Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Homenagem a Herberto Helder em versos

Livro de Maria Estela Guedes traz poemas que reverenciam aquele que é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX

                                                                                     

                                                           I

Se o ritmo poético se encontra tanto nos poemas em versos como nos poemas em prosa, como observou o professor Massaud Moisés (1928-2018), em seu A Criação Literária-Poesia (São Paulo, Editora Cultrix, 2003), à página 194, Folhas de Flandres (Lisboa, Apenas Livros, 2014), da poeta e ensaísta Maria Estela Guedes, é um exemplo bem acabado de que o ritmo poético não vive em função de nenhum recurso formal em particular, mas do fenômeno poético em si. 

Afinal, os 14 poemas que compõem esta obra são narrativas em versos que contam histórias ou, às vezes, transmitem apenas sensações provocadas por viagens em que o fenômeno poético se desenrola em seu interior. Em resumo: as palavras aqui falam diretamente aos ouvidos do leitor e ganham significação como melopeia, esse aspecto sonoro da poesia, que envolve ritmo, cadência e musicalidade, expressando, acima de tudo, emoção. Na primeira parte do livro, que dá título à obra, no poema “Temple des Charbonniers”, a autora principia uma homenagem que presta ao jornalista Herberto Helder (1930-2015), que é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX.

 

                                                 II

Nascido no Funchal, na Ilha da Madeira, de família de origem judaica, Herberto Helder viajou para o Continente ao final dos anos 1940 e, depois, fez algumas viagens pela Europa. Foi bibliotecário e trabalhou como redator em rádio e televisão, além de ter sido diretor literário da Editorial Estampa, pela qual publicou parte da obra do artista plástico, poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo Almada Negreiros (1893-1970). Viveu ainda um período em Angola, onde atuou com repórter, tendo retornado a Portugal em 1971, depois de ter sofrido um grave acidente em Luanda.

Em Lisboa, apesar de perseguido pela polícia política do regime salazarista, foi ainda revisor da Editora Arcádia e redator de notícias na emissora de rádio RDP. E participou da edição de dois cadernos da revista Poesia Experimental (PO.EX), mas nunca foi visto como praticante desse tipo de poesia visual. Nessa altura, publicou três ou quatro poemas visuais, mas foi só.  Ao final da vida, converteu-se numa figura hermética e misantropa, que recusava homenagens, prêmios ou condecorações, assim como se negava a dar entrevistas ou a ser fotografado. Em 1994, recusou o Prêmio Pessoa.

No poema “Temple des Charbonniers”, Maria Estela rememora, num imaginário diálogo com Herberto Helder, uma viagem à região flamenga da Bélgica (ou Flandres), uma área de língua holandesa no norte do país, e uma das três regiões belgas. A capital nacional, Bruxelas, considerada uma região em si, está localizada perto do limite Sul de Flandres, enquanto Antuérpia é uma cidade portuária e importante centro de comércio de diamantes com uma reputação de design de moda, famosa por seu Museu Real de Belas Artes que reúne uma grande coleção de pinturas de mestres flamengos. Eis um trecho do poema:

“(...) Não vai para Antuérpia este comboio / Mas imagina tu, Herberto, para onde vai a carvoeira! / Para um templo aberto na floresta dos símbolos / Verdes, na Flandres, algures / Nordeste de França / Por onde tu de comboio também viajaste, na / Fronteira com a Bélgica das vacas / No limite da fome / Em Antuérpia / Cantando flamenco / Dançando fandango / Aliás era o tango / Nos bares de putas e marinheiros. (...).

 

                                                III

Como contou a própria autora a este resenhista, Folhas de Flandres tem uma história, nesse poema da viagem e naquele intitulado "Comboios que não vão para Singapura", que, aliás, é título de um conto de Herberto Helder. “Há dez anos houve um colóquio sobre o poeta na Sorbonne, em Paris, do qual participei. Então, aproveitei para ir de comboio a Lille, na região da Flandres, e visitar o templo de um grupo franco-belga de iniciados que praticam um rito florestal. Para meu espanto, o templo é a própria floresta”, recordou.

Segundo a autora, a viagem de comboio lembrou-lhe aquela que Herberto Helder fez em sua juventude, pela Flandres, tudo descrito no livro de contos Os passos em volta (Lisboa, Portugália Editora, 1963, 1ª edição). “Ele ia sem documentos, sem dinheiro, e, por isso, teve de sobreviver com mil e um trabalhos precários. Eu lembro isso, é uma conversa informal, que podíamos ter tido em minha casa”, observou, assinalando que, em junho de 2025, saiu a obra Se eu quisesse, enlouquecia (Lisboa, Contraponto), uma imensa biografia, de quase 900 páginas, de autoria do sociólogo e crítico literário João Pedro George, que marca os dez anos do desaparecimento do poeta e cujo título foi retirado do primeiro texto de Os passos em volta. “Nesse livro me é dada demasiada atenção, porque houve um romance entre nós, ao final dos anos 70, de que resultou o meu livro Herberto Helder, poeta obscuro, que saiu em 1979 pela Moraes Editores, de Lisboa”, contou.

Tantos anos depois, Maria Estela disse que, com a participação na biografia, voltou “a conversar naturalmente” com Herberto Helder, “sem zangas, numa boa”. E acrescentou: “Na época, em 2014, ele leu o livrinho (Folhas de Flandres).  Não é homenagem, é um gesto de carinho, porque eu lhe ofereço aquilo de que ele gostava tanto: sagrado, mistério, no caso o templo de uma ordem, La Renouée, similar à Maçonaria Florestal, diferente da Maçonaria da Pedra, aquela que todos conhecemos, porque esta é muito menos encoberta. Em Portugal, um ramo da Maçonaria Florestal deu origem à Carbonária, militarizada, criadora da República”, observou.

