Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 25 de agosto de 2025

A história dos povos originários resgatada

Com 25 capítulos ricos em pesquisas, obra reconstitui trajetória das populações indígenas no território do Centro-Oeste  

                                                                                                            

                                                                   I

Um resgate da história de violência e dizimação das populações que já viviam no atual território brasileiro à chegada dos invasores portugueses, em 1500, é o que o leitor vai encontrar em Goiás + 300Reflexão e Ressignificação – Povos Originários, volume VI, editado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe) e Sociedade Goiana de História da Agricultura (SGHA). Trata-se de obra composta por 25 capítulos escritos por 38 autores, alguns deles indígenas, que contou com a organização das professoras Poliene Bicalho, doutora em História Social pela Universidade do Brasil (UnB), Marlene Ossami de Moura, doutora em Antropologia pela Université Marc Bloch, de Strasbourg, França, e Vanessa Iny-Karajá, pedagoga pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

No texto de apresentação, os organizadores da coleção, Jales Mendonça, doutor em História pela UFG, e Nilson Jaime, doutor em Agronomia pela UFG, avisam que a terminologia povos originários, embora já consagrada pelo uso, não seria bem exata porque se sabe que os povos indígenas do Brasil não tiveram suas origens no território sul-americano, mas a ocupação destas terras deu-se há pelo menos 13 mil anos, o que corresponderia a aproximadamente 650 gerações, enquanto o colonizador europeu estabeleceu-se aqui há apenas 25.

Como observam na introdução as organizadoras do volume, a obra tem por objetivo refletir e analisar a história dos indígenas e não indígenas, reconstituindo a atuação dos primeiros habitantes da atual região de Goiás, assim como o processo de resistência desses povos frente ao projeto colonizador e suas políticas ao longo do tempo. 

No texto de abertura, “Territórios indígenas em Goiás”, o geógrafo Rodrigo Martins dos Santos, doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), observa que, a partir da costa do Pacífico, entraram vários grupos que avançaram no continente sul-americano, dando origem a coletividades como a população de Lagoa Santa, em Minas Gerais, onde foi encontrado o crânio de Luzia, fóssil humano mais antigo das Américas, morta entre 11,5 e 11 maAP (mil anos antes do presente). “Os povos Boe-Bororo, Iny-Karajá, Borun-Krenak e Maxakali-Pataxó seriam alguns dos descendentes desses antigos brasileiros do Leste”, diz.

Santos observa que três grandes frentes invadiram terras que eram ocupadas por povos indígenas: a paulista, que fundaria arraiais que viriam a se tornar as atuais cidades de Catalão, Santa Cruz de Goiás e Luziânia, chegando até ao sítio onde seria fundada a antiga capital Vila Boa de Goiás; a baiana, que fundou arraiais que redundariam nas atuais cidades de Monte Alegre, Flores e Formosa, além de cruzar o atual Distrito Federal; e a terceira que já saiu da recém-fundada Vila Boa em terras usurpadas do povo Goyá,   rumo ao Norte, pelos limites territoriais do povo Kriká, evitando contato com o território Ãwa-Canoeiro. Segundo o estudioso, nas cinco primeiras décadas dos anos 1700, o território etnolinguístico que mais sofreu com essas invasões foi o dos povos de língua Jê.

  

                                                          II

No capítulo 2, “Povos indígenas em Goiás, ontem e hoje”, assinado por  Benedito Antônio Genofre Preazia, doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), lê-se dados do Censo de 2022, que constatou a existência de 19.522 pessoas indígenas no Estado, com um aumento de mais de 100% em relação ao censo anterior. Segundo o pesquisador, há hoje um número razoável de indígenas em áreas urbanas, em razão da necessidade que eles têm de buscar trabalho, estudo ou tratamento de saúde.

Já no texto “Aldeamentos indígenas em Goiás (1741-1872)”, Marlene Ossami de Moura, uma das organizadoras da edição, observa que a colonização portuguesa, a pretexto de civilizar os indígenas, procurava atrair para junto dos aldeamentos colonos e escravos africanos que iam se miscigenando, formando uma população mestiça. Lembra que foi à época do terceiro governador-geral Mem de Sá (1557-1572) que os aldeamentos começaram a se desenvolver. E que, em todos, já se instalavam instrumentos de punição e castigo, os pelourinhos, para reprimir os rebelados. E, depois, os escravos negros. A ensaísta cita o botânico, naturalista e viajante francês Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) que deixou registrado que muitos indígenas foram dizimados por doenças venéreas e até por epidemias de sarampo trazidas pelos invasores portugueses.

