Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Rota das Letras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rota das Letras. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Macau - Rota das Letras regressa à Casa Garden para celebrar a 15.ª edição

Tal como já acontece há dois anos, o Festival Literário de Macau – Rota das Letras volta a ter lugar na Primavera. O evento – um dos mais relevantes ao nível das artes no território – vai ocupar a Casa Garden entre os dias 5 e 15 de Março, apresentando uma programação diversa que vai para além das letras e explora expressões artísticas como o cinema, o teatro e a música. A lista de convidados é extensa e inclui desde poetas locais a argumentistas de filmes de Hollywood


O Festival Literário de Macau – Rota das Letras está de regresso. A 15.ª edição do evento decorre de 5 a 15 de Março na Casa Garden, voltando a plantar no coração da Península uma celebração primaveril da arte nas suas múltiplas vertentes. Da literatura ao cinema, passando pela música e pelo teatro, a Rota das Letras oferece uma palete diversificada de manifestações artísticas produzidas por autores de diferentes culturas, em diferentes línguas, para o público igualmente heterogéneo de Macau.

O propósito da iniciativa mantém-se inalterado desde 2012, aquando da primeira edição: materializar “um ponto de encontro fundamental entre culturas, línguas e expressões artísticas do Oriente e do Ocidente”. A morada principal é a Casa Garden, onde decorrerão as habituais sessões de discussão e de lançamento de livros que caracterizam o festival, mas a programação contempla ainda a exibição de filmes, representações teatrais e concertos em vários espaços culturais da cidade.

A “celebração” e o “diálogo intercultural” são as forças motoras da presente edição, segundo adianta a organização em comunicado de imprensa. Celebra-se, sobretudo, os 15 anos de realização ininterrupta da Rota das Letras, que manteve a sua função enquanto ágora artística e cultural mesmo em plena pandemia de Covid-19 e que continua a ser uma referência incontornável na aproximação dos polos ocidental e oriental.

Será também assinalado o centenário do falecimento de Camilo Pessanha, poeta português que viveu, morreu e garantiu um lugar perene no território ao ser sepultado no Cemitério de São Miguel Arcanjo. “A sua ligação profunda a Macau e o seu legado literário serão revisitados através de diversas iniciativas, sublinhando o papel da cidade como ponte entre mundos”, indica o comunicado, que desvenda ainda três nomes envolvidos na celebração. São eles António Carlos Cortez, poeta e professor de Português e Literatura; Carlos Morais José, escritor e jornalista radicado em Macau; e Christopher Chu, escritor e jornalista que já publicou um livro sobre os trinta anos em que Pessanha viveu na cidade.

Embora a programação completa ainda não tenha sido divulgada ao público, já é possível saber qual o foco do dia de abertura do festival, a 5 de Março. Nesse dia, estará em destaque a exposição “Territórios Humanos: Fotografia, Pertença e Memória”, que reunirá imagens captadas pela óptica do português Alfredo Cunha e do chinês Liu Zheng e explorará as suas “identidades” particulares, bem como as “narrativas” comuns que se cruzam nos respectivos acervos fotográficos. A mostra será acompanhada pelo lançamento de dois livros de fotografia.

Nomes sonantes da literatura

O painel completo de convidados será divulgado em comunicado posterior, mas já se conhecem alguns dos nomes locais e internacionais que integrarão as sessões desta edição da Rota das Letras.

O panorama literário local divide-se entre os poetas Yao Feng, Cheung Wai Man, Kam Un Loi e Nick Groom, no lado masculino, e Rai Matsu e Zita Si Tou Chi U, no lado feminino. A lista de convidados radicados em Macau inclui também o pintor Konstantin Bessmertny e o maestro Veiga Jardim. Por sua vez, Rui Leão e Maria José de Freitas e “outros autores locais” vão homenagear a obra do arquitecto macaense José Maneiras, falecido em Novembro do ano passado.

As sessões dedicadas ao mundo lusófono contarão ainda com a presença de dois jornalistas e escritores que no ano passado publicaram, individualmente, livros sobre personalidades portuguesas de diferentes espectros políticos. Falamos de João Miguel Tavares, autor de José Sócrates – Ascensão (1957-2005), e de Miguel Carvalho, autor de Por Dentro do Chega – A face oculta da extrema-direita em Portugal. Destaque ainda para a jornalista Andreia Sofia da Silva com O lápis vermelho, livro que se debruça sobre os efeitos da censura do Estado Novo nos territórios ultramarinos, com especial foco na imprensa de Macau.

No que respeita à literatura em língua chinesa, a lista de convidados é composta por nomes bastante sonantes e reconhecidos tanto pelo público como pela crítica especializada. O comunicado começa por mencionar Bi Feiyu, vencedor de prémios como o Man Asian Literary Prize, o Lu Xun Literary Prize e o Mao Dun Prize – provavelmente, o mais prestigioso prémio literário chinês.

Seguem-se escritores como Xiao Bai, autor de Xangai que também venceu o prémio Lu Xun; Gu Shi, detentora dos prémios Nebula e Locus pelas suas histórias de ficção científica; e Lu Jian, poeta da geração “pós-anos 80s” galardoado com o Prémio de Poesia Zhang Qiang. Importa ainda mencionar o nome de Xie Youshun, que se destaca dos demais por se dedicar à análise e crítica da literatura contemporânea chinesa – responsabilidade que lhe mereceu, aliás, a atribuição do Prémio Feng Um de Crítica Literária.

Por seu turno, a categoria das letras internacionais é representada por personalidades de múltiplas línguas e continentes. No continente asiático, incluem-se o escritor indiano Amitav Ghosh – considerado um dos grandes vultos da literatura mundial graças à sua “Trilogia Ibis” e à forma como retrata temas como colonialismo, ambiente e identidade humana – e Elisa Shua Dusapin, romancista franco-suíça com raízes sul-coreanas cuja obra de estreia, Inverno em Sokcho, se situa precisamente na cidade turística da Coreia do Sul.

Viajando até às Américas, encontramos Hernán Diáz, escritor argentino-americano que venceu o prémio Pulitzer em 2023; Carlos Andrés Gomez, colombiano-americano que escreve e declama poesia ‘spoken word’; e Guy Delisle, cartoonista canadiano conhecido pelos seus livros de viagem sobre destinos pelo mundo fora – incluindo a China, que explorou no livro de 2000 Shenzhen: A Travelogue from China.

A Europa é representada pelo britânico Adam Sisman, autor de biografias aprofundadas sobre figuras como A. J. P. Taylor ou Hugh Trevor-Roper, e pelo trio envolvido na concepção do filme “Ballad of a Small Player”, lançado na Netflix no final do ano passado: Lawrence Osborne, o autor do livro homónimo de 2014, e Mike Goodridge, o produtor da longa-metragem. Este filme, recorde-se, foi gravado em Macau no Verão de 2024 e catapultou cenários bem conhecidos da região, como templos e casinos, para os ecrãs dos utilizadores da Netflix.