 

                                                IV

De fato, no extenso poema “Comboios que não vão para Singapura”, que ocupa cinco páginas e meia, Maria Estela dá prosseguimento à homenagem a Herberto Helder, cujo trabalho poético e figura hermética já a haviam atraído, levando-a a publicar, além de Herberto Helder, poeta obscuro, A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010), que considera como suas “obras de referência”. Como se vê, quando escreveu este poema, Herberto Helder ainda vivia e é rememorado pela poeta em vários trechos, como neste que segue:

“(...) Comboios flamengos. / Não são os teus, Herberto. / Não são comboios para Antuérpia / Nem para Singapura, nem para a Idade de Ferro. / A idade não é a mesma / Nem o vaso de grãos que chama na lonjura. / Nada nos ata / A não ser os nós apertados do fio / Das palavras. / Viajamos no TGV / Apesar de em carruagem econômica / E, ao contrário de ti, / Munidas de responsáveis documentos” (...).   

Mais adiante, ainda no mesmo poema, a autora continua o seu imaginário diálogo com o poeta:

“(...) Não, Herberto, os comboios são diferentes apesar / De as mesmas palavras te pousarem nas mãos / Como andorinhas pretas, levando e trazendo / Desnecessárias mensagens secretas. / Só porque sim, só porque servem também para isso / Só para ocultarem o pensamento / Dos Mestres poetas. Temos direito à noite / Às passagens estreitas / A não banalizar os nomes. / Que sentido faria o telemóvel / Não existia no nosso mundo / Fechado / Por um perímetro mágico. / No nosso usavas telefone fixo / E hoje duvido que saibas lidar com os mistérios / Tremendos do correio eletrônico – vulgo / E-mail (...)”.

Já na segunda parte do breve livro, “Desgarradas & Diversas Folhas”, composta por três poemas, lê-se a peça “Uma cadela em casa de xisto” em que a autora conta a história de uma cachorra que pertencia a um casal de idosos surdos, que “viviam numa casa de lousa”. E, um dia, os velhos fecharam a porta do lagar, deixando presa lá dentro a cadela, sem sabê-lo. Por dias procuraram o animal, mas não ouviam seus latidos desesperados, até que a cadela concluiu que pelo buraco na porta, onde ela não cabia inteira, poderia enfiar a cauda:

“(...) Dia após dia com o rabo acenou / Até os velhos o verem / E comovidos libertarem / A esfomeada companheira. / Passou-se este caso em Ligares / Terra de Guerra Junqueiro /   Junto à Quinta da Batoca / Onde viveu o poeta / Além dos velhos já surdos / E da caudófona cadela (...)”

 

                                                 V

Maria Estela Guedes (1947), licenciada em Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1978, é membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação InComunidade, da Sociedade Portuguesa de Autores e do Instituto São Tomás de Aquino. É editora da plataforma Triplov (www.triplov.pt), um dos mais significativos sites de divulgação das literaturas de expressão portuguesa, onde pode ser consultada a maior parte de seu trabalho.

Nasceu em Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de papel (Lisboa, Apenas Livros, 2009).

Tem vastíssima obra publicada de livros de e sobre poesia, crítica literária e História e Filosofia das Ciências, em que se destacam  SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980), Eco, pedras rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983), Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985), À sombra de Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990), a_maar_gato (Lisboa, Editorial Minerva, 2005), Lápis de carvão (Lisboa, Apenas Livros, 2005), Ofício das trevas, teatro (Lisboa, Apenas Livros, 2006), A boba – monólogo em três insónias e um despertador (Lisboa, Apenas Livros, 2006), À la Carbonara, em co-autoria com J. C. Cabanel e Sílvio Luís Benítez Lopes (Lisboa, Apenas Livros, 2007), Poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); Clitóris Clítoris (Cotia-SP, Editora Urutau, 2019); Esta noite dormimos em Tânger  (Cotia-SP, Editora Urutau, 2020); Númeras letras (ARC Edições, 2021);  Conversas com Federico García Lorca (Editora Urutau, 2022), Corpus Corpus – José Emílio-Nelson & Herberto Helder (Edições Esgotadas, 2024), e Na Casa de Maria Azenha (Lisboa, Edições Esgotadas, 2025), entre outros. É autora também de Glu-Glu-Glu, antologia de poemas editada pela Tesseractum (São Paulo, 2024, e-book).

Está traduzida em romeno por Maria Manuel Chacán, na obra Dracula draco (Editora Academiei Internationale Orient-Occident, Curtea de Arges, 2017). Clitóris Clítoris foi traduzido para espanhol por Berta Lucia Estrada. Dois trabalhos seus foram levados à cena, O lagarto do âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), com direção de Alberto Lopes, e A boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008), com direção de Carlos Avilez. Adelto Gonçalves - Brasil

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Folhas de Flandres, de Maria Estela Guedes. Lisboa, Apenas Livros Lda. (Colecção Naturarte, 24), 48 páginas, 2014. Site: www.apenas-livros.com E-mail: apenaslivros2@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


terça-feira, 2 de setembro de 2025

Uma poeta interpretada por outra

Novo livro de Maria Estela Guedes reúne ensaios sobre as obras de Maria Azenha

                                                                               I

Aprofundados estudos sobre livros que fazem parte da extensa obra de Maria Azenha, talvez a mais significativa poeta portuguesa contemporânea, é o que o leitor vai encontrar em Na Casa de Maria Azenha (Lisboa, Edições Esgotadas, 2025), de Maria Estela Guedes, poeta e ensaísta. De início, a autora deixa claro que a maior parte dos poemas de Maria Azenha revela sinais muito fortes de misticismo, de que o seu livro O último rei de Portugal (Lisboa, Fundação Lusíada, 1992) é um dos mais marcantes exemplos.

Trata-se de textos curtos, porém reflexivos, opinativos e detalhados, sobre os temas tratados em poemas da autora, ainda que sem a pretensão de esgotá-los, explorando-os de forma pessoal e crítica, além de oferecer novas perspectivas ao leitor. Enfim, são ensaios que convidam o leitor a uma reflexão crítica sobre temas específicos, indo além da superfície e explorando suas diversas facetas.

