Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Galiza - O professor, escritor e sociolinguista António Gil Hernández é o novo presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP)

Releva no cargo ao também professor e compositor de música Rudesindo Soutelo, quem o desempenhou os últimos 8 anos.

António Gil Hernández professor, escritor e sociolinguista, com uma ampla produção sobre a língua e a literatura da Galiza realizada nas últimas quatro décadas, é o novo presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP)


Numa reunião extraordinária do Pleno da instituição, celebrada em Compostela, foi eleita a nova Comissão Executiva da AGLP para os próximos quatro anos. Está conformada pelas seguintes pessoas:

  • Presidência: António Gil Hernández
  • Vice-Presidência 1ª: Concha Roussia
  • Vice-Presidência 2ª: Rudesindo Soutelo
  • Tesouraria: Ângelo Cristóvão Angueira
  • Secretaria: Pedro Emilio Casteleiro López
  • Vice-Secretaria: Maria Seoane Dovigo
  • Arquivo e Biblioteca: Joám Trilho Pérez
  • Vogais: Antia Cortizas Leira e Mário Herrero Valeiro.


A AGLP começou o seu andamento em 2008. O seu primeiro presidente foi Martinho Montero Santalha, professor da Universidade de Vigo, quem serviu no cargo 8 anos, até 2016. Depois, entre o 2016 e até este mês, desempenhou a presidência Rudesindo Soutelo, também professor e compositor de música.

António Gil Hernández é assim o terceiro presidente da AGLP, que este ano está a celebrar o 15º aniversário, com atividades em diversas vilas e cidades da Galiza. Gil Hernández nasceu em Valhadolid em 1941. Vindo para a Galiza em 1968, o seu interesse pela língua da Galiza foi originado na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Santiago de Compostela, onde se licenciou em 1973. Em 1990 integrou, com José Luís Fontenla Rodrigues, a Delegação da Comissão Galega do Acordo Ortográfico na reunião internacional celebrada em Lisboa para um Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, acordo assinado em 12 de outubro de 1990 na capital portuguesa. Essa presença da representação galega está recolhida no número 123 do Diário da República, de Portugal, de data 28 de agosto de 1991.

Desde 1978 António Gil residiu na Corunha, onde ministrou por 12 anos aulas no Colégio Universitário da cidade, adscrito naquela altura à referida Universidade compostelana. Na Corunha foi também docente pioneiro na incorporação do galego ao ensino não universitário, no centro público de ensino secundário Salvador de Madariaga.

Desde a década de 1970-1980 tem uma ampla produção científica e literária. Os trabalhos a respeito da língua e da literatura da Galiza, defendendo a Língua Comum partilhada hoje na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), intensificou-se a partir da segunda metade dessa década, e continua: ainda no passado mês de junho aconteceu o lançamento do seu último livro, Johán Vicente Viqueira. João Vicente Biqueira (1924-2024). Poemas e Ensaios, na sequência de uma homenagem de reconhecimento à sua trajetória que promoveu a AGLP na Bandeira (Silheda) e que contou com o apoio da Câmara Municipal de Silheda, representada pela presidenta e a relatora de Cultura, e a Asociación Cultural Rosalia de Castro.

Os contributos de António Gil Hernández atingem os campos da Linguística, Sociolinguística, Glotopolítica, Estudos Literários, Comentário de Textos Literários, Literatura Comparada e Crítica Literária, além de Produção Literária própria no âmbito da poesia, difundida em livros, publicações especializadas, além de em diversas revistas e jornais.

Está entre os pioneiros do movimento reintegracionista da Galiza, tendo sido membro e iniciador da Associaçom Galega da Língua, da Associação de Amizade Galiza-Portugal, das Irmandades da Fala de Galiza e Portugal, da Comissão Galega do Acordo Ortográfico, e da Associação Sócio-Pedagógica da Galiza e Portugal, além da AGLP. Também pertenceu à Sociedad Española de Lingüística. Em março de 2006 celebrou-se na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Santiago o III Seminário de Políticas Linguísticas, subordinado ao tema “25 anos de atividade cívica, investigação e discussão sobre a língua nacional: o contributo de António Gil”, em que se valorizou a sua produção e trajetória.

Dentre os artigos e livros de teor científico e pedagógico que publicou António Gil Hernández merecem destaque os intitulados Que galego na escola? Tese reintegracionista (1984, com Maria das Dores Arribe Dopico e Joám Carlos Rábade Castinheira); Silêncio ergueito (1996), Temas de Linguística Política (2006), João Vicente Biqueira. Obra seleta (2011), ou Solilóquio com Manuel Maria (2018, em academia.edu).

Como produtor literário e de ensaio e estudos literários tem publicado Baralha de sonhos (1985, poesia), Comentário de Textos Literários (1986, volume coletivo que coordenou, com participação de mais 18 especialistas, modelar nesta matéria), Luzes e espirito (1990, em que dialoga com o poeta galego Eusébio Lorenzo Baleirón), Do amor de tudo quanto é livre (1995), bem como Tractatus de Euphemica Dictione, diálogo com a saudosa poeta Cristina de Mello; Rimas a Amarilis, e Antologia de contos nada exemplares.

Também tem colaborado nas revistas O Ensino, Agália, Cadernos do Povo, Nós, Temas de O Ensino, Luzes da Galiza, Man Común; ou em publicações jornalísticas como La Voz de Galicia, El Ideal Gallego e A Nosa Terra.