Em “Entre guerras e pactos, entre “mansos” e “bravos”, ensaio baseado principalmente em pesquisas em documentos do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), de Lisboa, Robert Mori, doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia, de Minas Gerais (UFU-MG), destaca a atuação do sertanista Antônio Pires de Campos (?-1751) para a expansão luso-brasileira no Centro-Oeste, que “seria impossível sem a participação de indígenas” no enfrentamento a outros grupos. No caso, os Bororo, que o bandeirante tinha como subjugados, a pretexto de administrá-los, enfrentariam os Kayapó do Sul. A intenção do sertanista era de caçar indígenas para depois vendê-los como escravos em São Paulo.

 Como diz o ensaísta, os luso-brasileiros dos setecentos consideravam “bravos”, “hostis” e “gentios” os indígenas que os atacavam e “mansos” aqueles que já haviam pactuado com a Coroa portuguesa, aceitando a catequese e serviam aos interesses do monarca, também denominados como “administrados”, como os Bororo e os Paresí, todos capitaneados por Pires de Campos.  Ao considerá-los “administrados”, os luso-brasileiros contornavam obstáculos jurídicos da legislação contrária ao trabalho escravo e aos maus-tratos aos indígenas. Mas, na prática, não é difícil imaginar como tudo funcionava.

         

                                                 III

No ensaio “Das cores das línguas indígenas de Goiás, das línguas em Goiás”, Sinval Martins de Sousa Filho, doutor em Letras e Linguística pela UFG e pós-doutor em Psicolinguística pela UnB, informa que entre 15 e 20 nações habitavam em Goiás no período colonial e as mais conhecidas foram as tribos Goiases, a primeira a ser extinta, Apinagés, Krakô, Caiapós, Xavantes, Acroá, Avá-Canoeiro, Assus, Aniobá, Tapinapés e Araés. Obviamente, o nome da capitania e, depois, a partir de 1821 da província, deriva daquela etnia também grafada como Guayases, Guayazes, Guoyá e Goiá.

Sousa Filho ressalta que Goiás sempre foi um lugar de concentração de línguas indígenas, lembrando que, ultimamente, Goiânia e outros municípios têm recebido indígenas da nação Warao, provenientes da Venezuela. Segundo dados da Secretaria Municipal de Direitos Humanos de Goiânia, em abril de 2023, existiam entre 120 e 170 Warao vivendo em três bairros da cidade desde 2019.

Já no ensaio “A questão indígena sob a ditadura militar e seus desdobramentos em Goiás”, Carlos Benítez Trinidad, doutor em História da América pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Maria Eduardo Oliveira, graduada em História cursando pós-graduação da Universidade Estadual de Goiás (UEG), e Poliene Bicalho, uma das organizadoras da obra, lamentam que o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), fundado em 1910, tenha sido assolado pela corrupção, principalmente à época da ditadura militar (1964-1985), tendo participado da pilhagem de terras e da exploração da força de trabalho indígena. E citam o Relatório Figueiredo (que leva o nome do procurador que realizou a investigação, Jader de Figueiredo Correia) que confirma o esquema de corrupção, genocídio e exploração a que foram submetidos os povos indígenas sob a gestão do SPI, “em favor de colonos, políticos, empresários e elites rurais”.

Os pesquisadores destacam que, durante os chamados “anos de chumbo”, o Estado autoritário permitiu a abertura de terras indígenas a empresas estrangeiras, mineradoras e agroflorestais, “intimamente ligadas ao golpe de 1964”. E acrescentam: “Foram tempos terríveis para os povos indígenas: massacres, expulsões, deslocamentos forçados, exploração em termos de escravidão, deixando-os de tal modo desarticulados que passaram a viver nas periferias das cidades e nas margens das estradas, mendigando ou se prostituindo”.

Investigações da Comissão Nacional da Verdade (CNV), criada pela Congresso Nacional em 2011, indicaram que mais de oito mil indígenas morreram como resultado direto dessa política genocida. Mas, como observam os pesquisadores, a própria CNV admitiu que “esse número está longe da realidade”. Ou seja, pode ser bem superior.

Na impossibilidade de citar os demais ensaios que compõem esta obra, devido ao restrito espaço de uma resenha, é forçoso reconhecer que este livro traz textos de excepcional feitura e rigorosamente pesquisados, o que significa que traçam para o leitor um panorama nem sempre fácil de se encontrar em outras publicações. Sem contar que algumas das fontes permaneciam, praticamente, desconhecidas ou pouco acessadas nos arquivos do Brasil e de Portugal.

