Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 7 de julho de 2026

O Rio de Janeiro de Machado de Assis

Obra do pesquisador Nireu Cavalcanti faz um levantamento das moradias em que viveu o grande autor

                                                                               

                                                                  I

Conhecer o verdadeiro percurso do casal Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) e Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis (1835-1904) pelas ruas do Rio de Janeiro foi o objetivo do historiador e pesquisador Nireu Cavalcanti em Machado de Assis: Caminhos de suas moradias no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Editora Lacre, 2026), que conta com extenso e percuciente prefácio de Alexei Bueno (1963-2026), um dos últimos textos deste poeta, crítico e editor recentemente falecido.

Trata-se de obra que vai além do seu principal objetivo, ao recolher e verificar documentos que recuam até os anos da fundação do Rio de Janeiro, com a marca de um pesquisador, que se tem destacado por sua incansável busca nos arquivos do Brasil e Portugal, que lhe permitiu recontar em grande parte a História do País.

Acima de tudo, é obra muito bem documentada que vem para ratificar a ignorância que tem marcado a atuação dos nossos homens públicos, geralmente pessoas de baixa qualificação intelectual e pouca leitura, tantos são os equívocos históricos que foram cometidos ao longo dos anos na tentativa de assinalar o percurso de vida de um escritor que é considerado o clássico máximo da Literatura Brasileira, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Como observa no prefácio o saudoso Alexei Bueno, não foram poucos os historiadores e literatos que afirmaram que Machado de Assis era filho de uma “negra analfabeta”, quando, na verdade, sua mãe era uma portuguesa que de analfabeta nada tinha. Sem contar aqueles que viram no escritor um funcionário público bem sucedido economicamente, quando, na realidade, como mostra Nireu Cavalcanti, ele sempre pagou aluguel pelas várias moradias que habitou em sua cidade natal.

Aqui, porém, reside um mistério apontado pelo investigador: o funcionário Machado de Assis, já homem de meia-idade, ganhava um salário considerável no Ministério da Agricultura e as despesas do casal seriam moderadas, mas não se sabe por que nunca se interessou em comprar o chalé. Tampouco se sabe porque a condessa de S. Mamede e seu segundo marido Miguel, irmão de Carolina, milionários, proprietários do imóvel, nunca se interessaram em dar de presente o imóvel ao escritor. É de se acreditar que, se o chalé tivesse sido propriedade do casal, após a morte de ambos, provavelmente, a memória do imóvel teria sido preservada.

Afinal, se não deixou “o legado de sua miséria”, ao não ter descendentes, Machado   de Assis ofereceu para a posteridade uma obra reverenciada hoje ao lado daquelas escritas por grandes mestres da literatura universal, como Dostoievski (1821-1881), Franz Kafka (1883-1924), Charles Dickens (1812-1870), Edgard Alan Poe (1809-1849), Jorge Luis Borges (1899-1986) e outros.  

O ridículo chegou ao máximo quando as autoridades municipais, a pretexto de homenagear o insigne escritor, mandaram colocar uma placa em determinada fachada de um prédio da rua da Lapa, com a afirmação de que ali vivera Machado de Assis, embora no alto do prédio apareça a data de sua construção, ou seja, 1909, quando o homenageado já não vivia. A moradia verdadeira ainda se encontra no local sob o nº 264.

 

                                                   II

Só que não param por aqui os equívocos. Pelo contrário. O historiador faz ainda um apelo para que a Prefeitura do Rio de Janeiro retire a placa que, em 2022, foi colocada na fachada do prédio de nº 174 da rua Cosme Velho, na esquina com a rua Marechal Pires Ferreira, como sendo o local em que viveu seus últimos anos o casal Machado de Assis. E que a recoloque na fachada do prédio de nº 136, pois teria sido ali que existiram o chalé em que o escritor e sua esposa viveram, derrubado no início da década de 1930, e o terceiro chalé vizinho, demolido na década de 1960, por uma construtora para levantar um edifício de gosto duvidoso.

Naquele chalé, o escritor produziu obras-primas como Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908). Antes já havia publicado o memorável romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e o livro de contos Papéis avulsos (1882). Em 1884, publicou Histórias sem data, reunindo contos que, provavelmente, teriam sido escritos quando residia em outros locais.

Como reconhece o investigador, localizar com exatidão cada endereço de moradia de Machado de Assis, solteiro e a partir de 1869, quando se deu seu casamento com Carolina, é hoje tarefa muito difícil, já que houve numerosas mudanças de numeração nas ruas da cidade, entre 1839 e 1908, bem como em logradouros que mudaram de nome, como o Caminho da Cancela que virou rua São Luiz Gonzaga e a rua do Fogo que passou a se chamar rua dos Andradas, ou a sua vizinha rua da Conceição.

Mesmo assim, em meio às conhecidas menções às moradias em que o inquilino Machado de Assis viveu, às ruas dos Andradas, de Santa Luzia, da Lapa e de Laranjeiras, o investigador acrescentou outra até aqui desconhecida, localizada à rua da Alfândega, 123, onde o escritor morou em 1867, antes de seu casamento.

 

                                                   III

Os equívocos são muitos. Em sua obra, Nireu Cavalcanti mapeia nove endereços exatos onde o escritor viveu, desfazendo lendas urbanas como a de que o escritor teria nascido no alto do morro, sede da chácara do Livramento, já que veio ao mundo numa casa térrea da rua do Livramento, 151, hoje com três pavimentos. Entre outros achados, localizou outra moradia dos pais do escritor no bairro de São Cristóvão, à rua São Luiz Gonzaga.