No primeiro ensaio, “Em trânsito de signos”, em que se refere a onze obras da autora, Maria Estela ressalta que a poeta faz uma viagem iniciática no mais místico dos terrenos literários de Portugal, “quer relembrando acontecimentos notáveis, batalhas, reis, navegadores, heróis e poetas, em mais de uma centena de textos, quer deixando-se possuir pelo ritmo e cadências de alguns poemas dos autores invocados”.

Como observa a ensaísta, neste caso, o título não se refere a dom Manuel II (1889-1932), o monarca imediatamente antecessor da República Portuguesa, deposto em 1910, mas ao rei que haverá de vir, segundo a lenda que remonta a dom Sebastião (1554-1578), o “Desejado”, que foi rei de Portugal a partir de 1557 e desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, o que deu origem ao mito do sebastianismo, ou seja, a crença de que ele, como um pretenso Messias, retornaria, um dia, para salvar Portugal.

Para a ensaísta, a poeta sempre esteve muito atenta à iminência de uma catástrofe mundial, “ao movimento cívico, à guerra, aos resultados desta, em especial em migrações forçadas que são pretexto para genocídio”. Ela observa que talvez por isso, por sua experiência da desgraça ser grande, o fazer poético de Maria Azenha tende para o messianismo, “o que na mística portuguesa corresponde à crença na vinda de um rei salvador, D. Sebastião”. Também por isso, entende a ensaísta, o tema do Mal, em modalidades variadas, entre elas a do Holocausto, e as migrações forçadas que se vê na Europa e no Oriente Médio ocorrem regularmente nos livros de Maria Azenha.

Ainda nesse ensaio de abertura, Maria Estela ressalta a oralidade presente na lírica de Maria Azenha, que se manifesta no interior dos textos. E, entre outros exemplos, a título de ilustração, observa como a autora reescreve à sua maneira o poema “O Mostrengo”, de Fernando Pessoa (1888-1935), e a passagem de Os Lusíadas, de Luís de Camões (c.1520-c.1580) sobre o gigante Adamastor, citando o poema intitulado “O Cabo das Tormentas”, cujo final é o que segue: Rodou o Mostrengo, então. Rodou três vezes. / Três vezes mais rodou além de estremo; / E Deus, da velha Nau, daqueles revezes, / Tornou-se Português. Com Bojador ao leme. 

 

                                                 II

Já no ensaio “Pequenas histórias”, a ensaísta aborda o livro A loucura das facas (2021), que reúne poemas escritos à época do confinamento provocado pela epidemia de covid-19. E constata: “Temos assim uma névoa de revolta contra Deus, um teto baixo de nuvens negras a pressagiar desastre, uma atmosfera de tragédias à espreita ao voltarmos a página”. Como exemplo dessa atmosfera ameaçadora, reproduz os versos do poema “No chão do medo” em que Maria Azenha recupera a apreensão que sentia à época da infância: “Em criança tinha muito medo da morte. / Agarrava-me às saias de minha mãe e escondia os olhos. / Esperava assim que ela se fosse embora / E nunca mais me voltasse a procurar. / Agora, à noite, os relógios / acordam a transpirar de medo”.  

No ensaio “O tenebrismo d´A casa de ler no escuro”, a ensaísta volta a constatar que, nesta obra, composta por 33 rápidos poemas, a autora reafirma “a situação apocalíptica em que se encontram países e nações e uma Europa que posa desnuda e morta”, com versos que “apelam para a maior desgraça humanitária da Europa de nossos dias, fulcro de conflitos internacionais”. E cita breves versos do poema “Migração”: “Limparam nossos lábios com a poeira do deserto. / Cada um que sai leva as últimas palavras”.

Mais adiante, ainda no mesmo ensaio, Maria Estela define “A casa de ler no escuro” como “retrato tenebrista do mundo e da Europa num século XXI que se esperava civilizado de grandes progressos humanitários e espirituais e não apenas progresso tecnológico”. E conclui que a obra “é a câmara escura em que a autora vai decifrando os sinais do presente que anunciam um futuro francamente tenebroso”. Isso, porém, adverte, não significa que não haja esperança nos poemas de Maria Azenha. E cita o poema “Lesbos” em que “a esperança que nele rebrilha é a única arma capaz de vencer a catástrofe da família, do desgoverno, da violência, da guerra e da pobreza: o amor, a compaixão dos que praticam a misericórdia”. É o que se vê nos versos finais daquele poema: “Nos confins da terra, / passos / recomeçam, / sem balanço nem piedade, / a marcha da esperança”.



                                                 III

Em outro ensaio, ao analisar “Xeque-mate” (2018), Maria Estela diz que este livro de guerra não se assemelha a nenhum outro dela, definindo Maria Azenha como” uma escritora de alta imaginação e com grande capacidade para se renovar a si mesma”, sem deixar de destacar que nele permanecem de obras anteriores “a notação de flashes do quotidiano, a metaforização de tonalidade surrealista, que, ao deslocar atributos de um objeto para outro de forma radical, pode também provocar o riso”.

No ensaio que encerra o livro, intitulado “No lugar do outro”, Maria Estela destaca a capacidade da poeta de assumir os dramas das pessoas que a cercam, ao “deixar-se possuir pela alma alheia”. E conta, com a devida autorização da autora, que Maria Azenha em seu mais recente trabalho, “A Casa da Memória” (2024), de certo modo, repete alguns casos já tratados pontualmente em obras anteriores, que foram inspirados na própria atividade da autora como atendente de uma linha telefônica de ajuda e apoio emocional a pessoas emocionalmente fragilizadas, ou seja, um trabalho de prevenção ao suicídio. E lembra que Maria Azenha, como adepta do movimento filosófico e esotérico Rosa-Cruz, “vem de há muito ajudando pessoas em situações difíceis”. Daí também a presença da Alquimia em várias obras da autora.