Para além das letras

Enveredando pela área do cinema, a programação tem espaço para uma homenagem à sétima-arte portuguesa com a apresentação de “Salatinas”, um documentário assinado pela jornalista Filipa Queiroz que aborda a expulsão de cerca de três mil residentes da Alta de Coimbra para dar lugar à Cidade Universitária.

O cinema português vai também estar representado por Tiago Guedes, com os seus filmes “A Herdade”, de 2019, e “Restos do Vento”, de 2022. Para além de realizador de cinema, é também encenador da peça de teatro “À Primeira Vista”, que terá assim a sua estreia em Macau. A ocasião marca o regresso da actriz Margarida Vila-Nova ao território, onde já residiu e inclusive fundou projectos como a Mercearia Portuguesa ou a Futura Clássica.

“À Primeira Vista” é a versão portuguesa do monólogo de 2019 “Prima Facie”, que a produtora Força de Produção descreve na sua página oficial como “uma das mais reconhecidas pelas de teatro dos últimos anos”. Com assinatura de Suzie Miller, o espectáculo promete um “thriller jurídico de cortar a respiração” sobre temas fortes como “poder, consentimento e lei”.

Quanto ao calendário musical, o único nome até agora confirmado é o de Rodrigo Leão. O músico e compositor, figura essencial do género ‘new age’ em Portugal e membro das bandas Sétima Legião e Madredeus, tem actuação marcada para a noite de 11 de Março no Centro Cultural de Macau.

O comunicado de imprensa sublinha que serão “brevemente” acrescentados “nomes adicionais” a esta primeira lista de convidados. A 15.ª edição do Festival Literário de Macau é organizada com o apoio do Governo de Macau e de representações diplomáticas, associações locais, empresas (sobretudo as do sector hoteleiro) e órgãos de comunicação social. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Macau - Décima edição do Festival Literário – Rota das Letras termina com sensação de missão cumprida

Mesmo que o impacto da pandemia continue a fazer-se sentir na mobilidade, o 10.º Festival Literário de Macau – Rota de Letras conseguiu um resultado “bastante satisfeito”, afirmou a diretora executiva Alice Kok


Terminou a 10.ª edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, depois de três dias de livros, música e espectáculos. Este é o terceiro ano de Alice Kok na organização do festival, sendo ela a única mulher na direcção. Ao Ponto Final, a directora executiva confessou que a edição deste ano tentou, sobretudo, adoptar mais ferramentas de videoconferência, organizando palestras através a transmissão online ao vivo de Zoom. Isto devido aos impedimentos de viagem causados pela pandemia. A responsável da organização assinalou também que esta edição pôde ter um programa mais “diversificado”, em comparação com o ano passado.

Devido à pandemia, as restrições da organização ainda permanecem. A directora executiva lembrou que o Festival Literário de Macau – Rota das Letras era suposto acontecer em Outubro, e, após ter sofrido vários adiamentos, acabou por realizar-se agora. Ainda assim, Alice Kok afirmou que o evento “alcançou absolutamente as expectativas”. A organizadora ficou feliz por ver que o evento conseguiu reunir “muitos excelentes escritores, ‘performers’, músicos e dramaturgos da comunidade chinesa e portuguesa”.

Esta edição é a décima edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras. A inauguração aconteceu na sexta-feira passada, mas o programa começou ainda antes da inauguração. Realizaram-se espetáculos pré-eventos inseridos no programa desta edição, como: “Por confirmar”, pelo grupo artista local Step Out, e “Não querer Saber de Nunca Saber para Onde ir”, pelo artista português Ezaak Ez.

A directora notou o “feedback positivo” logo desde o início do evento: “Recebemos ‘feedbacks’ muito bons logo nos pré-eventos. Os bilhetes do espetáculo ‘Por Confirmar’ estiveram esgotados nas seis sessões realizadas. E era suposto realizarmos apenas duas sessões do espetáculo ‘Não Querer Saber de Nunca Saber para Onde ir’, do Ezzak Ez, no Macau Art Garden, mas, tendo recebido tanto entusiasmo e a calorosa reacção do público, resolvemos adicionar mais uma sessão extra no fim do último dia, após os programas agendados. Temos todo o prazer em ver que o público gostou”.

A Alice Kok frisou que, graças à tradução e interpretação, constatou que diferentes culturas podem ser transmitidas e compreendidas entre as comunidades através da superação da barreira linguística. “Apesar de falarmos línguas diferentes, podemos encontrar um ‘ponto comum’, permitindo partilharmos o sentimento de envolvimento e ressonância”, refere a responsável.

Com a realização do espetáculo de teatro “Deolinda da Conceição e as mulheres desfavorecidas”, adaptado de uma obra literária dos anos 60 da escritora macaense Deolinda da Conceição, “Cheong-Sam: A Cabaia”, criado pelo dramaturgo local Luciano Ho, Alice Kok disse acreditar que é importante preservar, a cada geração, a nossa história e tradição, que constituem essenciais elementos da identidade de Macau. A directora executiva recordou: “Tivemos a sorte de poder convidar António Conceição Júnior, filho de Deolinda da Conceição. Através da plataforma Zoom, pudemos ter uma preciosa oportunidade de contacto para a interação e intercâmbio”.

Alice Kok ainda sublinhou que o Festival Literário tem o firme objectivo que “promover e preservar obras literárias sublimes, com o intuito de obras literárias clássicas não ficarem desaparecidas e esquecidas no tempo, podendo continuar a estar vivas noutra época, para servirem às novas gerações de inspiração para criar novas obras”.

A directora executiva frisou que o Festival Literário de Macau – Rota das Letras já tem um público fiel na comunidade portuguesa, no entanto, para a comunidade chinesa, “ainda existe uma grande margem de trabalho [para conseguir isso]”. Macau, como uma cidade com diferentes grupos culturais, como o oriental e o ocidental, a organização pretende atrair mais espectadores e leitores chineses. Assim, para alcançar a finalidade de “promoção da literatura” ao público, Alice Kok indicou que teve a especial intenção de organizar mais sessões de interesse para a comunidade chinesa, fazendo a ligação ao mundo literário chinês.

