Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Internacional - Obesidade estabiliza e até diminui em vários países, aponta estudo epidemiológico global

Análise mundial desde 1980 - que conta com a participação de investigadores da Universidade de Coimbra - revela desaceleração histórica na Europa Ocidental, incluindo Portugal, mas alerta para o aumento do problema em regiões desfavorecidas


Um estudo internacional publicado na revista Nature, que conta com o contributo de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), revela que a evolução da obesidade a nível global mostra sinais de estabilização e até de possível inversão em vários países de elevado rendimento, após décadas de crescimento acelerado.

A investigação, liderada pelo NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC) em parceria com a Imperial College London, analisou a evolução da obesidade em 200 países e territórios entre 1980 e 2024, com base numa das mais abrangentes bases de dados epidemiológicos alguma vez reunidas nesta área, integrando informação proveniente de milhares de estudos populacionais e de centenas de milhões de participantes.

Os resultados mostram que, após um aumento rápido e sustentado da prevalência da obesidade ao longo das últimas décadas do século XX, observa-se um abrandamento claro desse crescimento na maioria dos países de elevado rendimento. Em diversos contextos, verifica-se mesmo uma estabilização das taxas e, em alguns casos, sinais de diminuição, particularmente entre crianças e adolescentes, com reflexos posteriores nas populações adultas. Entre os países onde estas tendências são mais evidentes incluem-se alguns exemplos da Europa Ocidental, como Portugal, França e Itália.

Segundo os autores, estes padrões sugerem que a ideia de uma “epidemia global de obesidade” pode ser uma simplificação excessiva, na medida em que esconde trajetórias muito distintas entre países e regiões, influenciadas por fatores sociais, económicos e, em particular, pela disponibilidade e acessibilidade a alimentos saudáveis.

Apesar destes sinais encorajadores em alguns contextos, o estudo sublinha que a obesidade continua a aumentar de forma consistente em muitos países de baixo e médio rendimento, com especial incidência em várias regiões de África, Ásia, América Latina e em ilhas do Pacífico e das Caraíbas, evidenciando uma forte desigualdade global na evolução deste problema de saúde pública.

Para o professor Majid Ezzati, coordenador do estudo no Imperial College London, os resultados demonstram que “o aumento da obesidade não é inevitável e pode ser travado, ou mesmo invertido, através de políticas adequadas”. Ainda assim, o investigador alerta que os níveis atuais permanecem elevados e que as desigualdades entre regiões continuam a ser muito significativas.

Na mesma linha, Aristides Machado-Rodrigues, co-autor do estudo e investigador do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e docente da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da UC, sublinha que “analisar não apenas a prevalência, mas também a velocidade de mudança da obesidade ao longo do tempo, permite identificar com maior precisão os contextos onde são necessárias intervenções mais urgentes, nomeadamente através de políticas públicas robustas nas áreas da saúde e da alimentação, capazes de acompanhar as transições económicas, tecnológicas e nutricionais em curso”.

O trabalho contou ainda com a participação de outros docentes e investigadores da UC, nomeadamente Cristina Padez e Daniela Rodrigues, da FCTUC, Helena Nogueira, da Faculdade de Letras, e Luísa Macieira, Lélita Santos e Anabela Mota-Pinto, da Faculdade de Medicina. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 3 de abril de 2023

Internacional - Estudo publicado na Nature conclui que benefícios de viver em cidades para crianças e adolescentes diminuíram no século XXI

Um estudo internacional com a participação de Cristina Padez, docente no Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) e coordenadora do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), publicado na Nature, concluiu que as vantagens de viver em cidades para o crescimento e desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes diminuíram no século XXI.

A investigação, realizada por um consórcio liderado pelo Imperial College London e que envolveu mais de 1500 investigadores e médicos, analisou dados de altura e índice de massa corporal (IMC) de 71 milhões de crianças e adolescentes, com idades compreendidas entre os 5 e os 19 anos, em áreas urbanas e rurais de duas centenas de países, de 1990 a 2020.

«No século 20, em quase todos os países desenvolvidos, as crianças e adolescentes que viviam em meios urbanos eram mais altos comparativamente aos que viviam em áreas rurais. Este novo estudo determinou que, no século XXI, esta vantagem diminuiu na maior parte dos países como resultado das melhorias aceleradas na altura de crianças e adolescentes em áreas rurais», revelou Cristina Padez, coautora do estudo. 

De acordo com a investigadora da FCTUC, este estudo também focado na avaliação do IMC, indicador que avalia se a pessoa tem um peso saudável para a altura, descobriu que, em média, as crianças que vivem nas cidades tinham um peso ligeiramente mais elevado em comparação com as crianças nas áreas rurais em 1990. «Em 2020, as médias de IMC aumentaram na maioria dos países, embora mais rapidamente para as crianças urbanas, exceto na África subsaariana e no sul da Ásia, onde este indicador aumentou mais rapidamente em áreas rurais», revela a coordenadora do CIAS.

No entanto, prossegue a docente do DCV, «ao longo de 30 anos, a diferença entre o IMC urbano e rural permaneceu pequena - menos de 1,1 kg/m² globalmente (menos de 2 kg de peso para uma criança com 130 cm de altura ou menos de 3 kg de peso para um adolescente com 160 cm)».

Embora a altura e o IMC tenham aumentado em todo o mundo desde 1990, o consórcio descobriu que o grau de mudança entre as áreas urbanas e rurais variou muito entre os diferentes países de nível económico médio e baixo, enquanto pequenas diferenças urbano-rurais permaneceram estáveis nos países de economias mais desenvolvidas.

