Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Internacional - Estudo revela que o cogumelo europeu Amanita phalloides é capaz de se reproduzir sem parceiro na Califórnia

Um estudo internacional revelou que o cogumelo europeu Amanita phalloides é capaz de se reproduzir sem parceiro na Califórnia. Susana C. Gonçalves, investigadora do Centre for Functional Ecology (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), é uma das autoras do artigo científico “Invasive Californian death caps develop mushrooms unisexually and bisexually”, publicado na revista Nature Communications.

O cogumelo mortal da espécie Amanita phalloides é originário da Europa, mas foi introduzido inadvertidamente nos Estados Unidos da América (EUA), onde se tem expandido, sobretudo na Costa Oeste. Esta investigação dá a conhecer a estranha vida sexual deste cogumelo europeu na Califórnia e ajuda a explicar a rápida disseminação do fungo.

Com este estudo foi possível «identificar que, na Califórnia, o fungo é capaz de se reproduzir sem parceiro, auto fertilizando-se, um tipo invulgar de reprodução sexual em fungos que raramente foi observado fora do laboratório», revela Anne Pringle da Universidade de Wisconsin-Madison, EUA, coordenadora e autora sénior do estudo, explicando que «esta espécie se reproduz normalmente de forma bissexuada: as estruturas subterrâneas, o micélio, de dois indivíduos distintos compatíveis fundem-se e produzem cogumelos que contêm ADN de ambos os indivíduos».

Este tipo de reprodução ainda acontece na Europa. A equipa de investigadores sequenciou o ADN de cogumelos da Europa, incluindo várias populações de Portugal, e descobriu que continham dois conjuntos de material genético, um de cada progenitor. No entanto, na Califórnia, onde os cogumelos desta espécie foram observados pela primeira vez no início do século XX, o fungo parece estar a fazer algo bastante diferente.

«O ADN de alguns cogumelos da Califórnia continha apenas um conjunto de material genético, indicando que cada um tinha surgido a partir de um único indivíduo. A maneira como o faz não é muito clara», observam os autores do estudo, propondo que «Amanita phalloides contorne de alguma forma os controlos genéticos que garantem que os cogumelos só são produzidos depois de dois indivíduos se terem fundido».

«A capacidade de se auto fertilizar pode ser uma vantagem quando se chega a um novo habitat onde não há parceiros compatíveis», nota Susana C. Gonçalves. Portanto, os autores sugerem que a unissexualidade pode ajudar a explicar a rápida disseminação da espécie ao longo da Costa Oeste dos Estados Unidos.

«O próximo passo é saber se outras espécies invasoras de fungos estão a usar estratégias semelhantes na natureza», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 6 de junho de 2022

Internacional - Estudo alerta que é urgente proteger os fungos aquáticos

Um estudo internacional, no qual participou a Universidade de Coimbra (UC), defende que a conservação de fungos aquáticos, raramente considerada, precisa de ser urgentemente reconhecida como uma prioridade de gestão.


Publicado na revista científica Frontiers in Ecology and the Environment, o estudo centrou-se no papel dos fungos aquáticos, nas ameaças que enfrentam e nos caminhos para a sua proteção. A investigação, liderada por cientistas do Centro de Biologia da Academia Checa de Ciências, teve a participação de Susana C. Gonçalves, do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

É sabido que os fungos aquáticos desempenham um papel fundamental nas cadeias alimentares, nos ciclos de nutrientes, matéria e energia e na purificação da água. No entanto, frisa Susana C. Gonçalves, «à semelhança do acontece com organismos que tendem a ser discretos e frequentemente invisíveis a olho nu, a sociedade negligencia-os, na sua maioria, e esquece a sua enorme importância no suporte e estabilidade dos ecossistemas aquáticos».

«O que é ainda mais problemático, esquecemo-nos de que os fungos aquáticos estão expostos a uma vasta gama de ameaças resultantes das atividades humanas. Sem medidas de conservação adequadas, as suas populações podem diminuir, ou podem mesmo extinguir-se, tal como todos os outros organismos aquáticos mais conspícuos, com consequências imprevisíveis para os ecossistemas marinhos e de água doce», alertam os autores do estudo.

Outro problema, segundo os investigadores, é o facto de «os raros estudos centrados nas ameaças enfrentadas pelos fungos aquáticos se limitarem quase exclusivamente a analisar os riscos decorrentes da libertação de fungicidas». Porém, «muitos outros poluentes podem afetar os fungos e as suas delicadas redes, tais como produtos farmacêuticos, metais, microplásticos e eutrofização», afirma Hans-Peter Grossart, do Leibniz Institute of Freshwater Ecology and Inland Fisheries (IGB), outro autor do estudo.