“É bom notarmos mais a atenção da comunidade chinesa. O nosso outro subdiretor da organização do evento, Yao Jingming, professor catedrático da Universidade de Macau, ajuda-nos a sensibilizar mais a atmosfera e actualidade da esfera literária na China, através do contacto com mais escritores chineses no interior da China, podemos perceber melhor o outro mundo”. Além do cosmos literário chinês da China, Alice sublinhou a importância de conhecer e promover a literatura local de Macau, de matriz chinesa, esperando que futuramente o “Festival Literário de Macau possa criar um Festival Literário que pertença à população de Macau”. Dinis Chan – Macau in “Ponto Final”


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Macau - 8ª edição do Rota das Letras – Festival Literário de Macau

Rota das Letras centra-se na poesia e homenageia Sophia de Mello Breyner e Adé dos Santos Ferreira. A poesia está em destaque na 8ª edição do Rota das Letras – Festival Literário de Macau. José Luís Tavares, de Cabo Verde, Pedro Lamares, Portugal, Hirondina Joshua, Moçambique, Gisela Casimiro, da Guiné-Bissau, e Eduardo Pacheco, de Angola, são alguns dos nomes a representar a lusofonia. O cantor Salvador Sobral, vencedor do Festival Eurovisão da Canção em 2017, actua dia 17 de Março



A poesia é, pela primeira vez, o tema e a forma de expressão dominantes do Rota das Letras – Festival Literário de Macau, que terá lugar de 15 a 24 de Março. O Centro de Arte Contemporânea de Macau – Oficinas Navais Nº1, na zona da Barra, vai acolher grande parte das sessões.

Durante os dez dias do programa, o festival vai contar com a participação dos poetas Jidi Majia, vice-presidente da Associação de Escritores da China, Bei Dao, Yan Ai-Lin, Chris Song, Yam Gon, Chen Dong Dong, Shu Yu, Huang Fan, Lu Weiping, Na Ye, Tan Wuchang e Hsiu He, anunciou ontem num comunicado a organização do festival. Grande maioria destes escritores vêm da China continental, mas também há autores de Taiwan e Hong Kong, como Bei Dao, descrito como “a voz incontornável da poesia contemporânea chinesa” e que regressa ao festival depois de uma participação na edição de 2014.

Dos países de expressão portuguesa vão chegar, entre outros, José Luís Tavares, de Cabo Verde, Pedro Lamares, Portugal, Hirondina Joshua, Moçambique, Gisela Casimiro, da Guiné-Bissau, e Eduardo Pacheco, de Angola.

A associação local de poesia “O Outro Céu” junta-se ao evento, através dos seus membros Mok Hei Sai, Lou Kit Wa, Wong In In e Gaaya Cheng.

O grupo de teatro de Macau Rolling Puppets levará à cena, nos últimos três dias do festival, nas antigas Oficinas Navais, a peça de teatro de marionetas “Droga”, adaptação do romance homónimo de Lu Xun publicado em 1919.

O ano de 2019 assinala o 200º aniversário do nascimento dos poetas americanos Walt Whitman e Herman Melville, o 100º aniversário do nascimento dos autores portugueses Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, bem como do macaense Adé dos Santos Ferreira, que escreveu os seus poemas no crioulo local, o Patuá. Em homenagem a estes poetas o festival vai organizar sessões de poesia, debates, projecção de filmes, performances e exposições.

O Rota das Letras celebra igualmente o 100º aniversário do 4 de Maio, o Movimento da Nova Literatura na China, salientando o contributo de alguns dos seus mentores, como Lu Xun, Hu Shi e Zhu Ziqing.

O cantor português Salvador Sobral, vencedor do Festival Eurovisão da Canção em 2017, fará a sua primeira visita a Macau, actuando num “Concerto Rota das Letras” marcado para o dia 17 de Março. “Outros convidados, entre músicos, romancistas e cineastas, serão anunciados oportunamente”, acrescenta a organização.

Para além do Centro de Arte Contemporânea, o Rota das Letras terá sessões públicas em diversos outros locais da cidade, como o Art Garden, Albergue da Santa Casa, Centro de Indústrias Criativas de Macau, IPOR, Cinemateca Paixão e Livraria Portuguesa.

O Festival Literário de Macau – Rota das Letras foi fundado em 2012 pelo jornal Ponto Final. É, anualmente, o maior encontro entre escritores da China e dos Países de Língua Portuguesa. O evento está aberto a autores de outras nações e a múltiplas formas de expressão, como o cinema e o teatro, as artes visuais e a música. In “Ponto Final” - Macau

quinta-feira, 8 de março de 2018

Albertino Bragança: O escritor contestatário na linha da frente da democratização de São Tomé e Príncipe

Na sua obra, o escritor e político são-tomense Albertino Bragança deixa transparecer a crítica a realidades pré e pós-independência e revela as preocupações de quem contestava o regime de partido único, estabelecido em 1975. Em entrevista ao Ponto Final, o autor convidado do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, opositor do regime colonial, que esteve na linha da frente da democratização de São Tomé e Príncipe, descreve-se como sendo, sobretudo, um “homem de consensos”. Recentemente pediu a demissão do cargo de Embaixador de Boa Vontade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que ocupava desde 2006


Com “Rosa do Riboque e Outros Contos”, de 1985, Albertino Bragança dá início a um percurso pioneiro na literatura são-tomense que se foca em relatos ficcionais sobre a realidade do arquipélago formado por duas ilhas principais, São Tomé e Príncipe, no período anterior e posterior à sua independência, em 1975. Nos seus contos e romances o autor aborda temas ‘tabu’, preconceitos e estigmas sociais, entretanto esbatidos na realidade actual, mas não necessariamente resolvidos. Um dos seus contos, “Preconceito”, trata a questão da discriminação entre descendentes de escravos alforriados e os trabalhadores contratados para as roças de cacau e café, vindos de Cabo Verde, Moçambique, Angola, que chegavam a São Tomé e Príncipe para trabalharem “em regime de escravatura mascarada de contrato”, descrevem os historiadores. Os contratados viviam em condições precárias e eram marginalizados, tanto por colonizadores como por nativos. Estas condições laborais, defendem alguns investigadores, estiveram na origem do massacre de Batepá, em 1953, que opuseram trabalhadores contratados e nativos instrumentalizados pelo poder colonial.

Rosa do Riboque”, a heroína ficcionada que organiza o apoio aos estivadores em greve e é presa e torturada pelas autoridades coloniais portuguesas, teve grande impacto no país, tornou-se leitura obrigatória, alguns dos textos entraram nos manuais escolares. “Hoje, quando se fala em literatura de São Tomé e Príncipe, é esta a obra de referência”, refere o autor em entrevista ao Ponto Final. Com “Um Clarão sobre a Baía”, de 2005, Albertino Bragança publica aquele que, na altura, foi considerado “o mais importante romance são-tomense”, por “quebrar a regra do silêncio” sobre o regime de partido único que dominou os primeiros anos de independência do país. Nesta obra, o autor faz uma crítica ao Governo, que terá perseguido e encarcerado os chamados “contra-revolucionários”, numa repetição da história, antes protagonizada pela polícia política do regime colonial português. A “Rosa do Riboque e Outros Contos” e a “Um Clarão sobre a Baía”, de 2005, seguiram-se “Aurélia de Vento”, de 2011, “Preconceito e Outros Contos”, de 2014, sendo a última obra publicada “Ao Cair da Noite”, de 2017.

