Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Galiza - A incrível história secreta da língua portuguesa

À partida, certos assuntos parecem nom render boa literatura. Com certeza, temas filológicos, gramaticais ou lingüísticos estariam entre eles



Porém, o português Marco Neves acaba de demonstrar o contrário com a publicaçom do original romance A incrível história secreta da língua portuguesa.

O autor é professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e diretor do escritório de traduçom Eurologos em Lisboa, e já tinha publicado um magnífico ensaio com o sugerente título Doze segredos da língua portuguesa.

A incrível história secreta da língua portuguesa, estruturado em 10 capítulos precididos por um prelúdio e divididos por um intervalo, segue a esteira doutros escritores que se atrevêrom a transformar a aridez de gramáticas ou situaçons sócio-lingüísticas em textos leves e divertidos. Foi o caso do galego Joám Manoel Pintos que escreveu A gaita galega no século XIX, no qual alterna prosa e verso para ensinar a ler e escrever a língua galega; ou o brasileiro Monteiro Lobato que ousou desafiar o aborrecimento das regras gramaticais e criou o extraordinário conto de literatura infantil Emília no país da gramática. Mais recentemente, outro brasileiro, Marcos Bagno, atreveu-se com um romance sócio-lingüístico, A língua de Eulália, um dos livros mais bonitos que já lim.

O romance de Marco Neves começa com umha professora de português que volta à sua casa familiar ao norte, a umha aldeia que fica “ali mesmo encostada à Galiza”. Lá fica “derretida” com o sotaque galego do português da sua infáncia e vive umha incrível descoberta no faiado da sua casa.

A seguir, a narraçom dá um pulo no tempo e é abordado o nascimento da língua galego-portuguesa através de umha história de amor entre um soldado romano e umha rapariga celta. Ouviremos frases em línguas célticas mas também um latim com sotaque da Gallaecia que irá sendo modulado polas línguas locais.

No segundo capítulo, o protagonista mergulha numha emocionante missom secreta no reino dos Visigodos. Lá percorrerá territórios do continuum dialetal ibérico até chegar a Toledo ouvindo diferentes “sotaques” e formas do que virám a ser os ibero-romances modernos.

Depois viajaremos por terras mouras, até Al-Uxbuna, e assistiremos à separaçom política do povo galego-português, ao nascimento de Portugal e à construçom do padrom lusitano que “nasceu desse galego eivado de arabismos que se falava nas ruas de Lisboa”. Afinal, como bem afirma o autor, “muito do que faz um país é, mais do que aquilo de que nos lembramos, aquilo que esquecemos... E Portugal, para ser Portugal, esqueceu-se da Galiza”.

Trovadores galego-portugueses como Martim Codax e o rei Dom Dinis, clássicos da literatura portuguesa como Gil Vicente, Camões, Eça ou Camilo, brasileiros bilíngües que alternam o seu galego tropical com a língua geral tupi-guarani ou um galego mudo que mora no Portugal do século XX, som algumas das personagens desta Incrível História da nossa língua. Incrível e nom só, pois Marco Neves torna essa entediada disciplina universitária do curso de letras num texto que, para além de engenhoso, tem umha grande qualidade literária. Doses de intriga, ciúme, violência e amor será o que encontrará o leitor nesta história sobre a língua que hoje falamos com paixom galegos, portugueses, africanos e brasileiros. Diego Bernal – Galiza in “Diário Liberdade”

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Marco António Franco Neves - Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: há três anos que é também pai, com o ofício de contar histórias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas. Nasceu em Peniche e vive em Lisboa. É director do escritório de Lisboa da empresa de tradução Eurologos e professor de várias disciplinas de Prática da Tradução na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Escreve no blogue Certas Palavras sobre línguas, livros e outras viagens. É autor dos livros Doze Segredos da Língua Portuguesa (Guerra e Paz, 2016) e A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra e Paz, 2017).


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Diego Bernal - Nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.

sábado, 18 de março de 2017

Galiza - Basco, catalám e galego

A língua basca é a língua própria do País Basco e Navarra.

No século XX, o basco estava numha situaçom dramática. Tinha poucos falantes, estava fragmentada, carecia de tradiçom literária medieval e era muito difícil de aprender. Porém soubêrom tornar vantagens o que à partida eram inconvenientes. Gabárom-se de ser a língua mais antiga da Europa, elaborárom um discurso democrático de defesa da diversidade lingüística e figérom questom em mostrar a utilidade de conhecer um código que os unia e identificava como povo e, aliás, lhes permitia comunicar-se sem serem entendidos por outros. Com a receita antigüidade, ecologia e identidade o basco ganhou falantes e futuro.

O catalám é umha língua minoritária que chegou a finais do século XX menorizada na maioria dos territórios em que era falada. Encontrava-se numha posiçom de fraqueza em relaçom ao castelhano, umha das línguas mais faladas do planeta. A Catalunha, altamente industrializada, recebeu milhares de trabalhadores que falavam castelhano. O catalám, perseguido e proibido na ditadura, recuava. No entanto, também tinha pontos fortes. O novo governo autónomo sabia da sua vitalidade no pequeno comércio e fijo leis para o proteger. Hoje o catalám é a língua da economia e dos negócios e língua veicular no ensino. Além do mais, valorizou-se através de prestigiosas entidades como o F.C. Barcelona e desportistas como Guardiola ou Piqué. A receita catalá foi economia, ensino e prestígio social. O catalám virou a língua menorizada mais importante da Uniom Europeia com cerca de 11 milhons de pessoas alfabetizadas.

