette Barbosa Noronha, professora assistente de português na Universidade de Goa e Ruth Beatriz Costa, escritora e educadora.

A noite inaugural terminou com uma apresentação de poesia da poeta Spoken Word, Rochelle D'Silva, interpretando a sua poesia.

Próximas atividades

O Centro de Língua Portuguesa de Camões vai agora realizar uma sessão interativa com o poeta português Rui Cóias em conversa com Delfim Correia da Silva sobre 'Eugénio de Andrade e a Poesia Portuguesa Contemporânea'.

No 1º de abril de 2023, haverá uma actuação 'Mai in me – Empowered Earthivism ' - um desempenho do artista multidisciplinar Pushpanjali Sharma com leitura de poesia de Salil Chaturvedi em resposta ao trabalho de Miriam Koshy na exibição 'Mhadeianjali' com acompanhamento musical de Jatin Vidyarthi. In “Gomantak Times” - Goa




sexta-feira, 24 de março de 2023

Portugal - Cem anos depois, nove autores literários e uma fadista

Este ano comemora-se o centenário do nascimento de diversas figuras ligadas às artes e letras de Portugal, com especial enfoque na literatura. Dos mais conhecidos, poetas, cronistas, ensaístas, romancistas e tradutores, mas também a fadista Celeste Rodrigues, falecida em 2018


No ano em que se publicavam o “Livro de Soror Saudade” de Florbela Espanca ou “Os Pescadores” de Raul Brandão, nasciam nove célebres nomes ligados à literatura portuguesa e uma fadista. Comemora-se este ano o centenário de Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Henrique de Senna Fernandes, João Maia, José Palla e Carmo, Mário Cesariny, Mário-Henrique Leiria, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Celeste Rodrigues, irmã da voz de Portugal, Amália Rodrigues.

Prémio Camões em 1996 e Prémio Pessoa em 2011, Eduardo Lourenço foi um professor e filósofo português, com ligações profundadas a questões relacionadas com a identidade portuguesa, com especial enfoque na literatura, mas não só. Beirão nascido a 23 de Maio de 1923 no concelho de Almeida, distrito da Guarda, Eduardo Lourenço “é uma figura fulcral da cultura portuguesa”, considerou ao nosso jornal a professora universitária Lola G. Xavier, confessa seguidora do trabalho do pensador português.

Para Lola G. Xavier, até hoje, Eduardo Lourenço é “uma voz única e ímpar”. “Ao nível da própria filosofia e da ontologia do ser-se português. É um autor fundamental, essencial e incontornável em questões relacionadas com a lusofonia. Uma voz crítica que, por ter vivido muito tempo fora de Portugal, teve o afastamento físico necessário que lhe permitiu uma perspectiva mais objectiva”, considerou a docente.

Eduardo Lourenço recebeu diversos prémios ao longo da sua carreira e foi condecorado por inúmeras vezes, tanto em França, onde viveu, como em Portugal. De 2016 a 2020 foi Conselheiro de Estado, por nomeação presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Morreu em 2020, aos 97 anos, tendo o Governo português decretado um dia de luto nacional.

A universalidade de Eugénio de Andrade

Coube também a Lola G. Xavier comentar, mesmo que de forma breve, a vida e obra do poeta Eugénio de Andrade, nascido no concelho do Fundão a 19 de Janeiro de 1923. Prémio Camões em 2001, o também beirão esteve em Macau em 1990, território cujas impressões ficaram registadas no “Pequeno Caderno do Oriente”. “Aquilo que talvez mais me impressiona na sua poesia é como ele consegue, de uma forma aparentemente simples, dizer tanto”, referiu a professora universitária.

Para Lola G. Xavier, Eugénio de Andrade é “um dos poetas da universalidade” e, também por isso, “um dos poetas fundamentais em língua portuguesa”. “Conseguiu congregar de uma forma despretensiosa a beleza da língua portuguesa estampada em verso”, notou, acrescentando que “qualquer literato não terá dificuldade em incluir o poeta nos maiores da literatura portuguesa”.

Eugénio de Andrade é pseudónimo de José Fontinhas. Foi próximo de Eduardo Lourenço e de Miguel Torga, com quem conviveu em Coimbra. Para além de poeta, foi tradutor e escritor.

Morreu, no Porto, a 13 de Junho de 2005, aos 82 anos. A sua poesia lírica foi considerada por José Saramago como uma “poesia do corpo a que chega mediante uma depuração contínua”.