A quarta morada teria sido na rua dos Andradas, mas deste endereço, nos dias de hoje restou apenas a fachada. A obra esclarece também um erro sobre o sobrado que seria a sétima morada, à rua das Laranjeiras, 22, dado pelos biógrafos como demolido, e descarta a famosa lenda de que ele teria morado numa casa na rua Matacavalos (atual rua do Riachuelo). Da rua das Laranjeiras, o casal, em 1879, já se mudara para a sua oitava moradia, uma casa térrea à rua do Catete, 206.

A última moradia, a nona, teria sido aquela localizada à rua Cosme Velho, 14, onde o casal viveu de 1884 a 1908, lembrada pelo poeta Olavo Bilac (1865-1918) em cerimônia realizada pela ABL no primeiro ano do falecimento de Machado de Assis, seguida da colocação de uma placa de bronze alusiva à data. Depois disso, como constatou o pesquisador, não houve a menor referência quanto à aquisição do imóvel para a preservação da simbólica moradia, uma prova inequívoca da indigência mental que sempre marcou a maioria dos governantes brasileiros.

Exceção ao movimento da Sociedade dos Amigos de Machado de Assis, criada em 1958, sob a direção do intelectual Plínio Doyle (1906-2000). A Sociedade tinha dois objetivos: desapropriar e tombar o terceiro chalé que estava de pé (ocupado por várias famílias) e, após o restauro, instalar o Museu Machado de Assis e construir no alto do Morro do Livramento uma escola pública com o nome do escritor. Nada conseguiram, apesar das promessas das autoridades em ajudar na realização desse sonho de Plínio Doyle.

Até que, por volta de 1937, a picareta da indústria imobiliária colocou abaixo a casa, tendo seus restos permanecido no local até 1960, quando foi demolido o chalé vizinho e construído o atual edifício que leva o número 136. Em suas pesquisas, o historiador ainda levantou dados sobre as famílias que ali residiram depois do falecimento de Machado de Assis.

Na parte final da obra, o historiador teve a louvável preocupação de mostrar como era o Rio de Janeiro ao tempo de Machado de Assis, especialmente os lugares que ele costumava frequentar, como teatros, livrarias, confeitarias, restaurantes, charutarias e lojas de moda,  além do provável caminho que fazia, de segunda à sexta-feira, de sua casa até o seu local de trabalho, no Ministério da Agricultura, situado na praça de D. Pedro II (atual praça Quinze), que, em seus arredores, inclui a famosa rua do Ouvidor, sítio arquitetônico mais importante da cidade à época, local que costumava reunir as figuras públicas mais conhecidas daquele tempo.

Ao fazer um resumo histórico do local, o investigador não deixa de mostrar, inclusive, foto do prédio onde funcionava o local de trabalho do escritor, hoje totalmente descaracterizado, como anexo do Palácio Tiradentes, onde funciona a Assembleia Legislativa, bem como outras fotos antigas dos principais locais e paisagens da região. E termina por apresentar ilustrações de seu próprio punho que retratam personagens femininas machadianas, inclusive reconstituindo hipoteticamente a família Assis: pai, mãe e a criança Joaquim Maria Machado de Assis.

 

                                                                    IV

Historiador, desenhista, artista plástico e arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, Nireu Cavalcanti (1944) é doutor em História Social, com ênfase em História Urbana, pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1997. Tem especialização em Planejamento Urbano e Regional e em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Santa Úrsula (1979-1982).

Nascido em Alagoas, migrou para o Rio de Janeiro em 1962. Arquiteto, com projetos no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, e artista plástico, que participou da Bienal da Bahia em 1968, e de exposições coletivas e individuais, é professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007. É autor, com Hélio Brasil (1931-2025), de Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola Casa Editorial, 2015); e O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Jorge Zahar Editor, 2004), seu trabalho de doutoramento, com o qual obteve o primeiro lugar da 42ª Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ, em 2004.

Publicou ainda Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807 (Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas históricas do Rio colonial (Civilização Brasileira/Faperj, 2004); Santa Cruzuma paixão (Relume-Dumará, 2004); Construindo a violência urbana (Madana Editora, 1986); Rio de Janeiro, centro histórico: marcos da colônia (1998); e  Rio de Janeiro: Centro histórico colonial 1567-2015 (Andrea Jackobsson Estúdio/Faperj, 2016). Por último, publicou Borbulhar da memória (Edições Júlio e Maria, 2024).

É autor do artigo “Silêncio no Ipiranga”, publicado no jornal O Globo, de 18/9/2010, p. 42, em que sustenta que a independência do Brasil foi proclamada no dia 1º de agosto de 1822, no Rio de Janeiro, em manifesto que contém o plano de governo de d. Pedro e a convocação dos “brasileiros em geral para que se unissem em torno da causa da Independência”. Ou seja, segundo o historiador, como mostram os documentos da época, às margens do rio Ipiranga, próximo à cidade de São Paulo, no dia 7 de setembro de 1822, o que houve foi apenas um ato que referendou a independência já proclamada. 

