Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 14 de maio de 2024

C. R. Boxer, um historiador como poucos

Obra de Kenneth Maxwell reconstitui a saga do estudioso inglês que desvendou  a vida colonial no Brasil e foi acusado de traidor em seu país

                                                                      

                                                         I

O livro Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world (Kenneth Maxwell sobre tendências globais: um historiador do século 18 olha para o mundo contemporâneo), publicado em 2023, em  Londres, por Robbin Laird, editor (Second Line of Defense), acaba de ganhar edição em capa dura (hardcover) acrescida de prefácio deste articulista, de um artigo de dezembro de 2023 (“The new historical era seen from space: the case of the Middle East”) e de mais dois instigantes ensaios de 2001 (“Trap and blank check: a cautionary note about Bush and Afghanistan” e “The C. R. Boxer affair: heroes, traitors, and the Manchester Guardian”.

Dentro do limitado espaço que oferece uma resenha e por sua inegável importância para os estudos da História do Brasil, vai-se destacar aqui apenas o ensaio dedicado ao historiador britânico Charles Ralph Boxer (1904-2000), grande conhecedor da história colonial de Portugal e Holanda. Em linhas gerais, o que se pode adiantar é que Boxer foi educado no Wellington College e no Royal Military College, em Sandhurst, tendo sido tenente no regimento do Lincolnshire de 1923 a 1947.

Serviu na Irlanda do Norte e, de 1930 a 1933, foi tradutor no Japão alocado ao Regimento de Infantaria nº 38 com base em Nara. Em 1933, formou-se como intérprete oficial da língua japonesa. Removido em 1936 para Hong Kong, que à época era colônia britânica, serviu como oficial nas tropas britânicas na China, em serviços de inteligência. Ferido em ação durante o ataque japonês a Hong Kong, em 8 de dezembro de 1941, foi levado pelos japoneses como prisioneiro de guerra e mantido em cativeiro até 1945, tendo sido torturado.

Mesmo assim, quando libertado, ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), retornou ao Japão como membro da Comissão Britânica no Extremo Oriente em 1946-1947. Durante sua carreira militar, publicou mais de 80 livros e opúsculos sobre a história do Oriente, sobretudo dos séculos XVI e XVII. Como major do Exército, aposentou-se em 1947, quando o King's College, de Londres, ofereceu-lhe a cadeira Camões de Português, cargo em que permaneceu até 1967. Nesse período, a Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres o nomeou seu primeiro professor de História do Extremo Oriente, tendo servido no cargo de 1951 a 1953.           

Ao se aposentar em 1967 da Universidade de Londres, aceitou o posto de professor visitante na Universidade de Indiana, onde serviu ainda como conselheiro na Lilly Library. De 1969 a 1972, foi responsável pela cadeira de História da Expansão Europeia no Ultramar na Universidade de Yale. Era um poliglota, pois, além do inglês, falava com fluência os idiomas japonês, chinês, português, espanhol e holandês.

 

                                                         II

Definido por Américo Jacobina Lacombe (1909-1993) como “o maior representante da cultura inglesa interessada pelo mundo de língua portuguesa”, Boxer é autor do notável Salvador de e a luta pelo Brasil e Angola, 1602-1686 (São Paulo, Companhia Editora Nacional/Editora da Universidade de São Paulo-Edusp, 1973, tradução de Olivério de Oliveira Pinto), publicado em 1952 em Londres. Essa obra, como anteviu Lacombe, tem servido como modelo de construção para muitos historiadores brasileiros, “pelo método, pela exatidão e pela arte que lhe dá um tom de leitura palpitante”.

É de se lembrar que Salvador Correia de Sá e Benevides (1602-1686) foi um militar do império ultramarino português que, durante a Guerra da Restauração (1640-1668), a serviço do reino de Portugal, destacou-se no comando da frota que, em 1647, reconquistou Angola e São Tomé e Príncipe, terminando a ocupação holandesa. Foi por três vezes governador da capitania do Rio de Janeiro.

Além dessa, há pelo menos mais duas obras de sua autoria fundamentais para a compreensão da construção do Brasil: Os holandeses no Brasil, 1624-1654 (Companhia Editora Nacional, 1961)  e A idade de ouro do Brasilas dores do crescimento de uma sociedade colonial  (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1963).