Albertino Homem dos Santos Sequeira Bragança nasceu em 1944, estudou em Portugal, onde frequentou o Curso de Engenharia Electrotécnica da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra. Considerado pelos seus pares como “um homem com margem para consensos”, Albertino Bragança acaba quase inevitavelmente por integrar a vida política do seu país, pouco depois de regressar, em 1976, altura em que começa por exercer funções no ensino. Desempenha vários cargos partidários, governamentais e parlamentares. Foi um dos fundadores do movimento de oposição que deu origem ao Partido da Convergência Democrática – Grupo de Reflexão, colocando-se na linha da frente da democratização do país, que permitiu a mudança política no país, de um regime de partido único para o multipartidarismo, com o seu partido a vencer as primeiras eleições democráticas realizadas no país, em 1991, derrotando o partido que estava no poder desde a independência, o MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe).

O escritor e político visitou a China pela primeira vez em 1978, com a selecção são-tomense de futebol. Regressou em 1993, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, integrado na comitiva do Presidente são-tomense da altura, Miguel Trovoada. A presença do autor no Festival Literário de Macau – Rota das Letras marca o regresso ao território de Albertino Bragança, que aqui esteve no contexto daquela viagem oficial à China. Na altura, a comitiva foi recebida pelo governador Rocha Vieira.

– O Albertino Bragança fez a sua formação universitária em Portugal, antes da independência em São Tomé e Príncipe, em 1975. Conte um pouco sobre essa vivência de um são-tomense num Portugal pré-25 de Abril.

Albertino Bragança – Fiz a minha formação escolar em São Tomé e Príncipe, em São Tomé neste caso [a capital], parti para Portugal em 1964. Segui para fazer medicina, mas depois mudei para engenharia electrotécnica, na Faculdade de Ciências. Naquele tempo em Coimbra só se estudava até ao terceiro ano, eram as bases para depois irmos estudar no Porto ou em Lisboa. Estive em Portugal até 1976. Foram 12 anos em que fui estudante, praticava futebol, na Académica, depois fui para a União de Coimbra, estudava e jogava futebol, na altura. Isto para dizer que, em Coimbra, tive uma orientação, cheguei através de um colega mais velho, um são-tomense, o doutor Celestino Costa, hoje já desaparecido [Celestino Costa foi primeiro ministro de São Tomé e Príncipe, entre 1988 e 1991]. Ele levou-me para a casa onde vivia, que era a Real República Kimbo dos Sobas, na rua Antero de Quental, em Coimbra, e que tinha defronte a República dos Milionários. Era uma residência de africanos, negros, brancos, angolanos, moçambicanos. Nós éramos os dois são-tomenses que estávamos na Kimbo dos Sobas. Nessas duas repúblicas havia uma orientação anti-regime, notória, inculcada, e consagrada ao nível de algumas repúblicas e de estudantes que não estavam de acordo com o regime da época, o regime fascista. Portanto, eu segui esse caminho, que se fazia através de muita leitura, encontros e conversas.

– Essa convivência com os estudantes de Coimbra despertou-o para a forma como Portugal era então visto no mundo?

A.B. – Foi graças à ida ao Kimbo dos Sobas que comecei a aperceber-me de outras coisas que não me apercebia antes. Aperceber-me com mais fundamento, com elementos teóricos extremamente importantes para a compreensão, não só do que se passava em Portugal, mas do que se passava no mundo. Estive na República Kimbo dos Sobas durante uns anos até ser chamado para o serviço militar. Acabei o terceiro ano do curso e de imediato fui chamado para Mafra, onde estive durante um tempo. Depois estive em Vendas Novas e finalmente em Torres Novas, onde estive durante três anos como alferes miliciano. Depois, regressei a Lisboa e claro que vivi intensamente o 25 de Abril, na medida em que vínhamos contestando o regime colonial implantado nos nossos países. Nós estávamos muito ligados às Forças Armadas e às forças revolucionárias da época até se conseguir as negociações entre o MLSTP [Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe] e o Governo português, que terminaram a 26 de Novembro e que, depois, conduziriam ao 21 de Dezembro, que foi a data da entrada de São Tomé e Príncipe no Governo de transição. Aí foi marcada a data da independência para 12 de Julho do ano seguinte, de 1975.

– Onde é que se encontrava exactamente quando se dá o 25 de Abril?

A.B. – Já tinha saído da tropa, saí da tropa em Janeiro de 1972, estive lá desde 1968 a 1972. Já me encontrava em Lisboa, como civil, estava a estudar no Técnico e trabalhava no ministério, cujo ministro era o pai do actual Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa. Estava a trabalhar na direcção de estatística do Ministério do Trabalho [que, na altura, tinha a designação de Ministério da Saúde e Assistência, das Corporações e Previdência Social], que era no Campo Pequeno e estudava no Técnico. Em Julho vim para assistir à independência, esse era o meu projecto, mas estava em Portugal e só consegui chegar na semana seguinte.

– Que país encontrou no seu regresso?

A.B. – Em São Tomé, os dirigentes da época, do MLSTP começaram a fazer pressão no sentido de que deveríamos regressar, porque o país estava sem quadros. Os portugueses tinham partido. Em Janeiro de 1976 regressei a São Tomé e Príncipe definitivamente.

– Qual é o seu percurso quando regressa a São Tomé e Príncipe, em 1976?

A.B. – Chego a São Tomé e havia poucos professores, por isso, fui orientado para dar aulas de português, foi uma grande sobrecarga, porque eram muitas turmas, éramos muito poucos, os quadros nacionais na altura. Depois disso fui director de uma série de instituições que foram criadas na altura. Estive sete anos como director do Gabinete de Estudos de Pesquisas Pedagógicas do Ministério da Educação. Com a doutora Lígia Costa, hoje em Portugal, reestruturamos o ministério, estive lá de 1984 a 1991. Em 1991, entretanto, um grupo de cidadãos criou um grupo de reflexão, que era uma associação política que, na altura, pressionou muito o regime e conseguiu que se orientasse para o multipartidarismo. Fizemos muitas actividades e, mais tarde, conseguimos, através de um referendo, que a visão multipartidária fosse consagrada em São Tomé e Príncipe. A partir daí vieram as primeiras eleições democráticas, a 20 de Janeiro de 1991. As eleições foram ganhas pelo nosso partido, o grupo de reflexão transformado no Partido de Convergência Democrática/Grupo de Reflexão, que ganhou as primeiras eleições democráticas. Fui designado Ministro da Defesa num contexto, como calcula, de muita pressão e muita tensão no ar, na medida em que era uma mudança política muito profunda, passar de um sistema de partido único para o multipartidarismo e as forças militares, a polícia, estavam muito emanadas com o regime que tinha estado no poder 16 anos. Depois, caiu o Governo, em 1992. Eu deixei a Defesa e fui indigitado ministro dos Negócios Estrangeiros, onde estive dois anos e meio. O Governo caiu novamente, em 1994. Voltei à Assembleia, como deputado (…). Mais tarde, em Dezembro de 1996, fui indigitado ministro da Educação, Cultura e Desporto, foi o meu último cargo governativo.