Publicou também o ensaio “Veredas da arquitetura modernista no Rio de Janeiro” (Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ), nº 27, 202, pp. 117/157. É também um dos autores do livro Rio, da Glória à Piedade, organizado por Hélio Brasil e publicado por Rosmaninho Editora de Arte, em Santarém, Portugal, em 2023. Foi cronista do Jornal do Brasil entre 1999 e 2000. Adelto Gonçalves - Brasil

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Machado de Assis: Caminhos de suas moradias no Rio de Janeiro, de Nireu Cavalcanti, com prefácio de Alexei Bueno e texto de apresentação de Eliezer Moreira. Rio de Janeiro, Editora Lacre, 294 páginas, 2026. E-mail do autor: contato@nireu.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


terça-feira, 18 de março de 2025

Um mergulho na memória

Em novo livro, o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti rememora os anos da infância e juventude em Maceió

       

         I

Depois de escrever vários livros em que reconta a História do Brasil, com base em documentos manuscritos de arquivos portugueses e brasileiros, o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti acaba de publicar Borbulhar da memória (Edições Júlio e Maria, 2024), em que trata de  reconstituir a história de sua própria família, gente oriunda do agreste e do sertão de Alagoas, entre Palmeira dos Índios e Santana do Ipanema, que se transferiu  para Maceió em 1947, quando o autor tinha apenas três anos, e, finalmente, para o Rio de Janeiro, em 1962. Para melhor recuperar os anos perdidos, o autor ainda agrega ao livro depoimentos de quatro de seus irmãos, que enriquecem o trabalho.

Ao mesmo tempo, reconstitui com a memória a casa e os lugares pelos quais passou, ao recordar a Maceió de meados do século XX, especialmente as ruas Teixeira Bastos, Dias Cabral, Santa Maria (hoje Doutor Guedes Gondim) até a atual avenida Vieira Perdigão, por onde passavam os trilhos da estrada de ferro, e as lojas e oficinas que haviam por lá, incluindo o Colégio Estadual de Alagoas, onde estudou, até o Mercado Municipal, “que tinha de tudo, principalmente a feira de passarinhos”.

Com uma linguagem onírica, o autor recupera os sentimentos infantis, como a veneração às árvores frutíferas, passando pela adolescência, quando o ser humano perde a inocência, e relata seus primeiros namoros, além da fascinação que tinha por uma vizinha também adolescente, porém mais velha, o que o levaria, inclusive, a fazer um buraco na dependência sanitária da casa ao lado só para vê-la nuinha. 

De família católica, remediada, que colocava a honestidade acima de tudo, o autor recorda com prazer a convivência com um vizinho mais bem aquinhoado, o engenheiro pós-graduado José Barreto, sergipano, que lhe abria as portas de sua vastíssima biblioteca, desde que cumprisse uma exigência: lavar as mãos antes de pegar nos livros, revistas e estampas de pinturas. E que até lhe deu um livro que contestava a origem do ser humano que aprendera ao ler a Bíblia e que defendia que o homem seria descendente de macaco.

Lembra também os momentos que vivia, já adolescente, em meio a companheiros de rua no meio da praça Marechal Deodoro e os poucos instantes em que tivera a oportunidade de conversar com Lucinha, moça de família rica, a “mais bonita e meiga de Maceió”, mas que lhe daria um tapa no rosto, incomodada com sua ousadia em lhe pegar “carinhosamente na mão”. E que sumiria de sua vida para sempre.

Nas últimas páginas, Nireu Cavalcanti faz uma homenagem aos pais – Júlio Nobre Cavalcanti e Maria Oliveira Cavalcanti – que, embora de origem humilde, fizeram imensos esforços para que os filhos chegassem a cursos de nível superior: a mãe cuidava de uma mercearia, “que também vendia bebidas alcoólicas como vinho de jurubeba, alcatrão de São João da Barra e cachaça, ou aguardente de cana”, e o pai de um armazém que incluía um setor de farmácia, além de fazer negócios no interior de Alagoas com gado bovino e cavalar e ovelhas.

  

                II

No prefácio, o poeta, ensaísta e editor Alexei Bueno lembra que Nireu Cavalcanti “é um perfeito carioca adotivo, e um desses abnegados que assumiram o trabalho de Sísifo que é a luta inglória pela preservação do que sobrou do patrimônio histórico e artístico do castigado Rio de Janeiro”. E observa que, nesta narrativa, o leitor acompanhará a formação do protagonista, “bem como a sucessão de vicissitudes, caminhos e escolhas de todos os membros da família”. E irá encontrar “o retrato de um momento irrecuperável, como todos eles, e de uma alegria de viver que sempre se sobrepôs a todas as dificuldades, a todas as inarredáveis dores, condenadas, como os momentos jubilosos, a transformar-se na imperativa matéria da memória”.

Já para o romancista, novelista, contista e poeta Hélio Brasil, igualmente arquiteto, autor do texto de apresentação (“orelhas”), as crônicas de Nireu constituem “um hino à grandeza e à importância da família, com um alimento que jamais faltou em sua mesa: amor!”. São “borbulhantes de ingenuidade e brasilidade”, diz, ressaltando que   reproduzem “a sonoridade do peculiar sotaque nordestino que nos traz o latir de cães ferozes na defesa das frutas no quintal da vizinha e o som do sino da igreja local chamando seus fiéis para os corações que atenuariam seus pecados”. Entre eles, acrescenta, “a tentação das moças damas que, em seus prostíbulos, atraíam os adolescentes para as gostosas e pecaminosas tarefas do sexo”. 

