Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

A marca portuguesa em Hong Kong: uma história de adaptação e influência

Um projecto inédito para Hong Kong realça pela primeira vez a importância das diferentes comunidades imigrantes, que teceram a malha multicultural que define o porto seguro da ex-colónia. Uma colecção que remonta ao passado menos apreciado do domínio europeu na Ásia, a exposição “Estórias Lusas”, no Museu de História de Hong Kong, é, mais que tudo, um tributo aos frutos positivos desse ponto de encontro entre impérios. Uma comunidade mista que trouxe todas as influências das deambulações portuguesas pelo mundo e que hoje contribuem para a projecção de um pequeno território, numa das mais influentes regiões do globo. Sem data para encerrar, a exposição permanente é um dos destinos de destaque na actual agenda cultural de Hong Kong



A história da comunidade portuguesa em Hong Kong, agora apresentada numa exposição abrangente no Museu de História de Hong Kong (HKHM), constitui um valioso estudo de caso sobre a resiliência, a capacidade de adaptação e a importância das relações interculturais no desenvolvimento de uma sociedade cosmopolita. Inaugurada a 27 de Novembro de 2024 e sem previsão de encerramento, até ao próximo projecto de grande escala, a exposição “Estórias Lusas – Stories of the Hong Kong Portuguese” faz parte da primeira fase de uma nova série de instalações dentro da já existente exposição permanente do museu, intitulada “Multifaceted Hong Kong Exhibition Series”, ou “Série de Exposições Multifacetadas sobre Hong Kong”.

Por entre objectos doados ou oferecidos pela comunidade lusa em Hong Kong, instalações de grande escala e utilização de novas tecnologias, como “projection mapping” e mapas interactivos, a exposição ocupa um total de 10 salas no segundo andar do museu e é o resultado de uma colaboração entre o Departamento de Serviços de Lazer e Cultura e o HKHM.

A iniciativa museológica de grande envergadura reúne um vasto conjunto de artefactos, incluindo documentos históricos, objectos pessoais, fotografias, obras de arte e depoimentos de descendentes, oferecendo um olhar aprofundado sobre os mais de 150 anos de presença portuguesa na antiga colónia britânica.

Desde a chegada dos primeiros portugueses vindos de Macau em meados do século XIX, até à actualidade, a presença portuguesa em Hong Kong tem sido marcada por uma contribuição multifacetada, que abrangeu a esfera económica, social, cultural e desportiva. A análise dos documentos e testemunhos existentes revela um percurso de desafios e conquistas, que merece ser reconhecido e preservado como parte integrante da história de Hong Kong.

A exposição é estruturada de forma a guiar o visitante através da jornada da comunidade portuguesa, destacando a sua capacidade de adaptação às realidades locais. A narrativa começa com a chegada dos primeiros portugueses, oriundos principalmente da então colónia portuguesa de Macau, porto de entrada para trocas comerciais com Cantão, e detalha a sua integração gradual na sociedade de Hong Kong.

Um mapa de 1872, que ilustra a área em torno da Graham Street, onde se encontra um dos mercados de rua mais antigos da cidade actualmente, identifica que 18 das cerca de 100 habitações eram marcadas como portuguesas.

Figuras actuais como Francisco Da Roza, ex-presidente do Club Lusitano, o clube social português mais antigo da cidade, em entrevista à Zolima CityMag em 2016, observou que actualmente ainda existem muitos vestígios vivos da presença portuguesa, mas destacou que, após uma integração profunda, a maioria das pessoas não o identificaria como português.

“Podemos rastrear os nossos ancestrais até uma pequena aldeia perto de Lisboa, mas eu estive em Hong Kong por mais de 50 anos, e a minha família tem estado em Macau ao longo de mais de 300 anos”. Da Roza é um dos mais ávidos protagonistas desta nova mostra, que tem estado em gestação desde meados de 2019, em busca de, pela primeira vez, destacar uma comunidade que em tempos chegou a ser o maior grupo estrangeiro da cidade, até mais populoso que as personagens no comando da coroa britânica.

A exposição explora os desafios enfrentados, como as barreiras linguísticas e culturais, as dificuldades de adaptação às condições de vida e as oportunidades profissionais, ilustrando como a comunidade superou estes obstáculos e construiu uma nova vida em terreno novo.

