Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 26 de março de 2014

Os Idos de março

Sete e trinta e oito da manhã. Há luz plena na rua. Ainda não é cálido o dia. Mas já presta. As árvores têm verdes rebentos e as amendoeiras, tão madrugadoras, já florescem.

No meio da praça da Universidade, um casal muito novinho beija-se, alheio ao mundo arredor. Ela, com a sacola dos livros às costas e farda escolar, em bicos de pés pendurada no pescoço dele. Ele, mais alto, com uma pucha rechamante e a bolsa escolar também pendurada da mão sem esforço. São outros os ritmos e as forças. Os pássaros, obviamente, cantam. É a vida que multiplicada recende e vai para diante.

Escuto no MP3 Fausto:  "O Barco vai de saída" Lembro-me, dos trabalhos na ILP Paz-Andrade, lembro-me de muita gente com saudades e orgulho; e penso, mandando mentalmente saudações, muita cousa.

Dá para pensar no acontecido no reintegracionismo nos últimos cinco e dez anos. Dá também para pensar nos fracos discursos, no acaso de conjunção de ridículos interesses particulares. Dá para pensar em futuros. Mas, deixemos o leitor pensar. Eu preciso doutro café antes para me despertar.

Em 11 de março, súbita e intensa de esperança, também chegou a primavera ao Parlamento galego. Ernesto Souza – Galiza in “Portal Galego da Língua”

terça-feira, 11 de março de 2014

Parlamento da Galiza aprova Iniciativa Legislativa Popular

Por unanimidade, Lei Valentín Paz-Andrade

Parlamento da Galiza aprova ILP para reforçar vínculos com a Lusofonia

Não é habitual todos os partidos políticos do Parlamento galego alcançarem a unanimidade e muito menos quando a língua está no palco. No dia 11 de março de 2014 esse facto deu-se. O início oficial deste processo decorreu em maio de 2012 quando se apresentou no registo do Parlamento a Iniciativa Legislativa Popular «Valentín Paz-Andrade» para o aproveitamento da língua portuguesa e vínculos com a Lusofonia.

Os meses a seguir foram um trabalho muito intenso do reintegracionismo para recolher as 15.000 assinaturas exigidas para a ILP ser debatida na Câmara de Representantes. Esta tarefa foi desenvolvida por muitas pessoas e, entre elas, sócios e sócias das entidades assinantes que julgaram a iniciativa como sendo estratégica. Afinal, a estratégia reintegracionista para a língua e a cultura galegas fundamenta-se em ligar a sociedade galega com outras sociedades maximizando assim a riqueza de possuir uma língua compartilhada.

A lei finalmente aprovada recolhe essencialmente os conteúdos da ILP e que apontava para três focos: a aprendizagem da língua portuguesa no ensino formal, o relacionamento institucional e a receção dos mass media portugueses.

Implementar estas três iniciativas implicaria, na verdade, uma mudança de paradigma interpretativo da realidade galega e do seu relacionamento com os países com que partilha a língua, nomeadamente o Brasil, Angola e Portugal. Implicaria dar fim a várias décadas de ocultação da nossa riqueza linguística e que em nada tem ajudado a mudar o status, os usos e a realidade do galego. Implicaria que a língua da Galiza é, para além de muitas outras cousas, a nossa vantagem competitiva.

Agora resta o mais importante, que às palavras sigam os factos para que as presentes gerações de galegos tenham acesso à língua galega na sua máxima expressão, isto é, vinculada aos países que a falam nos diferentes continentes, às suas sociedades e as suas produções. Resta que a cidadania galega poda recolher os frutos de ter no seu seio uma língua que nos liga com os países de expressão portuguesa. Resta, portanto, fazer. Portal Galego da Língua - Galiza

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Propostas

Propostas para pôr em andamento a ILP Valentim Paz Andrade

Ainda não sabemos como vai ser a redação final da Lei derivada da iniciativa legislativa popular ILP Valentim Paz Andrade que, entre outras cousas, promove a progressiva incorporação do estudo do Português no ensino obrigatório. E, portanto, ainda também não conhecemos o suposto decreto (ou decretos) que permitirá desenvolver e pôr em marcha os principais elementos da dita Lei. No entanto, é importante discutirmos e falarmos de propostas concretas, algo que já se está a fazer no âmbito do reintegracionismo, e que não é outro que o propósito deste artigo. Antes de nada queria dar os parabéns a todas e todos aqueles que ajudaram a levar a bom porto esta ILP, uma das iniciativas mais transversais, em termos políticos, da nossa história recente. Mesmo a minha mãe, fervorosa votante do partido popular, é uma das 17.000 assinantes.