A ensaísta cita ainda o poema “A torre do silêncio” que, ao contrário da maior parte dos outros, inspirados por conversas, faz uma homenagem ao silêncio, “como se existissem dois mundos, um exterior, regido pelas armas, e outro de tormento interior, o do silêncio”: “Não ouve os tiros da noite / nem aqueles que mais amou. / Ficou na Torre do Silêncio / no quarto sagrado da Morte, onde mais ninguém entrou”.

Do livro em homenagem a Maria Azenha, consta ainda entrevista que a autora fez com a poeta em que esta diz que a poesia é o seu “modo de respirar através de um espaço estético, de um espaço de liberdade: um espaço de reinvenção”.


                                                 IV

Maria Azenha (1945), nascida em Coimbra, licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Desempenhou atividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António Arroio. É membro da Associação Portuguesa de Escritores e membro de honra do Núcleo Acadêmico de Letras e Artes de Lisboa. Frequentou o Conservatório Nacional de Música em Coimbra e tem participado de vários recitais.

É autora de mais de duas dezenas de obras de poesia. Estreou em 1987 com Folha móvel (Lisboa, Edições Átrio). Entre os seus últimos livros, estão: A Casa da Memória (2024), O Livro do Absurdo (2023), A loucura das facas (2021), Bosque branco (2020), A mamã por cima dos telhados e o meu amor (2019), Xeque-mate (2018), As mãos no fogo (2017) e A casa de ler no escuro (2016), todos publicados pela Editora Urutau, de São Paulo, e distribuídos também na Galiza (Espanha) e em Portugal, além da obra De amor ardem os bosques (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica, 2018).

Maria Azenha ilustra com poemas as pinturas de Ellys no seu livro "De Camões a Pessoa - a viagem iniciática", e é autora ainda de De Camões a Pessoa: a viagem iniciática (Lisboa, Sete Caminhos, 2006), em que explora com poemas ilustrativos a influência de Luís Vaz de Camões na obra de Fernando Pessoa. Nesta obra, sugere uma jornada de aprendizado e transformação em que Pessoa, como herdeiro da tradição literária portuguesa, busca superar e reinterpretar a obra de Camões.

Tem poemas publicados em mais de 25 antologias. Seus versos já foram traduzidos para os idiomas italiano, espanhol e inglês. De destaque é também o seu trabalho nas artes plásticas, já que, além de pintora com participação em várias exposições, é autora de textos publicados em livros de pintores, como Symbolos (2000), de Valdemar Ribeiro. É ainda autora de O mar atinge-nos (2009), CD em que declama seus poemas com acompanhamento à guitarra portuguesa.


                                                 V

Maria Estela Guedes (1947), licenciada em Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1978, é membro da Associação Portuguesa de Críticos Literários, da Associação Portuguesa de Escritores, da Associação InComunidade, da Sociedade Portuguesa de Autores e do Instituto São Tomás de Aquino. É editora da plataforma Triplov (www.triplov.pt), um dos mais significativos sites de divulgação das literaturas de expressão portuguesa, onde pode ser consultada a maior parte de seu trabalho.

Nasceu em Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de papel (Lisboa, Apenas Livros, 2009).

Tem vastíssima obra publicada de livros de e sobre poesia, crítica literária, História e Filosofia das Ciências, em que se destacam:  Herberto Helder, poeta obscuro (Lisboa, Moraes Editores, 1979), SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980), Eco, pedras rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983), Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985), À sombra de Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990), a_maar_gato (Lisboa, Editorial Minerva, 2005), Lápis de carvão (Lisboa, Apenas Livros, 2005), Ofício das trevas, teatro (Lisboa, Apenas Livros, 2006), A boba – monólogo em três insónias e um despertador (Lisboa, Apenas Livros, 2006), À la Carbonara, em co-autoria com J. C. Cabanel e Sílvio Luís Benítez Lopes (Lisboa, Apenas Livros, 2007), Poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010); Clitóris Clítoris (Cotia SP, Editora Urutau, 2019); Esta noite dormimos em Tânger  (Cotia-SP, Editora Urutau, 2020); Númeras letras (ARC Edições, 2021);  Conversas com Federico García Lorca (Editora Urutau, 2022), Corpus Corpus – José Emílio-Nelson & Herberto Helder (Edições Esgotadas, 2024) entre outros. É autora também de Glu-Glu-Glu, antologia de poemas editada pela Tesseractum (São Paulo, 2024, e-book).

Está traduzida em romeno por Maria Manuel Chacán, na obra Dracula draco (Editora Academiei Internationale Orient-Occident, Curtea de Arges, 2017). Clitóris Clítoris foi traduzido para espanhol por Berta Lucia Estrada. Dois trabalhos seus foram levados à cena, O lagarto do âmbar (Fundação Calouste Gulbenkian, 1987), com direção de Alberto Lopes, e A boba (Teatro Experimental de Cascais, 2008), com direção de Carlos Avilez. Considera suas obras de referência Herberto Helder, poeta obscuro e A obra ao rubro de Herberto Helder. Adelto Gonçalves - Brasil

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Na Casa de Maria Azenha de Maria Estela Guedes. Lisboa, Edições Esgotadas Lda., 131 páginas, 15 euros, 2025.

Site: www.edicoesesgotadas.com E-mail: geral@edicoesesgotadas.com

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br






domingo, 16 de abril de 2023

Adelto Gonçalves, escritor sem violon d´Ingres?

Escritor e pesquisador brasileiro é homenageado por revista literária eletrônica em Portugal

A minha pergunta sobre a possível falta de um hobby vem de ver Adelto Gonçalves sempre ocupado. Ele é o único co-autor do Triplov cujos textos não tenho publicado na totalidade, porque me falta capacidade de trabalho igual à dele. É um intelectual atento, amigo dos seus colegas, em quem se revela claramente um espírito de missão: a de dar a língua portuguesa ao mundo, na sua forma escrita e nos seus tão diversos registos, visto que ele não se ocupa apenas do português do Brasil e do português de Portugal, mas ainda de registos praticados em outros países lusófonos. Ousa comentar estas variantes, e realmente é preciso coragem, não só por serem muito diferentes, como por a diferença desembocar por vezes ou na fraca inteligibilidade dos textos ou em campos diplomática ou politicamente delicados.

