Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 22 de julho de 2022

Guiné-Bissau - Tem potencial para ser um exemplo da paz na região africana

A embaixadora da União Europeia na Guiné-Bissau, Sónia Neto, defendeu que o país tem potencial para servir de exemplo da paz na sub-região africana devido à sua singularidade e resiliência do povo na preservação da diversidade étnica

A diplomata portuguesa falava no ato de lançamento do Observatório da Paz, que vai funcionar nos próximos 39 meses com o patrocínio da União Europeia, sob a coordenação de um consórcio constituído entre a Liga Guineense dos Direitos Humanos e a organização não-governamental portuguesa Instituto Marquês de Valle Flôr.

O Observatório da Paz, sob o título genérico em crioulo ‘No Cudji Paz’ (‘Escolhemos a Paz’) vai funcionar como instância de identificação e prevenção de fenómenos sociais que possam colocar em causa a paz, através de comportamentos ou sinais de radicalização e extremismo violento.

Sónia Neto notou que a Guiné-Bissau apresenta características singulares de um povo “que merece toda a admiração e respeito” dada à forma como preserva a sua identidade mesmo perante a sua diversidade étnica e religiosa.

“Esta é a vossa maior riqueza, a qual não deve ser alvo de divisões”, afirmou a diplomata, dirigindo-se a uma plateia constituída por chefes das diferentes confissões religiosas, forças de defesa e segurança, funcionários estatais e elementos das organizações da sociedade civil. A cerimónia, presidida pelo secretário de Estado da presidência do Conselho de Ministros guineenses, Florentino Dias, contou também com a presença de elementos da comunidade internacional baseados em Bissau.

“Somente juntos podemos prevenir o fenómeno da radicalização e do extremismo violento em prol de um bem maior, bem comum, a proteção do povo da Guiné-Bissau”, observou Sónia Neto.

A representante da União Europeia na Guiné-Bissau defendeu ainda que a preservação da paz é mais importante agora que o país “tem responsabilidades acrescidas” a partir do momento em que o chefe de Estado guineense, Umaro Sissoco Embaló, preside à conferência de líderes da Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO), somadas com os desafios internos, disse.

O Observatório lançado em Bissau vai ao encontro da estratégia da União Europeia para enfrentar as ameaças à paz a nível mundial, particularmente na região africana do Sahel, notou Sónia Neto, exemplificando os quatro pilares dessa estratégia: Prevenir, Proteger, Perseguir e Responder.

Na lógica do respeito pelos direitos humanos, a embaixadora da União Europeia na Guiné-Bissau apontou o Observatório da Paz como um instrumento que pode servir para a materialização da estratégia de prevenção. In “Milénio Stadium” - Canadá


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Portugal - Renovou moratórias da dívida a Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe

O Governo português renovou as moratórias da dívida a Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, num total de 131 milhões de euros, em resposta aos pedidos apresentados por estes países, de acordo com uma nota divulgada.

O Governo “autorizou a manutenção da garantia do Estado no âmbito das linhas de crédito concedidas a Cabo Verde, Moçambique e a São Tomé e Príncipe, no seguimento da prorrogação da moratória dos pagamentos devidos até 31 de dezembro de 2021, em resposta aos pedidos apresentados por estes países”, segundo a nota divulgada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.

A medida enquadra-se na “Iniciativa de suspensão do serviço de dívida” lançada pelo Clube de Paris e pelo G20 para mobilizar todos os credores bilaterais, oficiais e privados, no apoio aos países parceiros mais vulneráveis na resposta à crise sanitária e socioeconómica decorrente da pandemia de covid-19.

Portugal aderiu àquela iniciativa no seu início, em maio de 2020, e até ao seu termo, no final de 2021, “as moratórias concedidas por Portugal em resposta aos pedidos recebidos de Cabo Verde, de Moçambique e de São Tomé e Príncipe, no quadro dos empréstimos bilaterais ou de linhas de crédito com garantia do Estado português, ascendem a 131 milhões euros”, indicou o Governo.