Ao respeito da parte da iniciativa ligada ao tema do ensino, esta-se a falar de duas propostas concretas: por um lado, introduzir o Português no ensino secundário, e talvez no primário, como língua segunda obrigatória e, por outro, introduzir unidades de Português nas aulas de língua galega. Desde o princípio, pensei que a primeira proposta era mais realista e eficiente. Certo é que, desde uma perspectiva idealista, isso significa que estamos a tratar o Português como uma língua estrangeira e não como uma variante da nossa língua comum. Mas também é certo que, desde um ponto de vista utilitário, conseguimos mais conhecimento e mais visibilidade do Português ao pô-lo em contato direto com milhares de estudantes. E eu acredito na equação 'mais Português na Galiza é igual a mais Reintegracionismo'. O principal receio que tinha para a segunda proposta, a introdução do Português nas aulas de Galego, derivava da minha pouca fé no professorado. Fazer depender o ensino do Português em professores de língua galega é uma aposta demasiado arriscada se não se desenha, organiza e leva a cabo um protocolo bem ajeitado de formação.

Nestes momentos, penso que as duas propostas poderiam levar-se a cabo conjuntamente. De facto, cada vez vejo mais fácil a introdução do Português em aulas de Galego. Para além de existirem excelentes manuais didáticos de fácil consumo por parte de estudantes e professores, como 'Do Ñ para o NH', 'Manual galego de língua e estilo', as unidades didáticas dos cursos OPS, etc., vou propor a seguir uma metodologia ou estratégia complementária, ligada à linguística de corpus e às novas tecnologias da língua.

Todos sabemos que o passo do Galego ao Português não é um processo cognitivo complexo de tradução senão uma função mecánica simples de transliteração ortográfica com alguma adatação lexical. Deste jeito, um galego pode escrever Português padrão se conhece as regras ortográficas do padrão português. Em função do interesse, tempo e energia da pessoa, a maioria destas regras podem aprender-se em um dia, uma semana, um mês, ... não muito mais tempo. Mas também podemos tornar ainda mais eficiente o ensino das regras se estas se ordenam e organizam em função de critérios de produtividade e cobertura. É aqui onde entram as novas tecnologias. Podemos conhecer com bastante exatidão quais as regras que se aplicam com mais frequência em textos reais. Uma vez identificadas as regras mais frequentes, estas poderiam ser as primeiras em ensinar-se e aprender-se, o que ajudaria a motivar os estudantes, pois com 5 minutos de estudo conseguiriam produzir textos ortograficamente muito próximos (80-90% de similaridade) de textos em Português padrão. Temos de ter em conta que todo produto de natureza linguística segue a Lei de Zipf (instância da Lei de Potência), e neste caso, a lei manifesta-se assim: muito poucas regras ortográficas aplicam-se a quase todos os casos de transliteração, enquanto que a maioria das regras são marginais e com pequena cobertura. Devemos, portanto, conhecer quais são essas regras de grande cobertura e fomentar que se aprendam primeiro para motivar aos estudantes a escrever. Depois, pouco a pouco, podem ir aprendendo as regras com menos cobertura.

A jeito de brincadeira, fiz um pequeno estudo quantitativo do processo inverso: a partir de um texto português e de um conjunto de regras de transliteração, geramos um texto em galego RAG e medimos o grau de eficiência desse processo. Para levar a cabo este estudo, utilizei o, já velho, transliterador port2gz (que é uma versão ampliada do software inicial por2gal de Alberto Garcia), os léxicos do Galego e Português do projeto FreeLing e mais dous corpus de textos de notícias tirados de Galicia-Hoxe e do Jornal de Notícias, com 50.000 palavras cada corpus. O método é o seguinte. Calculo primeiro a percentagem de palavras do corpus galego que se encontra no léxico galego e também no português, tirando os nomes próprios, números, símbolos, etc. A seguir, translitero esse corpus e volto a calcular agora a percentagem de palavras do corpus transliterado que aparece no léxico português. O resultado que obtenho é uma aproximação ao Português a partir das regras de transliteração. Quanto mais próximo estiver do Português, mais eficientes são as regras utilizadas. Estes foram os resultados concretos:

O 96% das palavras do texto original galego encontram-se no léxico galego. O 4% restante são, em geral, neologismos, erros ortográficos, castelhanismos, etc. Por outro lado, o 69% das palavras do texto original galego estão contidas no léxico português. O objectivo da transliteração é portanto, partir desse 69% e achegar-se o máximo possível ao patamar do 96%. Uma vez feita a transliteração a partir do corpus português, a percentagem de palavras que se encontra no léxico galego é do 94%, só 2 pontos de distância ao respeito do texto original galego. Como era esperado, o conjunto de regras ortográficas tem uma grande eficiência em termos de adaptação da norma escrita portuguesa para a norma da RAG.

