Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Editora Companhia das Letras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Editora Companhia das Letras. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 4 de março de 2026

Uma obra dentro de outra

Em ‘Flores artificiais’, romance de Luiz Ruffato, narrador e personagem se combinam para criar um “eu”

                                                                               

                                                         I

Uma obra que leva a ficção até as últimas consequências, ao parecer que retrata acontecimentos reais – é assim que pode ser definido Flores artificiais (São Paulo, Companhia das Letras, 2014), do jornalista, romancista, poeta e contista Luiz Ruffato, que reúne memórias de um certo Dório Finetto, engenheiro que teria sido alto funcionário do Banco Mundial, atividade profissional que lhe havia dado a oportunidade de conhecer vários povos do planeta, ao participar de simpósios, reuniões e congressos.       

Nascido em 1951 e criado em Rodeiro, pequena cidade da Zona da Mata, em Minas Gerais, numa família de modestos agricultores, descendentes de italianos do Vêneto, Finetto desenvolveu uma personalidade aberta, capaz de se misturar com naturalidade em grupos de desconhecidos, ainda que de idiomas diferentes. De Beirute a Havana, passando por Hamburgo, Timor Leste, Buenos Aires e incontáveis lugares mundo afora, Finetto colecionou grandes histórias e pequenos acontecimentos. Sem a aspiração de se tornar escritor, teria procurado o próprio autor do livro, Ruffato, para lhe oferecer aqueles textos memorialísticos.

Segundo memorial escrito e assumido como de autoria do próprio autor, publicado no fecho do livro, Finetto teria largado ainda jovem o trabalho na lavoura para fazer o curso ginasial em Ubá, cidade vizinha a Rodeiro, às expensas do pai, apesar das dificuldades financeiras da família. Concluído o ginásio, no começo de 1970, instalou-se na casa de uma irmã, Hilda, em Juiz de Fora, para cursar o colegial na Academia de Comércio, convivendo com um cunhado que era terceiro-sargento do Exército e fervoroso defensor do regime militar (1964-1985), sempre disposto a encontrar comunistas em todos os lugares. 

Mais tarde, incomodado com a convivência, partiu para morar sozinho em tugúrios próximos à rodoviária de Juiz de Fora, sobrevivendo com aulas particulares de matemática e ainda com a ajuda do pai. Conseguiu, então, uma vaga na Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), dando início a uma carreira vitoriosa na profissão escolhida. Estagiou numa construtora e, mais tarde, fez pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quando, então, tornou-se consultor do Banco Mundial, por indicação de seu professor e orientador de sua tese. A partir daí, começou a conhecer o vasto mundo e a escrever suas memórias.

 

                                                       II

É este, portanto, um livro dentro de outro livro, mas o que se detecta aqui é a existência de um fenômeno que, em poesia, o célebre escritor mexicano Octavio Paz (1914-1998) definiu com o neologismo otridade que a tradutora Olga Savary (1933-2020) traduziu por outridade, com a aprovação do filólogo Antônio Houaiss (1915-1999), ao invés de se limitar a traduzir por alteridade, que significa “quase” a mesma coisa, como ela mesma diz em nota à página 110 de O Arco e a Lira (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1982).  Em outras palavras: também na construção de um romance, constata-se a existência do fenômeno da outridade, ou seja, uma operação durante a qual o escritor tira ou extrai de seu íntimo certas sensações e recordações e, “a cada passo, é outro e ele mesmo”, como observa Paz naquela obra (à página 215).

Trata-se da “outra voz” que o professor Massaud Moisés (1928-2018) sempre preferiu chamar de “eu”, para definir o ego ou um alter ego, ou seja, a existência de um protagonista típico do romance lírico, “no qual o narrador e a personagem se combinam para criar um “eu” no qual a experiência é moldada como imagens”, como observa em A Criação LiteráriaProsa II (São Paulo, Cultrix), à página 50, reproduzindo citação do professor e crítico literário alemão Ralph Freedman (1920-2016), em The Lyrical Novel (Princeton, Princeton University Press, 1966, p. 31).  