Saúde / São Tomé

Na segunda-feira Portugal e São Tomé e Príncipe assinaram um reforço financeiro de mais 400 mil euros para aquisição de equipamentos, consumíveis e formação, no âmbito do programa Saúde para Todos executado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr.

O protocolo de reforço financeiro foi assinado entre o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal, Francisco André, o ministro da Saúde de São Tomé e Príncipe, Edgar Neves, e o diretor executivo do Instituto Marquês de Valle Flôr, Ahmed Zaky.

Francisco André sublinhou que “o programa tem sido um sucesso até agora” e tendo em conta “a dimensão dos resultados alcançados” Portugal decidiu “assinar este protocolo para os próximos 12 meses, com o reforço financeiro significativo”.

“É um reforço financeiro na casa dos 400 mil euros e que vai permitir complementar aquelas que são as áreas principais deste programa ‘Saúde para Todos’, neste caso em concreto, no que diz respeito ao fornecimento de equipamentos e a melhoria das infraestruturas na área dos meios complementares de diagnóstico laboratorial”, precisou o secretário de Estado.

A injeção de mais 400 mil euros aumenta o valor anual do programa para 1,3 milhões de euros anuais, devendo estender-se ao longo dos próximos cinco anos de vigência do novo Programa Estratégico de Cooperação (PEC), assinado recentemente entre os dois países, “com aumento de meios financeiros superior a 25% e onde a área da saúde ganha uma relevância bastante particular”.

“Este é um programa a todos os títulos assinalável, com objetivos muito claros que foram sempre concretizados. É um programa do qual a cooperação portuguesa se orgulha bastante e sabemos bem da importância também que este programa tem para São Tomé e Príncipe e é por isso que queremos continuar a trabalhar juntos nesta lógica de partilha de experiências, de troca de informação, como temos feito até agora para que este programa seja um sucesso,” disse Francisco André.

O ministro da Saúde são-tomense, Edgar Neves, salientou que os resultados da cooperação com Portugal “são mais que visíveis”, tendo acrescentado que “os indicadores de saúde de São Tomé e Príncipe têm melhorado, quer na vertente promocional e preventiva e também na curativa”.

A assinatura deste acordo acontece um dia depois da visita que o primeiro-ministro de Portugal, António Costa, efetuou ao país.

O Hospital Central de São Tomé está integrado no projeto de cooperação ‘Saúde para Todos’, lançado em 1988 e é considerado um dos mais importantes da cooperação portuguesa.

Segundo fonte diplomática, este programa tem uma abordagem integrada e inovadora na área da saúde, prestando apoio à rede de cuidados preventivos e primários para a redução e prevenção de doenças transmissíveis, assim como apoio aos cuidados especializados através da realização de missões médicas de especialistas portugueses.

Este programa tem já 26 especialidades médicas, entre as quais imagiologia, cirurgia pediátrica, oftalmologia, otorrinolaringologia, dermatologia, gastroenterologia, urologia, cardiologia, cirurgia Geral, anatomia patologia, ginecologia, obstetrícia e combate às doenças não transmissíveis.

No que respeita ao combate à covid-19, Portugal já doou 86 mil doses de vacinas em três lotes diferentes – um de 12 mil e dois de 37 mil -, acompanhadas do material necessário para a inoculação. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”

 

quarta-feira, 3 de março de 2021

São Tomé e Príncipe – Cooperação portuguesa presente na especialidade de oftalmologia

2654 cirurgias em oftalmologia é o balanço de 33 missões médicas de Portugal na especialidade de oftalmologia, realizadas em São Tomé e Príncipe.

Os dados foram divulgados durante as segundas jornadas de oftalmologia do Hospital Ayres de Menezes.

As sucessivas missões médicas de especialidade, no quadro do projecto saúde para todos, realizaram 17761 consultas de oftalmologia e 2654 doentes foram operados, e recuperaram a visão.