O que poucos sabem é da vida desdita que Boxer levou e que Maxwell levanta em seu instigante ensaio, começando por chamá-lo de herói, no seu melhor sentido, definição que passa longe das celebridades do esporte e do cinema ou da TV. E que, segundo o historiador, teria sido vítima de “antigos ressentimentos, fofocas e ciúmes de um mundo pós-colonial que agora trabalha para violar a reputação de um indivíduo verdadeiramente complexo e notável”.

Faz Maxwell essa observação a propósto de um artigo assinado pelo professor Hywel Williams (1953), membro do Parlamento britânico, e publicado a 24 de fevereiro de 2001 no jornal The Guardian, de Londres, em que o articulista reconhece Boxer como “um bom soldado e brilhante historiador”, que, no entanto, “pode ter sido um traidor que entregou seus antigos companheiros num campo de prisioneiros administrado por japoneses em Hong Kong, de uma forma que minou todo o sistema de inteligência britânico no Sudeste Asiático”. 

Para Williams, Boxer teria pertencido a uma geração de intelectuais britânicos que “haviam abraçado o comunismo marxista de modelo soviético”. E por isso teria sido “um exemplo espetacular de tentação em tempo de guerra”. Enfim, um intelectual que, por sua formação marxista, teria funcionado como espião contra os interesses ocidentais.

No mesmo The Guardian, tradicional jornal fundado em 1821 e considerado a mais forte voz liberal  da Grã-Bretanha, observa Maxwell, deu-se em 10 de março de 2001 a publicação de um artigo em que o historiador  norte-americano Dauril Alden (1926) refutava as insinuações e acusações de Williams, observando que, longe de ser o responsável pelo prolongamento da Segunda Guerra, Boxer foi quem disse que não poderia haver erro maior do que considerar que os militares japoneses não estavam profundamente enraizados na China. “Foram o Ministério da Guerra e o Ministério das Relações Exteriores britânicos que ignoraram e subestimaram o risco”, garantiu.

Coincidentemente, Alden acabara de escrever uma biografia de Boxer que logo seria publicada pela Fundação Oriente, em Lisboa, com o título Charles R. BoxerUma vida incomum, soldado, historiador, professor, colecionador, viajante. Segundo Maxwell, o professor Alden é um “meticuloso estudioso da velha escola para a qual uma documentação sólida é o núcleo dos estudos históricos”.

Levando isso em conta, o jornal, segundo Maxwell, teria até removido o artigo de Williams de seu site, tornando-o inacessível, uma forma de reconhecer que não deveria ter publicado aquele texto com difamações e acusações infundadas ou sem comprovação documental contra a honra “do mais honrado dos homens”, um estudioso que, para gerações de historiadores de países de língua portuguesa, era considerado “um verdadeiro colosso”.

 

                                                        III

De fato, como lembra Maxwell, Boxer escreveu, em mais de 350 publicações, textos da mais alta erudição sobre as guerras navais no Golfo Pérsico no século XVI, as tribulações das rotas marítimas entre Europa e Ásia, traçou um brilhante panorama do Brasil à época das descobertas do ouro e da expansão das fronteiras no século XVII, “magnífica síntese da história colonial de Portugal e Holanda, bem como estudos comparativos sobre instituições municipais e sobre raça e relações sociais na Ásia, África e América do Sul”. Para o historiador, o trabalho de Boxer sobre a vida e obra de Salvador Correia de Sá e Benevides é um de seus melhores livros, pois conta “o papel decisivo que ele teve na titânica luta entre os poderes ibéricos e os holandeses pela hegemonia no Atlântico Sul no século XVII”.

Maxwell lembra ainda que, quando das guerras coloniais de Portugal na África, Boxer contestou a propaganda “luso-tropicalista” difundida pela ditadura de António de Oliveira Salazar (1889-1970), com base nas ideias do pensador brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987), para quem “o colonizador português não tinha preconceitos raciais”. Por isso, Boxer foi também sistematicamente difamado pelo regime salazarista.

 

                                                        IV

Da vida privada de Boxer, Maxwell lembra que ele teve em Hong Kong, em 1940, um affair com a jornalista norte-americana Emily Hahn (1905-1997) que se tornou um dos romances mais conhecidos do século XX. A essa época, porém, Boxer já era casado, desde 1939, com Ursula Tulloch (1910-1996). Divorciaram-se em 1947. Emily Hahn foi por 70 anos uma das mais produtivas colaboradoras do jornal The NewYorker e publicou 52 livros e centenas de artigos, reportagens e poemas. Seu affair com Boxer está contado em seu livro China to me: a partial autobiography (1944).  