É o que faz Ruffato em Flores artificiais no qual o autor também se transforma em personagem, passando para o protagonista principal as experiências e emoções por ele vividas em vários lugares do mundo, embaralhando as fronteiras entre a ficção e a realidade, “sem jamais perder de vista a força literária que é a grande marca de sua obra”, como se lê no texto de apresentação (sem autoria) publicado nas “orelhas” do livro.

É o que se pode comprovar também neste trecho do capítulo intitulado “O homem que não tinha onde cair morto” em que é traçado um rápido perfil do memorialista-protagonista que, embora vivendo há mais de vinte anos em Washington, sendo proprietário de um apartamento na rua Paissandu, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, dizia que nada teria a quem legar:

“(...) Não pertenço a lugar algum, ou, sempre fui, um estranho, um estrangeiro... Não me entreguei à vida. – ela me largou num parque abandonado ... E não tive competência para formar família, filhos, cães, gatos, passarinhos... Amei algumas mulheres, mas sempre me apavorou a ideia de ser rejeitado – antes que me repelissem, abdicava delas... Para não sofrer no futuro, padecia no presente...”

 

                                                                 III

Luiz Ruffato (1961), nascido em Cataguases, em Minas Gerais, é formado em Comunicação Social pela UFJF. Como jornalista formado, trabalhou em diversos jornais até se mudar para São Paulo em 1990. Em 2003, abandonou a carreira de jornalista profissional para se tornar escritor em tempo integral. Neto de um imigrante português, é filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira de roupas (muitas vezes descrita por ele como analfabeta), originária do Norte da Itália. Formou-se torneiro-mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e trabalhou como operário da indústria têxtil. Foi também pipoqueiro, além de atendente de armarinho, durante a juventude.

Dono de vastíssima obra, publicou os cinco volumes que formam a série Inferno Provisório, composto pelos romances Mamma, son tanto felice (2005), O Mundo Inimigo (2005), Vista Parcial da Noite (2006), O Livro das Impossibilidades (2008) e Domingos sem Deus (2011). Seu livro de estreia foi O Homem que Tece (1979), poemas sobre o operariado e a classe média baixa. Seu segundo livro foi Histórias de Remorsos e Rancores (1998), reunião de sete contos que giram em torno dos mesmos personagens, moradores do beco do Zé Pinto, em Cataguases.

Em 2000, publicou Os Sobreviventes, que recebeu menção especial do Prêmio Casa de las Américas, de Havana. O livro é composto por seis contos, cujos personagens são pessoas das classes baixa e média. Nos últimos anos, publicou pela Companhia das Letras os romances O Verão Tardio (2019) e O Antigo Futuro (2022).

É autor ainda de Eles eram muitos cavalos (2001), que recebeu o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional e o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e Estive em Lisboa e lembrei de você (2009), resultado de sua participação, em 2007, no Projeto “Amores Expressos”, que apoiou viagens de diversos autores brasileiros a diferentes cidades do mundo, com o objetivo de que produzissem romances com a temática do “amor”. O romance conta a história do personagem Sérgio, morador de Cataguases que, devido a uma série de infortúnios, vê na emigração para Portugal a solução para os seus problemas, mas que acaba por enfrentar situações difíceis em Lisboa como imigrante.

Publicou ainda cinco livros de poesia, dois de crônicas, três em ensaios, um de literatura infantil e um de contos, A Cidade Dorme (São Paulo, Companhia das Letras, 2018), além de ter organizado coletâneas e participado de antologias. Em 2015, ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria infantil, com o livro A História Verdadeira do Sapo Luiz.