O espírito de união e apoio mútuo é um tema recorrente na mostra, tão único de uma cultura latina que se mesclou com a indiana, africana e asiática, nas diversas passagens antes da chegada ao Delta do Rio das Pérolas, reflectindo a importância da coesão social para a sobrevivência e o sucesso de uma pequena comunidade, já definida como macaense, um grupo étnico por si só. A exposição detalha a vida quotidiana, as profissões, os clubes sociais e os momentos de celebração da comunidade, oferecendo um retrato vívido da sua evolução ao longo dos anos.

Um dos aspectos mais significativos da exposição é a demonstração do papel crucial que os portugueses desempenharam no desenvolvimento económico de Hong Kong. A experiência em lidar com diferentes culturas e línguas, bem como a capacidade de estabelecer relações de confiança, foram factores decisivos para o sucesso da comunidade lusa no território.

Muitos dos documentos históricos presentes, autênticas relíquias, ilustram a ascensão de figuras proeminentes na comunidade portuguesa, destacando o seu impacto em sectores como o comércio, as finanças e a indústria, tais como Da Roza e a sua carreira como banqueiro proeminente.

Raízes e Desenvolvimento: Intermediação, Empreendedorismo e Lealdade

Os portugueses destacaram-se inicialmente como intermediários entre os britânicos e a população chinesa, preenchendo um vazio crucial na comunicação e na tradução. Dominando o inglês, o cantonês e, na sua grande maioria, o português, actuaram como tradutores, contabilistas e funcionários públicos, facilitando o comércio e a administração da então colónia inglesa. Esta função de intermediário, que exigia um elevado grau de competência linguística e cultural, contribuiu para o desenvolvimento económico de Hong Kong.

Ao mesmo tempo, os portugueses não hesitaram em investir nos seus próprios negócios, criando empresas que desempenharam um papel importante no desenvolvimento da colónia. A indústria da impressão, por exemplo, foi dominada por famílias portuguesas, como os Noronha e os Xavier, que construíram negócios duradouros e de renome. O empreendedorismo português estendeu-se a outros sectores, como a construção naval, o comércio e a banca, bem como o início do inovador mercado de brinquedos infantis de plástico, tão conhecido na actualidade. Esforços que consolidaram a presença dos empreendedores de ascendência portuguesa na economia da região.

A comunidade lusa demonstrou também um forte sentido de lealdade e patriotismo, que se manifestou na sua participação na defesa da colónia. Durante a Segunda Guerra Mundial, muitos portugueses serviram no Corpo de Defesa Voluntário de Hong Kong e, após a guerra, continuaram a apoiar a defesa civil através de organizações voluntárias. Este compromisso com a segurança e a estabilidade de Hong Kong demonstra a sua integração na sociedade local e o seu desejo de contribuir para o bem comum.

Cultura, Desporto e Legado: Preservação e Continuidade

A cultura portuguesa, com as suas tradições, língua e valores, desempenhou um papel importante na identidade da pequena região de Hong Kong. A criação de clubes sociais, como o Club Lusitano e o Club de Recreio, proporcionou um espaço de convívio, de lazer e de preservação da cultura portuguesa. Estes clubes foram importantes para a população no geral, pois ofereciam oportunidades de convívio social, de prática desportiva e de celebração das tradições portuguesas, demarcando um espaço de contacto essencial para tecer uma malha identitária de uma região tão única.

O desporto foi outro factor importante na coesão da comunidade portuguesa, que manteve um papel crucial até à actualidade. O Victoria Recreation Club, fundado em 1849, tornou-se um ponto de encontro popular para os nadadores portugueses, enquanto o Club de Recreio, fundado em Kowloon, desempenhou um papel importante no desenvolvimento de atletas locais. Figuras como Arnaldo de Oliveira Sales e Tony Cruz, lendário jockey, destacaram-se no panorama desportivo, contribuindo para o reconhecimento da comunidade portuguesa por entre uma elite maioritariamente inglesa.