Ahmed Zaky Director Executivo do Instituto Marquês de Valle Flôr, parceiro da cooperação portuguesa na execução do projecto “Saúde para Todos”, disse que se trata de um recorde internacional em termos de atendimento e de assistência médica às populações.

A par da assistência médica e medicamentosa, aos pacientes com problemas de visão, no quadro do Projecto Saúde para todos São Tomé e Príncipe conta com a sua primeira médica especialista em Oftalmologia.

A médica Grimalde Trindade, fez o curso de especialidade em oftalmologia na faculdade de medicina de Coimbra, e deverá nos próximos dias fazer o seu “exame de saída” no hospital Ayres de Menezes.

O Ministro da Saúde Edgar Neves, considerou a componente especialidade do projecto “Saúde para Todos”, como um instrumento que «dá a quadros nacionais competências para maior autonomia do sistema nacional de saúde», declarou o ministro da saúde. Abel Veiga – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”

 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

São Tomé e Príncipe - Instituto Marquês de Valle Flôr e Governo renovam acordo de assistência médica


São Tomé – As autoridades são-tomenses acordaram na passada segunda-feira, na cidade de São Tomé, com a ONG portuguesa, Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF), a assistência sanitária ao país por mais 12 meses.

Segundo Ahmed Zaky, Director de Projectos do IMVF, após um encontro na cidade de São Tomé, capital do arquipélago, com o ministro da Saúde, Edgar Neves, o acordo por mais 12 meses vai compreender o “reforço de assistência médica tendo em conta a conjuntura mundial da pandemia do Covid-19”.

Neste âmbito, Zaky, afirmou que a sua organização agendou para breve a oferta de mais um auxílio sanitário para o reforço do combate à pandemia do Covid-19 em São Tomé e Príncipe.

Disse que além de assistência global, as partes discutiram nomeadamente a assistência na especialidade no hospital central e principal unidade sanitária do país, “Hospital Central Dr. Ayres de Menezes”, mormente a formação de quadros, telemedicina, imagiologia e outros serviços afins.

Criada em 1951 como instituição privada lusa de utilidade pública, o IMVF é uma fundação para o desenvolvimento e a cooperação internacionais em múltiplas dimensões e iniciou a sua actividade como ONGD em 1988 em São Tomé e Príncipe.

E destas intervenções no arquipélago são-tomense, destaque para o conhecido projecto de cariz nacional, o “Projecto Saúde Para Todos”. Manuel Dênde – São Tomé e Príncipe in “STP-Press”  


 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

São Tomé e Príncipe - Recebe verba portuguesa para combater a pandemia

O Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF) vai apoiar o Governo são-tomense com 500 mil euros no combate à covid-19, anunciou o seu representante, Ahmed Zaky, no final de um encontro com o ministro da Saúde, Edgar Neves

“Com o apoio da União Europeia e da cooperação portuguesa, temos um financiamento de cerca de 500 mil euros, que é para apoiar São Tomé e Príncipe na sua luta contra a covid-19, num projeto que vamos já começar a implementar”, disse o responsável dessa instituição portuguesa.

O responsável do IMVF anunciou igualmente que a sua instituição vai instalar pela primeira vez em São Tomé e Príncipe uma unidade de gastroenterologia com apoio financeiro da cooperação portuguesa e da Santa Casa da Misericórdia, cujo montante não foi avançado.

“Temos agora finalizado, com apoio da cooperação portuguesa e da Santa Casa da Misericórdia de Portugal, a instalação de uma unidade de gastroenterologia, que permite fazer todos os exames, a endoscopia alta e baixa, a colonoscopia, e outros exames”, explicou Ahmed Zaky.

Durante a audiência, as duas partes analisaram também as ações de cooperação a desenvolver após o término, em dezembro próximo, do projeto Saúde para Todos, financiado no âmbito do Programa Indicativo de Cooperação (PEC).

O PEC, celebrado entre os governos são-tomense e português, tem uma duração de cinco e é avaliado em 54 milhões de euros.