Teve vários de seus livros traduzidos para os idiomas alemão, espanhol, italiano e francês. Três de seus livros foram publicados também em Portugal: Eles eram muitos cavalos (Espinho, Quadrante Edições, 2006), Estive em Lisboa e lembrei-me de ti (Lisboa, Quetzal Edições, 2010) e De mim nem se lembra. (Lisboa, Tinta da China, 2012). Seus livros estão publicados também em países da América Latina e da África. Foi escritor residente na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, em 2012, e recebeu o Prêmio Internacional Hermann Hesse, na Alemanha, em 2016. Adelto Gonçalves - Brasil

________________

Flores artificiais, de Luiz Ruffato. São Paulo, Companhia das Letras, 152 páginas, R$ 47,08, 2014. Site da editora: www.companhiadasletras.com.br  E-mail: sac@companhiadasletras.com.br

_________________________

Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),  é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos.  E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Macau - Ricardo Adolfo vem à Livraria Portuguesa apresentar “o Japão que não está na rua”

O escritor Ricardo Adolfo vai estar presente na Livraria Portuguesa para uma sessão de apresentação do seu mais recente livro, “A Chefe dos Maus”, já na próxima segunda-feira. Munido do mesmo tom sarcástico e mordaz que revelou nas suas obras anteriores, o autor apresenta uma crítica às convenções sociais japonesas e ao mundo corporativo global, onde as directrizes de diversidade coexistem, muitas vezes, com uma boa dose de hipocrisia. “Além de senhoras a trabalhar, temos de ter mais pessoas de mais cores e uns poucos deficientes”, anuncia o chefe de uma organização mafiosa japonesa a um grupo de homens atónitos. E assim começa uma viagem pelos cantos mais obscuros do Japão


Tóquio é uma cidade de camadas. Há a capital dos transportes públicos limpos e pontuais; das escadas rolantes em que se segue invariavelmente pela esquerda; da educação automática, quase maquinal, embutida nos “obrigados” e nas vénias de quarenta e cinco graus. Por baixo da educação polida à exaustão, esconde-se tudo aquilo que não convém discutir abertamente e que fica reservado para a intimidade. A vida nocturna. A sexualidade. O crime organizado.

Mas, na Tóquio moderna, até o submundo do crime tem de manter uma fachada apresentável. É este o ponto de partida para A Chefe dos Maus, o novo livro de Ricardo Adolfo: uma empresa de criminosos que tenta parecer legítima, ao ponto de até se esforçar por adoptar as mesmas políticas de diversidade que começam a ser exigidas pelo Japão fora. Entre bares de alterne, actividades ilícitas e manipulação, a revolução vem de onde menos se espera. Não dos clientes extorquidos, não das autoridades: no final, é uma mulher insegura e submissa quem desconstrói a hipocrisia deste submundo aparentemente inabalável.

Para Ricardo Adolfo, a escolha do tema do livro foi natural. Trabalha há cerca de vinte anos na área da publicidade, os últimos dez passados em Tóquio, e tem observado em primeira mão as mutações constantes do mundo corporativo – mas também a resistência feroz às mesmas. “O trabalho está a mudar, e tem de mudar. No entanto, ainda há muita resistência e muitos hábitos mais tradicionais, sobretudo num país como o Japão”, observa o escritor português, em conversa com o Ponto Final.

Os ventos da mudança, porém, fazem-se sentir por todo o mundo – e a Ásia Oriental não é excepção. “Há uma modernidade que entrou pelos nossos dias e deixou algumas empresas numa espécie de estado de choque. Todas estas coisas são novas, diferentes, e pensei que seria interessante explorar esta tensão”.

Ao tema da nova roupagem dos quadros de chefia, acrescenta-se uma sátira inteligente sobre as hierarquias patriarcais e os estereótipos de género e uma visão inédita sobre as empresas criminosas que proliferam no Japão. As ideias pré-concebidas dos ‘gangsters’ japoneses cobertos de tatuagens dos pés à cabeça talvez precisem de uma reinvenção mais adequada ao século XXI, segundo relata Ricardo Adolfo.