Após a eleição de Gil Hernández, Rudesindo Soutelo agradeceu a colaboração que teve nos oito anos que ocupou a presidência: “Agradeço à Comissão Executiva anterior pelo seu eficiente desempenho e desejo que a nova e mais nutrida Comissão Executiva tenha o sucesso que a AGLP merece”, afirmou. In “Academia Galega da Língua Portuguesa” - Galiza



sábado, 28 de abril de 2018

Galiza - Crónica do II Encontro de mulheres da lusofonia



No seu poema “Tempo e violência” a irlandesa Eavan Boland imagina uma sereia que quer ser humana para poder criar, envelhecer e morrer. “Isto é o que a linguagem nos fez”, languidescer numa gramática de suspiros, diz a sereia do Mar do Norte do poema de Boland. Uma experiência semelhante, verificar o que a linguagem faz das nossas vidas, pode explicar porque quando estudava Filosofia na secundária me resisti tanto a compreender aquilo do mundo das ideias platónico, um mundo que sentia cristalizado e mudo. Em aquela resistência também havia algo de saudade do movimento e da ligação constante, daquele “viver na torrente da universal reciprocidade” da feliz expressão do filósofo Martin Buber, saudade que continuo a sentir quando uso palavras em que não ressoam nem a luz do dia nem as mãos da minha mãe nem o som das árvores quando sopra o nordês. E havia muito, claro, da representação social das mulheres como sujeitos sem história, as muitas versões do eterno feminino em que, como a sereia do poema, não podemos sentir calor nem tornarmo-nos velhas, medidas como somos sempre em relação a padrões que com violência detêm os nossos corpos e as nossas experiências.

Eis-me agora na encruzilhada de habitar uma língua entre a desterritorialização e a necessidade de criar rede entre pessoas de diferentes territórios, na esperança de que comunicar com outras mulheres em língua portuguesa seja um caminho para a nossa sobrevivência como comunidade no mundo. Esperançada também na necessidade de me verbalizar como sujeito histórico, no meio de processos que vêm de longe no tempo e no espaço e nos que não me demito de ser parte ativa. Esperançada também na convicção de termos, como mulheres galegas, um discurso único dentro do espaço internacional da língua portuguesa, em grande parte por construir, porque não é se não no encontro e no diálogo que um discurso assim se pode verbalizar. Há dias, num evento promovido pela UMAR sobre “Feminismo anticolonial”, Área Mouzinho, da Ondjango Feminista de Angola, dizia-nos de Luanda que na África que não é anglófona é difícil criar solidariedade. Existem outros internacionalismos feministas, eu quero um internacionalismo centrado no espaço linguístico, de comunicação e conhecimento, da língua portuguesa, e na herança histórica e imaginária das nossas múltiplas comunidades e pertenças, até porque penso que as línguas e direitos nem são nem devem ser culturalmente neutros nem socialmente cegos.

Estas e outras motivações levaram-nos a organizar por segundo ano, desta vez em Santiago de Compostela, o II Encontro de Mulheres da Lusofonia, numa parceria entre a AGLP, a Pró-AGLP e a UMAR-União de Mulheres Alternativa e Resposta. Com o enquadramento geral “mulheres, territórios, memórias”, começamos o ano passado em Vilar de Santos o mapeamento dos temas que interessam às mulheres dos muito variados territórios aos que chega a língua portuguesa como língua materna, língua segunda, língua de herança ou simplesmente como língua para a comunicação internacional. Desta vez tivemos o apoio institucional da secretária executiva da CPLP e a presença da diretora geral da instituição, Georgina Benrós de Mello, que nos acompanhou não só na mesa de abertura mas nos painéis e sessões. Também nos apoiou a Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa dos Observadores Consultivos da CPLP, da que a AGLP faz parte. Da parte da Comissão contamos com a presença de Mariana Portas de Almeida da Fundação Gulbenkian, que partilhou a mesa de abertura com o subdiretor geral de Relações Exteriores e com a Comunidade Europeia do governo autónomo, José Lago. Ainda, contamos com o apoio do Concelho de Santiago de Compostela que nos recebeu no Paço de Rajoi.

Um dos temas que propusemos este ano foi o de conhecer as diásporas dos países da CPLP na Galiza. Sendo uma das recomendações do Instituto Internacional da Língua Portuguesa o da valorização destas comunidades no espaço da língua portuguesa, é para mim lógico ir ao seu encontro. Na Casa da Língua Comum, sede da Academia Galega da Língua Portuguesa, Jéssica Azevedo deu-nos o testemunho do seu percurso vital entre a Goiâna, Cee, León e Compostela, e o sinal do significado que o encontro com o reintegracionismo teve na sua vida: o de poder usar outra vez o português e sentir-se valorizada por isso. Do testemunho de Sónia Mendes, filha de cabo-verdianos em Burela, e a sua exposição sobre a mobilidade social, ficou-nos para a reflexão até que ponto o racismo se pode sobrepor a qualquer ideia de comunidade linguística.

Contamos também com dous relatos do papel das mulheres na resistência. O da Teresa Sales, do projeto “Memória e Feminismos” da UMAR, e o da jornalista Diana Andringa, que nos falou sobre o papel das mulheres na resistência timorense, que conheceu de perto quando fez o seu documentário “Timor Leste: o sonho do crocodilo” (2002). Dos dous testemunhos tiramos muita reflexão sobre a distância entre os factos históricos e os relatos, sobre a naturalização da secundarização das mulheres no registo dos segundos, sobre aquilo que pode ser “o herói”, ficção tão central nos discursos nacionais, e o papel das mulheres nos movimentos coletivos emancipatórios.

Outro tema que nos pareceu necessário focar neste Encontro e que está bem longe de ter ficado esgotado é o das prisões e a democracia. Há anos ouvi um professor dizer que as prisões em Portugal podiam ser um laboratório de lusofonia. Considerando a proporção de presos com nacionalidade de algum país africano de língua oficial portuguesa (com nacionalidade, mas não necessariamente nascidos), o repto do professor parece mesmo necessário. Desta volta as intervenções foram sobre dous projetos com paralelismos e diferenças, o Projeto-Cárcere da Crunha e o Museu do Aljube-Resistência e Liberdade de Lisboa. Os dous são projetos que partem da cidadania para a recuperação da memória da repressão das ditaduras fascistas em ambas as cidades. Mariola Mourelo, para além de dar-nos a conhecer a história e o presente do projeto, deixou-nos a evocação de Concepción Arenal e a demonstração de como o feminismo é o motor de outros movimentos. Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube, trouxe-nos um vivíssimo relato dos inícios da ditadura portuguesa, da repressão e das histórias de vida das “pessoas deserdadas pela ditadura, herdeiros do liberalismo e a luta pelos direitos humanos” que passaram polo do Aljube, prisão política em Lisboa desde 1928 até 1965.