Segundo Williams, o casal teria “colaborado” com os japoneses, o que para Maxwell “não passaria de um esforço de imaginação”. Para Williams, Emily Hahn teria sido “uma feminista e simpatizante do comunismo”, o que reforçaria a acusação de que Boxer poderia ter atuado como agente duplo soviético dentro do governo britânico. Com Emily Hahn, o historiador teve um casamento duradouro e duas filhas.

Maxwell lembra que Boxer sempre se recusou a escrever a sua autobiografia, apesar dos obstáculos e lances curiosos que teve de superar em sua existência, especialmentre como prisioneiro de guerra. Recusou também várias homenagens e condecorações, embora nunca tenha deixado de atender a convites para conferências. Em 1989, a convite de Maxwell, concedeu entrevista aos alunos do Camões Center na Universidade de Colúmbia, quando afirmou que amava o Japão, apesar da vida perigosa que levara e dos percalços que tivera de enfrentar com os japoneses em Hong Kong: “Quando você é jovem, tem dinheiro e busca a luxúria como uma águia, você sempre o faz”, acrescentou.

Para Maxwell, Boxer, que enfrentou três anos de cativeiro, tortura e solidão, não foi traidor nem herói, mas uma “pessoa com uma integridade feita de granito”. E que poderia ser definido com uma palavra: stickler, termo que pode ser entendido como aplicável a “uma pessoa tenaz e persistente, que sempre esteve em busca da verdade”. E que Boxer atribui a Salvador de Sá na abertura de seu livro sobre o navegador, a quem chama de “um velho e notável stickler”.

 

                                                         V


Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos, da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho de Relações Exteriores, em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Colúmbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa na Universidade de Colúmbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da revista New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S.Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

É autor do clássico A Devassa da Devassa (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1977), lançado em 1973 na Inglaterra com o título Conflicts and Conspiracies: Brazil and Portugal, 1750-1808 (Cambridge University Press), seu primeiro livro. Publicou também Marquês de Pombal - Paradoxo do Iluminismo (1996), A Construção da Democracia em Portugal (1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Editora Paz e Terra, 1999) e Mais malandros e outros - ensaios tropicais (Editora Paz e Terra, 2005), entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Kenneth Maxwell on Global Trends – an historian of the 18th century looks at the contemporary world, de Kenneth Maxwell, edição em inglês (hardcover), com prefácio (foreword) de Adelto Gonçalves. Londres: Robbin Laird, editor/Second Line of Defense, 443 páginas, US$ 24,95 (Amazon), 2023. E-mail do autor: krobertmaxwell@gmail.com 

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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos-SP, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br.


domingo, 28 de abril de 2024

A Inconfidência revisitada

Nova obra do historiador britânico Kenneth Maxwell analisa a trajetória do Brasil no século XXI e reconstitui a história da conjuração mineira de 1789  

                                                                            

                                                          I

Uma revisão, praticamente, completa da chamada Inconfidência Mineira – até porque, em História, nunca se pode definir um estudo como completo porque sempre haverá a possibilidade de se localizar documentos esquecidos ou perdidos – é o que o leitor vai encontrar no longo ensaio “Imagined Republics: the United States of America, France, and Brazil (1776-1792)”, que constitui a segunda parte de Brazil in a Changing World OrderEssays by Kenneth Maxwell (Robbin Laird, editor, Second Line of Defense, 2024), obra que acaba de sair à luz na Inglaterra e que, por sua importância capital, está a exigir a sua publicação o mais rápido possível por uma editora brasileira.

Já a primeira parte reúne breves textos escritos entre 2011 e 2024 sobre a conjuntura política no Brasil, especialmente os acontecimentos que levaram ao impeachment da presidente Dilma Roussef, à prisão do então ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e à eleição de Jair Bolsonaro, o assim chamado “Tropical Trump”, bem como a eleição pela terceira vez de Lula para a presidência da República, sem deixar de discutir a atuação do Brics, pretenso bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, entre outros temas, inclusive um primoroso texto sobre as relações militares entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). 

Responsável por obras fundamentais para o estudo do movimento ocorrido em Minas Gerais em 1789, ano da Revolução Francesa, como A Devassa da Devassa (Rio de Janeitro, Editora Paz e Terra, 1977), seu primeiro livro, publicado em 1973 sob o título Conflicts and Conspiracies: Brazil and Portugal, 1750-1808 (Cambridge University Press), Chocolate, piratas e outros malandros (Editora Paz e Terra, 1999) e Mais malandros e outrosensaios tropicais (Editora Paz e Terra, 2005), Maxwell é  autor de outros títulos igualmente imprescindíveis para o conhecimento do que foi o século XVIII português, como Marquês de PombalParadoxo do Iluminismo (1996),  ou ainda o que representou a precoce aventura imperial de Portugal na África, na Ásia e nas Américas, de que Naked Tropics: Essays on Empire and Other Rogues (2003) é outro imperdível exemplo.