“Um dos grandes atractivos para a história foi perceber que estas empresas existem mesmo e que estão a fazer de tudo para parecerem normais, legítimas. Foi dito aos gangues: vocês não podem estar na rua, não podem ser bandidos à moda antiga; têm de pôr um fato e gravata, ter uma morada, pagar impostos”. E é o que tem acontecido. O submundo do crime sai das sombras, toma banho, perfuma-se e veste-se a rigor para continuar as suas condutas imorais, desta vez escondidas a céu aberto. “O cúmulo do fingimento é esse: até fingem a questão da diversidade. Fingem tudo. Foi essa mentira em cima da mentira que eu achei interessante”.

Como português radicado no Japão, Ricardo Afonso tem uma perspectiva observadora e atenta dos hábitos japoneses, incluindo aqueles que poderão passar despercebidos a um habitante autóctone. A “cultura muito específica, cerimoniosa, com ainda maiores cerimónias e formalidades à volta de uma mesa de reunião” foi retratada de forma fiel e espirituosa no livro, fruto de uma experiência imersiva de uma década. Os aspectos mais sensíveis, como as organizações criminosas e o seu funcionamento interno, exigiram outra abordagem.

“Foi uma mistura entre pesquisa teórica e pesquisa de terreno”, conta o autor. “Uma parte da pesquisa veio de livros e filmes, porque o Japão tem uma cultura muito rica de ficção à volta destes grupos criminosos. Quanto à outra, foi mesmo ir ao terreno e tentar falar com pessoas e descobrir algumas histórias. Há uma parte destas actividades menos legais que é feita à vista de toda a gente. A forma como eles emprestam dinheiro com taxas de juros muito elevadas… apesar de não ser legal, é público”.

Tal como os bares nocturnos em Kabukicho que a protagonista visita ao longo da sua jornada, onde é possível arrendar a companhia – e a ilusão temporária de intimidade – de jovens rapazes de aparência andrógena, rostos maquilhados e cabelos tingidos de loiro. “Há o Japão da rua, que toda a gente vê. Depois, entras numa porta e já não sabes onde estás. Essa exploração das várias camadas foi algo que adorei fazer. Gosto muito desse Japão que não está na rua”.

O universo masculino saqueado por uma mulher

“O seu universo estava prestes a ser saqueado por uma mulher”, lê-se na primeira metade do livro. A estagiária recém-promovida tinha acabado de chegar à sua primeira noite de formação num destes bares de ‘hosts’, para desagrado do Chefe de Entretenimento – um dos muitos chefes com quem teria de lidar nas páginas seguintes.

Dentro deste mundo hiper-masculino, foi dada voz a uma protagonista feminina. A assistente do Chefe dos Chefes sabe que não deve falar de forma inoportuna – isto é, sempre que não lhe seja expressamente pedido. As suas opiniões não importam. A sua presença é ignorada, na maior parte das vezes, e indesejada, quando começa a sua série de “estágios” em diferentes vertentes criminosas. Tudo em nome da diversidade, e não do valor que (não) lhe reconhecem.

Ricardo Adolfo não é estranho à perspectiva feminina, como o público já sabe desde os tempos de Mizé – Antes Galdéria do que Normal e Remediada, obra publicada em 2006. Apesar de ser “sempre um desafio” escrever sob o ponto de vista do sexo oposto, o autor reconhece nas suas personagens mulheres uma potencialidade dramática especial, assim como uma oportunidade para salientar “problemas sociais” ainda por extinguir.

“Acho que há problemas femininos mais interessantes e relevantes para serem debatidos hoje em dia. Não quer dizer que não haja problemas masculinos interessantes, mas quando se põe um ao lado do outro ainda há uma urgência maior em tentar contar histórias de um ponto de vista feminino, porque há desafios que só acontecem a uma mulher. E isso dá mais energia, relevância e contemporaneidade às histórias”.

Mizé é determinada, ambiciosa, cheia de confiança e amor-próprio. A estagiária, criada vinte anos depois no outro lado do mundo, é obediente e sossegada como exige a educação japonesa. Foi este o principal desafio do autor: não está apenas a escrever uma mulher, mas uma mulher japonesa. “Demorei muito tempo a escrever do ponto de vista japonês, apesar de já cá viver há muitos anos. Sempre tive algum receio”.