Há autores que simplesmente resolvem os problemas garantindo que não existem diversos registos do português, não existe o português do Brasil e o português de Portugal, existe apenas uma língua portuguesa, bem escrita ou mal escrita. Não, lamento dizê-lo, e nem é por discordar, é porque os factos desmentem essa tese. Por muito que nos custe, e decerto Adelto Gonçalves concordará comigo, há variantes do português específicas das nacionalidades. Tomemos o exemplo lexical e só para Brasil e Portugal, deixando de lado outros países, fonética, morfologia e sintaxe, que envolvem maior complexidade: aquilo a que nós, portugueses, chamamos palavrões, oiço-o eu quotidianamente nos meios de comunicação brasileiros, donde o teor emocional do vocabulário se revela muito menos ou nada ofensivo.

O autor a quem prestamos tributo é então um leitor e analista incansável, não só de escritores em português como nas variantes do espanhol, ou seja, do castelhano, solto como o português pelas quatro partidas do mundo. As suas leituras são publicadas não só em diversos websites como jornais e revistas em suporte de papel, quer no Brasil quer noutros países, entre os quais anoto a Rússia. O seu ritmo de publicação é acelerado, donde muitos de nós, contemplados pelos seus ensaios de crítica literária, lhe ficamos profundamente gratos.

Se o maior volume de títulos corresponde a textos em que Adelto Gonçalves fala de nós, os seus outros, sobrar-lhe-á tempo para reparar relógios, pintar, frequentar aulas de dança, tocar violino, como Ingres? Não creio, a menos que goste de viajar. Viajar por esse mundo, e tenha a Espanha como preferência maior.

Adelto Gonçalves também escreve romance e obras de arcaboiço histórico. Acerca desta parte do seu currículo ocupam-se os autores do tributo que a Revista Triplov agora lhe presta, diversos e todos eles muito respeitadores do seu mérito, apontando isto para o alto nível das suas obras ficcionais, de investigação histórica e literária.

Nós, portugueses, ficamos naturalmente sensibilizados por duas das suas obras de investigação e análise literária incidirem num autor comum a portugueses e brasileiros, caso de Tomás António Gonzaga e, outro, radicalmente português, como Bocage. De quanto aventei encontrará o leitor fundamentos que lhe despertarão interesse pelo mais marcante co-autor do Triplov, caso não o conheça, o que é difícil, no meio intelectual ibero-americano.


Eis o seu currículo: Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Livraria José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015), O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e Mariela morta, novelas (Ourinhos-SP, Editora Complemento, 1977), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br Estela Guedes - Portugal

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Texto publicado como editorial para o Tributo a Adelto Gonçalves, que pode ser lido na Revista Triplov, de Portugal (https://triplov.com/revistaTriplov/).

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Maria Estela Guedes é escritora, dramaturga, narradora, poeta e editora. É membro da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e do Instituto São Tomás de Aquino. Foi membro do extinto Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL). Orientou várias coleções na editora Apenas Livros, de Lisboa. É membro também da Associação InComunidade, para a qual tem produzido programas de rádio. Dirige o site Triplov (www.triplov.com).  É autora de mais de uma vintena de livros, entre os quais se destacam: Herberto Helder, poeta obscuro (1979), Eco, pedras rolantes (1983), Mário de Sá Carneiro (1985), À sombra de Orpheu (1990), Carbonários – operação Salamandra (1998), A_maar_gato (2005), A boba, monólogo em três insônias e um despertador (2006), Tríptico a solo (2007), Chão de papel (2009), Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal, A obra ao rubro de Heberto Helder (2011), e os mais recentes, publicados pela Editora Urutau, de Cotia-SP: Esta noite dormimos em Tânger e Conversas com Federico García Lorca. E-mail: estela@triplov.com




segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Maria Estela Guedes: ode a García Lorca

Obra reconstitui trajetória do vate espanhol em périplo poético que soa como uma conversa íntima com o espírito do poeta

 

                                                                   I

Uma ode formada por versos inspirados na vida e na obra do poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936) é o que o leitor irá encontrar no livro mais recente da dramaturga, poeta e ensaísta portuguesa Maria Estela Guedes, que acaba de sair pela Editora Urutau, estabelecida no Barreiro, em Setúbal, do lado de lá do rio Tejo, em Portugal, e em Cotia, no Estado de São Paulo, no Brasil. Com capa que reproduz desenho do próprio poeta, a obra Conversas com Federico García Lorca traz 107 poemas que procuram reconstituir a breve e fulgurante trajetória do vate que seria interrompida com o seu fuzilamento por hordas direitistas comandadas pelo general Francisco Franco (1892-1975).

Lenda em vida, e ainda longe da idade madura, Lorca já era à época um ícone daquela que, mais tarde, viria a ser definida como a geração de 27, que incluía, entre outros, Pedro Salinas (1891-1951), Jorge Guillén (1893-1984), Rafael Alberti (1902-1999), Vicente Aleixandre (1898-1984) e Luis Cernuda (1902-1963), ainda que não constituísse um grupo movido por qualquer motivação histórica ou influxo literário ou mesmo por um líder.

Como se sabe, toda a obra de Lorca, que inclui Romanceiro Gitano e Bodas de Sangue, Pranto por Ignacio Sánchez Mejías e Seis Poemas Galegos, entre outros textos poéticos, está profundamente enraizada na cultura popular espanhola. Nascido em Fuente Vaqueros, província de Granada, na região da Andaluzia, ao Sul da Espanha, ainda bem jovem, desde logo se mostrou contra aquelas ideias que defendiam a opressão promovida pelas classes privilegiadas.