– Esta carreira política era incontornável, estava em circunstâncias em que não tinha opção?

A.B. – Eu tinha opção, poderia ter recusado. Mas no primeiro cargo contou muito o facto de eu ter sido militar, depois contou também o facto de, no país, considerarem-me, e sou considerado, como uma pessoa que está em todos os núcleos sociais, que se envolve muito com as pessoas, isso dá-me uma certa margem de consenso e foi isso que levou os meus companheiros a indicar-me como ministro da Defesa num contexto que era muito complicado. Depois deixei a Defesa e fui para os Negócios Estrangeiros, não foi nenhuma imposição aceitei porque achei que estava em condições de exercer o cargo, depois regressei à Assembleia por três vezes, como deputado. Entretanto ia escrevendo livros.

– O que é que o fez divergir das ciências e das engenharias para a literatura?

A.B. – Vou lhe dizer, quando era aluno no liceu aqui em São Tomé e Príncipe, desde o princípio, eu estava no lote dos alunos um pouco mais credenciados na língua portuguesa. Tinha as suas causas, porque o meu avô materno era um literato, o meu avô Albertino, de quem eu herdei o nome. Ele era um homem que viajava muito por São Tomé e Príncipe, Portugal, nos princípios do século passado. E era um homem que gostava muito de ler, era um amante da leitura, era um amante de Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, aqueles grandes nomes da literatura portuguesa daquele tempo e de hoje. Eu gostava muito de futebol, ia jogar com os miúdos da minha idade no campo do Riboque que era um bairro onde vivi e onde me apercebi de coisas de que não me tinha apercebido noutras ocasiões. (…) também tinha lições e estudava por capítulos, que ia explicar ao meu avô e ia conversando com ele, sobre aquilo que eu entendia. Com essa convivência, eu, aos 13, 14 anos, tinha lido grande parte de Eça de Queirós, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco. Quando fui para o liceu já tinha todo esse contacto e, claro que, na disciplina de português, fui considerado, naquele tempo, um dos melhores alunos do liceu. Entretanto, só em 1984 é que começo a escrever, “Rosa do Riboque” [“Rosa do Riboque e Outros Contos”].

– Precisou de atingir um certo ponto de maturação para escrever?

A.B. – Cheguei aos 40 anos e comecei a pensar em tudo o que significou para mim ter ido viver para o [bairro do] Riboque. Vivemos durante nove anos no Riboque. Tive contactos com a garotada do sítio, os meus companheiros faziam coisas que eu não fazia, iam pescar no cais, iam ao cinema à noite sempre que quisessem, eu só podia sair com os meus pais, era um filho da classe média. Tinha as regalias, mas não tinha a liberdade. A liberdade entre aspas, talvez, que eles me vinham contar e que eu gostava de ter um dia. Lembrei-me, também, do sacrifício das mães, das pessoas mais pobres e das camadas menos literatas. Inventei uma mulher que não existiu, mas que era uma homenagem que eu fazia às mulheres do Riboque, inventei a Rosa, uma ficção, pura ficção, e começo o livro pelo funeral da Rosa. E esse funeral é grandioso, no aspecto em que o povo mais simples, os amigos, familiares, os acompanhantes, claro que não eram da classe média, eram trabalhadores, camponeses, era uma massa enorme que seguia o funeral da Rosa. Depois de tanta grandeza no funeral, tanta virtude, depois de escrever o primeiro capítulo, comecei a pensar comigo: “o que é que esta Rosa teria feito em vida para merecer tanta consideração e tanta amizade por parte das pessoas”. E claro que tinha que inventar e inventei. Claro que ela, enquanto mulher, naquela época não poderia estar à frente da greve, mas poderia angariar fundos para a greve dos estivadores, que iam descarregar os barcos. E, nisso, a Rosa foi perita, conseguiu grandes apoios para a greve de estivadores. Tanto que assim criou-se uma heroína que ao nível da população foi a que mais marcou, que é estudada no liceu, nas universidades. Esta obra situa-se nos anos de 1950. “A Rosa do Riboque” ficou muito ligada a Albertino Bragança e fez com que eu escrevesse o segundo livro. Foi um livro muito lido, alguns textos entraram nos manuais escolares, é assim que, quando se fala em literatura em São Tomé e Príncipe fala-se de “Rosa do Riboque”, o meu primeiro livro.

– O Albertino foi testemunha de situações que depois descreve nas suas obras?

A.B. – Não observei. Algumas situações são fictícias. Em São Tomé e Príncipe não se faziam greves, podia haver protestos, mas greves não havia. Eu inventei para representar a Rosa enquanto angariadora de meios para a concretização dos objectivos dos trabalhadores. Depois escrevi “Um Clarão sobre a Baía”, um clarão que se reflecte sobre a baía de Ana Chaves, que é a baía mais importante de São Tomé e Príncipe, esse clarão era uma crítica directa ao regime de partido único, que fiz através de uma série de personagens que foram presas. Aí, houve um morto, na época do regime que torturou, de 1975 a 1991, fiz uma crítica àquilo que se passou. Houve várias edições do livro, uma em São Tomé e duas em Portugal, pela editora Caminho.

– “Rosa do Riboque” inclui outros contos.

A.B. – Há outros três contos, um dos quais foi publicado no Brasil, chamado “Solidão”, em que criei uma personagem muito viva e extrovertida, trabalhadora, que aparentava muita alegria, mas que vivia sozinho. O conto é triste, falo da solidão. Esse conto é baseado numa figura real, verídica (…). Considero que “Solidão” é das melhores coisas que escrevi até hoje (…). Foi uma forma que aproveitei para trazer o mito para a literatura são-tomense.

– Escreveu também “Preconceito e Outros Contos”, editado em 2014

A.B. – É sobre as relações que existiam, o preconceito que havia em relação aos trabalhadores contratados por parte da população são-tomense, tentei explicar as razões de fundo desse fenómeno, que hoje está um tanto ou quanto esbatido em São Tomé e Príncipe. Há uma maior aproximação entre as pessoas, os trabalhadores contratados das roças do cacau e do café são muito retratados, são apresentados como tal, se bem que o preconceito hoje é diminuto.

– De que preconceito é que se trata?