A Chefe dos Maus é o segundo dos seus romances a usar o Japão como pano de fundo para o desenrolar da acção. Um pano de fundo rico e dinâmico, cheio de detalhes inexistentes em qualquer outro lugar do mundo, que acaba por se tornar personagem própria. No entanto, se Tóquio Vive Longe da Terra, de 2015, conta a alienação de um estrangeiro numa cultura distante, o enredo do livro mais recente é construído a partir da perspectiva de uma mulher nascida e criada neste mundo paralelo.

“O ponto de vista de um homem estrangeiro era mais fácil… Foram precisos muitos anos a tentar ganhar coragem para escrever uma personagem feminina japonesa”. Publicado o livro, resta agora conhecer o ‘feedback’ das leitoras do Japão. “Acho que, do ponto de vista não japonês, a personagem feminina resulta. Agora tenho ainda de ouvir a segunda parte, que é a parte de cá”.

O primeiro dos seus livros a ser traduzido para japonês, Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas, foi “surpreendentemente” bem acolhido pela comunidade local, apesar de o autor ser – por enquanto – “desconhecido” no Japão. “Como esse correu bem, este pode ter algumas hipóteses…” A expressão de Ricardo Adolfo abre-se num sorriso hesitante. “Apesar de ser um bocadinho crítico da sociedade japonesa, não é?”.

A sessão de apresentação de A Chefe dos Maus decorre na próxima segunda-feira, dia 22 de Dezembro, a partir das 18h30, com a presença do próprio autor. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


domingo, 30 de novembro de 2025

“Traduzir-se”









“Traduzir-se”

 

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

 

Ferreira Gullar – Brasil

In Na vertigem do dia” (1980, Editora Companhia das Letras)



____________

Poeta e homem de letras brasileiro, Ferreira Gullar nasceu com o nome de José Ribamar Ferreira a 10 de setembro de 1930 na cidade de São Luís, a capital do estado do Maranhão, e morreu a 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro. Filho de um comerciante e irmão de dez outras crianças, iniciou os seus estudos aos sete anos de idade no Jardim Decroli. A partir dos nove passou a receber educação formal através de professores particulares e, mais tarde, foi inserido num colégio, de onde fugiu eventualmente.

Na tentativa de mitigar o problema disciplinar da criança, os pais tomaram a decisão de a matricular, em 1941, no Colégio de São Luís de Gonzaga. Remediando o seu comportamento, manteve-se um aluno recomendável durante algum tempo. Não obstante o facto de ter sido admitido depois no Ateneu Comercial Teixeira Mendes com honras e louvores, tornou a dispersar-se, reprovando um ano. Transferiram-no então para a Escola Técnica de São Luís, instituição de ensino menos exigente e mais liberal.

Foi salvo pela descoberta da poesia: apaixonando-se com apenas treze anos de idade por uma vizinha, renunciou ao companheirismo das brincadeiras de criança para se encafuar nas bibliotecas públicas, em busca de inspiração para a feitura dos seus versos de amor. Passou em consequência a obter resultados excecionais na disciplina de Português, graças sobretudo ao seu talento para as composições.

Terminou o ensino secundário em 1948, ano em que não só publicou o seu primeiro poema num jornal local, como começou também a trabalhar, quer como locutor radiofónico quer como colaborador num outro órgão da comunicação social. No ano seguinte publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poemas intitulada Um Pouco Acima do Chão (1949).

Em 1950 foi testemunha de um acontecimento trágico. Durante um comício de um candidato contra o regime de ditadura, assistiu ao assassinato de um operário durante uma carga policial. Recusando-se a ler a notícia ao microfone da rádio estatal em que trabalhava, foi despedido, mas logo convidado a juntar-se à digressão eleitoral do político em questão. Ainda em meados do mesmo ano, saiu vencedor de um concurso literário de relevo.

Sabendo-se persona non grata pelas autoridades do Maranhão, decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro em 1951. Passou a colaborar com diversas publicações, não só como redator, mas também na qualidade de revisor. Contraindo depois o bacilo da tuberculose, foi obrigado a um período de convalescença de cerca de três meses.