De acordo com o responsável do IMVF, quatro médicos concluirão este ano especialidades em gastroenterologia, imagiologia e outras especialidades, com o patrocínio deste organismo, para reforçar o sistema nacional de saúde são-tomense. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Lusofonia – Instituto Marquês de Valle Flôr e Ministério do Trabalho de São Tomé e Príncipe assinam Memorando de Entendimento na área do emprego e formação profissional



No dia 11 de junho, teve lugar na sede do IMVF, em Lisboa, a assinatura de um Memorando de Entendimento entre o Ministério do Trabalho, Solidariedade, Família e Formação Profissional (MTSFFP) de São Tomé e Príncipe e o IMVF.

O Memorando tem por objetivo o apoio à operacionalização da Política Nacional de Emprego (PNE) de São Tomé e Príncipe e a promoção do Plano de Acão Nacional para o Emprego e a Formação (PANEF), junto dos doadores bilaterais e multilaterais, assim como o apoio à sua implementação e monitorização.

O PANEF constitui uma abordagem inovadora e que deverá permitir passar de um quadro de múltiplos eixos dispersos para a promoção coordenada de um conjunto de programas operacionais, que resultem na criação e na promoção do emprego e autoemprego. Os objetivos do PANEF requerem uma intervenção complementar, nomeadamente, a realização de estudos de mercado que permitam uma previsão e antecipação de necessidades de formação associadas a novos investimentos na economia nacional e das PME.

Presentes na cerimónia estiveram o Ministro do Trabalho, Solidariedade, Família e Formação Profissional de São Tomé e Príncipe, Adlander Costa de Matos, o Encarregado de Negócios de STP em Portugal, Nilson Reis Lima, o Diretor de Gabinete do MTSFFP, Darnin Correia, o Diretor-Geral do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP) do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social de Portugal (MTSSS), José Luís Albuquerque, o Consultor Internacional, Paulo Bárcia, o Presidente do Conselho de Administração do IMVF, Paulo Freitas, e os Administradores Executivos do IMVF, Ahmed Zaky e Carolina Quina. Instituto Marquês de Valle Flôr - Portugal

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

São Tomé e Príncipe - Equipa portuguesa está há oito anos a estudar a surdez nas crianças



Uma equipa de médicos e enfermeiros portugueses tem vindo a realizar missões humanitárias em São Tomé e Príncipe há oito anos. Objectivo: ajudar aquela população a ser auto-sustentável ao nível dos cuidados de saúde e investigar a prevalência de surdez nas crianças.

Foi em Fevereiro de 2011 que dois otorrinolaringologistas, dois enfermeiros e um audiologista portugueses rumaram a São Tomé e Príncipe naquela que seria a primeira de muitas outras expedições, no âmbito do projecto Saúde para Todos – Especialidades, desenvolvido pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF).

Os médicos previam encontrar vários casos de otites médias crónicas, ou seja, infecções persistentes do ouvido médio. Porém, depois de um primeiro contacto com a população, a equipa deu conta de um elevado número de surdez em crianças. Das 640 crianças observadas, 34% são surdas (13% das quais sofrem de surdez profunda) e 22% ouvem apenas de um ouvido (consideradas normouvintes), sendo que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um indivíduo é surdo se ambos os ouvidos tiverem surdez.

Regra geral, a surdez em crianças deriva de infecções e, como tal, é passível de ser tratada. No entanto, os médicos aperceberam-se de que muitos dos casos correspondiam a surdezes irreversíveis, pelo que decidiram dedicar-se ao estudo das possíveis causas desta patologia naquela população.

“Aquilo que verificámos na primeira missão é que, ao contrário do que estávamos à espera, que eram as tais otites médias crónicas, encontrámos muita surdez, mas com ouvidos normais, ou seja, não havia infecções. Tínhamos sobretudo a parte da surdez irreversível sem possibilidade de recuperação”, explica ao “Público” Cristina Caroça, investigadora da Universidade Nova de Lisboa e médica otorrino que liderou a equipa no terreno.