A.B. – Isso é uma questão importante. Em São Tomé e Príncipe, em 1953, 3 de Fevereiro, houve o massacre de Batepá, em que um governador Carlos Gorgulho procedeu à matança de muita gente. É um evento assinalado todo os anos, fala-se com os jovens, as razões do massacre, as remotas e as próximas, para dizer o seguinte: o porquê dessa discriminação que havia entre os são-tomenses e os contratados. Os contratados são pessoas que vieram de Angola, Moçambique e Cabo Verde. Sabe que nas colónias portuguesas, pelo menos em São Tomé e Príncipe, a escravatura encontrou os seus últimos dias, o seu fim, em 1875. Quando acaba a escravatura, os escravos deveriam continuar a trabalhar nas roças como homens livres durante nove anos para não fazerem cair os preços da produção de cacau e café, mas eles recusaram-se e abandonaram as roças. Eram forros que dependiam de uma carta de alforria de libertação. Para salvar a produção, o Governo português teve de recorrer a contratados. Aparentemente eles assinavam o contrato com o Governo, que lhes dava garantias no papel mas, na prática, continuavam a ser escravos. Os contratados eram chicoteados como escravos. Eles vinham de Angola, Moçambique, porque os são-tomenses foram sendo considerados homens livres (…) e havia uma classe política muito forte, tanto em Portugal como em São Tomé, de nativos são-tomenses, e isso fazia de São Tomé e Príncipe uma colónia muito especial. (…) Gorgulho veio de Portugal com a convicção de que ia resolver o problema de mão-de-obra em São Tomé, mas os são-tomenses mantiveram-se firmes perante os propósitos de Gorgulho e, por isso, vinham os contratados trabalhar na rudeza das roças, (…) Por essa razão se criou esse complexo social, nós somos homens livres, aqueles são contratados, por isso, naquele tempo havia essa separação que eu tentei apresentar no conto “Preconceito”, que retrata essa discriminação entre os chamados nativos de São Tomé e os contratados de Angola e Moçambique e Cabo Verde.

– A origem do seu nome vem do seu avô, quem era o seu avô?

A.B. – O meu avô pertencia à classe dos “moradores da cidade”, à classe dos literatos. Albertino dos Santos era uma figura conhecida dos meios citadinos. Era o pai da minha mãe e de uma figura que foi ilustre, que ficou célebre, muito renomeada na libertação de São Tomé e Príncipe do regime colonial, que era o camarada Oné. Um homem muito culto, António Barreto Pires dos Santos, vulgo “Oné”.

– Em relação à retoma das relações diplomáticas de São Tomé e Príncipe com a República Popular da China, em Dezembro de 2016, esteve ligado a este processo?

A.B. – Fui durante muitos anos, desde 2006 até à semana passada, Embaixador da Boa Vontade da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Pedi a demissão há dias. Claro que durante a fase em que ocupei o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros estive na China e em Taiwan. O corte de relações com Taiwan e a retoma de relações com a China apanhou algumas pessoas desprevenidas, se bem que soubéssemos dos contactos que têm vindo a ser feitos com a China Popular e no regresso deste país a São Tomé e Príncipe. Ora, eu não quero estar a falar muito sobre isso sem estar por dentro, não sabendo quais os interesses para São Tomé e Príncipe nesta retoma de relações com a China. Politicamente ainda estou no activo e não quero pronunciar-me sobre o fundo da questão. Queria dizer-lhe que em São Tomé e Príncipe, no princípio da independência, a China foi um grande parceiro, porque patrocinou os projectos mais importantes daquele tempo. Em 1997 rompe-se a relação, foi algo que pressenti anos antes quando visitei a China como ministro dos Negócios Estrangeiros e vi a reação dos chineses. Mas, o certo é que em 1997 cortou-se relação com Pequim e estabeleceu-se a relação com Taiwan, que também foi um grande parceiro de São Tomé e Príncipe, sobretudo na área da saúde e da agricultura. Estou em crer, acho que a forma quase deprimente como se fez o corte foi algo muito chocante certamente tanto para taiwaneses como para alguns são-tomenses, grupo no qual me incluo, porque as coisas poderiam ter sido feitas de outra maneira, de forma mais civilizada e pensando em tudo o que de bom fizeram os taiwaneses em São Tomé e Príncipe.

– Era algo de incontornável para São Tomé e Príncipe esta retoma das relações diplomáticas com a República Popular da China?

A.B. – Havia grupos chefiados por personalidades, embora São Tomé e Príncipe estivesse em parceria com Taiwan, havia grupos e personalidades que agiam no sentido da retoma de relações com a China Popular, porque a China é, sem qualquer dúvida, uma potência mundial, que tende a rivalizar com os Estados Unidos. Por isso mesmo há pessoas que viam nessa retoma possíveis grandes vantagens para São Tomé e Príncipe. Possivelmente, e sobretudo, nos grandes projectos, que podiam relançar a economia nacional, como a construção do porto de águas profundas e a reabilitação e restruturação do aeroporto nacional, projectos, portanto, de grande vulto que Taiwan certamente não iria patrocinar. Ainda não estamos em condições de saber se houve vantagens ou não. Mas, aparentemente, parece que o regresso às relações com a China poderia ser algo de muito positivo para São Tomé e Príncipe, a ver vamos. Cláudia Aranda – Macau in “Ponto Final”

terça-feira, 14 de março de 2017

Guiné-Bissau - Está a perder o fio à meada do português

O alerta é dado por Abdulai Silá: a língua portuguesa corre o risco de desaparecer da Guiné Bissau e já será falada por menos de um por cento da população do país. Fundador da Associação de Escritores da Guiné Bissau, Silá acusa o governo guineense de não ter uma “política linguística clara” para o ensino do português


Abdulai Silá, escritor guineense que está em Macau a convite do Festival Literário Rota das Letras, está preocupado com o estado da língua portuguesa no seu país, devido a um sistema educativo “falido”, que, diz, ignora o facto de menos de um por cento dos guineenses falar o idioma no dia-a-dia.

“O nosso sistema educativo está falido. Há cada vez menos capacidade de expressão em português. Isso chega ao ponto de ser preocupante, chega ao ponto em que pessoas que têm a língua como principal ferramenta de trabalho não a dominam o suficiente para exercer. Vê-se acórdãos, até no Supremo Tribunal, cheios de erros”, lamenta o escritor, em entrevista à agência Lusa.

Abdulai Silá, que cofundou e preside à Associação de Escritores da Guiné Bissau, diz que há “cada vez mais pessoas a escreverem em crioulo”, o que considera “saudável”, salientando que “essa necessidade de diálogo com o cidadão é cada vez mais forte”, mas alerta para o facto de, por outro lado, haver “uma dificuldade real de utilização do português”.

“Ensinamos o português como se se tratasse de um país onde as pessoas falam português no dia-a-dia. Isso é falso. Menos de um por cento dos guineenses fala português no seu dia-a-dia. Falam outras línguas, uma boa parte fala crioulo, outra nem sequer o crioulo fala. Não se pode ensinar essa língua ignorando essa realidade. O resultado é o que se vê”, crítica.