Em 1954 publicou uma das suas obras mais conhecidas, a compilação de poemas Luta Corporal e, em 1959, deu um passo importante ao surgir com o Manifesto Neo-Concreto, no qual procurava qualificar a sua própria poesia. Juntando-se a alguns artistas plásticos, chegou a apresentar instalações interactivas, combinando a palavra com a pintura e a escultura.

Em 1961 foi nomeado diretor da Fundação Cultural de Brasília e, no âmbito das suas funções, iniciou a construção do Museu de Arte Popular. No ano seguinte publicou João Boa-Morte, Cabra Marcado Para Morrer (1962) e Quem Matou Aparecida (1962).

Tomando contacto com o movimento estudantil brasileiro, foi gradualmente radicalizando as suas opiniões políticas até que, em 1964, se afiliou no Partido Comunista. Preso pelos esbirros da ditadura em 1968, juntamente com Gilberto Gil e Caetano Veloso, partiu para o exílio em 1971, primeiro rumo à ex-União Soviética, logo para Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires. Regressando ao Brasil apenas em meados de 1977, foi preso novamente. Liberto após muitas e demoradas diligências tomadas por parte dos seus amigos, Ferreira Gullar pôde retomar as suas actividades poéticas e jornalísticas.

Após o aparecimento das obras compostas no exílio e, muitas delas impressas no estrangeiro, como Dentro da Noite Veloz (1975) e Poema Sujo (1976), o autor publicou Na Vertigem do Dia (1980), Barulhos (1987), O Formigueiro (1991) e Muitas Vozes (1999), entra outras de diversos géneros.

Em 1992 foi nomeado director do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, cargo que ocupou até 1995. A sua vida e a sua obra foram muitas vezes agraciadas, tendo sido homenageado com vários prémios literários internacionais, com particular destaque para o Prémio Príncipe Claus da Holanda e para o Prémio Camões, em 2010. In “Wook”



 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Portugal - Nova biografia no centenário de Saramago revela episódios inéditos do Nobel

No ano do centenário de José Saramago, chega às livrarias uma nova biografia do escritor, que revela episódios inéditos da vida do serralheiro que assumiu um compromisso com o ofício da escrita e chegou a Prémio Nobel da Literatura.

“As 7 vidas de José Saramago” é o título desta monumental biografia, de 752 páginas, escrita pelo ensaísta Miguel Real e a encenadora Filomena Oliveira, com trabalho feito sobre obras saramaguianas, que “mergulharam nos arquivos do escritor” para contar a sua história de vida, revela a editora Companhia das Letras.

O resultado é, nas palavras da editora, um relato empolgante, rigoroso e com muitas histórias inéditas, da vida íntima de um “homem universal”, que na juventude pediu um empréstimo de 300 escudos para comprar livros e, como não tinha estante em casa, guardou-os num armário da cozinha.

Este é um dos episódios pouco conhecidos da vida de José Saramago que são contados nesta biografia, que percorre as “7 vidas de José Saramago”, desde a infância na Azinhaga à consagração em Estocolmo, e descreve como o Nobel da Literatura português começou como um “menino pobre numa Lisboa hostil de que se sentia excluído em todos os aspetos”, e decidiu derrubar todas as suas muralhas, criando a “Josephville”, cidade ideal que o escritor descreveu numa crónica em 1968, por contraposição à cidade real.

Da sua infância fica também a saber-se que o nome Saramago, com que se consagraria, resulta de um engano do funcionário do Registo Civil (que o escritor retrataria como um bêbado), que o registou com o apelido pelo qual a família era conhecida na Golegã e na Azinhaga – os Saramago – em vez de Sousa.

Só quando foi matriculado na escola é que os pais descobriram, o que obrigou o pai a mudar o próprio nome para corresponder ao do filho.

Foi também na infância, após a morte do irmão Francisco, que viveu a experiência traumática de ser abusado sexualmente por um grupo de rapazes, um episódio relatado na biografia, através das próprias palavras do escritor.