De Macau para o mundo

É unânime dizer-se que a ‘Magnum opus’ de Henrique de Senna Fernandes é o seu livro “Amor e Dedinhos de Pé”, obra adaptada para cinema em 1992 pelo realizador Luís Filipe Rocha e protagonizada por Joaquim de Almeida. O autor português de origem macaense nasceu a 15 de Outubro de 1923 em Macau, precisamente. Foi advogado e uma pessoa politicamente interventiva.

No campo da escrita, Senna Fernandes retratou a Macau antiga dos anos de 1930, 1940 e 1950, através dos seus livros publicados, de onde se destacam, para além do “Amor e Dedinhos de Pé”, “Nam Van – Contos de Macau”, “A Trança Feiticeira” e “Mong-Há – Contos de Macau”. O seu conto “A-Chan, a tancareira” vence o Prémio Fialho de Almeida, em 1950. “Em termos literários, o texto exibe o gosto pelo tratamento de amores interétnicos e pela representação da figura feminina, tão afastada, ainda hoje, da ‘atenção patriarcal’”, considerou o professor Pedro d’Alte ao nosso jornal.

Os seus contos e romances “estão repletos de força etnográfica e bem exprimem a cosmovisão da época”. “A construção narrativa, a força imagética e temática explicam, em parte, as adaptações para a sétima arte dos seus romances”, apontou ainda.

Morreu no território, já sob administração chinesa, aos 86 anos, no dia 4 de Outubro de 2010. Pedro d’Alte acredita que tanto ao leitor quanto ao apreciador de cinema, “decerto agradará a encenação glamorosa dos ambientes da Cidade Cristã e dos amores entre A-Ling e Adozindo ou Chico e Victorina”. “Na memória do centenário sobre o seu nascimento, Senna Fernandes bem merecia mais e melhor atenção literária por parte da ‘mátria’, Macau, e da ‘pátria, Portugal”, concluiu o docente.

Um lisboeta apaixonado pelo Alentejo

Urbano Tavares Rodrigues é outro dos autores cujo centenário se comemora este ano. Nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1923, tendo falecido também na capital portuguesa a 9 de Agosto de 2013, aos 89 anos. Foi escritor, jornalista, crítico e professor universitário. Afastado de Portugal por motivos políticos, foi leitor em diferentes universidades europeias. Foi um autor profícuo, tendo, entre 1949 e 2011, escrito quase uma centena de obras, tendo a última delas (“Nenhuma Vida”), já a título póstumo, sido editada em 2013, pouco tempo depois de morrer. Escreveu poesia, crónicas, textos para teatro, contos e literatura de viagem, mas foi nos ensaios e nos romances que deixou marca indelével nomeadamente com as obras “Uma pedrada no charco” (1958), “Nus e suplicantes” (1960) ou “Imitação da felicidade” (1966).

Com “Fuga imóvel” (1982) recebe o prémio Aquilino Ribeiro e com “Violeta e noite” (1991) é galardoado com o prémio Fernando Namora. “Urbano Tavares Rodrigues evidencia uma voz combativa e reflexiva. As suas personagens lutam, pelo século XX, contra os poderes instituídos de um sistema ditatorial repressivo. Assim, a sua escrita é um projecto político de militância pelo povo e pelos oprimidos, conforme se pode ler, desde logo, na bela composição Mulheres do Alentejo e da qual se relembram alguns versos: Mulheres do Alentejo / com papoilas nos olhos / São primaveras erguidas / Contra os bastões / Contra as balas (…) Mulheres searas fontes azinheiras / Nossa esperança, ainda em flor e fruto / No vermelho das feridas deste País de Abril”, afirmou Pedro d’Alte, enfatizando que devido a ter crescido em Moura, “o Alentejo é, efectivamente, paisagem, tema e inspiração da sua obra”.

Foi grande amigo de Mário Soares, ligação que esmoreceu com a filiação de Urbano Tavares Rodrigues no Partido Comunista Português. Segundo o próprio, foi devido aos seus ideais políticos que nunca chegou a receber o Prémio Camões.

A FENPROF, em colaboração com a SABSEG – Corretor de Seguros, criou, em 2012, o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, um prémio literário anual de ficção destinado a professores.

Uma açoreana de pêlo na venta

Natália Correia nasceu nos Açores, mais concretamente em Fajã de Baixo, uma localidade da ilha de São Miguel, a 13 de Setembro de 1923. Foi um dos nomes femininos mais sonantes da literatura portuguesa contemporânea, tendo-se destacado como escritora e poetisa. Devido ao seu carácter activista, moveu-se também na política portuguesa, tendo sido deputada à Assembleia da República entre 1980 e 1991. Interveio inúmeras vezes em prol da cultura e do património, mas também da defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres.