O autor de 59 anos apela a uma “política linguística clara”, que corrija situações como, por exemplo, professores que não dominam o português a ensinarem língua, como diz ter conhecimento de existirem: “Tenho dois sobrinhos a terminar o 12.º ano e não são capazes de escrever uma nota simples, ou ter uma comunicação básica sobre o estado do tempo. Fazem tantos erros, tantos erros. Não são culpados, são vítimas”, relata.

Com a comunicação oral “praticamente nula”, Abdulai Silá considera particularmente grave que as entidades que utilizam a escrita o façam de forma deficitária: “É muito difícil, por exemplo, ler-se os jornais, hoje. Na primeira página, erros crassos. Isso é muito mais grave do que se pode imaginar, num contexto em que não se fala, em que uma das formas mais eficientes de melhorar o conhecimento da língua é através da leitura. O guineense não fala português com outro guineense, é muito raro, mas escreve e lê o português todos os dias. Quando esse contacto com a língua não ajuda, porque está cheio de erros, as pessoas ficam na dúvida: será que é como escreveu o jornalista ou como eu aprendi noutro local?”, alerta.

Uma dificuldade ainda anterior a esta é a reduzida taxa de literacia do país, cerca de 60 por cento. Além dos que não sabem efectivamente ler e escrever, Silá lembra que há também “analfabetos funcionais”: “É o que temos e que é muito perigoso, pessoas que nunca pegam num livro, não cultivam a mente”, diz.

Perante esse cenário, um escritor questiona-se: “Vale a pena dirigir-se a uma pequena minoria, essa meia dúzia de indivíduos que decidem sobre o destino do país?”

Para contornar essa situação, a associação de escritores procura “envolver cada vez mais, e através de acções concretas, o cidadão comum, sobretudo o jovem”.

A associação tem cerca de duas dezenas de membros, mas as suas actividades são abertas a todos. Silá destaca os encontros mensais para discutir “a cultura de uma maneira geral”: “Num ambiente tão tenso como o que se tem vivido ultimamente na Guiné-Bissau, entendemos que deve haver momentos de lazer, momentos de reflexão, momentos de convívio, de pacificação. Há sempre um convidado que tenha feito uma contribuição válida na história da Guiné-Bissau, seja de que área for”, explica. In “Ponto Final” - Macau

segunda-feira, 3 de março de 2014

Rota das Letras 2014

Rota das Letras concentra-se no centro da cidade

Este ano vai haver uma maior “concentração geográfica” das conferências literárias.

A terceira edição do Festival Literário de Macau – Rota das Letras, que se realiza entre 20 e 30 de Março de 2014, traz algumas novidades em termos de organização e boas surpresas na lista de autores convidados.

Da lusofonia vão chegar, entre outros, três romancistas, o escritor e músico da nova geração de autores portugueses, Afonso Cruz, autor de “Jesus Cristo Bebia Cerveja”, a romancista brasileira Andréa del Fuego e, de Moçambique, o escritor João Paulo Borges Coelho, autor de “O Olho de Hertzog”, prémio Leya de 2009. De Portugal chega também o poeta e tradutor de chinês, António Graça de Abreu, com uma forte ligação a Macau e à China, e, ainda, os escritores e comentadores políticos José Pacheco Pereira e Clara Ferreira Alves. Bei Dao, de Hong Kong, e Yan Gelign, da China Continental, são dois dos autores chineses em destaque.

Em termos de programação, o festival vai manter aquilo que é, desde o princípio, a lógica do evento, que é um festival literário com uma diversidade de eventos, onde se incluem conferências literárias, projecção de filmes, exposições de arte, saraus musicais e dois dias de concertos, explicou o director do festival, Ricardo Pinto, na conferência de imprensa onde estiveram presentes, também, o presidente do Macau Pen Club, Li Guangding, e o representante do departamento de chinês da Universidade de Macau, professor Zhu Shoutong.

Ricardo Pinto destacou algumas alterações em relação a edições anteriores. Este ano vai haver uma maior “concentração geográfica” das conferências literárias.

Ricardo Pinto adiantou que o orçamento do festival para 2014 é de cerca de 2,4 milhões de patacas, um valor ligeiramente superior ao do ano passado. O Instituto Cultural e a Fundação Macau contribuem com um total de um milhão de patacas, o restante montante é financiado por privados. O Ponto Final e o Instituto Cultural são os organizadores do evento. A Fundação Macau, o Macau Pen Club e o Instituto Politécnico de Macau integram também a comissão organizadora. Cláudia Aranda - Macau In “Ponto Final”

terça-feira, 5 de março de 2013

Vagamundos

O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto
 
Sinopse

Fernão  Mendes Pinto é o exemplo vivo do aventureiro português do Século XVI, que embarcava para o Oriente com o fito de enriquecer. Curioso, inteligente, ardiloso e hábil, capaz de todas as manhas para sobreviver, vai tornar-se num homem dos sete ofícios, sendo embaixador, mercador, médico, mercenário, marinheiro, descobridor e corsário dos sete mares – Roxo, da Arábia, Samatra, China, Japão, Java e Sião – por onde, durante vinte anos, navegou e naufragou, ganhou e perdeu verdadeiros tesouros, fez-se senhor e escravo, amou e foi amado, temido e odiado.

Herói polémico e marginalizado, Fernão participa em campanhas de paz e guerra, da Etiópia à China, sendo também um dos primeiros portugueses a visitar o Japão, onde introduz os mosquetes ali desconhecidos e fica nas crónicas locais como o noivo do primeiro matrimónio de uma japonesa com um ocidental.

Através de Fernão Mendes Pinto e dos testemunhos das personagens com quem se cruza, na sua peregrinação pelo Oriente longínquo, a autora faz ainda a narrativa dos principais episódios da grande saga dos Descobrimentos Portugueses, como as conquistas de Goa e Malaca, o heróico cerco de Diu ou as campanhas do Preste João na Etiópia.

Em sete mares se divide o romance, por onde o leitor, na pele das personagens, fará uma intrigante viagem no Tempo, ao encontro de si próprio e de mundos e povos antigos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes, uma peregrinação na busca incessante de fortuna, encarnada na demanda da mítica Ilha do Ouro.

Deana Barroqueiro – Escritora de romances históricos sobre o período dos Descobrimentos - Portugal - Estará presente na 2ª Edição da Rota das Letras - Festival Literário de Macau, no próximo dia 11 de Março de 2013 pelas 18H locais, na Fundação Rui Cunha, no painel sobre Literatura de Viagens com Joaquim Magalhães de Castro, Alexandra Lucas Coelho, Bárbara Bulhosa e Sheng Keyi. O moderador é Hélder Beja.
                      