Por fim, o ensaísta, crítico literário e pesquisador André Seffrin, no texto da contracapa do livro, ressalta que o melhor da obra não está apenas nas atuações do seu autor e ator principal, nem nos papéis de seus irmãos, mas em outro personagem real, dona Maria Oliveira Cavalcanti, mãe destes fabulosos irmãos, da qual “emana toda a mágica fortuna destes relatos”.

 

        III

O livro reúne depoimentos de quatro irmãos de Nireu: a antropóloga Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, autora de A derradeira gesta: Lampião e nazarenos guerreando no sertão, notável obra sobre Lampião, o rei do cangaço, entre outras; os engenheiros Hermano José e José Oliveira Cavalcanti; e a veterinária e sanitarista Luciaurea Oliveira Cavalcanti de Zuniga, que evocam ainda os irmãos que partiram: Gilberto, falecido de forma trágica na juventude; o advogado Julmario Oliveira Cavalcanti e  Emmanoel Cavalcanti, o Cavaca, ator coadjuvante em filmes famosos, como Terra em transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha, e A hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos.

No depoimento de Luitgarde, há ainda um texto que é parte de um maior chamado “Posfácio”, publicado no livro Luitgarde: uma voz dos silenciados, organizado por José Marques de Melo e Sônia Maria Ribeiro Jaconi (São Paulo, Intercom, 2011). Nesse texto, Luitgarde reconhece que sua família foi vítima “do ódio político de um sistema que não admite sentimentos humanos que contrastem com a lei do extermínio, dominante na governança deste país, já dominante na expulsão de Octavio Brandão de Alagoas, nas primeiras décadas do famigerado século XX, que gestou e executou carnificinas que atingem o apogeu, agora, na era do neoliberalismo”.  

Portanto, como observa Alexei Bueno no prefácio, aqui o leitor também poderá sentir de perto, como a autora sentiu, “a violência endêmica daquele mítico sertão dominado pelo mandonismo das oligarquias”. 

 

        IV

Historiador, desenhista, artista plástico e arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, Nireu Cavalcanti (1944) é doutor em História Social, com ênfase em História Urbana, pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1997. Tem especialização em Planejamento Urbano e Regional e em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Santa Úrsula (1979-1982). 

É professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007. É autor, com Hélio Brasil, de Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola Casa Editorial, 2015); e O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Jorge Zahar Editor, 2004), seu trabalho de doutoramento, com o qual obteve o primeiro lugar da 42ª Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ, em 2004.

Publicou ainda Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807 (Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas históricas do Rio colonial (Civilização Brasileira/Faperj, 2004); Santa Cruz – uma paixão (Relume-Dumará, 2004); Construindo a violência urbana (Madana Editora, 1986); Rio de Janeiro, centro histórico: marcos da colônia (1998); e  Centro histórico colonial 1567-2015 (Andrea Jackobsson Estúdio/Faperj, 2016). 

É autor do artigo “Silêncio no Ipiranga”, publicado no jornal O Globo, de 18/9/2010, p. 42, em que sustenta que a independência do Brasil foi proclamada no dia 1º de agosto de 1822, no Rio de Janeiro, em manifesto que contém o plano de governo de d. Pedro e a convocação dos “brasileiros em geral para que se unissem em torno da causa da Independência”. Ou seja, segundo o historiador, como mostram os documentos da época, às margens do rio Ipiranga, próximo à cidade de São Paulo, no dia 7 de setembro de 1822, o que houve foi apenas um ato que referendou a independência já proclamada.  

Publicou também o ensaio “Veredas da arquitetura modernista no Rio de Janeiro” (Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ), nº 27, 202, pp. 117/157. É também um dos autores do livro Rio, da Glória à Piedade, organizado por Hélio Brasil e publicado por Rosmaninho Editora de Arte, em Santarém, Portugal, em 2023. Foi cronista do Jornal do Brasil entre 1999 e 2000. Adelto Gonçalves - Brasil

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Borbulhar da memória, de Nireu Cavalcanti, com depoimentos de Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, Hermano José Oliveira Cavalcanti, José Oliveira Cavalcanti e Luciaurea Oliveira Cavalcanti de Zuniga, textos de apresentação de Hélio Brasil e André Seffrin e prefácio de Alexei Bueno. Rio de Janeiro, Edições Júlio e Maria, edição fora do mercado, 212 páginas, 2024. E-mail do autor: contato@nireu.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quarta-feira, 15 de abril de 2020

‘O Reino, a Colônia e o Poder’, um marco na História de São Paulo

                                                            I
O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, recente livro de Adelto Gonçalves ─ editado em 2019, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo ─, já nasceu como importante marco da historiografia colonial brasileira e, especialmente, da paulista.

Adelto, como bom paulista e bandeirante intelectual, fincou seu marco de puro cristalino no território histórico colonial de São Paulo. O autor exibe sua peculiar habilidade de escrever com clareza um texto profundamente rico de conteúdo, baseado em vasta pesquisa documental e de leitura de textos consagrados de outros autores que trataram do tema desse livro.