Para além de autora da letra do Hino dos Açores, foi, juntamente com José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues, em 1992, fundadora da Frente Nacional para a Defesa da Cultura (FNDC). A sua obra, traduzida em várias línguas, estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Morreu em Lisboa, aos 69 anos, no dia 16 de Março de 1993, vítima de ataque cardíaco. “Só quem conhece profundamente a obra de Natália Correia pode afirmar que Natália Correia foi o mais importante poeta e pensador do século XX português. O seu pensamento supera o de Pessoa, Agostinho da Silva e Eduardo Lourenço”, referiu o escritor Henrique Levy, profundo admirador da obra da poetisa.

Henrique Levy vai mais longe e cita Ângela Almeida, autora também ela açoriana e especialista na obra de Natália Correia: “Não é possível entender o que representa a literatura para Natália Correia, sem constatarmos a imensidão do seu conhecimento: Natália bebe nas fontes antigas, clássicas, medievais, modernas, contemporâneas, ocidentais e orientais, percorre os ciclos históricos da humanidade, estuda as correntes de pensamento filosóficas e estéticas, viaja pelos géneros literários, estuda as religiões do mundo, sente o pulsar das culturas e das etnias e vive com todo o fulgor a relação telúrica e endógena que liga o ser humano à Tellus Mater. Tais fontes levam-na a escrever odes, epístolas, poesia lírica e épica, cantigas de amigo, textos dramáticos, romance, ensaios, textos para a imprensa (de 1943 a 1992)”.

O surrealismo português

Para além de poeta, Mário Cesariny foi também pintor, sendo considerado como o principal representante do surrealismo português. Nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, Cesariny também tem obra enquanto antologista, compilador e historiador. Homossexual assumido, foi muitas vezes detido pela polícia de costumes por “vagabundagem”.

Escreveu cerca de 20 livros. A sua poesia é animada por um sentido de contestação a comportamentos e princípios institucionalizados ou considerados normais nos campos do pensamento e dos costumes. Já a sua pintura, à imagem da sua personalidade inquieta, é marcada pela experimentação.

Em 2002 foi-lhe atribuído o grande Prémio EDP de Artes Plásticas e, em 2005, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Também em 2005, arrecadou o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD.

Morreu, também em Lisboa, a 26 de Novembro de 2006, aos 83 anos. Doou em vida o seu espólio à Fundação Cupertino de Miranda e, por testamento, deixou um milhão de euros (cerca de 10 milhões de patacas) à Casa Pia.

Mário-Henrique Leiria nasceu em Lisboa a 2 de Janeiro de 1923 e foi um escritor surrealista português, amigo próximo de Mário de Cesariny.

Poeta, escritor, pintor, crítico de arte, crítico literário, tradutor, gráfico e editor, Mário-Henrique Leiria tinha o espírito de coleccionador. Guardava tudo, desde escritos a desenhos, passando por pinturas e fotografias, catálogos ou manifestos. Envolveu-se activamente no Grupo Surrealista Português entre 1949 e 1951. Ao mesmo tempo também se dedicou a uma carreira musical que durou entre 1949 e 1979.

Foi preso pela PIDE. Posteriormente, instalou-se no Brasil onde desenvolveu várias actividades, como a de encenador e de director literário da Editora Samambaia. Regressou a Portugal em 1970 e aderiu, em 1976, ao Partido Revolucionário do Proletariado. Morreu aos 57 anos, a 9 de Janeiro de 1980, vítima de doença prolongada.

“Mário Cesariny e Mário-Henrique Leiria são nomes que conheço e cuja obra acompanhei de perto, porque representam uma certa modernidade, uma certa ruptura com o sistema, nomeadamente em relação a valores ou até à expressão”, referiu a professora Vera Borges, acrescentando que “faz todo o sentido atentarmos na literatura de um passado mais próximo”, mais contemporâneo.

O jesuíta das letras e o humorista Sesinando

Outros nomes há, também consagrados, que, por esta ou aquela razão, se tornaram desconhecidos do público em geral. Vera Borges explicou ao Ponto Final que tudo passa, essencialmente, “pela dimensão da sua obra” e, claro, “pelo gosto de cada um”. “São nomes que surgem, muitas vezes, a reboque de outros nomes. Autores pensados no âmbito de estudos específicos e desconhecidos num sentido mais lato”, referiu a docente de Português.