Na Casa das Mulheres Xohana Torres o painel “Feminismos em Compostela” permitiu-nos conhecer um panorama do que se faz e do que se pensa nas associações e no concelho. Para fechar o Encontro tivemos um último painel sobre feminismos no espaço lusófono, com a participação por videoconferência de Nzira de Deus da Fórum-Mulher de Moçambique, da Isabel Hariett Gavião da Ondjango Feminista de Angola, e da Manuela Tavares da UMAR. Falamos da terra, dos direitos das comunidades, dos saberes, da exploração, das barreiras culturais para a emancipação das mulheres… experimentamos ao vivo as analogias das vivências das mulheres em tão diversos territórios.

Houve ainda duas sessões na Livraria Lila de Lilith. A primeira um cine-debate sobre o documentário “Era uma vez um arrastão” com a presença da Diana Andringa, uma das suas realizadoras, e a moderação da antropóloga Luzia Oca, em que falamos do racismo na sociedade portuguesa e não só. E a sessão de poesia com a Iolanda Aldrei, Concha Rousia, Cruz Martínez, Iolanda Aldrei, Jorgete Teixeira, Rosanegra, Teresa Moure e eu própria.

A desumanização, a reificação, a privação da complexidade da identidade de cada indivíduo molda em grande medida a maneira em que se constrói a nossa vida coletiva, a nossa economia e mesmo as relações interpessoais. Quem pode neste mundo realizar aquele “torna-te no que és” de Píndaro? O universalismo e todas as reciclagens da ideia, até o cosmopolitismo ou mesmo a ideia de lusofonia para alguns, pode ser instrumento de domínio e neutralização de projetos políticos que se opõem às várias formas de opressão. Muito discurso de igualdade é na prática de violenta uniformização, e as galegas sabemos duplamente disso, por galegas e por mulheres. Ser cidadão do mundo é privilégio de poucos e ainda menos de poucas. Por aí abaixo há uma complexa hierarquia da humanitas baseada na identificação, classificação e hierarquização de diferenças. Não há como ignorar, não há como evitar que toda esta pluralidade de olhares sobre a condição humana que conheço através das que falam a mesma língua que eu mexam com os meus conceitos do território e da memória, do ancestral e do presente, e que privilegie, sobre qualquer função do narrar, a história catártica, o reconhecimento do trauma e a cura pola palavra que também fazemos neste Encontro.

Queremos diversificar o entendimento da lusofonia na Galiza e não só para além do linguístico e do cultural, falar de racismo, da pluralidade de narrativas sobre a migração, de feminismos urbanos e feminismos rurais, de economia(s), da  degradação do território e os direitos das comunidades, dos saberes ancestrais, queremos saber questionar as estruturas de poder e opressão, descobrir outros significados do reintegracionismo, dar referentes sociais e culturais internacionais em português à sociedade galega, porque o feminismo, como bem se pratica na UMAR, é questão de direitos e também de cultura. E propiciar a construção de um discurso soberano, não reativo, dentro da sociedade galega, com estes diálogos em português além as nossas diversas fronteiras, políticas, imaginárias e emocionais. Algo assim como a construção do inédito viável de Paulo Freire. E assim eu gosto de viver como mulher galega, sujeito histórico no tempo e no espaço, complexa, possível e, sobretudo, inédita. E assim desejo também a sociedade galega, tão complexa e inédita quanto a sua história e a sua língua lhe permitem. Maria Dovigo – Galiza in “Portal Galego da Língua”



Maria Dovigo - Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Galiza – “Mulheres, Territórios e Memórias” II Encontro de mulheres da Lusofonia

Compostela. 6, 7, 8 de abril

A Academia Galega da Língua Portuguesa, a Associação Pró-AGLP, e a UMAR-União de Mulheres Alternativa e Resposta organizam o II Encontro de Mulheres da Lusofonia: Mulheres, territórios e memórias. O encontro visa criar uma rede plural feminista de mulheres do espaço lusófono, potenciando um entrecruzamento de diálogos, de experiências e de conhecimento.

O Encontro conta com o apoio da Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa dos Observadores Consultivos da CPLP, do Concelho de Santiago, da Livraria Lila de Lilith de Compostela, do Museu do Aljube. Resistência e Liberdade de Lisboa, do Projeto Cárcere da Corunha, da Marcha Mundial das Mulheres-Galiza, da Plataforma Femista Galega, da Ondjango Feminista (Angola) e da Fórum Mulher (Moçambique). Portal Galego da Língua



Programa


6 de abril (sexta)

19:30. Documentário “Era uma vez um arrastão”, seguido de tertúlia com a realizadora, Diana Andringa na Livraria Lila de Lilith.

Moderação Luzia Oca.

7 de abril (sábado. Casa da Língua Comum):

Mesa de abertura (9:30)

Painel 1 (10:00-11:30). Diásporas lusófonas na Galiza.

Moderadora: Maria José Castelo

– Jéssica Azevedo, “Vírgulas que unem. Resistência e integração social”.

– Sónia Mendes da Silva, “Mobilidades sociais em sociedades desiguais”.

Painel 2 (15:00-16:30). Memorias: entre o ativismo e a pesquisa. Mulheres e resistência.

Moderadora: Paloma Fernández de Córdoba.

– Diana Andringa, “Elas nunca fizeram nada de extraordinário…”

– Teresa Sales, “Projeto Memória e Feminismos. Múltiplas discriminações”.

Painel 3 (17:00-18:30). Memorias: entre o ativismo e a pesquisa. Prisões políticas e democracia.

Moderadora: Maria Dovigo

– Mariola Mourelo. “Ativismo feminista e espaços da memória”.

– Luis Farinha, “Da Prisão do Aljube ao Museu do Aljube: memória, resistência e liberdade”.

Livraria Lila de Lilith. 20:00.