O historiador Kenneth Maxwell na sua apresentação desse livro do Adelto escreveu:

Esta obra é, em sua totalidade, não só uma rica análise do governo de Bernardo de Lorena, mas um estudo que abre muitas linhas de investigação, formula muitos problemas novos, o que deveria ser a tarefa de todo bom historiador. Para a história de São Paulo no século XVIII tardio, não há guia melhor.

Concordo plenamente com Kenneth Maxwell e acrescento novas qualidades do texto e de sua importância para os leitores e demais pesquisadores.

Divulgação dos variados arquivos consultados por Adelto Gonçalves aqui revelados, como os de São Paulo, pouco utilizados por historiadores que tratam de outros territórios brasileiros:  Arquivo do Estado de São Paulo (AESP), os Anais do Museu Paulista (AMP), Atas da Câmara de São Paulo (ATCSP), Documentos interessantes para a história e costumes de São Paulo (DI) e o Registro Geral da Câmara de São Paulo (RGCSP). Além dos arquivos conhecidos do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, os portugueses: Torre do Tombo (ANTT), Biblioteca Nacional de Lisboa (BNP), Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) e a Academia das Ciências de Lisboa (ACL).

                                                           II
O texto de Adelto vai fluindo com a indicação da fonte, elemento de suma importância para o leitor, ao constatar sua habilidade em usar o conteúdo do documento e extrair dele elementos construtivos de sua narrativa. Esse seu método de vincular documento-texto é um traço marcante do autor e deve orientar seu leitor e pesquisador a usá-lo em seus futuros trabalhos.

Outro destaque desse livro é conter a visão ampla do autor sobre o fato histórico. Adelto nos traz a visão do historiador; do escritor cronista e romancista que é; da geografia histórica; da literatura e do rigor cronológico do fato, no espaço-tempo da complexidade do fato narrado.

Adelto contextualiza o fato histórico em suas relações econômicas, sociais, espaciais e políticas, sem se restringir às análises históricas das superestruturas,  trazendo em sua narrativa os seres humanos envolvidos, com hábil literalidade, como a descrição da viagem para Cuiabá do governador de São Paulo Rodrigo Cesar de Menezes (1721-1727), pp.59-61. A expedição saiu em 1726, do porto de “Araritaguaba, às margens do rio Tietê” com 305 canoas carregando negros, índios e paulistas num total de “3 mil homens, inclusive muitos indígenas - os únicos que sabiam “atravessar o sertão e navegar através dos rios cheios de cachoeiras”. Preciosas informações colhidas pelo autor, de documento do AHU, referente a São Paulo (caixa 7, doc. 750, ant. 26/10/1725).

Segundo sua narrativa, a expedição chegou a Cuiabá em 15 de novembro de 1726, mas o governador César de Menezes só elevou o “arraial mineiro de Bom Jesus de Cuiabá à categoria de vila” em 1o de janeiro de 1727. No ato, o governador instalou a Câmara, “reunindo oito vereadores ─ seis paulistas e dois reinóis casados com paulistas”. Considero que esse cuidado de nomear paulistas para a maioria da Câmara é o reflexo do trauma da Guerra dos Emboabas. Para o final da descrição do ato do governador, Adelto usou a obra de Charles R. Boxer, A idade de ouro do Brasil: dores de crescimento de uma sociedade colonial, 2000, p.274. Essa capacidade do autor de buscar fontes diversas para construir sua narrativa é um dos pontos altos do livro.

                                                           III
Adelto Gonçalves dividiu sua expressiva e marcante obra em duas partes, que se conectam e, ao mesmo tempo, são autônomas. A primeira (pp. 21 a 181) trata do estudo histórico da formação da capitania e da sociedade paulista, anterior à chegada e posse do personagem principal do livro: d. Bernardo José Maria da Silveira e Lorena, conde de Sarzedas (1788-1797).

A segunda parte, nas páginas 187 a 327, faz o estudo detalhado do personagem Lorena, sua origem familiar, formação intelectual e a exemplar governança da capitania de São Paulo. O autor esmiúça as relações políticas, administrativas, as redes formadas pela elite administrativa-política e econômica, local, na obtenção de poder e fortunas. Relata os interesses econômicos e políticos de Lorena ─ sociedade com o riquíssimo negociante e capitalista de Lisboa Jacinto Fernandes Bandeira, concedendo-lhe vários privilégios na capitania de São Paulo ─, destacando sua positiva forma de governança de muitas obras públicas, de organização administrativa e política da capitania e a equidade com que tratou os súditos da colônia.

O governo de Lorena foi um marco divisor aprovado pelos paulistas, ao ponto de os vereadores da cidade de São Paulo solicitarem o privilégio de postarem o seu retrato na sala principal da Câmara municipal (p. 307). “Para empreender tal iniciativa, os oficiais da Câmara pediram licença à rainha, lembrando que a concessão já havia sido feita à Câmara do Rio de Janeiro”, para homenagear o governador Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela (1733-1763).

Em sua petição, os camaristas de São Paulo justificaram a homenagem por ser “um fidalgo que tem sido o pai dos paulistas” (nota 391: AHU Conselho Ultramarino, São Paulo, caixa 41, doc. 3357, 6/3/1793). Nesse mesmo Arquivo Histórico Ultramarino, localizei o pedido dos vereadores do Rio de Janeiro, quando obtiveram permissão dessa homenagem a Gomes Freire. Era proibido que as autoridades da colônia brasileira tivessem representação de sua imagem em lugares públicos.