Apesar das transformações sociais e políticas que ocorreram em Hong Kong ao longo dos anos, a comunidade portuguesa manteve-se activa e presente na cidade. A emigração de muitos portugueses, especialmente após os tumultos de 1967, reduziu o número de membros da comunidade, mas não diminuiu a sua importância. Actualmente, os descendentes de portugueses continuam a desempenhar um papel relevante em diversos sectores da sociedade de Hong Kong, desde a economia e a cultura até ao desporto e à política. Figuras como Ray Cordeiro, o lendário DJ conhecido como Uncle Ray, que manteve o mais longo contínuo programa de rádio da história, de 1970 a 2021, quando decidiu fechar a “loja” aos 96 anos de idade. Joe Junior é outra personagem de descendência lusa que encantou a população com a sua “Voice of Love”, voz do amor, através de românticas canções populares, que ainda soam até o dia de hoje.

Continuando pelo labirinto de salas desta corrente mostra, o visitante encontra-se rodeado de documentos “voadores” instalados no espaço, enquanto vozes em Patuá explicam receitas da cozinha macaense que tem como pano de fundo a imensa projecção de um mapa-múndi evidenciando o percurso de caravelas pelos oceanos. É nesse cenário que a história da comunidade portuguesa em Hong Kong se desdobra com uma história da busca pela integração, através de uma resiliência própria que reflecte a comunidade internacional lusa e faz reflectir sobre a importância da diversidade cultural e da adaptação. Ao olharmos para o passado, podemos ver como a comunidade portuguesa, já com várias influências das diversas colónias espalhadas pelo caminho até a Ásia, soube construir uma vida nova numa terra distante, literalmente do outro lado do mundo, adaptando-se às realidades locais e contribuindo para o desenvolvimento da colónia, que, entretanto, tornou-se numa das mais influentes cidades da história.

O que se leva, por entre inúmeras interpretações, é a realidade de que a presença lusitana em Hong Kong é um exemplo de como a diversidade cultural pode enriquecer uma sociedade e promover o entendimento entre os povos. A herança portuguesa no território foi, com esta colecção bem elaborada, enriquecida e preservada, não apenas como um testemunho do passado, mas como uma reflexão para o futuro, iluminando o caminho para uma sociedade mais inclusiva e mais rica em experiências e tradições. Deveras importante na actualidade, onde cada vez mais o distanciamento entre povos e culturas parece ser a norma, na nuvem de conflitos de pouca diplomacia internacional, que se encontra no panorama político actual.

Ao se preservarem as heranças, será possível garantir que as futuras gerações possam aprender com a história das múltiplas comunidades que montam uma sociedade e se inspirar nos seus valores de resiliência, adaptação e integração. É um legado pertinente, não apenas para os descendentes portugueses, mas para a humanidade como um grupo, capaz de construir pontes entre culturas e de criar uma comunidade mais forte e unida.

A iniciativa do Museu de História de Hong Kong em criar uma exposição sobre a comunidade portuguesa pretende ser um reconhecimento da sua importância e do seu contributo para a identidade da cidade. A preservação da memória, fruto de um trabalho longo, em desenvolvimento há cerca de 3 anos, é fundamental para promover um contínuo diálogo intercultural.

A “Série de Exposições Multifacetadas sobre Hong Kong” também inclui as mostras “Yau Tsim Mong – The Urban Transition and Community Bonds” e “Sojourning in Gold Mountain – Hong Kong and the Lives of Overseas Chinese in California”, que fomentam um papel semelhante, de aprendizagem sobre as múltiplas faces de uma urbanização dispersa por entre as ilhas de um canto no continente asiático, que um dia decidiu chamar-se de “Porto Perfumado”.

A série de exposições fica localizada na Galeria de Exposições, 2º andar, do Museu de História de Hong Kong, localizado em 100 Chatham Road South em Tsim Sha Tsui. O horário de funcionamento é segunda, quarta a sexta-feira, das 10h00 às 18h00; Sábados, domingos e feriados das 10h00 às 19h00. O museu está encerrado às terças-feiras (excepto feriados). Elói Carvalho – Macau in “Ponto Final”


terça-feira, 26 de novembro de 2024

Hong Kong – Museu homenageia “enorme contributo” de lusodescendentes

O Museu de História de Hong Kong vai inaugurar uma exposição sobre o “enorme contributo” dos lusodescendentes e que demonstra que a comunidade continua viva, disse à Lusa o presidente do Club Lusitano. Patrick Rozario sublinhou que os lusodescendentes são a primeira comunidade minoritária do território a merecer uma mostra permanente rotativa, no âmbito da renovação do museu, lançada em 2017, mas que sofreu atrasos devido à pandemia.