 

                                                         II                       

Nem por isso Maxwell se imagina dono da palavra final sobre a História de Portugal e do Brasil, como se deduz do excepcional estudo que mostra como uma obra publicada na França por iniciativa de Benjamin Franklin (1706-1790), um dos fundadores dos Estados Unidos e um dos líderes da Revolução Americana (1776), inspirou os conspiradores de 1788-1789 em Minas Gerais. Trata-se de Recueil des Loix Constitutives des Etats-Unis, ou apenas “Recueil”, obra que circulou entre os insurgentes, como comprova o exemplar que desde 1989 faz parte do acervo da Casa do Pilar do Museu da Inconfidência em Ouro Preto, a antiga Vila Rica, e que foi trazido de Birmingham, Inglaterra, pelo inconfidente José Álvares Maciel (1760-1804), em 1788.

Neste longo ensaio que constitui a segunda parte da obra, o estudioso não deixa de citar livros de outros historiadores que, a partir da leitura do seu clássico A Devassa da Devassa, igualmente localizaram documentos que são discorridos em uma centena de notas de rodapé e que permitem uma análise ainda  mais aprofundada do que representou o século XVIII no mundo português. E que, enfim, permitem concluir que, por trás dos ideais do inconfidentes, havia também interesses subalternos, como os dos grandes arrematantes de contratos João Rodrigues de Macedo (1739-1807) e Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819), que se haviam tornado grossos devedores, ao deixar de repassar para o Erário Régio os tributos que recolhiam em seu nome. Ou seja, a corrupção que se vê hoje em dia vem mesmo de longe e faz parte da própria formação do País.

Aliás, esse teria sido o verdadeiro motivo do fracasso da conspiração, pois, ao que tudo indica, Silvério, diante da indecisão do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade (1752-1808), comandante dos Dragões de Minas, em colocar a rebelião nas ruas, decidira pular para o outro lado, sempre pensando no perdão de suas dívidas.

 

                                                        III

A par disso, com base em documentos de arquivo, Maxwell expõe também que, por trás dos ideais republicanos, estava principalmente o exemplo dos americanos do Norte, como fica claro na carta que um insurgente, José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788), então estudante na Universidade de Montpellier, encaminhou em outubro de 1786 a Thomas Jefferson (1743-1826), autor da declaração de independência dos Estados Unidos, que à época representava seu país em Paris. Nessa carta, atrás do pseudônimo Vendek, esse estudante apresentava a necessidade que os insurgentes tinham de um apoio decisivo da “poderosa nação”. E acrescentava: “Eles consideram a Revolução Norte-Americana um precedente para a deles. Eles olham para os Estados Unidos como quem têm maior probabilidade de lhes dar apoio honesto e, por uma variedade de considerações, têm as mais fortes razões para atuar em nosso favor”.  Para Vendek, as capitanias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia instigariam o levante e esperava-se que as outras seguissem o exemplo. 

Maxwell cita também Eleutério José Delfim (1769-?), outro estudante brasileiro em Montpellier, filho de Antônio José Delfim, grande empreiteiro de obras públicas no Rio de Janeiro e influente intermediário no comércio de escravos com Moçambique. Era alegado que o jovem Delfim teria levado, em 1786, carta de apresentação da maçonaria do Rio de Janeiro para que Maia e Barbalho pudesse se aproximar de Thomas Jefferson, hipótese que o autor considera improvável, observando que “não há evidência confiável de influência maçônica em 1788”.

De fato, Maxwell demonstra em suas notas de rodapé que, nos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, publicados pelo governo de Minas Gerais nos anos 1970/80, as observações de um dos editores, Tarquínio J.B. de Oliveira (1915-1980), a respeito da influência maçônica na Inconfidência, não são confiáveis. Mas acrescenta que as notas de rodapé do outro editor, o historiador Herculano Gomes Mathias (1916-2002), são inteiramente confiáveis.