A pesquisa documental e bibliográfica feita por Adelto Gonçalves para escrever esse livro reflete-se na expressiva quantidade de notas: mais de mil referências. Haja fôlego!

Com autoridade de seu profundo saber histórico, conclui sua obra afirmando:

          Ao contrário do que a historiografia tradicional sempre defendeu, a capitania de São Paulo não vivia isolada nem tampouco estava despovoada, sobrevivendo de sua economia de subsistência, à época da chegada do governador Luís Antônio de Souza Botelho, o morgado de Mateus, em 1765, quando deixou de ficar adjudicada à capitania do Rio de Janeiro (p. 359).

Recomendo a leitura do livro O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797, pela sua densidade, nível de informação e por ser um veículo de orientação de como devemos pesquisar e elaborar um texto científico, de leitura agradável e envolvente. Nireu Cavalcanti – Brasil


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O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Kenneth Maxwell, apresentação de Carlos Guilherme Mota e fotos de Luiz Nascimento. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 408 páginas, R$ 70,00, 2019. Site: www.imprensaoficial.com.br


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Nireu Cavalcanti, arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, é doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007. É autor de O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Zahar, 2003), seu trabalho de doutorado; Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807 (Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas históricas do Rio colonial (Civilização Brasileira/Faperj, 2004), e Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola Casa Editorial, 2015, em co-autoria com Helio Brasil,) entre outros.


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Machado de Assis escurecido

RIO DE JANEIRO - Recentemente a mídia tem divulgado que o tom da pele de Machado de Assis, apresentado pelas antigas fotos do genial escritor, era falso e apresentou-o com a tez muito escura. Como o autor dessa afirmativa chegou a essa constatação, não lhe foi questionado. Pelo que li e assisti nas televisões não foram apresentados documentos da época, registrando a manipulação da cor da pele de Machado de Assis ─ a seu pedido ─ pelos diversos fotógrafos do século 19 e início do século passado.

Por outro lado, é gravíssima essa denúncia de que o genial escritor tivesse vergonha da cor de sua pele e, por isso, corrompeu todos os fotógrafos para estamparem sua imagem embranquecida. Mais surpreendente é a não reação dos Machadianos, da Academia Brasileira de Letras, das Universidades e do mundo cultural brasileiro.

Se os defensores da tez preta de Machado de Assis estudassem um pouco a história dos africanos e seus descendentes no Brasil e um pouco de genética não teriam coragem de levantar, como possível, esse falso histórico.

Vejamos as classificações usadas nos documentos eclesiásticos, jurídicos, jornalísticos, estatísticos e outras fontes no período da escravidão no Brasil, para pretos e miscigenados.

AS PESSOAS PRETAS

Escravos vindos da África eram classificados como: Preto de Nação (Angola, Moçambique, Cabinda, Monjolo etc.). Como mostra o anúncio de jornal do Rio (1812) 





Os filhos de escravos africanos que nascessem no Brasil eram classificados como crioulos.

Os pretos escravos que adquirissem liberdade eram classificados como forros, ou alforriados.

Os filhos de pretos forros eram classificados como Pretos livres.

Após os tratados com a Inglaterra ─ com Portugal e, posteriormente, com o Brasil ─ os escravos contrabandeados pelos navios negreiros quando aprisionados por navios ingleses, portugueses e brasileiros eram libertos e classificados como Africanos livres.

Os filhos de pretos com indígenas eram denominados de Cafuzos.

OS MISCIGENADOS

A primeira miscigenação entre pessoas pretas e brancas classifica-se como Parda.

A Parda miscigenada com Preta classifica-se como Cabra (homem ou mulher). O anúncio, abaixo, de fuga de escravo (jornal do Rio 1812) cita duas categorias: Crioula e Cabra.



A miscigenação entre pessoa Parda e uma Branca origina o Mulato.

A pessoa Mulata miscigenando-se com Branca gera a pessoa Mulata. Evidentemente que esse segundo nível de Mulato, geneticamente tem a possibilidade de ter a tez da pele mais clara do que a anterior.

CLASSIFICAÇÃO DE ALGUNS PERSONAGENS IMPORTANTES, COM ORIGEM AFRICANA

PRETOS LIVRES:

Príncipe Obá II (Candido da Fonseca Galvão). Baiano (1834-1890) filho do africano livre Príncipe Obá I (Benvindo da Fonseca Galvão). Herói da Guerra do Paraguai, escritor.



Cruz e Souza. Catarinense (1861-1898). Poeta, filho dos pretos forros Guilherme da Cruz e Carolina Eva da Conceição.



PARDOS:

José do Patrocínio. Fluminense (1853-1905). Farmacêutico, jornalista e líder abolicionista. Filho do padre João Carlos Monteiro (branco) e da preta africana, Nação Mina, Justina do Espírito Santo.



André Rebouças. Baiano (1838-1898). Engenheiro, escritor, professor e inventor. Filho do pardo Antonio Pereira Rebouças e da (parda?) Carolina Pinto Rebouças.



Luiz Gama. Baiano (1830-1882). Advogado, jornalista, escritor e abolicionista. Filho de um comerciante português e da preta forra Luiza Mahin.



Theodoro Sampaio. Baiano (1855-1937). Engenheiro, escritor e professor. Filho do padre Manoel Fernandes Sampaio e da escrava (preta ?) Domingas da Paixão do Carmo.