Poesia com: Iolanda Aldrei, Concha Rousia, Cruz Martínez, Rosanegra, Maria José Castelo, Maria Dovigo, Teresa Moure.

8 de abril (domingo. Casa das Mulheres Xohana Torres)

Painel 4 (10:00-11:30) Feminismos em Compostela.

Moderadora: Concha Rousia

– Marta Lois, “Campanha ‘Compostela em negro’”.

– Paula Rios, Plataforma feminista galega.

– Concha de la Fuente, Marcha Mundial das Mulheres.

Painel 5 (12:00-13:00). Feminismos no espaço lusófono.

Moderadoras: Joana Sales e Isabel Rei

– Núcleos regionais da UMAR.

– Isabel Harriet Gavião, Onjango feminista. Angola (videoconferência).

– Nzira de Deus, diretora executiva do Fórum Mulher- Moçambique (videoconferência).

Mesa de encerramento (13:00-13:15). Conclusões.

Joana Sales e Maria Dovigo. Casa de Mulheres Xohana Torres.

Mais Informação em:


sábado, 8 de julho de 2017

“A Língua como Oportunidade”

UCCLA e Santiago de Compostela organizam jornada “A Língua como Oportunidade”



“A Língua como Oportunidade” é o tema da jornada que a UCCLA e o Concello de Santiago de Compostela vão realizar no próximo dia 10 de Julho, pelas 10 horas, no edifício Cersia (Rua Alcalde Raimundo López Pol), na cidade de Santiago de Compostela, contando com o apoio da Academia Galega de Língua Portuguesa.

Assinalando a entrada do município de Santiago de Compostela para a UCCLA, como Membro Observador - no dia 19 de abril, por ocasião da sua XXXIIIª Assembleia Geral, realizada em Luanda - as duas organizações decidiram realizar umas jornadas que abordem a importância da língua, nomeadamente na vertente económica.

A proximidade entre o galego e o português permite ser entendido na forma de relacionamentos económicos com as cidades UCCLA e os mercados, em que se inserem, inclusive os mais distantes, como os da China Os percursos do turismo, nomeadamente o turismo religioso e o arquitetónico a ele ligado são, igualmente, formas de intercâmbio que as jornadas refletirão.

Está previsto a presença do presidente da Câmara de Braga, Ricardo Rio, da diretora-coordenadora do Turismo de Portugal, Lídia Monteiro, da representante da Região Administrativa Especial de Macau em Portugal, O Tin Lin, do embaixador do Brasil junta da CPLP, Gonçalo Mourão, bem como de representantes empresariais portugueses e galegos, para além, do presidente da Câmara de Santiago de Compostela, Martino Noriega Sanchez, e do Secretário-Geral da UCCLA, Vitor Ramalho.​ UCCLA

Programa

9.30 h .- Ato de inauguração da Jornada

Moderador da Jornada: José Bastos, Assessor Relações Internacionais da UCCLA
Intervenções:
• Vítor Ramalho, Secretário-Geral da UCCLA
• Joám Evans Pim,Secretário-Geral da Academia Galega da Língua Portuguesa
• Valentín García Gómez, Secretário-Geral de Política Linguística da Xunta de Galicia
• Ricardo Bruno Antunes Machado Rio, Presidente da Câmara Municipal de Braga
• Gonçalo Mello Mourão, Embaixador, Representante Permanente do Brasil junto da CPLP
• Martiño Noriega Sánchez, Presidente da Câmara Municipal de Santiago

10.30 h .- 1º Painel: 

A OPORTUNIDADE DO CAMINHO PORTUGUÊS DE SANTIAGO

Moderador: Miguel Rodríguez Penas, Coordenador de Gabinete do Governo Municipal
Participam:
• Flavia Ramil, Gerente da Empresa Municipal de Turismo da Câmara Municipal de Santiago (INCOLSA)
• Wiktoria Grygierzec, empresária do sector turístico
• Ricardo Bruno Antunes Machado Rio, Presidente da Câmara de Braga
• Rafael Sánchez Bargiela, Director-Xerente da S.A. de Xestión do Plan Xacobeo
• Lídia Monteiro, Diretora-Coordenadora da Programação Turística do Turismo de Portugal

12.00 h.- Pausa-café

12.30 h.- 2º Painel: 

A OPORTUNIDADE DO ESPAÇO GALAICO-LUSO-AFRO-AMÉRICO-ASIÁTICO

Moderador: Ângelo Cristóvão, Academia Galega da Língua Portuguesa
Participam:
• María Rozas Pérez, Primeira Tenente de Alcalde e Vereadora de Economia e Fazenda da Câmara Municipal de Santiago de Compostela
• Xosé Lago García, subdirector xeral de Acción Exterior e de Cooperación Transfronteiriza. Dirección Xeral de Relacións Exteriores e coa Unión Europea
• Gonçalo Constenla, Diretor da Escola Oficial de Idiomas-EOI de Santiago de
Compostela
•José Ramom Pichel, Diretor de Imaxin | Software
• Pedro Barros,Presidente da Sociedade de Promoção e Gestão de Parques Em-
presariais do Entre Douro e Tâmega
• Ó Ti Lin, Representante do Presidente da Região Administrativa Especial de Macau (CHINA)

14.00 h.Fim da Jornada

sábado, 1 de outubro de 2016

Galiza - Estudos galegos e Lusofonia no século XXI

Estigmatismos culturais e abertura de perspectivas

(Palestra ministrada no II North American Symposium of Galician Studies na University of Michigan, Ann Arbor em 22 de abril de 2016)