O que precisamos fazer para desenvolver a minha proposta é, no entanto, justo o contrário: definir as regras ortográficas que produzam Português padrão a partir de Galego RAG. Este processo é algo mais complexo do que o inverso pois a letra 'x' da norma RAG é muito ambígua. Mas é possível definir um conjunto de regras, desde as mais produtivas até as menos abrangentes, utilizando a estratégia quantitativa que acabei de descrever no parágrafo acima. Não se trata de desenvolver um método de tradução em base a um léxico e regras léxico-sintáticas, como faz muito bem o motor de tradução OpenTrad, senão de operar com regras ortográficas simples e comparar os resultados utilizando o léxico. O objectivo é descobrir as regras mais frequentes para assim elaborar uma primeira lista de regras eficientes de grande abrangência. Com médio fólio de regras, e mais o Galego que já conhecem, as estudantes poderão escrever um texto com mais do 90% de palavras em bom Português.

Se ainda assim, as nossas estudantes seguem sem motivar-se, sempre podemos recorrer ao Plano B: um vídeo de Elis Regina a cantar Águas de Março. Paulo Gamalho – Galiza in “Portal Galego da Língua”

sexta-feira, 8 de março de 2013

Paz-Andrade

ILP Paz-Andrade atingiu 17.000 assinaturas e esta tarde, 08 de Março de 2013, serão entregues no Parlamento da Galiza.

A iniciativa foi anunciada há dez meses

Na tarde de hoje, 08 de Março de 2013, seis meses depois de ser apresentada ante o Parlamento da Galiza, a Comissão Promotora da Proposta de Lei por Iniciativa Legislativa Popular que leva o sobrenome do homenageado do Dia das Letras Galegas do passado ano, Valentim Paz-Andrade, formaliza a entrega das 17.000 assinaturas que asseguram a continuação da sua tramitação parlamentar. A iniciativa procura uma série de medidas que facilitem o acesso dos galegos ao universo de língua portuguesa e um maior relacionamento com a Lusofonia.

Entre as propostas do articulado aparecem a progressiva incorporação do português no ensino, o fomento da participação das instituições e empresas galegas nos foros económicos, culturais e desportivos lusófonos, a receção aberta das televisões e rádios portuguesas e o reconhecimento desta competência linguística para o acesso à função pública.

Os promotores explicam na exposição de motivos da proposta que «a nossa língua outorga uma valiosa vantagem competitiva à cidadania galega em todas as vertentes, nomeadamente a económica, desde que disponhamos dos elementos formativos e comunicativos para nos desenvolver com naturalidade no seu modelo internacional». Alcançado o objetivo de superar a 15.000 assinaturas requeridas, a Comissão Promotora destaca a sensibilidade das galegas e dos galegos para a proximidade ou unidade —em função da perspetiva— da língua falada na Galiza e as restantes falas lusófonas, permitindo a consecução dos apoios necessários.

Apresentada no Parlamento em 16 de maio de 2012, a proposta une-se ao espírito da comemoração de Valentim Paz-Andrade, que, para além ser um dos principais impulsores da moderna indústria pesqueira galega, foi também vice-presidente da Comissão Galega do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que possibilitou a participação da Galiza nas reuniões para o acordo ortográfico da língua portuguesa que decorreram no Rio de Janeiro (1986) e Lisboa (1990). A presença galega nesse acordo ficou registada no tratado internacional resultante, com uma menção à delegação de observadores da Galiza no primeiro parágrafo e a inclusão das palavras «brêtema» e «lôstrego» na descrição das normas acordadas.

No seu artigo “A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa” de 1968, Paz-Andrade questionava e respondia afirmativamente à pergunta “¿O galego ha de seguir mantendo unha liña autónoma na sua evolución como idioma, ou ha de pender a mais estreita similaridade co-a lingua falada, e sobre todo escrita, de Portugal e-o Brasil?”. Consciente do potencial «transcontinental» da nossa língua não só para a sua consolidação como também para favorecer a potencialidade económica da Galiza, qualificou-a «de una lengua con la cual pueden entenderse millones y millones de personas, aunque lo hablen con distinto acento o escriban de forma diferente cierto número de vocablos» (em Galicia como tarea, 1959). Para a Comissão Promotora da ILP, «esse potencial global é ainda mais evidente e relevante no momento atual, onde a crise económica em que está a Galiza contrasta com o auge de novas potências como o Brasil na América, Angola na África ou a China, com o enclave de Macau, na Ásia». in  "Portal Galego da Língua" - Galiza

quarta-feira, 21 de novembro de 2012