 

                                                 IV 

O volume VI faz parte de um box de número 2, lançado em outubro de 2023, e que inclui o volume IV, “Cronistas e Viajantes”, com 21 capítulos, e o volume V, “Literatura”, com 23 capítulos.  O lançamento da Coleção Goiás + 300 deu-se a 14 de dezembro de 2022, na sede do IHGG, com a apresentação do box 1, que contem três livros que abrangem os temas HistóriaGeografiaMemória e Patrimônio. Os livros foram disponibilizados para bibliotecas, escolas, faculdades e institutos culturais, além de pesquisadores.

Os organizadores observam que o projeto não tem a pretensão laudatória aos bandeirantes, mas é antes uma correção histórica, “que visa à evidenciação de valores dos povos colonizados, de etnias diversas que habitavam o território do indígena Goiá naqueles dias, muitas delas ainda resilientes em Goiás e Tocantins”.

Até 2026, serão lançados mais quatro boxes: Povos AfrodiaspóricosMúsicaMulheres (box 3); BrasíliaAgriculturaDireito e Justiça (box 4); EconomiaDireitos HumanosGoiânia (box 5); e Os primeiros arraiaisSustentabilidadeEducação (box 6). As obras estão sujeitas a um Conselho Editorial, formado por 30 doutores e mestres, de diversas instituições culturais e científicas. Sem contar com recursos públicos, a iniciativa tem recebido patrocínio cultural de empresas privadas. Adelto Gonçalves - Brasil

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Goiás +300Reflexão e RessignificaçãoPovos Originários, volume VI, de Poliene Bicalho, Marlene Ossami de Moura e Vanessa Iny-Karajá (organizadoras). Goiânia, Edições Goiás +300, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado e Sociedade Goiana de História da Agricultura, 548 páginas, 2023. Site: https://ihgg.org E-mail: ihgg@ihgg.org   

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Lard, editor, 2024), lançado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Memória da literatura goiana

Com 23 ensaios ricos em pesquisas, obra faz um levantamento da produção literária em Goiás em quase três séculos   

            I

Um panorama do que os literatos produziram no Estado de Goiás em quase três séculos é o que traz o livro Goiás + 300 – Literatura, volume V de um box que reúne mais duas obras – Cronistas e Viajantes, volume IV, e Povos Originários, volume VI. O volume V é formado por 23 capítulos que contam com a participação de 28 autores e foi organizado por Goiandira Ortiz de Camargo, doutora em Literatura Brasileira, pós-doutora em Poesia Brasileira e professora aposentada da Universidade Federal de Goiás (UFG), Maria Severina Guimarães, doutora e pós-doutora em Estudos Literários pela UFG e professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG), e Bento Jayme Fleury Curado, doutor (UFG) e pós-doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP), professor da Secretaria de Educação de Goiás e sócio do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe).

No texto de abertura, “Os Kayapó, andarilhos da história e da ficção em Guerra no coração do Cerrado, de Maria José Silveira”, Ângela Maria Álvares Lapidus, mestra em Literatura pela UEG, Ricardo Assis Gonçalves, doutor em Geografia pela UFG, e Eguimar Felício Chaveiro, doutor em Geografia pela USP, analisam uma obra que recupera o conflito entre indígenas e não indígenas durante o processo de colonização. Embora seja ficção, lembram os professores, Maria José Silveira (1947) realizou uma profunda pesquisa histórico-geográfica e antropológica para escrever a sua narrativa. 

O romance tem como personagem principal Damiana da Cunha, indígena cayapó que foi educada pelo governador da capitania de Goiás, Luís da Cunha Meneses (1743-1817), que haveria de se tornar célebre ao ser satirizado como o Fanfarrão Minésio nas Cartas Chilenas, poema satírico em versos decassílabos brancos (sem rima) de autoria atribuída a Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ex-ouvidor em Vila Rica e degredado para Moçambique por participação na conjuração mineira de 1789. Damiana era neta de um dos principais caciques da região, Angeraíocha. E o gesto de Cunha Meneses foi interpretado como uma tentativa de aproximação e “pacificação” dos cayapós.   

Para os analistas, o romance de Maria José Silveira contribui “com o desvelamento da formação territorial violenta de Goiás” e coloca-se “contra o silenciamento dos povos indígenas e da violência de que foram vítimas”. Assim, concluem, a personagem Damiana pode ser interpretada como “metáfora do domínio colonial sobre o povo indígena e a impossibilidade de convivência entre os dois povos”.