Desde a quarta missão até à penúltima, a 26.ª, mais de metade das crianças observadas, com menos de 15 anos, revelaram uma surdez com perda auditiva em pelo menos um dos ouvidos ou nos dois. “A grande maioria das crianças [mais de 50%] tem os dois ouvidos surdos ou uma surdez unilateral”, nota Cristina Caroça. No total, considerando a população toda da amostra (incluindo adultos e crianças), 32% dos indivíduos apresentam surdez bilateral neurossensorial, um tipo de surdez irreversível.

“Sabemos que a surdez condiciona muito o desenvolvimento socioeconómico de um país, porque um surdo não se integra tão facilmente numa sociedade ouvinte, não trabalha, fica isolado e não tem autonomia. Percebemos que, naquela população, este era um problema de saúde pública”, acrescenta a investigadora, cuja tese de doutoramento incidiu sobre a surdez em São Tomé e Príncipe.

Nas crianças, a “surdez apresenta um risco aumentado de baixa aprendizagem, abuso físico, social, emocional e sexual, podendo mesmo levar à morte”, escrevem os autores num artigo científico que resultou desta investigação, publicado em 2016 na Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial.​

Segundo os autores, em 2016 a OMS estimava que cerca de 5% da população mundial (360 milhões de pessoas) apresentava incapacidade auditiva, com elevada prevalência nos países em desenvolvimento da Ásia e África subsariana. Em Portugal, estima-se que existam mais de 26 mil surdos.

Quais as causas?

De forma a perceber quais os factores de risco que poderiam estar na origem da prevalência de surdez, os investigadores começaram a estudar as principais doenças que afectam a população de São Tomé e Príncipe.

Com base noutros estudos e nos dados recolhidos, os especialistas chegaram à conclusão de que a surdez nas crianças pode estar associada à ototoxicidade e a uma dose de medicação para a malária desadequada. “Aquilo que verificámos é que a surdez nas crianças associada aos antimaláricos é maior porque, muitas vezes, essas crianças fazem a medicação sem ser adequada ao peso”, explica ao “Público” Cristina Caroça.

Por outro lado, quando avaliaram a questão das vacinas e das doenças de saúde pública, os investigadores decidiram averiguar se a população estaria exposta ao vírus da rubéola (tendo em conta que a vacina não era administrada até ao final de 2017). Segundo a investigadora, quando uma mulher grávida é exposta ao vírus da rubéola, os filhos têm 60% de probabilidade de desencadear uma surdez neonatal.

À semelhança do que já tinha sido verificado em estudos anteriores, os dados revelaram uma possível ligação entre a rubéola e a surdez em crianças. “A relação da infecção pelo vírus da rubéola e a surdez é conhecida desde há longa data no âmbito da comunidade científica. Em São Tomé não se tinha conhecimento de diagnóstico da rubéola na comunidade, daí que o facto de se provar que existia rubéola [cerca de 80% da população abaixo dos 35 anos apresentava imunidade para esta infecção] levou à emergência da implementação da vacina”, explica a investigadora.

Outros dos factores de risco estudados dizem respeito às hemoglobinopatias (um conjunto de doenças de origem genética que podem ter implicações nos glóbulos vermelhos e causar anemia), que são prevalentes naquela região subsariana, e ainda ao défice de glucose-6-fosfato-desidrogenase (G6PD), que “pode levar a consequências nefastas ao nível do sistema nervoso central logo nos primeiros dias de vida” e que está associado à icterícia neonatal grave e consequente surdez neurossensorial neonatal e alterações cognitivas, explica ainda a investigadora.

Os especialistas avaliaram também possíveis causas da surdez ao nível da influência genética de outros povos (oriundos de países como Portugal e países nórdicos) e da consanguinidade, mas os resultados não se revelaram significantes.