MULATOS:

Lima Barreto. Carioca (1881-1922). Escritor e funcionário público. Filho do pardo João Henriques de Lima Barreto e da mulata Amália Augusta.



General Glicério (Francisco Glicério Cerqueira Leite). Paulista (1846-1916). Advogado, Ministro e general Honorário do Exército brasileiro. Filho do branco Antonio Benedito de Cerqueira Leite e da parda Maria Zelinda da Conceição.



Machado de Assis. Carioca (1839-1908). Escritor, funcionário público e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Filho do mulato Francisco José de Assis e da portuguesa (branca) Maria Leopoldina da Câmara Machado.



Portanto, era Machado de Assis o mulato descendente de pessoas brancas em três níveis, o que justifica a sua tez ser mais clara do que a dos demais miscigenados. Nireu Cavalcanti – Brasil


Nireu Oliveira Cavalcanti, (1944), arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, é doutor em História Social, com ênfase em História Urbana, pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1997. Tem especialização em Planejamento Urbano e Regional e em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Santa Úrsula (1979-1982). É professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007. É autor, com Hélio Brasil, de “Tesouro: o Palácio da Fazenda”, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola-Casa Editorial, 2015); e de “O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte” (Zahar, 2003), seu trabalho de doutorado, com o qual obteve o primeiro lugar da 42ª Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ em 2004; “Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807” (Civilização Brasileira, 2013); “Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978” (Crea-RJ, 2007); “Crônicas históricas do Rio colonial” (Civilização Brasileira/Faperj, 2004); “Santa Cruz – uma paixão” (Relume-Dumará, 2004); e “Construindo a violência urbana” (Madana, 1986). Participou com capítulos em vários livros.

domingo, 3 de julho de 2016

Um passeio pelo centro do Rio de Janeiro colonial

I
Um passeio por ruas, praças, largos, caminhos, rocios e becos do centro histórico do Rio de Janeiro é o que oferece o mais recente livro do arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti: Rio de Janeiro: Centro Histórico Colonial 1567-2015 (Rio de Janeiro, Andrea Jackobsson Estúdio Editorial/Fundação Carlos Chagas Filho de Apoio à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj), 2016), segunda edição revista e ampliada de Rio de Janeiro: Centro Histórico – 1808-1998 (Anima/Dresdner Bank Brasil, 1998), fartamente ilustrado com fotos, aquarelas de Thomas Ender, imagens da Coleção Maria Cecília e Paulo Geyer do Museu Imperial e desenhos do próprio autor.

Refundindo o livro anterior, desta vez, Cavalcanti procurou reconstituir as grandes transformações pelas quais o centro histórico do Rio de Janeiro passou ao longo de 450 anos, desde a fundação do povoado, passando pela chegada em 1808 da família real, que marcou a elevação da cidade à sede da monarquia portuguesa, até estes últimos anos marcados pela realização da Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e da Olimpíada, em 2016.

É de se observar que Cavalcanti, pesquisador minucioso e persistente de arquivos brasileiros e portugueses, foi quem contestou a invencionice – repetida indefinidamente por historiadores alérgicos ao pó dos arquivos e limitados à leitura de livros impressos, ainda que antigos – de que com a família real teriam chegado ao Rio de Janeiro de 10 mil a 15 mil pessoas, garantindo, depois de compulsar detidamente os registros manuscritos da época, que, na verdade, o príncipe regente viera acompanhado de um seleto grupo que não chegava a 450 pessoas.

De fato, não é preciso ser muito atilado para se concluir que, se o Rio de Janeiro em 1808 reunia 7.600 edificações em sua área urbana e uma população ao redor de 60 mil habitantes, com certeza, a instalação abrupta na cidade de 15 mil pessoas haveria de ter causado um alvoroço sem precedentes que, por certo, teria sido relatado em documentos da época. E onde estão esses papeis de que não se tem notícias?

Como observa Cavalcanti na introdução, o Rio de Janeiro dessa época refletia influências arquitetônicas e urbanísticas da metrópole, mas, graças à exuberância de sua paisagem natural e ao isolamento de sua população e ao desenvolvimento de uma linguagem com traços locais, “foi surgindo uma cidade peculiar, dotada de extrema beleza a encantar a todos que nela chegavam”.

                                                           II
Cavalcanti acrescenta que muitos nomes dos logradouros cariocas tiveram origem em caminho, estrada, azinhaga, campo, paragens, sertão ou rocio antes de serem denominados por rua, beco, travessia, largo, praça ou praia, à época da passagem do espaço rural ou semi-rural para o urbano. Assim, o leitor terá a oportunidade de saber a origem de muitos logradouros conhecidos – e de outros nem tanto –, cujos nomes chegaram até os nossos dias, e de muitos que ganharam novas denominações ao longo dos tempos.

De início, a primeira denominação de muitos logradouros partia da descrição do local em que se situavam. Assim, uma via perpendicular à orla marítima chamou-se Desvio do Mar. Havia ainda o Caminho dos Arcos (aqueduto da Carioca), da Forca ou da Polé, do Boqueirão e as Ladeiras do Seminário ou do Poço do Porteiro ou ainda o Beco do Cotovelo. Depois, quando o logradouro ganhava uma edificação mais representativa, passava-se a chamá-lo por essa referência urbana, como a Rua da Cadeia, do Aljube, da Ópera, do Guindaste, do Cemitério, do Rosário, da Alfândega, da Candelária, da Boa Morte, do Açougue, do Quartel ou Detrás do Hospício.