Esteticamente, sempre se mostrou moderno, a partir de sua estada no centro cultural Residencia de Estudiantes, em Madrid, em 1919, quando compartiu sua amizade com o poeta Juan Ramón Jiménez (1881-1957), que viria a se destacar na oposição ao regime franquista e ganharia em 1956 o Prêmio Nobel de Literatura. Às expensas do pai, grande proprietário rural de ideias liberais, viveria por uma década em Madrid, sem deixar a Residencia de Estudiantes, onde se destacou também por seus dotes de orador.

A esse tempo, teria deixado de lado certa eloquência sentimental e piegas, adotando um estilo eivado por metáforas ultraístas, provavelmente influenciado também pelo pintor Salvador Dalí (1904-1989), outro frequentador daquela hospedaria de estudantes. Como se sabe, o ultraísmo constituía uma vanguarda poética que procurava sintetizar todas as tendências da vanguarda mundial com o mesmo desejo de ruptura e de impacto.

 

                                                        II

Em 1928, publicou Romanceiro Gitano, seu trabalho de maior sucesso. Nos anos seguintes, passaria a ser conhecido como renovador do drama com a publicação de Mariana Pineda (1928), Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1933-1936). Inquieto, em 1929, viajou para Nova York, seduzido pela leitura das obras dos poetas norte-americanos Walt Whitman (1819-1892) e T. S. Eliot (1888-1965).  Lá, permaneceu na Universidade de Columbia, de 1929 a 1930, época em que escreveu poemas surrealistas, que seriam reunidos em Poeta em Nova York (1940). Em abril de 1931, retornou a Espanha, entusiasmado com a Segunda República Espanhola, quando criou o movimento teatral La Barraca.

A essa época, fez uma travessia pelo Atlântico, com três escalas no Brasil:  as duas primeiras aconteceram em outubro de 1933 a bordo do navio Conte Grande, que o levaria a Montevidéu e aportou a 9 daquele mês no Rio de Janeiro e, dois dias depois, em Santos, onde, tomando água de coco e comendo abacates, perdeu o navio que seguiria para Buenos Aires, depois de passar um dia inteiro na companhia do jornalista Francisco de Azevedo, o Azevedinho, à época repórter do jornal local O Diário.

No Rio de Janeiro, Lorca fora recebido por Alfonso Reyes (1889-1959), poeta norte-americano que foi o embaixador do México no Brasil de 1930 a 1935. Segundo o biógrafo Ian Gibson, Reyes acompanhou-o em uma turnê pela cidade. A derradeira e fugaz estadia de Lorca no Brasil teve lugar em 30 de março de 1934 no Rio de Janeiro, durante a parada do Conte Biancamano, que zarpara de Buenos Aires e o levaria de volta a Barcelona. Acusado de homossexual e odiado por seu entusiasmo pela república, seria fuzilado a 19 de agosto de 1936 e seu corpo enterrado numa fossa comum, que até hoje não teria sido localizada.

 

                                                       III

Essa vida breve, mas intensa, está perpassada em cada poema e até em cada verso que Maria Estela Guedes reuniu neste livro, que começou em Nova York com seis peças poéticas que foram publicadas no caderno Risco da Terra (Lisboa, Apenas Livros, 2011), enquanto os demais, escritos e reescritos em Portugal, Pontevedra, Madrid e Granada, são inéditos, como se lê em nota aposta à abertura da obra. São composições poéticas líricas de enredo elevado que mais se assemelham a conversações com o possível espírito do poeta que ainda estaria vagando pelo planeta, como se pode constatar em “Café Moderno”:

(...) E eu sinto o teu cheiro, Federico. / Usavas perfume discreto / Fumavas cigarrilha elegante / Os sapatos sempre engraxados / Luzindo como a caneta de tinta permanente. (...) Mas foi aqui / Na Praza de San Xosé / Ainda não tinha sido postada / Ao centro / A tertúlia em bronze dos / Intelectuais e artistas do teu orbe / Foi aqui, no Café Moderno, aberto / Em Pontevedra em 1903 / Que redigiste algum do teu moderno / “Poeta en Nueva York”.

Já no poema “Senti”, em que se percebe a ondulação assimétrica peculiar ao ritmo, a poeta procura reconstituir o que podem ter sido os últimos dias de García Lorca, ao se referir à visita que fez ao Hotel Reina Cristina, em Granada, antiga casa da família Rosales, seus amigos. Na lateral daquele prédio, o poeta teria sido detido e fuzilado dois dias depois, em meio ao massacre de Viznar, promovido pelas hordas fascistas fantasiadas de tropas pelo general Franco:

(...)Tu ou Nossa Senhora das Angústias / Que também me seguia / Ambos me levaram pela mão à Casa Rosales / Em cujo átrio, hoje Hotel Reina Cristina, / Um mono de papelão em tamanho natural / Finge que és tu / De branco vestido, ao corrimão encostado, / A fazer guarda de honra à máquina de escrever (...)

O diálogo com o espírito do poeta prossegue mais adiante:

(...) O empregado, de casaco branco, guardanapo no braço, / entendeu e então contou, contou, contou. / Contou que fora ali, à saída da Casa Rosales, / na Calle Angullo, que foras detido. / Caminhaste pela rua à frente dos fuzis até ao Jardim / Botânico, dobraste o / belo edifício, hoje Faculdade de Direito, e à frente dos fuzis / entraste no que então era o Gobierno Civil. / A partir daí, Federico, / Diz-se, / Conta-se, / Há mais convicções do que provas, / Mas sem elas, as provas, / Sem corpo ao qual dar solene sepultura, És um / Desaparecido (...).]