A minha apresentação não é um “work in progress” mas tampouco tem umas conclusões claras e definitivas. O que a seguir vou dizer é mais um capítulo na minha vida à procura duma identidade. Nesse sentido queria agradecer aos organizadores a aceitação da minha palestra porque vir aqui e conversar convosco é muito mais barato do que começar um tratamento psicanalítico nos Estados Unidos. Eu cresci no País Basco a falar só euscaro na escola, com uns pais que falavam galego na casa a toda hora. Nunca estudei galego de maneira oficial mas falei-o toda a vida. Sem a influência do ensino oficial do galego cresci a falar num galego que pouco tinha a ver com o que depois ouvia na televisão ou rádios galegas. Se isto fosse pouco, no País Basco pode-se ver o Luar na Televisão Basca, e isso também era algo com o que eu não me podia identificar. Mais adiante vivi em outros lugares diferentes como Inglaterra, onde por acasos da vida encontrei-me com grupos de galegos, portugueses e brasileiros. Se calhar é só pola minha ascendência raiana com Trás-os-Montes, mas com o passar do tempo, comecei a dar-me conta de que apesar das diferenças na forma de falarem, muitos dos portugueses e brasileiros usavam palavras que só tinha ouvido na minha família e conheciam canções que eu pensava que só se cantavam na Galiza. Ainda me lembro quando numa esplanada da avenida da Liberdade em Lisboa um grupo de brasileiros começou a cantar o "Alecrim dourado" e pouco tempo depois a "Saia da Carolina". Esta bipolaridade identitária de ter sido chamado de galego no País Basco toda a vida, mas sem realmente poder-me identificar totalmente com a imagem que os meios transmitiam da Galiza fez com que indagasse mais a relação da Galiza com outras culturas de língua portuguesa. Aí chegou o reintegracionismo e depois o conceito da Lusofonia. Logo reparei que valia a pena aprofundar mais no papel atual da Galiza dentro do mundo Lusófono.
 
Muitos dos estudos sobre a Galiza produzidos nos últimos anos na academia de língua inglesa sublinham a importância de prestarmos atenção à desterritorialização da cultura e identidade galegas neste mundo global atual. Nessa linha, a maioria deles apresenta a emigração e a mestiçagem como elementos sem os quais não se pode entender a nação galega. Porém, se por um lado questionam uma galeguidade exclusivamente local, por outro parecem partir de artefactos bastante restritos e canónicos dentro desse território local. Abundam, por exemplo, as releituras sobre Rosalia e Emilia Pardo Bazán, ou os estudos que definem a cultura galega só através da produção cultural promovida — ou permitida — pola Junta. Isto poderia ser fruto das dificuldades que, às vezes, acarreta estudar uma cultura distante do lugar onde esta cultura se está a produzir. Nesse sentido, no seu artigo “O estado e futuro dos Estudos Galegos na academia de língua inglesa” Gabriel Rei-Doval pergunta-se se a Galiza pode ser construída só através da imagem oferecida desde o exterior. Eu penso que não só não pode, senão que se o fizermos contribuiríamos para institucionalizar um jeito restritivo e homogeneizante de entender as várias Galizas imagináveis e as suas culturas correspondentes.

Um modo distinto de entender a Galiza que eu quero destacar na minha apresentação, é o da Galiza como parte fundamental da comunidade supranacional da Lusofonia. Isto vai além daquilo a que muitos se têm referido ao falarem das relações da cultura galega com a Lusofonia. Eu estou a falar da cultura galega como cultura lusófona de pleno direito e não só das relações ou interferências pontuais que esta pode estabelecer com a Lusofonia como elemento periférico. Ao falar das antigas colónias portuguesas Burghard Baltrusch diz que a Lusofonia “só adquirirá sentido cando as ex-periferias se tornen centros tamén e sobre todo cando os seus sistemas emerxentes consigan colocar interferencias culturais, sociais e económicas no antigo centro irradiador” (12). Nesse sentido, é muito importante destacar que a Galiza, apesar de nunca ter sido uma ex-periferia colonial de Portugal, está atualmente a colocar interferências culturais no mundo lusófono que são normalmente ignoradas polos académicos que estudam a cultura galega. O que havemos de fazer com os livros que autores galegos escrevem na norma do português padrão e publicam só com editoras portuguesas ou brasileiras? (Uma mãe tão punk de Teresa Moure com a editora Chiado, por exemplo) Ou com os angolanos que publicam em português com editoras galegas? (Ondjaki, Prémio José Saramago narrativa 2013 que publicou Os modos do mármore com a Através Editora, por exemplo) Seria isso “cultura galega”? O que eu acho inegável é que na Galiza existe uma grande produção cultural alternativa de expansão lusófona que deve ser tida em conta. De entre os muitos elementos que contribuem para esta expansão, quero destacar seis: as comunidades cibernéticas, as relações transfronteiriças entre a Galiza e Portugal, os escritores reintegracionistas, o labor das editoras transnacionais, a música e as produções audiovisuais.

Benedict Anderson diz que as nações são comunidades imaginadas porque “the members of even the smallest nation will never know most of their fellow-members, meet them, or even hear of them, yet in the minds of each lives the image of their communion” (6). Neste século XXI em que vivemos, pode aplicar-se esta teoria também ao mundo das comunidades ciberneticamente imaginadas. Através de grupos de Facebook, foros, e páginas web, o mundo está a desenvolver múltiplas comunidades supraterritoriais que estão a milhares de quilómetros de distância. Esta ideia permite-nos aprofundar mais no desenvolvimento e relevância da comunidade galego-lusófona. Para um importante sector da cidadania galega, a Internet tem-se tornado nos últimos anos um espaço onde partilhar artefactos culturais dirigidos à lusofonia, e também onde consumir muitos dos produzidos por pessoas doutros países lusófonos. Um dos sites mais populares que liga a Galiza com o mundo lusófono é o Portal Galego da Língua. Este site tem uma secção de “Atualidade” na qual encontramos diferentes temas como entrevistas, notícias ou crónicas. Na rubrica de notícias abrangem-se todos os países lusófonos e têm notícias sobre, por exemplo, Macau. Também dentro de “Atualidade” encontramos a rubrica Babel, onde podemos ler artigos sobre outras línguas do mundo, principalmente línguas minoritárias, entre as que se destacam aquelas faladas nos países lusófonos. Além disto, há uma secção chamada “Espaço Brasil” em que se podem ler muitos artigos sobre a cultura brasileira. Tiago Peres Gonçalves destaca também o já desaparecido portal Galiza Livre, que, no seu dizer, “viria a transformar-se em um dos mais importantes meios alternativos na rede” dado que “em 2002 estava classificado entre os 150.000 mais visitados do mundo” (143). Outro site importante no contexto lusófono da Galiza é o Diário Liberdade que se define a si próprio como o “portal anticapitalista da Galiza e os países lusófonos”. Este site está dividido por diferentes países da lusofonia e dedica uma secção à Galiza, Portugal, o Brasil, e aos países lusófonos de África e Ásia. Junto a estes, também poderíamos destacar o site GZ Vídeos um site de vídeos de temas que têm a ver com o ativismo social. Também Palavra Comum uma página sobre literatura onde diz que é um espaço literário “abert[o] à lusofonia” e o site clássico do já desaparecido jornal Novas da Galiza[1]  onde podemos ler que “nas suas páginas, serám dedicados espaços preferentes à informaçom e à reflexom sobre o idioma galego-português que nos une aos países do mundo da lusofonia”. Estes são só uns exemplos, mas dá para ver que na Galiza existe uma forte e consciente comunidade cibernética que desenvolve a suas relações culturais em constante contato com o mundo lusófono.