João Maia ou José Palla e Carmo são dois desses nomes. No entanto, considera Vera Borges, “são importantes para a literatura portuguesa”. “Gostava muito que esses nomes merecessem uma revisitação da sua obra. Talvez estas efemérides pudessem ser um ponto de partida para isso. Mas, claro, há nomes que têm sempre mais peso do que outros, é normal”, constatou.

João Maia foi um poeta e crítico, que também se notabilizou como cronista e ficcionista. Ganhou, em 1954, o prémio Antero de Quental pela sua obra literária “Abriu-se a Noite”. Anos antes, em 1940, ingressou na Companhia de Jesus, tendo-se licenciado em Filosofia pela Faculdade Pontifícia de Braga e, posteriormente, obteve o doutoramento na Faculdade de Teologia de Burgos, em Espanha. Autor de 10 livros, entre 1954 e 1989, a poesia de João Maia “pouco aberta a inovações formais e geralmente apoiada na rima”, mereceu de Jorge de Sena os epítetos de “suave e inteligente, meditativa e singela”.

Já José Palla e Carmo, nascido em Lisboa em 1923, foi um escritor, ensaísta, crítico, tradutor e especialista de literatura anglófona. Também se dedicava à escrita de textos humorísticos, os quais assinava como José Sesinando. Era irmão do consagrado arquitecto e fotógrafo Victor Palla e, por conseguinte, tio-avô do igualmente arquitecto e fotógrafo João Palla Martins, radicado em Macau há diversos anos.

O Instituto Português do Oriente (IPOR) também vai celebrar alguns destes nomes. Em declarações ao Ponto Final, a coordenadora do Centro de Língua Portuguesa foi peremptória em afirmar que se “deve falar e celebrá-los” a todos sem excepção, “independentemente de uns serem mais conhecidos do que outros”. No entanto, admitiu, o IPOR celebrará, ao que tudo indica, apenas seis desses nomes: Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Mário Cesariny, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e Henrique de Senna Fernandes. “Vamos celebrando ao longo do ano. Começámos com o Eugénio e acabamos com o Urbano, dando ainda algum destaque ao centenário de Agustina Bessa-Luís, que se celebrou o ano passado, mas nós não o celebrámos como deveria ser”, notou Paula Costa.

Tudo isto é fado

A fadista Celeste Rodrigues nasceu no Fundão a 14 de Março de 1923 e morreu em Lisboa a 1 de Agosto de 2018, com 95 anos. Era a irmã mais nova da voz de Portugal, Amália Rodrigues.

Com 25 anos, Celeste conhece o actor Varela Silva com quem casaria com 30 anos. Ambos abrem a casa de fados “A Viela”, projecto que abandonariam após quatro anos. Por essa altura, e apesar de viver um pouco na sombra da irmã Amália, Celeste atingia a notoriedade com o tema “Olha a Mala”, da autoria de Manuel Casimiro.

Celeste Rodrigues cantou por mais uma década na casa de fados Parreirinha de Alfama, propriedade da também fadista Argentina Santos, passando depois a integrar o elenco da Taverna do Embuçado, do fadista João Ferreira-Rosa ao longo de 25 anos.

Ao Ponto Final, o actual proprietário da Parreirinha de Alfama, o guitarrista de Fado Paulo Valentim, que viveu em Macau por diversos anos, recordou que Celeste “trabalhou muitos anos na Parreirinha e a irmã [Amália] a visitava muitas vezes”. “Celeste era uma pessoa sábia, bastante culta e educada”, acrescentou.

Depois do 25 de Abril, passou meio ano no Canadá, acabando por divorciar-se de Varela Silva com quem teve duas filhas. O seu último trabalho discográfico foi o “Fado Celeste”, editado na Holanda em 2007. Três anos depois, em 2010, o neto Diogo Varela Silva revela o documentário “Fado Celeste”, realizado por si, que se debruça na vida e obra de Celeste Rodrigues.