Já no poema “Sejamos claros”, a poeta dá a impressão de que procura deixar o espírito de Lorca informado sobre que ocorre no Brasil no começo da década de 20 deste  século XXI em que negros e indígenas que, ao lado dos ciganos, sempre foram defendidos pelo poeta, continuam a sofrer a vilania da opressão:

(...) Voltamos, Federico, a sofrer por aqui / Neste pequeno mundo esférico / Ideias fascistas, retrógradas, virulentas / Que até a Terra achataram / Garantindo que é plana. / Além de fascismo e nazismo / Fala-se de negacionismo: além da esfericidade / Nega-se a lei dos graves, o valor da vacina / E o da vida humana. / Erige-se (...) como valor – imagina! – a supremacia branca / Sobre os que amamos tanto: negros, gitanos, índios, / enfim, / A  nós mesmos, latinos. (...)

Por fim, em “Os nossos lugares”, o diálogo torna-se ainda mais íntimo. E, como se pode constatar, o tempo presente é predominante, ainda que o tempo referido seja o passado, o que constitui uma característica marcante de toda a poesia lírica de alta qualidade:

(...) Fala mais alto, que não te entendo... / Ah, sim, compreendi: / Não preciso ir a todos os teus lugares / Porque estiveste tu em todos os meus... (...).

 

                                                       IV


Maria Estela Guedes (1947), licenciada em Literatura pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1978, é membro da Associação Internacional de Críticos Literários (AICL), da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). É editora do site Triplov (www.triplov.com), um dos mais significativos de divulgação das literaturas de expressão portuguesa. Nasceu em Britiande, no Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de Papel (Lisboa, Apenas Livros, 2009).

Tem vastíssima obra publicada de livros de e sobre poesia em que se destacam:  Herberto Helder, poeta obscuro (Lisboa, Moraes Editores, 1979), SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980), Eco, pedras rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983), Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985), À sombra do Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990), a_maar_gato (Lisboa, Editorial Minerva, 2005), Lápis de Carvão (Lisboa, Apenas Livros, 2005), Ofício das Trevas, teatro (Lisboa, Apenas Livros, 2006), A Boba – monólogo em três insónias e um despertador (Lisboa, Apenas Livros, 2006), À la Carbonara, em co-autoria com J.C.Cabanel e Silvio Luis Benítez Lopes (Lisboa, Apenas Livros, 2007), Poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); A obra ao rubro de Heberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010); Clitóris Clítoris (Cotia-SP, Editora Urutau, 2019); Esta noite dormimos em Tânger  (Cotia-SP, Editora Urutau, 2020); e Númeras letras (ARC Edições, 2021), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Conversas com Federico García Lorca, de Maria Estela Guedes. Barreiro, Setúbal, Portugal; Cotia, São Paulo, Brasil, Editora Urutau, 110 páginas, R$ 45,00, 2022. Site: www.editoraurutau.com E-mail: info@editoraurutau.pt

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sexta-feira, 27 de março de 2015

Na morte de Herberto Helder

                                                           I

Se Fernando Pessoa (1888-1935) foi a figura de proa da poesia portuguesa na primeira metade do século XX, na segunda esse espaço foi ocupado por Herberto Helder (1930-2015), um poeta fascinado pelo poder encantatório da linguagem, decorrente do uso ritual da palavra, como observou Maria Estela Guedes num dos dois livros que escreveu sobre essa personagem mítica, Herberto Helder, o poeta obscuro (Lisboa, Moraes Editores, 1979).

De fato, como observa a autora no segundo livro que dedicou à produção do poeta, A obra ao rubro de Herberto Helder, publicado em 2010 pela Escrituras Editora, dentro da Coleção Ponte Velha, em edição apoiada pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela Direção-Geral do Livro e das Bibliotecas (DGLB/Portugal), em todos os seus poemas, está presente um tipo de magia fundada no trabalho poético sobre as palavras. E que, especialmente, procura imagens na Natureza. Esse trabalho pode ser sintetizado nestas palavras de Herberto Helder, que estão no o prefácio de seu livro As magias (1987): (...) Mas as palavras não são apenas palavras. Tem longas raízes tenazes mergulhadas na carne, mergulhadas no sangue, e é doloroso arrancá-las.

Arrancar palavras da alma parece ter sido a obsessão desse poeta que, a exemplo de José Saramago (1922-2010), único Prêmio Nobel da Literatura Portuguesa, não colocou na parede diploma de nenhuma universidade. Se Saramago, que também foi bom poeta, além de excepcional romancista, não freqüentou os bancos de nenhuma faculdade, Herberto Helder chegou a matricular-se na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, mas não concluiu nenhum curso. Formou-se, isso sim, na universidade da vida. Sem contar que sempre foi um ávido leitor, não só de poetas e romancistas europeus, como de poetas latino-americanos como o mexicano Octavio Paz (1914-1998), o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) e o chileno Vicente Huidobro (1893-1948).

Como se lê na biografia Herberto Helder, a obra e o homem (Lisboa, Arcádia, 1982), que escreveu a professora Maria de Fátima Marinho, vice-reitora da Universidade do Porto, o poeta, nascido no Funchal, sempre esteve na contramão da sociedade bem comportada. Por isso, sua figura, a partir da notoriedade de seus versos, passou a ganhar uma aura mítica, que só aumentou nos últimos anos, depois que se refugiou num pretenso anonimato, recusando-se a receber prêmios literários, como o Fernando Pessoa, na década de 90, e a conceder entrevistas e até a deixar-se fotografar.

Em linhas gerais, viveu uma vida em construção, sem muito apego a valores burgueses: foi propagandista de produtos farmacêuticos, redator de publicidade e outros ofícios. Sabe-se também que viveu precariamente como imigrante em países como França, Holanda e Bélgica, onde igualmente desempenhou trabalhos que os naturais do lugar se recusam a fazer. Em Antuérpia, teria sido guia de marinheiros e turistas nos meandros da zona do meretrício. E até cantor de tangos.

Só em 1960, depois de voltar a Lisboa, conseguiu um emprego mais estável como encarregado das bibliotecas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian que viajavam pelas vilas e freguesias. Foi ainda repórter e redator por dois anos de uma revista em Angola, às vésperas da derrubada do regime colonial. Em Lisboa, atuou também em TV e Rádio.