Além disto, é importante prestarmos atenção ao que está a acontecer entre a Galiza e Portugal nestes últimos anos no que diz respeito às relações transfronteiriças, sobretudo se temos em conta a queda das fronteiras físicas entre os dous países. Bernardo Valdês Paços faz uma distinção entre a situação do País Basco, da Catalunha e da Galiza na sua relação económica dentro do estado espanhol e na Europa. Segundo ele, o País Basco e a Catalunha têm um papel central, enquanto a Galiza pertence à periferia económica (119). Este facto contribui para que a Galiza tenha uma dependência muito profunda na economia espanhola a nível estatal. Para lá da fronteira, o norte de Portugal tem uma situação muito similar em relação à sua dependência económica de Lisboa. Para ultrapassarem este conflito, o norte de Portugal e a Galiza criaram o Eixo Atlântico, uma associação transfronteiriça de cooperação. O Eixo Atlântico nasceu primeiramente com objetivos estritamente económicos, mas dele surgiu um espaço partilhado entre Galiza e o norte de Portugal que teria as suas repercussões também no campo cultural. Nos últimos anos houve muitas iniciativas culturais que puseram em contacto ambos os territórios, o que fez com que muitos artefactos culturais galegos façam parte dum espaço cultural híbrido galego-português. Uma das cousas que podemos destacar foram os concursos literários como o “Prémio Literário Nortear para jovens escritores”,  que aceita textos em galego RAG e em português consoante o novo acordo ortográfico. Ou o facto de muitos outros concursos mais antigos, como o Prémio de poesia Cidade de Ourense, terem mudado as bases para incluírem também textos em português. Nesta linha também é importante  salientar o Prémio de Jornalismo Literário Luso-Galaico Teixeira de Pascoaes e Vicente Risco. Isto contribuiu para problematizar muito o uso das normas linguísticas na literatura galega e estes espaços híbridos escureceram os limites que determinavam quem escreve em galego e quem em português. Neste sentido, é quase obrigatório falar da sempiterna disputa normativa entre os defensores do reintegracionismo, seja isto a normal AGAL ou o AO do português, e os defensores da norma da RAG. Na Galiza convivem duas normas linguísticas: a da RAG (Real Academia Galega) e a da AGAL (Associaçom Galega da Língua). Embora as duas sejam de uso comum e a lei não obrigue aos cidadãos utilizarem uma ou outra, só a RAG é a que tem apoio institucional do governo galego e do espanhol. Dessa forma, é esta norma a que tem mais presença nos meios de comunicação, a que recebe subvenções, e a que se ensina na escola. A diferença básica entre as duas normas é que a RAG considera a língua da Galiza como sendo uma língua independente, enquanto a AGAL entende que é só mais uma variante dentro do sistema linguístico português, e entre outras cousas adopta a ortografia do padrão português — com pequenas diferencias nalguns casos específicos. Junto a isto temos também pessoas que simplesmente escrevem segundo o Acordo Ortográfico da normativa do português padrão. Graças aos concursos que sob o influxo do Eixo Atlântico aceitaram textos também em português, abriu-se uma porta através qual muitos escritores da Galiza que escrevem em AGAL ou AO puderam aproximar-se da Lusofonia. Na primeira edição do Prémio Nortear, por exemplo, o ganhador foi João Guisan Seixas, escritor galego da Crunha que enviou o seu texto na norma do português padrão.

Mas isto não quer dizer que seja uma acontecimento novo. Há já bastante tempo que muitos escritores galegos vêm escrevendo para a Lusofonia. Um dos casos mais paradigmáticos deste século poderia ser o Carlos Quiroga. Este autor galego escreve na norma do português padrão e vende livros em vários países lusófonos, no entanto na Galiza, e visto por muitos como uma pessoa estranha que quer ser portuguesa. A sua obra Inxalá — a qual vendeu entre cem mil e cento e vinte mil cópias só em países lusófonos — foi incluída entre os clássicos da literatura universal numa edição preparada polo jornal português Diário de Notícias junto ao Machado de Assis, Camões, Poe, Cervantes, Pessoa, Saramago e outros. Desde Carlos Quiroga, na Galiza surgiram muitos mais escritores contemporâneos que visibilizaram a escritura na norma portuguesa e na norma AGAL. Raquel Miragaia, Iolanda Gomis — uma das ganhadoras do 26 concurso de poesia de Edições AG no Brasil com o poema “Galiza, tu também és de pedra”—Teresa Moure, Sechu Sende, Quico Cadaval e muitos mais. Todos eles estão a aproveitar o espaço de difusão que permite a Lusofonia para a expansão da literatura e da cultura galega. Também temos outro caso importante como o de Mário Herrero Valeiro, poeta da Corunha que têm ganho vários prémios poéticos, entre eles o Sant´Anna 2015. Este prémio é organizado polo Grupo de Acção Cultural de Válega em Portugal e está aberto a toda a Lusofonia. Ou também o caso de Alexandre Brea Rodríguez, poeta galego que foi escolhido com outros 11 autores para estar na antologia de poetas jovens emergentes da Lusofonia Emergentes: novos poetas lusófonos no ano 2015.