Ancorados nessa Josephville criada por Saramago, Miguel Real e Filomena Oliveira contam simultaneamente a história de José Saramago e de um outro século XX português: torna-se serralheiro e autodidata, será escritor, encontrará formas de ocupar o espaço social, cultural e político que lhe permitirá operar a revolução que idealizou e em que crê obstinadamente, o que levará a criar obras como “Memorial do Convento”, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, e “Ensaio sobre a cegueira”.

De 1992 para 1998, ano em que foi distinguido pela academia sueca, Saramago vê a sua “almejada Josephville transformar-se num mundo que o celebra e ao seu trabalho”.

Em 1994 – este é outro dos episódios reproduzidos na biografia -, Saramago fez um pacto com o escritor brasileiro Jorge Amado: dos dois, o que ganhasse o Prémio Nobel convidaria o outro para a cerimónia oficial. O autor brasileiro escreveu a Saramago dizendo que tinha informação fidedigna de que António Lobo Antunes seria o vencedor nesse ano, mas, afinal, a distinção acabaria atribuída ao japonês Kenzaburō Ōe.

A miséria do campo, a migração para a capital, a sujeição social a que a pobreza obriga, o percurso profissional e ideológico, o compromisso com a escrita, o autodidatismo, a vida amorosa, o fracasso do primeiro romance, a direção do DN e o episódio do saneamento de jornalistas, a censura ao “Evangelho segundo Jesus Cristo”, a ida para Lanzarote e o Nobel são alguns dos momentos chave relatados nesta obra.

“As 7 vidas de José Saramago” está dividida em sete capítulos que descrevem as diferentes fases da vida do escritor, a primeira das quais centrada no “camponês urbano”, que veio para Lisboa aos dois anos, e cuja personalidade ficou mais marcada pelas memórias da infância e adolescência na Azinhaga e na casa dos avós maternos, com a lezíria, os animais e os pequenos hábitos domésticos, do que no ambiente citadino e mais rigoroso, com a severidade do pai, o pouco afeto da mãe e as casas repartidas.

A “segunda vida” é a de “pequeno burguês realizado e escritor falhado” e versa sobre a totalidade das décadas de 1940 e 1950, de aluno na Escola Industrial a serralheiro no Hospital de São José e empregado de escritório em duas Caixas de Previdência, buscando uma ascensão social (sai de casa dos pais, casa e tem uma filha) e estética (com a descoberta de Pessoa e a obsessão pela escrita). Este período é marcado pelos seus primeiros fracassos editoriais.

A “terceira vida” é a de editor, corresponde à década de 1960 e versa sobre o trabalho de Saramago como editor na Editorial Estúdios Cor, tornando o seu nome publicamente conhecido do meio intelectual, enquanto a “quarta vida” é a de “Saramago jornalista”, e abrange os primeiros anos de 1970, quando é convidado a escrever crónicas no jornal A Capital, se divorcia de Ilda Reis, se apaixona por Isabel da Nóbrega, despede-se conflitualmente da Estúdios Cor, prossegue as traduções e sente-se feliz, porque pela primeira vez na sua vida, com 50 anos, tem tempo para escrever.

A “quinta vida”, a de escritor português, aborda a década de 1980 e, no todo do seu percurso, corresponde à conquista da “cidade” – a realização plena como escritor português e o lançamento da sua obra ao nível internacional, o que conduz à sua “sexta vida”, a de escritor internacional, estatuto que assume a partir de 1991, abandonando as temáticas portuguesas e centrando-se na análise da natureza humana, numa altura em que já estava com Pilar del Rio e em que se muda para Lanzarote.

O último capítulo da biografia, correspondente à “sétima vida” do escritor, debruça-se sobre “Saramago, ele próprio” e acompanha a sua vida desde 1998, ano em que recebe o Nobel e em que se sente plenamente realizado como escritor e cidadão do mundo, até 2010, ano da sua morte.

José Saramago nasceu a 16 de novembro de 1922. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”