Morto o poeta, naturalmente, agora abundam os elogios das fontes oficiais, mas a verdade é que Herberto Helder, ainda que tenha publicado uma vasta obra, foi um poeta marginal e desconhecido nos meios criadores de arte em Portugal por muito tempo – e mais ainda pelo público e até mesmo pelos acadêmicos brasileiros. Só nos últimos tempos passou a ser mais reverenciado e seus livros procurados – um ou outro chegou a alcançar tiragem de cinco mil exemplares, o que é surpreendente em se tratando de poesia. Se sua poesia transcendeu a de Fernando Pessoa, ainda não se pode dizer. Se não chegou a tanto, passou perto.
                                                          
                                                           II

Em A obra ao rubro de Herberto Helder, Maria Estela Guedes, além do fascínio do poeta pelo misticismo, destaca a sua atração pelos aromas. E cita um verso de seu primeiro livro, O amor em visita (1958), em que ele põe no papel uma de suas mais espantosas imagens: Dai-me uma mulher tão nova como a resina / e o cheiro da terra. E destaca outro do mesmo poema em que vai buscar na Natureza e nos aromas a matéria-prima de seu fazer-poético: E as aves morrem para nós, os luminosos cálices / das nuvens florescem, a resina tinge / a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.

Maria Estela ressalta a liberdade de expressão de Herberto Helder que, em A faca não corta o fogo (2008), ultrapassa os limites do bom gosto burguês, com imagens insólitas, experimentalismo contínuo, mundo mágico, que o aproxima da poesia surrealista. E lembra de um poema constante desse livro em que o poeta pede que, quando de sua morte, antes de alguém se preocupar com cerimônias fúnebres, “deve certificar-se de que está realmente morto, matando-o”.

O livro de Maria Estela Guedes analisa também os textos que o jornalista Herberto Helder escreveu para o Notícia, de Luanda, assim chamado no masculino, embora fosse uma revista semanal, até então nunca estudados nem inventariados. Sob a rubrica Mesa da Redacção, o autor publicou notas e comentários de livros, exposições, filmes e outros temas, em que se destacam a leveza e informalidade dos textos. Há textos também em que se assina com pseudônimo porque aquela era uma época em que todas as edições só saíam a público depois de visadas pela Comissão de Censura do regime salazarista.

Não se pode deixar ainda de citar a afinidade que Maria Estela assinala em Herberto Helder com a geração beat, especialmente no livro de ficção Os passos em volta (1963), em que, aparentemente, o autor valeu-se de sua experiência como viajante ao léu por países da Europa, bem ao estilo da contracultura das décadas de 60 e 70.

Como se vê, para quem no Brasil ainda pouco conhece da obra de Herberto Helder ou o descobriu agora, quando a sua morte ofereceu a oportunidade aos jornais e à mídia digital de reverenciar o seu nome, uma boa partida é ler este livro de Maria Estela Guedes, que desde a década de 70 dedicou-se em boa parte a estudar a sua produção. Aliás, o texto deste livro e de outros trabalhos de Maria Estela sobre o poeta podem ser acessados no sítio www.triplov.com.

                                               III

Maria Estela Guedes (1947) nasceu em Britiande, Lamego, onde mora hoje, mas viveu na Guiné-Bissau de 1956 a 1966, ao tempo do colonialismo que coincidiu também com o de sua formação pessoal. Reuniu seus poemas evocativos dessa época e de uma Guiné-Bissau que já não existe no livro Chão de Papel (Lisboa, apenas Livros, 2009). Diretora do sítio Triplov, um dos mais significativos de divulgação das literaturas de expressão portuguesa, faz parte da Associação Portuguesa de Escritores, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Centro Interdisciplinar da Universidade de Lisboa e do Instituto São Tomás de Aquino.

Entre seus livros, estão também SO2 (Lisboa, Guimarães Editores, 1980); Eco, Pedras Rolantes (Lisboa, Ler Editora, 1983); Crime no Museu de Philosophia Natural (Lisboa, Guimarães Editores, 1984); Mário de Sá Carneiro (Lisboa, Editorial Presença, 1985); O Lagarto do Âmbar (Lisboa, Rolim Editora, 1987); Ernesto de Sousa – Itinerário dos Itinerários (Lisboa, Galeria Almada Negreiros, 1987); À Sombra de Orpheu (Lisboa, Guimarães Editores, 1990); Prof. G. F. Sacarrão (Lisboa, Museu Nacional de História Natural-Museu Bocage, 1990); Tríptico a solo (São Paulo, Editora Escrituras, 2007); A poesia na Óptica da Óptica (Lisboa, Apenas Livros, 2008); Quem, às portas de Tebas? – Três artistas modernos em Portugal (São Paulo, Editora Arte-Livros, 2010); Tango Sebastião (Lisboa, Apenas Livros Editora, 2010); Arboreto (São Paulo, Arte-Livros, 2011); Risco da terra (Lisboa, Apenas Livros, 2011); Brasil (São Paulo, Arte-Livros, 2012); e Um bilhete para o Teatro do Céu (Lisboa, Apenas Livros, 2013), entre outros.

Como teatróloga, escreveu O Lagarto do Âmbar, levado à cena em 1987, no Acarte, na Fundação Calouste Gulbenkian, com direção de Alberto Lopes e interpretação de João Grosso, Ângela Pinto e Maria José Camecelha, e cenografia de Xana; A Boba, levado à cena em 2008 no Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia de Fernando Alvarez e interpretação de Maria Vieira. Adelto Gonçalves – Brasil


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A obra do rubro de Herberto Helder, de Maria Estela Guedes. Organização e prólogo de Floriano Martins. São Paulo: Escrituras Editora, 190 págs., 2010, R$ 20,00. Site: www.escrituras.com.br E-mail: escrituras@escrituras.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br