Deana Barroqueiro é escritora, professora, contadora de histórias, autora de O Corsário dos Sete Mares – Fernão Mendes Pinto; Tentação da Serpente; O Romance da Bíblia; D. Sebastião e o Vidente; O Navegador da Passagem; O Espião de D. João II; Prémio Máxima de Literatura 2007 - Prémio Especial do Júri para o romance "D. Sebastião e o Vidente"
                                              


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Letras


“A segunda edição da Rota das Letras – Festival Literário de Macau acontece de 10 a 16 de Março de 2013 e traz ao território mais de 30 escritores, editores, tradutores, jornalistas, músicos, cineastas e artistas plásticos.

Este ano o evento recebe um apoio ainda mais significativo do Instituto Cultural e da Fundação Macau, que agora coorganizam o festival, ao lado do jornal Ponto Final.

Seguindo o modelo do ano passado, o festival terá conferências e debates, bem como uma feira do livro, exposições de artes plásticas, concertos e projecção de filmes.

O programa do festival deste ano apresenta vários autores proeminentes da literatura chinesa contemporânea, incluindo Bi Feiyu, vencedor de vários prémios literários da China, bem como do Asian Man Booker Prize; Hang Shaogong, autor de “A Dictionary of Maqiao” e tradutor dos escritos de Fernando Pessoa; Hong Ying, uma das autoras chinesas mais reconhecidas internacionalmente; e Yi Sha, um nome controverso na poesia chinesa contemporânea. Outros autores, como Sheng Keyi, Qiu Huadong, Pan Wei, Wang Gan, Haung Lihai, Li Shao Jun e a poetisa taiwanesa Xi Murong são também vozes bastante influentes da cena literária actual – e todos eles estarão presentes no festival.

No que toca a autores lusófonos, a Rota das Letras convida Dulce Maria Cardoso, uma das melhores romancistas da sua geração; Rui Zink e Ricardo Araújo Pereira, que trabalham com a linguagem e o humor de modos muito especiais; Francisco José Viegas, antigo secretário de Estado da Cultura de Portugal, autor e editor; Valter Hugo Mãe, recentemente vencedor do prémio Portugal Telecom, um dos galardões mais prestigiados entre os conferidos a autores de língua portuguesa; a escritora e jornalista Alexandra Lucas Coelho; o jornalista e tradutor Carlos Vaz Marques; a editora da Tinta-da-China Bárbara Bulhosa e, com o apoio da Casa de Portugal, a romancista Deana Barroqueiro.

José Eduardo Agualusa, autor angolano e um dos mais conhecidos nomes entre os escritores africanos de expressão portuguesa, também virá para o festival, tal como Luís Cardoso, provavelmente a voz literária mais importante de Timor-Leste. Do Brasil já estão confirmadas a presença do poeta Regis Bonvicino e do Director-geral da Festa Literária Internacional de Paraty, Mauro Munhoz. Paloma e Cecília Amado, filha e neta de Jorge Amado (1912-2001), um dos maiores romancistas brasileiros de todos os tempos, vêm a Macau para uma homenagem ao autor. Será exibido um documentário e um filme de ficção sobre a sua vida e um dos seus livros, respectivamente.

Vários autores locais, como a poetisa Fernanda Dias, Tong Mui Siu (汤梅笑), Chek In(寂然)Lou Mou (鲁茂) e Wong Man Fai (黄文辉)estão entre os convidados do evento, representando a cena literária de Macau.

A Rota das Letras decidiu também abrir-se gradualmente a outros escritores asiáticos e latinos, e é por isso que este ano recebe os franceses Antoine Volodine e Claude Hudelot, que já desenvolveram no passado afinidades com Macau, a China e o mundo lusófono.

Um dos pontos altos da programação do festival será o lançamento do livro de contos sobre Macau. Na primeira edição da Rota das Letras o público foi convidado a participar num concurso de contos, que teve como júris alguns dos autores que nos visitaram: Su Tong, José Luís Peixoto e Xu Xi, para as línguas chinesa, portuguesa e inglesa, respectivamente. Dos mais de 30 contos recebidos, alguns foram selecionados para publicação. Os vencedores serão anunciados na conferência de imprensa do festival.

Estes contos serão publicados ao lado daqueles escritos pelos autores convidados da edição do ano passado – nomes como Lolita Hu, João Paulo Cuenca, Jimmy Qi, Rui Cardoso Martins, Xu Xi e José Luís Peixoto. Este ano o festival convida novamente todos os autores que visitam Macau a escrever sobre a cidade.

A Rota das Letras terá alguns destaques no que toca ao cinema. O várias vezes premiado “A Última Vez Que Vi Macau”, dos cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, terá a sua pre-premiere chinesa no festival, antes de seguir para o Festival Internacional de Cinema de Hong Kong. Este é provavelmente o filme sobre Macau mais importante e mais premiado das últimas décadas.

Da China, o realizador Wiseman Wang virá para mostrar “Journey to the South”, um ‘road movie’ em que um camionista atravessa a China, rumando a sul e à província de Guangdong, tentando fazer dinheiro para resolver problemas familiares.

O realizador Ivo Ferreira também mostrará o seu novo filme, “Na Escama do Dragão”, durante o festival; e o historiador e sinólogo Claude Hudelot apresentará “Hou Bo, Xu Xiaobing, Mao’s Photographers”, documentário que co-realizou com Jean-Michel Vecchiet.

Tal como no ano passado, a música volta a ter um papel importante no festival. A mais tradicional música portuguesa, o fado, estará representada na aclamada voz de Camané. Dead Combo, um dos projectos musicais mais interessantes em Portugal e que ganhou reconhecimento internacional depois de aparecer no programa de TV “No Reservations”, de Anthony Bourdain, também está confirmado.

A Rota das Letras terá ainda dois artistas em residência na Fundação Oriente: o chinês Chen Yu e Theodore Mesquita, de Goa. Os dois pintores, com backgrounds muito diferentes, vêm ao território com o mesmo propósito: criar trabalhos que reflictam a sua experiência em Macau. Além das novas peças produzidas por cá, os autores irão também expor trabalhos anteriores na galeria do piso térreo da Fundação Oriente.

Outra exposição, com curadoria da artista local Alice Kok, terá lugar no edifício do antigo tribunal, onde vários artistas locais mostrarão os seus trabalhos sobre o tema “Para além das Palavras”.

Em colaboração com a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, o festival espera estabelecer uma relação mais forte com as escolas e universidades, dando aos leitores mais jovens a possibilidade de estarem em contacto com os escritores convidados.

Este ano o festival tem o apoio da Universidade de Macau, Pen Clube de Macau, Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, Turismo de Macau, Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Sociedade de Artes e Letras, Instituto Português do Oriente, Fundação Oriente, Macau Closer, Livraria Portuguesa e Casa de Portugal, entre várias outras entidades públicas e privadas.” In “Rota das Letras – Festival Literário de Macau” - Macau