«O que é ainda mais preocupante é que não sabemos quase nada sobre as outras ameaças que eles provavelmente enfrentam. Algumas das principais ameaças para os fungos aquáticos incluem a modificação e degradação do habitat, invasões biológicas e alterações climáticas», assevera.

Tais ameaças podem levar à extinção de espécies em comunidades de fungos aquáticos, à redução das populações e até mesmo à perda total das suas funções-chave no ecossistema, o que pode acabar por produzir efeitos cascata nas cadeias alimentares aquáticas.

«Todos os esforços de gestão devem visar, tanto a proteção da diversidade fúngica, como a manutenção das suas funções-chave no ecossistema», sugere Susana C. Gonçalves, que é também membro do Comité de Conservação de Fungos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla inglesa), acrescentando que «a conservação pode provavelmente ser alcançada de forma mais eficaz através do conceito de conservação do ecossistema».

Este estudo aponta algumas medidas de gestão promissoras, tais como a redução e proibição da importação de nutrientes e contaminantes, o controlo das vias de introdução de espécies exóticas aquáticas invasoras, a renaturalização de massas de água e a restauração de habitats-chave, bem como a manutenção de regimes hidrológicos ecologicamente relevantes, a adoção de políticas rigorosas e o desenvolvimento e aplicação de novos bioensaios. No entanto, os autores sublinham que todas essas medidas devem ser adaptadas de modo a considerar as particularidades dos fungos. Universidade de Coimbra - Portugal


 


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Internacional - Cientistas defendem a inclusão de todos os fungos nas metas globais para a conservação da biodiversidade

Uma carta publicada hoje na prestigiada revista científica Science apela para que todos os fungos sejam incluídos nas metas globais para a conservação da biodiversidade, que vão ser aprovadas na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade (COP15), que irá decorrer em Kunming, China, de 11 a 24 outubro.

A missiva é liderada pela investigadora Susana C. Gonçalves, do Centre for Functional Ecology da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), e dirige-se sobretudo às partes da Convenção sobre a Diversidade Biológica (https://www.cbd.int/) reunidas na COP15.

«Pretende-se que incluam explicitamente o Reino Fungi nos alvos designados através da inclusão do termo funga, substituindo em todos os documentos a expressão “fauna e flora” por “fauna, flora e funga”», sublinha Susana C. Gonçalves, explicando que esta carta surge como resposta a uma carta anterior, também publicada na Science, que defendia «a inclusão dos chamados “macrofungos” (fungos cujas estruturas reprodutoras são visíveis a olho nu, por exemplo cogumelos e trufas) nas metas globais de biodiversidade pós-2020. Na nossa carta, enfatizamos a necessidade de incluir todos os fungos e providenciamos evidências de que os “microfungos” merecem igual consideração».

«É chocante que apenas umas escassas 425 espécies, dos milhões de espécies de fungos que habitam o planeta, tenham sido avaliadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) para a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas», pode ler-se na carta hoje publicada, que é assinada por mais três investigadores (da Bélgica, do Chile e dos EUA).

Os cientistas notam que, embora as pessoas associem os fungos aos cogumelos, na realidade, «a maioria dos fungos não produz estruturas reprodutivas visíveis a olho nu. Por exemplo, os fungos micorrízicos arbusculares são extremamente importantes: colonizam as raízes de 80% de todas as plantas, uma simbiose que ajudou as plantas a conquistarem a terra. Os bolores, tais como aqueles dos quais a penicilina foi isolada, são também microfungos. As leveduras Saccharomyces, que nos dão o pão, a cerveja e o vinho, são fungos unicelulares».

Os autores avisam ainda que a falta de conhecimento sobre «quais os fungos com maior risco de extinção dificulta a nossa capacidade de informar as ações de conservação para apoiar essas espécies e, em última análise, fornecer soluções baseadas nos fungos para enfrentar os prementes desafios globais».

«Os fungos suportam toda a vida na Terra. Não podemos permitir-nos negligenciá-los nos nossos esforços para travar a perda de biodiversidade», lê-se no final da carta.

«A Science tem um enorme alcance. Por isso, esperamos que a publicação da carta faça com que muitas mais pessoas e organizações juntem a sua voz à nossa», conclui a investigadora da FCTUC.

A carta pode ser consultada aqui. Universidade de Coimbra - Portugal