Os cientistas realçam ainda que, ao contrário da suposição generalizada de que a urbanização é o principal impulsionador da obesidade, este estudo indica que muitos países ocidentais mais desenvolvidos a nível económico tiveram pouca diferença em altura e IMC ao longo do tempo. O IMC urbano e rural diferia em menos de uma unidade em 2020, perto de 1,5kg de peso para uma criança de 130cm.

Para Majid Ezzati, autor sénior do estudo, «a questão não é tanto se as crianças vivem em cidades ou áreas urbanas, mas onde vivem os pobres e se os governos estão a enfrentar as crescentes desigualdades com o desenvolvimento de iniciativas como complemento monetário adicional e programas de alimentação escolar gratuita».

A tendência na África subsaariana também é motivo de preocupação, dizem os investigadores. Os meninos que vivem em áreas rurais estabilizaram ou até ficaram mais baixos ao longo das três décadas, em parte devido às crises nutricionais e de saúde que se seguiram à política de ajuste estrutural na década de 1980.

«Este é um problema sério a todos os níveis, do individual ao regional. O crescimento oscilante em crianças e adolescentes em idade escolar está fortemente ligado a problemas de saúde ao longo da vida, ao menor sucesso escolar e ao imenso custo do potencial humano não realizado», assegura o autor.

«As nossas descobertas devem motivar políticas que combatam a pobreza e tornem acessíveis alimentos nutritivos para, desta forma, garantir que crianças e adolescentes cresçam e se tornem adultos com vidas saudáveis e produtivas», conclui.

Aristides Machado-Rodrigues, Daniela Rodrigues e Helena Nogueira, investigadores do CIAS, também colaboraram neste estudo, através da partilha de dados. Universidade de Coimbra - Portugal

 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Internacional – Estudo sobre a má nutrição em idade escolar

Má nutrição em idade escolar pode ter provocado uma diferença de altura de 20 centímetros entre nações, conclui estudo com participação da Universidade de Coimbra


Uma equipa da Universidade de Coimbra (UC), liderada por Cristina Padez, participou num estudo que avaliou a altura e o peso de crianças e adolescentes em idade escolar em todo o mundo, bem como o Índice de Massa Corporal (IMC), publicado este mês na revista The Lancet.

Liderado pelo Imperial College London, o estudo, que utilizou dados de 65 milhões de crianças dos 5 aos 19 anos de 193 países, conclui que a má nutrição em idade escolar pode ser responsável por uma diferença média de altura de 20 centímetros entre nações. A altura e o peso das crianças em idade escolar são indicadores da sua saúde e qualidade da sua dieta e preditores da saúde e desenvolvimento ao longo da vida.

«Ter uma estatura baixa para a idade e pouco peso para a estatura aumenta o risco de morbilidade e mortalidade, está associado a um baixo desenvolvimento cognitivo, menor probabilidade de uma boa performance escolar e consequentemente uma baixa produtividade profissional na vida adulta. Um IMC elevado, muito peso em relação à estatura, está associado a um risco elevado de incapacidade física, morte prematura, atrasos cognitivos e deficiências no grau de instrução», explica Cristina Padez, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS), da Faculdade de Ciências e Tecnologia a Universidade de Coimbra (FCTUC).

A análise, que relata dados de 1985 a 2019, revela que as nações com os jovens de 19 anos mais altos em 2019 situavam-se no noroeste e centro da Europa e incluíam a Holanda, Montenegro, Dinamarca e Islândia.

Os países com os jovens mais baixos em 2019 estavam principalmente no sul e sudeste da Ásia, América Latina e África oriental, incluindo Timor-Leste, Papua Nova Guiné, Guatemala e Bangladesh.

Os maiores crescimentos na altura média das crianças durante o período analisado foram observados na China e Coreia do Sul. Por exemplo, rapazes de 19 anos na China em 2019 eram 8 cm mais altos do que em 1985, com a sua classificação global a mudar da posição 150º em 1985 para 65º em 2019.

Em Portugal, no que respeita à altura, aos 5 anos de idade as meninas passam do lugar 38º para o lugar 70º e os meninos do 49º para o 77º. Ou seja, «afastam-se dos países “mais” altos. Aos 19 anos de idade as raparigas passam do lugar 88º para o 90º e os rapazes do 128º para o 87º. Isto significa que, no período de 1985 a 2019, quem mostra uma evolução positiva são apenas os rapazes de 19 anos de idade, que se aproximam dos países com estatura mais elevada», refere Cristina Padez.

«Bastante problemático é o facto de, no período 1985-2019, aos 5 anos as crianças portuguesas se terem afastado dos países com “maior” estatura», afirma a especialista, referindo que isso significa que, «possivelmente tiveram lugar carências nutricionais, especialmente de vitaminas e minerais, que não permitiram um crescimento adequado. Isto indica uma deterioração das condições de vida das crianças com repercussões graves para o seu desenvolvimento futuro enquanto cidadãos inseridos no mercado de trabalho».

Quanto à relação peso-estatura (IMC), aos 5 anos de idade as meninas passam do lugar 40º para o 89º e os meninos do 51º para o 117º, isto é, distanciam-se dos países com “mais peso”, o que é muito positivo.  Aos 19 anos de idade, raparigas e rapazes passam, respetivamente, de 117º para 157º e 58º para 100º.

De uma forma global, os resultados referentes a Portugal permitem concluir que «apesar dos bons resultados relativamente aos valores de obesidade, no caso da estatura das crianças aos 5 anos, estas parecem não estarem a crescer adequadamente, já que se afastam cada vez mais dos grupos de maior estatura. Isto é muito preocupante pelas consequências na saúde das crianças, no curto e a longo prazo.   Possivelmente, as condições de vida na infância têm-se deteriorado com uma alimentação deficiente, o que estará a comprometer um adequado desenvolvimento físico destas crianças, com consequências para a sua saúde e grandes repercussões na vida adulta». Universidade de Coimbra - Portugal