O galego chegava no último quartel do século XX melhor posicionado que o basco e o catalám. Era a língua maioritária da Galiza e tinha umha rica tradiçom escrita medieval. No entanto, tinha importantes pontos fracos. As elites políticas e económicas falavam castelhano e o galego estava estigmatizado e confinado no mundo camponês e marinheiro. A queda de falantes era constante. Contodo, tinha no seu ADN umha arma secreta invencível: o galego podia entrar na Champions League das línguas internacionais. Tornar-se, num piscar de olhos, a língua mais falada do hemisfério sul. Deixar de ser umha sofredora fala regional para se converter na língua de 250 milhons de pessoas e oficial em 8 estados e na UE. Os custos eram mínimos, o ganho extraordinário. A Galiza seria um dos territórios mais privilegiados do mundo do ponto linguístico. Os seus habitantes poderiam dominar as duas línguas romances mais faladas do planeta e comunicar com mais de 700 milhons de pessoas.

Infelizmente, quigemos ser o que nunca fomos, umha língua minoritária como a catalá e única como o basco.

“Os galegos têm a sorte rara de poderem fazer essa opção, coisa do que não se podem gabar bascos e catalães” advertia o erudito português e galegófilo, Rodrigues Lapa.

Mais umha vez na história, as nossas elites figérom a escolha errada. E se mudarmos de receita? Com os dados em cima da mesa, acho que vale a pena tentar. Diego Bernal – Galiza in “Diário Liberdade”

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Oxalá

Língua de futuro, língua universal

“Pega na cona e vai botando os polvos!” - berrou um marinheiro no porto de Ferrol.

- E tu que figeche? -perguntei.

- Caralho! Eu aguardei para ver o que acontecia!

Esta anedota contou-ma um militar aposentado na romaria que emigrantes galegos organizam anualmente em Alcalá de Henares. Naturalmente, desconhecia que pegar era sinónimo de colher ou apanhar bem antes de o cantor brasileiro Michel Teló popularizar a música “Ai se eu te pego”, cona e buceta eram embarcaçons tradicionais galegas antes de se tornarem vulgares metáforas dos órgaos genitais femininos e polvo, apesar da teima de algum político, é um vocábulo felizmente vivo nas falas do Morraço. 

Um professor de latim da Universidade da Corunha, natural de Goiám, confesa-me que na sua casa pavo sempre foi peru, polo frango, chícharos ervilhas e oxalá tomara.

Num vídeo feito pola associaçom cultural Gentalha do Pichel umha idosa da comarca de Compostela ainda lembra os dias da semana por feiras. Perguntada por que o povo trocou quinta-feira por jueves responde “porque era mais fino”.

Eduardo Maragoto, realizador de dous magníficos documentários sobre a cultura e as falas galego-portuguesas, Entre Línguas e Em companhia da morte, revela-me ao balcom de um bar que acaba de registar o termo chá na Galiza referido a ervas para fazer infusons.

Em Rairiz de Veiga, eu próprio descobrim a galeguidade de lingüiça e maluco, ambas com o mesmo uso e significado que tenhem no Rio de Janeiro ou São Paulo. 

Um axioma é umha afirmaçom evidente. Poderíamos aplicar um monte de axiomas ao nosso povo. Todo galego tem um parente que emigrou, poderia ser um. Todo galego tem umha história familiar sobre umha palavra rara, poderia ser outro. Às vezes a língua galega se parece com um quebra-cabeças. E se uníssemos todas essas palavras esquisitas ouvidas nas nossas aldeias, aos nossos avôs, como fichas de um quebra-cabeças?

Durante séculos acreditamos que o galego era umha língua rústica e inútil. Muitos dos nossos familiares, por praticidade, trocárom-na pola castelhana, língua universal. Porém, o galego nom era umha língua local. É umha língua mundial, falada por mais de 250 milhons de pessoas, oficial em 8 estados, com presença nos 5 continentes e hoje estudada como língua estrangeira por milhares de pessoas em todo o planeta. É a língua da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Até agora o galego era visto como atraso e o castelhano como invasor. Por que nom olhar em positivo? Somos o único país do mundo onde som faladas as duas línguas romances mais universais. Onde o universo hispânico fica de mãos dadas à galáxia lusófona.

A ILP Paz Andrade, aprovada por unanimidade no parlamento, é umha magnífica iniciativa para tirar proveito da nossa condiçom de galegos. Talvez, de aqui a uns anos, as novas geraçons consigam juntar todas essas palavras raras que diziam os nossos avôs e repararám que o desenho do quebra-cabeças nom é umha bucólica palhoça dos Ancares senom um moderno globo do mundo. Diego Bernal – Galiza  in “Diário Liberdade”

Dedicado às doze pessoas que estám a ser perseguidas por defenderem a língua da Galiza dos ataques supremacistas de Galicia Bilingüe, grupelho que fomenta o ódio entre os galegos e galegas e defende a desapariçom dos direitos língüísticos da comunidade lusófona da Galiza e o empobrecimento cultural através da imposiçom do castelhano. Muita força camaradas! #8f45anos