Para isto acontecer foi muito importante o labor das editoras. Entre elas, se calhar a mais importante seria Através Editora. Segundo o que o seu site diz, nasceu com a “vontade de ultrapassar a fronteira política, e muitas vezes mental, que separa a Galiza do resto da Lusofonia. Para [eles], a aproximaçom da Galiza e os países de expressom portuguesa é a demonstraçom da via reintegracionista como válida para marcar um padrom galego atual e útil que permita aprofundar num verdadeiro processo de normalizaçom linguística”. Esta editora está a publicar mais e mais livros entre os quais temos que destacar os importantes casos de Sechu Sende, Vítor Vaqueiro, Teresa Moure e Carlos Taibo. Todos eles tinham publicado com editoras galegas nas quais a normativa a utilizar era a da RAG, mas com a chegada da Através Editora isto abriu uma porta para eles escreverem na norma do padrão português ou na norma AGAL e os quatro mudaram de editora. A última novela de Teresa Moure Ostrácia é das mais vendidas do ano passado e Sechu Sende já ganhara o prémio ao melhor romance do ano na Galiza com Made in Galiza, polo que o facto de terem mudado a escrever em reintegrado ou em português padrão para a Lusofonia é um acontecimento muito importante. Além disto, como já disse no começo, no ano 2015, a Através Editora publicou um livro de poemas do escritor angolano Ondjaki, polo que não só publica autores da Galiza mas também está também a aproximar outros autores lusófonos dos leitores galegos. Nesta linha, também é importante destacar a importância da editora Laiovento, a qual sempre apoiou a liberdade normativa publicando obras de autores galegos que escreveram segundo a normativa da RAG, a da AGAL, e a do padrão português. Foi esta editora, justamente, a que publicou o Inxalá de Carlos Quiroga.

Estreitamente relacionado com as editoras, é também importante destacar o trabalho desenvolvido pola AGLP (Academia Galega da Língua Portuguesa) na socialização da cultura galega na comunidade lusófona. Duas das cousas mais importantes que conseguiram foi a inclusão do léxico dialetal da Galiza no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea e a publicação das obras clássicas galegas no padrão português para a sua circulação no âmbito lusófono. Este dicionário foi desenvolvido pola Academia das Ciências de Lisboa e inclui palavras de todas as variantes da língua portuguesa [2]. Tem palavras típicas do Brasil, de Moçambique, de Angola, e agora também da Galiza. No que se refere a publicação de literatura clássica galega no padrão português, a AGLP fez um excelente trabalho adaptando obras como Folhas Novas, Cantares Galegos ou Queixume dos Pinheiros, e sobretudo, oferecendo-as de graça em formato pdf na sua página web.

Outro campo a ter também em conta é o da música. Desde o ano 2003, a Galiza está a ter um dos eventos musicais mais importantes para os artistas lusófonos: “Cantos na Maré: festival internacional da Lusofonia”. Neste festival, cada ano fazem-se concertos, palestras, visionamento de filmes e muitas outras atividades nas quais participam artistas vindos de toda a Lusofonia. Graças a isto, os músicos galegos estão a estabelecer relações com outros músicos da Lusofonia e isso fez com que nas últimas décadas se tenham gravado muitos discos partilhados. Temos, por exemplo, o cantor galego Narf que editou o disco Aló irmão com Manecas Costa de Guiné-Bissau, quem participara no 2007 no festival de Cantos na Maré. Também Ugia Pedreira da Galiza com Fred Martins do Rio de Janeiro ou os discos do gaiteiro Carlos Nuñez, com diferentes músicos brasileiros. Tudo isto facilitou que os artistas galegos fossem tocar a outros países lusófonos e que também outros músicos de países lusófonos tivessem certa repercussão na Galiza. Porém, também é importante sublinhar que existem muitas bandas galegas de punk, ska ou hip hop que escrevem em norma AGAL e cuja música também é consumida em outros países lusófonos (Nen@s da Revolta, Skarnio, Rebeliom no inframundo, A banda de Poi, etc.)

Por último, é importante destacar a importância da Lei Valentim Paz Andrade. Segundo esta lei, na Galiza foi aprovada a aproximação à cultura portuguesa e as rádios e televisões portuguesas têm que ser vistas ou ouvidas em todo o território galego. Isto ainda não aconteceu, mas já se estão a partilhar alguns programas de televisão e inclusive já há programas e seriados em que se misturam pessoas portuguesas e galegas. Por exemplo, o programa “Aqui Portugal” que mostra as festas que acontecem em diferentes lugares de Portugal durante o verão, o ano passado emitiu programas também sobre as festas da Galiza. Também poderíamos falar do serial galego “Hospital Real” que foi já emitido em Portugal na versão original com o sotaque típico dos galegos e legendas —como acontecia com as telenovelas brasileiras há algumas décadas [3]. Outro exemplo dos frutos da Lei Valentim Paz Andrade é o facto de agora a Universidade Aberta de Portugal ter um centro em Rianjo para os cidadãos galegos poderem estudar a nível universitário inteiramente em português, se quiserem. Bem é certo que isto só acontece com algumas licenciaturas específicas, mas é sintomático desta realidade luso-galaica da que estamos a falar.