Maxwell prefere ficar com a hipótese segundo a qual havia mais interesse em estimular a separação das capitanias brasileiras do reino de  Portugal por parte dos mercadores do porto francês de Bordeaux, que já se haviam se beneficiado enormemente do comércio de escravos (slave trade)  com a África Ocidental e a colônia francesa de São Domingos. Nesse caso, Delfim teria ido lá para reforçar os laços comerciais de sua família com aqueles mercadores.  

Esse Eleutério José Delfim, que por muito tempo ficou esquecido na História, haveria de se instalar na ilha de Moçambique e, por coincidência ou não, foi a partir de sua chegada que o tráfico de escravos com o Rio de Janeiro haveria de crescer de maneira extraordinária.  Aliás, em pouco tempo, ele viria a se tornar um dos grandes comerciantes negreiros da ilha.

Outro detalhe é que Eleutério José Delfim haveria de ficar com a carta-patente de “tenente-coronel da infantaria auxiliar”, cargo vago no ano de 1793 por falecimento de Alexandre Roberto Mascarenhas (1753-1793), sogro do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), ex-ouvidor em Vila Rica, que para lá fora deportado como punição por sua participação nos conciliábulos da projetada conjuração mineira, acusado por Silvério dos Reis “de ter trabalhado na preparação da dita insurreição,  preparando as leis que iriam regular o novo governo”.

           

                                                        IV

Maxwell lembra que das discussões entre os conspiradores, entre o final de 1788 e o início de 1789, durante o período anterior à prevista imposição da “derrama”, participaram magistrados, advogados, comerciantes e clérigos, mas o que se destaca é “a inspiração ditada pelo exemplo da independência das 13 colônias britânicas na América do Norte, a influência da constituição do Estados Unidos, especialmente a constituição da Pennsylvania de 1776, bem como o papel de escritores como o abade Raynal (1713-1796), inclusive sua obra A Revolução na América”, e o comentário do abade Mably (1709-1785) sobre a constituição dos norte-americanos publicado em Recueil”.

Mais adiante, Maxwell observa que os conspiradores mineiros, aparentemente,  nunca fizeram nenhuma abordagem com o governo britânico nem com o francês. “Suas esperanças repousavam nos Estados Unidos”, garante. No entanto, ressalta que Thomas Jefferson concluiria que os interesses dos Estados Unidos estariam mais bem servidos se o bom relacionamento que havia com Portugal fosse mantido do que encorajar uma aventura de risco na América do Sul.

No extenso ensaio, o historiador vai além da conjuração mineira de 1789, ampliando sua análise a respeito da influência que a “Recueil” exerceu sobre outros acontecimentos mundiais. Por isso, considera o exemplar trazido por José Álvares Maciel, no qual constam anotações provavelmente feitas por Gonzaga e também pelo poeta, advogado, fazendeiro e minerador Cláudio Manuel da Costa (1729-1789), que morreu em circunstâncias suspeitas na casa do arrematante João Rodrigues de Macedo, como “o mais precioso documento guardado nos arquivos da Casa do Pilar do Museu da Inconfidência”.

  

                                                        V         

Kenneth Maxwell foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos (DRCLAS), da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Columbia e Kansas.


Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa da Universidade de Columbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores desta fundação. É colaborador regular da New York Review of Books e foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S.Paulo e é colunista mensal do O Globo desde 2015.

Foi ainda Herodotus fellow no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e Guggenheim fellow e membro do Conselho de Administração da The Tinker Foundation, Inc. e do Conselho Consultivo da Fundação Luso-Americana. Também é membro dos Conselhos Consultivos da Brazil Foundation e da Human Rights Watch/Americas. Fez  bacharelado e mestrado no St. John's College, Cambridge University, e mestrado e doutorado na Universidade de Princeton. É colaborador regular do site Second Line of Defense.

Em maio de 2004, renunciou ao cargo de diretor de Estudos Latino-Americanos do Conselho de Relações Exteriores de Nova York por ter criticado Henry Kissinger (1923-2023), ex-secretário de estado dos Estados Unidos (1973-1977), em resenha de livro sobre o golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet (1915-2006), no Chile, em 1973, e de não ter tido uma resposta publicada na revista Foreign Affairs. Adelto Gonçalves - Brasil 

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Brazil in a Changing World Order – Essays by Kenneth Maxwell. Londres, Robbin Laird, editor, Second Line of Defense, 348 páginas, 2024, Amazon: paperback: $ 15,95; hardcover: $ 24,95. Site da editora: https://sldinfo.com/bookshop/ E-mail do autor: krobertmaxwell@gmail.com

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Adelto Gonçalves, jornalista e historiador, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br.