Deste trabalho no terreno surgiram vários artigos científicos, publicados em revistas nacionais e internacionais (como a BMC Public Health e a International Journal of Medical Research & Health Sciences), e um recente prémio no âmbito do programa Projectos de Investigação em Medicina, promovido pelo Consórcio Tagus Tank (parceria entre o Grupo José Mello Saúde e a Universidade Nova de Lisboa), que valeu um financiamento de 20 mil euros para continuar a investigação.

Uma componente humana

A última missão, já em Janeiro deste ano, foi já a 27.ª em São Tomé e Príncipe e a equipa garante que tem vindo a aumentar o seu espectro de acção. Cada missão dura uma semana e, anualmente, são realizadas entre três a quatro missões. “Ao longo destas 27 missões as equipas foram aumentando e fomos orientando mais com vista aos problemas que fomos encontrando”, conta Cristina Caroça. Em 2018, foi a vez de o Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, ter conhecido de visita a este país algumas das pessoas por trás desta iniciativa.

Além das intervenções cirúrgicas e consultas médicas nos hospitais e centros e saúde, assim como rastreios nas escolas, a equipa de médicos portugueses tem vindo a pôr em prática um conjunto de medidas para ajudar a comunidade são-tomense. Até porque, garante a investigadora, estas missões não têm apenas um fim investigativo.

“Este projecto nasceu sobretudo pela componente humana. Nós só podemos ajudar se os ensinarmos, para eles fazerem as coisas, porque não podemos estar sempre ali ao lado. Temos de lhes dar instrumentos, para que se consigam desembaraçar”, explica Cristina Caroça, que salienta ainda o contacto com a população como um dos pontos-chave.

A formação de médicos e enfermeiros locais na especialidade de otorrinolaringologia tem sido “o passo mais importante”, nota a investigadora, além do apoio que prestam à comunidade através da telemedicina (que permite aos médicos portugueses estarem permanentemente em contacto) e da educação para a saúde com palestras, um workshop para enfermeiros sobre cuidados pré e pós-operatórios e jornadas anuais.

“Há uma necessidade de deixar algum legado e permitir que os médicos de São Tomé consigam ser auto-suficientes”, sublinha Cristina Caroça. Neste momento, existem dois médicos são-tomenses em formação para que, no futuro, sejam capazes de “realizar intervenções na ilha com segurança”.

O balanço é positivo, com um maior envolvimento dos profissionais de saúde locais e um crescimento favorável. “Nota-se uma evolução grande em termos de doentes com infecções dos ouvidos que estão cada vez menos activas e, por outro lado, os médicos estão mais conscientes da problemática e dos cuidados que devem ter”, garante a médica.

Além da aplicação da vacina da rubéola e da actividade cirúrgica, a investigadora destaca algumas medidas de sucesso postas em prática nos últimos anos, como o diagnóstico da própria surdez através de exames de audição, as sessões de terapia da fala (não só para a melhoria da voz, mas também para estimular a oralidade) e a adaptação de próteses auditivas a crianças e adultos jovens. Também a criação de uma língua gestual própria de São Tomé e Príncipe, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian, permitiu uma maior integração dos surdos na comunidade e a criação de “um meio de contacto” entre eles, explica Cristina Caroça.

Por fim, a médica destaca a implementação do rastreio auditivo neonatal que teve uma cobertura de 16% no ano passado (num universo de cinco mil nascimentos), “de forma a detectar a surdez mais precocemente para também adaptar a criança à situação e integrá-la na sociedade”, tendo em conta as suas necessidades educativas e o estigma social.

Garante a investigadora que as missões irão continuar no futuro e o objectivo passa também pelo estudo do impacto que outras doenças como, por exemplo, a toxoplasmose têm naquela população. “Tudo medidas para evitar que haja um flagelo destas patologias que afectam o desenvolvimento das crianças”, conclui Cristina Caroça. E se dúvidas restassem, diz a médica, há já consultas marcadas para 2030. Filipa Mendes – Portugal in  "Público"