Portanto, tendo constatado extensamente esta consciente comunidade lusófona na Galiza, seria interessante repensar como é que estudamos a cultura galega, sobretudo, se estamos a definir a galeguidade desde o exterior. Se só estudamos a cultura hegemónica e a promovida pola Junta e não estudamos mais profundamente o que acontece na Lusofonia com a Galiza, os resultados sempre vão ser muito parciais. Neste sentido, é sintomático que nos congressos de estudos galegos desenvolvidos em países de língua inglesa não haja quase nunca palestras feitas em galego reintegrado ou português (ou que se as há se limitem só à época medieval), que ninguém estude livros de autores reintegracionistas como Carlos Quiroga ou Mário Herrero Valeiro, ou que em muitos destes congressos a língua veicular seja o espanhol. Tendo em conta que nos Estados Unidos, o campo dos estudos galegos está a consolidar-se dum jeito admirável, acho muito importante que a Galiza lusófona e os artefactos culturais produzidos em reintegrado ou português venham a constituir uma parte essencial deste campo, agora que ainda estamos a tempo. David Vila – Galiza in “Portal Galego da Língua”

David Vila Die(é)guez(s) - nasceu no seio de uma familia galega Euskal Herriko txiki batetan. É estudante de doutoramento na Universidade de Vanderbilt (EUA), onde está a estudar a influência da cultura punk na construção de identidades políticas modernas nos Estados espanhol e português. Reivindica a diáspora e o não-lugar como espaços de liberdade identitária. É músico e gosta de tocar a guitarra polos bares de Nashville os fins-de-semana.




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Galiza – Largura e comprimento

Na altura histórica em que a crise económica chega a toda a parte, alguma experiência pessoal, mesmo alguma notícia, pode abrir-nos novas expectativas, fazendo abrir os olhos a realidades existentes ao nosso lado. Não necessariamente ao nosso lado físico, porque há formas de proximidade e distanciamento que não podem ser medidas com o sistema métrico decimal.

Durante as férias de verão, uma empregada de uma conhecida empresa galega foi chamada para regressar urgentemente ao posto de trabalho. Tinha de fazer um orçamento de materiais para Angola no prazo mais breve possível. O contrato, em português, por um volume de negócio muito elevado, daria trabalho para um número importante de pessoas, de famílias, e o pagamento estava garantido. Durante a elaboração do orçamento, as colegas do escritório perguntaram-lhe se sabia bem o que eram “largura” e “comprimento”, porque errar nas medidas daria num rejeitamento do produto, perda económica para a empresa, desprestígio e anulação de futuros contratos num dos países com maior crescimento económico de África e do mundo. Os substantivos que a funcionária conhecia eram “largo e ancho”, que aprendera nas aulas de castelhano, ou talvez na de galego… já nem se sabe. A questão é que “largo e ancho”, como aprendera a denominar as medidas de um objeto de duas dimensões, não lhe serviam para conseguir o contrato com Angola. Tinha de ser feito em português, sem erros de cálculo e à primeira.

O passado 9 de outubro assisti, com outros colegas, à conferência "Perspetivas da Língua Portuguesa", realizada na Universidade do Minho e organizada pola Comissão de Promoção de Difusão da Língua Portuguesa da CPLP. O encontro contou com a participação oficial do Governo galego, representado por Valentín García Gómez, Secretário-Geral de Política Linguística, ao que os organizadores deram o lugar mais destacado possível, em concordância com a AGLP. Uma participação num encontro internacional de alto nível diplomático que constitui um reconhecimento implícito para a Galiza, e um oportunidade para um governo de uma comunidade autónoma alheia à CPLP. Um privilégio que ainda não receberam estados como o Geórgia, Namíbia, Turquia ou Japão, admitidos em julho de 2014 como observadores associados da CPLP.

Nesse mesmo encontro o representante da Missão da Guiné Equatorial na CPLP, que se apresentou e falou pola primeira vez, depois de o seu país ser admitido como membro de pleno direito, fez o esforço de falar em português e do português, o que é de agradecer. Naturalmente na Guiné Equatorial há outras línguas, como também em Cabo Verde, Timor, Angola ou Moçambique. Ora, a entrada neste clube significa entender e assumir o uso e promoção da língua comum, objeto de uma política internacional de consenso.

Todos os presentes durante a sessão da manhã dessa Conferência, agora disponível integralmente em vídeo, assistimos à apresentação sobre o “Potencial Energético da Lusofonia” realizada por José Eduardo Sequeira Nunes, da empresa GALP. Não é que eu goste muito nem pouco do mundo dos hidrocarbonetos, mas vivendo da economia real não posso deixar de ver as oportunidades que se apresentam para a Galiza. Ficamos a saber, durante a palestra do Sr. José Nunes, que a grande maioria das descobertas de petróleo e gás natural, a nível mundial, nos últimos dous anos, se encontram em territórios de língua portuguesa, nomeadamente Brasil, Angola e Moçambique. Soubemos também que estes dous últimos países precisarão um determinado número de barcos de grande capacidade para transportar esses combustíveis. E não só, porque todos os países da CPLP, salvo Portugal, têm grandes expectativas neste sentido.

Deixando a um lado a análise da provável mudança na geoestratégia a nível global que estas descobertas de recursos naturais vão provocar nas próximas décadas, a pergunta mais doméstica e imediata que eu me fazia é quem vai conseguir esses contratos de construção naval. Uma das notícias que nos tem preocupado aos galegos durante os últimos anos e décadas é a problemática do setor naval na zona de Ferrol, e as dificuldades para assegurar a sua viabilidade. A este respeito cabe dizer que os barcos também têm largura e comprimento.

À vista destes dados, que são só um exemplo ocasional, é fácil perceber que estamos à frente de importantes oportunidades, mesmo se alguns só conseguem ver riscos. Tornar o Galego útil para a Galiza também é uma forma de fazer país. Poderíamos dizer que, sobre este tema, há pontos de vista mais ou menos discutíveis, e há também pontos de cegueira, círculos viciosos que não nos permitem uma perceção da realidade diferente da estabelecida. Recuperar o sentido instrumental da língua é vital, não só para a comunidade linguística, mas também para a projeção política e económica, para o futuro do país. Ângelo Cristóvão – Galiza in “Portal Galego da Língua”

José Ângelo Cristóvão Angueira - (Santiago de Compostela, 1965), licenciado em Psicologia pela Universidade de Santiago, especializou-se em Psicologia Social. É empresário (faz parte da Junta Diretiva da Associação de Empresários de Padrão) e atualmente preside a Associação Cultural Pró AGLP. Também é académico e secretário da Academia Galega da Língua Portuguesa desde a sua fundação (2008).