                   II

Um ensaio que se destaca – o que não significa que os demais não tenham a mesma importância – é “Orchideas, a ecopoesia de Leodegária de Jesus”, de Maria de Fátima Gonçalves Lima, doutora em Teoria Literária pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), campus de São José do Rio Preto, e pós-doutora pela Pontíficia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e de São Paulo, em que a ensaísta discute e recupera o nascedouro da poesia lírica feminina e negra em Goiás. 

Ela lembra que Leodegária de Jesus (1889-1978), cujo retrato está na capa do livro, quebrou todos os paradigmas daquele período no Brasil e, principalmente, no Centro-Oeste, a uma época em que a mulher era condenada a não se expressar publicamente, ao tempo em que o coronelismo predominava e a produção literária feminina era praticamente nula.

A ensaísta ressalta que, já no início do século XIX, Leodegária expressava, de maneira intuitiva, o que hoje se chama ecopoesia, fazendo versos que defendiam um “retorno à natureza das terras e campos dos descaminhos de Goiás”. Como exemplo, reproduz-se aqui com a ortografia da época um trecho de um soneto em que Leodegária exprime o seu “eu lírico” e evoca a natureza: Daqui si te contemplo á doce luz do poente, / Coberta assim de sombra e neve vaporosa, / Eu sinto me inundar o coração dolente, / Estranha, suave luz de paz maravilhosa.

Já em “Coronéis e jagunços: violência na literatura regional”, F. Itami Campos, doutor em Ciência Política pela USP e professor aposentado da UFG, faz referência a autores goianos cujos contos e romances apresentam a violência que marcou época na região Norte de Goiás que hoje constitui o Estado de Tocantins, a partir de disputas e desavenças políticas entre coronéis que armavam seus agregados e contratavam jagunços, “com o banditismo marcando presença”. O ensaísta lembra que, desde os tempos coloniais, a posse e o uso produtivo da terra tornaram-se as principais fontes de riqueza, ressaltando que a legislação e os governos da época procuravam impedir a posse da terra ao homem livre, pobre. E que ao pobre só restava viver de seu trabalho servil, sujeito ao controle e dominação do proprietário da terra.

Entre os autores citados por F. Itami Campos e que procuraram retratar esse tipo de escravidão disfarçada estão o missionário francês dominicano frei José Maria Audrin (1879-?), que viveu mais de 30 anos entre os sertanejos; Hugo de Carvalho Ramos (1895-1921), pioneiro da literatura regionalista em Goiás; Bernardo Élis (1915-1997), autor do clássico romance O Tronco (1974); Eli Brasiliense (1915-1998), autor de Rio Turuna (1964); Ignácio Xavier da Silva (1855-1929), autor de Crime do Cel. Leitão (1935); Luís Palacín (1927-1998), historiador fundamental para quem quer conhecer a história de Goiás e autor de Coronelismo no Extremo Norte de Goiás (1990), entre outras importantes obras; e Lauro de Vasconcelos (1934-1986), autor de Santa Dica: encantamento do mundo ou outra coisa do povo (1991), que recupera dados e informações sobre uma vidente que se tornou conhecida como milagreira e curandeira no interior de Goiás.


                   III 

Em “A historiografia literária em Goiás”, Goiandira Ortiz de Camargo, Leandro Bernardo Guimarães, mestre em Estudos Literários pela UFG, e Oliver Mariano Rosa, também doutor em Estudos Literários pela UFG, fazem um registro panorâmico dos expoentes da historiografia e crítica literária goianas, situando A poesia em Goiás (1964), de Gilberto Mendonça Teles (1931-2024), como o marco inicial da historiografia literária no Estado. 

Entre os livros de estudos, apontam como bons exemplos O processo sintagmático na obra literária (1976), de Moema de Castro e Silva Olival (1932-2021), versando sobre a obra de Bernardo Élis; O poema do poema em Gilberto Mendonça Teles (1984), de Darcy França Denófrio (1936); e O poeta da linguagem (1983), de José Fernandes (1946-2018), obra igualmente dedicada ao estudo da poesia de Gilberto Mendonça Teles. E sugerem que o estudo da poesia goiana seja retomado no ponto em que Gilberto Mendonça Teles parou em seu A poesia em Goiás, acrescentando que, sobre a prosa, o recomendável seria seguir os estudos das pioneiras Nelly Alves de Almeida (1916-1999) e Moema de Castro e Silva Olival.