As praias também recebiam, às vezes, denominação de acordo com a atividade que nelas seria desenvolvida. Um exemplo é a Praia dos Mineiros, hoje parte da Rua Visconde de Itaboraí, onde havia um cais, entre o Cais do Braz de Pina e o Arsenal da Marinha, no qual ancoravam, principalmente, embarcações originárias dos portos do interior da Baía da Guanabara. Lembra Cavalcanti, à pág. 61, que, como algumas dessas embarcações saíam do Porto da Estrela carregadas de produtos e passageiros oriundos de Minas Gerais, esse trecho ficou conhecido como Cais dos Mineiros e também como Praia da Farinha.

Se se pode acrescentar algum dado, é de se lembrar que foi na Praia dos Mineiros que o alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, à época em que ficou ausente de seu regimento em Minas Gerais quase um ano e meio, tentou encetar algumas iniciativas empresariais no Rio de Janeiro. Uma delas foi procurar arrendar oito braças de terrenos na Praia dos Mineiros e seis braças na Praia de Dom Manoel para construir um guindaste de madeira que serviria para o "embarque de animais quadrúpedes e manufaturas" (Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Lisboa, seção Rio de Janeiro, Avulsos, caixa 142, doc. 8, 18/8/1788).
           
No verbete referente à Praia de Dom Manoel (pág. 44), hoje Rua Dom Manoel, lê-se que, no começo do século XVII, formou-se um corredor de prédios que foi denominado Porto dos Padres da Companhia (dos jesuítas), posteriormente mudado para Praia Dom Manoel (Lobo), em homenagem ao governador da capitania do Rio de Janeiro que morreu prisioneiro dos argentinos na defesa da Colônia do Sacramento em 7/1/1683.

                                               III
Se muitos desses logradouros históricos já não são assim tão visíveis na paisagem carioca, outros há que são conhecidos por todo o Brasil, como a Rua da Alfândega, onde no prédio de número 70 situou-se por décadas até 2014 a sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De início, esse logradouro chamou-se Caminho do Capueruçu e, mais tarde, Rua Diogo de Brito Lacerda, em homenagem a um de seus ilustres moradores, mas depois passou a se denominar Rua da Quitanda dos Mariscos. Com a construção do prédio da Alfândega, na atual Rua Primeiro de Março, cujo portão ficava em frente ao antigo Caminho do Capueruçu, ganhou o nome de Travessa da Alfândega.

Como observa Cavalcanti no verbete referente à Rua da Alfândega (pag. 23), era no número 50 da travessa que vivia dona Inácia Gertrudes de Almeida, amiga de Tiradentes, a quem o alferes recorreu em busca de auxílio para encontrar refúgio, afinal oferecido por um amigo seu, na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde morava num sobradinho o paulista Domingos Fernandes da Cruz. Foi nessa casa que a tropa do vice-rei o prendeu.

Outro logradouro amplamente conhecido por todo o País é o Largo da Carioca, cuja denominação mantém-se até os dias de hoje.  No início, diz o autor (pág.33), esse logradouro era quase todo ocupado por uma lagoa que motivou Antônio Felipe Fernandes, em 1610, a arrendá-la à Câmara de Vereadores para servir-lhe de tanque de lavagem dos couros de seu curtume. Ali perto os franciscanos construíram seu convento dedicado a Santo Antônio, que acabou por dar nome ao sopé do morro em que estava situado. Foi a construção de um chafariz para aproveitar a água do Rio Carioca, em 1723, que motivou a mudança do nome do sítio para Largo da Carioca.

Além de logradouros que até hoje podem ser localizados na paisagem carioca, há outros que se perderam com as obras de modernização e revitalização do espaço urbano já no século XX, especialmente com a derrubada do Morro do Castelo, onde praticamente começou a cidade, e do Morro de Santo Antônio, e a construção da Avenida Rio Branco, que inaugurada em 1906 foi em menos de um século praticamente destruída, pouco restando de sua arquitetura original. Sem contar a abertura da Avenida Presidente Vargas, inaugurada em 1942, que fez desaparecer da paisagem quase mil prédios, entre eles várias igrejas setecentistas. Um vandalismo que só se pode atribuir à incúria e à falta de cultura que caracteriza até hoje boa parte dos homens públicos brasileiros.

                                               IV       
Nireu Cavalcanti (1944), arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, é doutor em História Social, com ênfase em História Urbana, pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1997. Tem especialização em Planejamento Urbano e Regional e em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Santa Úrsula (1979-1982). É professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007.

É autor, com Hélio Brasil, de Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola-Casa Editorial, 2015); e de O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Zahar, 2003), seu trabalho de doutorado, com o qual obteve o primeiro lugar da 42ª Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ em 2004; Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807 (Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas históricas do Rio colonial (Civilização Brasileira/Faperj, 2004); Santa Cruz – uma paixão (Relume-Dumará, 2004); e Construindo a violência urbana (Madana, 1986). Participou com capítulos em vários livros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Rio de Janeiro: Centro Histórico Colonial 1567-2015, de Nireu Oliveira Cavalcanti. Rio de Janeiro: Andrea Jackobsson Estúdio Editorial, 148 págs., 2016. Site: www.jakobssonestudio.com.br^


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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br