Aliás, em declarações ao nosso jornal, o neto da fadista revelou que “foi inaugurada no dia 14 de Março uma exposição sobre ela no Museu do Fado”. “Houve o lançamento da biografia escrita por mim e lançámos dois temas inéditos que foram gravados muito pouco tempo antes dela falecer. Uma versão de “A Noite do Meu Bem” de Dolores Duran e uma música nova chamada “Se Alguém Me Procurar”, com letra de Ricardo Maria Louro e música de Pedro de Castro, que foi o seu último guitarrista. Fizemos ainda um grande jantar celebrativo nessa data com muitos amigos dela”, referiu, lamentando que o Fundão, cidade onde a fadista nasceu, aparentemente, não tenha qualquer homenagem marcada para celebrar o centenário, mas adiantando que tanto a família quanto os amigos estão a contar que Câmara Municipal de Lisboa a inclua na toponímia da cidade. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto Final”


 

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Portugal - Espólio de Eugénio de Andrade vai ter nova morada na Casa dos Livros

A assinatura do contrato de depósito da biblioteca do poeta portuense terá lugar a 14 de dezembro, na sede do Centro de Estudos da Cultura em Portugal da U.Porto (CECUP)


São mais de 17 mil livros, mas também manuscritos, desenhos, postais ou fotografias que ajudam a trilhar o percurso de um dos mais relevantes poetas portugueses do século XX. Juntos, perfazem a biblioteca de Eugénio de Andrade e vão passar a habitar a Casa dos Livros, sede do Centro de Estudos da Cultura em Portugal da Universidade do Porto (CECUP), ao abrigo do contrato de depósito que será assinalado no próximo dia 14 de fevereiro, quarta-feira, entre a Câmara Municipal do Porto e a Faculdade de Letras da U.Porto (FLUP).

Com a cedência do acervo de Eugénio de Andrade ao CECUP, concretiza-se o anúncio feito pelo Presidente da CMP aquando da inauguração da Casa dos Livros, em abril de 2022. “A clarividência de colocar aqui neste belo palacete o acervo bibliográfico e os manuscritos pessoais de Eugénio de Andrade representa um simbólico regresso do poeta à cidade, garantindo-se, assim, a salvaguarda de um riquíssimo espólio, cuja relevância cultural espelha a vida e obra de uma figura incontornável da nossa literatura”, sublinhou então Rui Moreira.

Atualmente depositado na Biblioteca Municipal do Porto, a biblioteca de Eugénio de Andrade é composta por mais de 17 mil livros; 1400 manuscritos, dactiloscritos, tiposcritos com anotações e desenhos; 7400 cartas, telegramas, postais e fotografias. “Tudo será classificado, indexado pela FLUP, que é justamente uma das mais reputadas instituições no que diz respeito ao cruzamento destas duas áreas de conhecimento aqui representadas: a Literatura e a Ciência da Informação”, enalteceu o autarca.

Ao abrigo deste contrato, a FLUP assume então a obrigação de proceder ao tratamento técnico do acervo, proporcionar o acesso presencial e online, bem como promover atividades para toda a cidade. Cabe ainda à faculdade “assegurar as condições de tratamento físico e documental da coleção, incluindo a preservação física das espécies, acondicionamento e catalogação de todas as obras que passarão a integrar o catálogo bibliográfico da ‘Casa dos Livros’”.

Recorde-se que a Câmara Municipal do Porto prevê igualmente doar à Casa dos Livros um apoio de 60 mil euros – 20 mil anualmente nos próximo três anos – para apoiar o “tratamento e disponibilização ao público de todos os fundos documentais em formato físico e digital à sua guarda”. Em estudo está ainda o lançamento de um “prémio anual que potencie e promova a publicação de obras que estudem os poetas da cidade do Porto”.

Sobre Eugénio de Andrade

Natural do Fundão, onde nasceu a 19 de janeiro de 1923, Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, é um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, com uma extensa obra traduzida para mais de 20 línguas.

Autor de dezenas livros de poesia, mas também de diversas antologias poética, livros de prosa e livros infantis, é, depois de Fernando Pessoa, o poeta português mais traduzido – em quase todas as línguas românicas, mas também em inglês, alemão, checo, sueco, servo, croata, búlgaro, letão, japonês, ou  chinês. É, também, o poeta mais celebrado pela crítica e o mais editado.

Entre os inúmeros prémios e distinções que recebeu em vida, destacam-se o prémio da “Associação Internacional dos Críticos Literários” (1986), o “grande prémio da Poesia da Associação Portuguesa de Escritores” (1989), o prémio “APCA” (Brasil, 1991), o prémio “Vida Literária”, da Associação Portuguesa de Escritores (2000), ou o “prémio Camões” (2001). Foi ainda agraciado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito (1988) e com o título de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada (1982).

A 22 de março de 2005, foi condecorado com o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto, juntamente com a também escritora Agustina Bessa-Luís. Faleceu três meses depois, a 13 de junho de 2005, aos 81 anos de idade. Universidade do Porto - Portugal