 

                  IV

Em “O Modernismo em Goiás antes da literatura”, Jamesson Buarque, doutor em Letras e Linguística pela UFG e diretor da Faculdade de Letras desta instituição, observa que aquele movimento literário só chegou ao Estado a partir da construção da nova capital, uma obra modernista, e que “tal assimilação só se deu a partir do ano do Batismo Cultural de Goiânia, em 1942”, ressaltando que imprensa, editoras e comércio livreiro somente ganharam forma na nova metrópole a partir da década de 1950. 

Segundo o ensaísta, uma vez que Goiânia passou a existir, “as condições para o Modernismo ser assimilado em Goiás foram dadas, mas paulatinamente, e de tal modo que o movimento já não era mais um movimento, era uma tradição, o que fez de certo modo o princípio conservador não ter sido aplacado no Estado nem em sua nova capital”. Com isso, conclui, “o colonialismo proprietário do conservadorismo ruralista e o colonialismo de mentalidades do progressismo, no final das contas, coadunaram-se em Goiás”.

Já Heleno Godoy, doutor em Letras pela USP e professor aposentado da Faculdade de Letras da UFG, em “Uma (possível) história do GEN”, e Maria Helena Chein, professora aposentada da UFG, em “Reminiscências sobre o Grupo de Escritores Novos (GEN)”, procuram reconstituir a história de um coletivo de escritores jovens que existiu em Goiânia de 1963 a 1967, rememorando seus planos, seus projetos pessoais, seus ideais. 

Godoy ressalta que o GEN não foi um “movimento literário”, mas uma afirmação cultural, formado que era por escritores de diversas tendências. Já Maria Helena Chein faz um retrospecto das obras que foram publicadas àquela época, citando, por fim, GEN – um sopro de renovação em Goiás (Goiânia, Editora Kelps, 2000), em que a professora Moema de Castro e Silva Olival faz um estudo das obras de Miguel Jorge (1933), Yêda Schmaltz (1941-2003), Heleno Godoy (1946) e da própria Maria Helena Chein (1942).


                    

Diante da impossibilidade (por falta de espaço) de pelo menos registrar os demais ensaios, diga-se que são todos de excepcional feitura e rigorosamente pesquisados, o que significa que traçam para o leitor um panorama que ajuda a manter viva a memória da literatura goiana produzida em 300 anos, efeméride que marca o início da colonização de Goiás e será comemorada em 2027.

A obra faz parte da Coleção Goiás +300 – Reflexão e Ressignificação, editada pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), pelo Icebe e pela Sociedade Goiana de História da Agricultura (SGHA), sob a coordenação de Jales Guedes Mendonça, promotor de Justiça, doutor em História e presidente do IHGG, e Nilson Gomes Jaime, engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia e presidente do Icebe.

O lançamento da Coleção Goiás + 300 deu-se a 14 de dezembro de 2022, na sede do IHGG, com a apresentação do box 1, que contem três livros que abrangem os temas História – Geografia – Memória e Patrimônio. Os livros foram disponibilizados para bibliotecas, escolas, faculdades e institutos culturais, além de pesquisadores. Os organizadores observam que o projeto não tem a pretensão laudatória aos bandeirantes, mas é antes uma correção histórica, “que visa à evidenciação de valores dos povos colonizados, de etnias diversas que habitavam o território do indígena Goiá naqueles dias, muitas delas ainda resilientes em Goiás e Tocantins”. 

Até 2026, serão lançados mais quatro boxes: Povos Afrodiaspóricos – Música – Mulheres (box 3); Brasília – Agricultura – Direito e Justiça (box 4); Economia – Direitos Humanos – Goiânia (box 5); e Os primeiros arraiais – Sustentabilidade – Educação (box 6). As obras estão sujeitas a um Conselho Editorial, formado por 30 doutores e mestres, de diversas instituições culturais e científicas. Sem contar com recursos públicos, a iniciativa tem recebido patrocínio cultural de empresas privadas. Adelto Gonçalves - Brasil

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Goiás +300 – Literatura, volume V, de Goiandira Ortiz de Camargo, Maria Severina Guimarães e Bento Jayme Fleury Curado (organizadores). Goiânia, Edições Goiás +300, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado e Sociedade Goiana de História da Agricultura, 382 páginas, 2023. Site: https://ihgg.org E-mail: ihgg@ihgg.org   

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´el-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Lard, editor, 2024), lançado na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br