“Em parte porque éramos a maior comunidade estrangeira em Hong Kong depois dos britânicos, mas penso que também demos um enorme contributo para o desenvolvimento” do território, disse o presidente da maior instituição da comunidade.

Os macaenses e membros da então numerosa comunidade portuguesa em Xangai, no leste da China, começaram a chegar a Hong Kong logo depois da fundação da então colónia britânica, em 1841, sublinha o museu. A comunidade eurasiática “aproveitou o talento para as línguas e o estatuto único de ‘nem chinês nem ocidental’ para servir de ponte entre os mercadores e funcionários do governo britânico e os chineses”.

Os lusodescendentes “construíram a sociedade cívica, igrejas e escolas” e destacaram-se em áreas como a impressão, a farmacêutica, o direito e o desporto, disse Patrick Rozario.

Entre os objectos da exposição, o coordenador do projecto, Francisco da Roza, destacou o casaco vermelho que o presidente do Comité Olímpico de Hong Kong, Arnaldo de Oliveira Sales, usava nas Olimpíadas de 1972, em Munique, quando conseguiu negociar com terroristas palestinianos a libertação da delegação do território, que tinha ficado encurralada durante o rapto de 11 atletas israelitas.

O Departamento de Serviços Culturais e de Lazer do território disse à Lusa que a mostra “Estórias Lusas” vai “apresentar as tradições e cultura distintivas” da comunidade através de programas multimédia audiovisuais e interactivos e de “mais de 250 peças de famílias e organizações portuguesas”.

O trabalho de recolha permitiu aos lusodescendentes trabalhar com o museu e serem eles a contar a própria história, sublinhou Patrick Rozario.

Francisco da Roza deu como exemplo uma homenagem aos soldados lusodescendentes que morreram na Batalha de Hong Kong, em Dezembro de 1941, quando o Japão ocupou a então colónia britânica.

O declínio da comunidade começou em 1967, quando o território sentia, inclusive através de atentados bombistas, o impacto da Revolução Cultural na China, e a emigração continuou depois da crise mundial do petróleo, em 1973.

O investigador nonagenário disse à Lusa que foi aos Estados Unidos e ao Canadá recolher artefactos, documentos e fotografias entre a diáspora da comunidade eurasiática.

Patrick Rozario disse que a exposição pode mostrar que a comunidade, apesar de profundamente integrada, não desapareceu. “Estamos a mostrar que ainda estamos aqui hoje, ainda fazemos parte da sociedade de Hong Kong e continuaremos a contribuir”, referiu o presidente do Club Lusitano.

A presença da comunidade permanece em áreas como a justiça, através de Roberto Alexandre Vieira Ribeiro, um dos três juízes permanentes do Tribunal Superior de Hong Kong, ou a educação, com a Escola Primária Po Leung Kuk Camões Tan Siu Lin.

Por outro lado, disse Rozario, a mostra pode “ajudar as gerações futuras com a sua identidade”. “Muitos de nós anglicizámo-nos ao longo do tempo e perdemos a língua [portuguesa]. É importante que compreendamos quem somos e de onde viemos”, sublinhou o dirigente. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Macau - Capta 90% do investimento directo português na China

A RAEM representa 90% do investimento directo português na China, afirmou o Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, citado pelo portal “Macau News Agency”.


Macau foi o 12º destino do investimento directo no exterior português, recebendo quase 1,1 mil milhões de euros em 2023, enquanto o Interior da China recebeu 55 milhões de euros, indicou na segunda-feira Alexandre Leitão, num evento da delegação de Macau da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa no Club Lusitano, em Hong Kong.

O investimento português foi realizado sobretudo em áreas como a farmacêutica, banca, finanças, seguros e produtos alimentares, acrescentou o diplomata. Na ocasião, o Cônsul-Geral de Portugal para Macau e Hong Kong reconheceu a importância deste investimento, embora tenha realçado a necessidade de Lisboa expandir a actividade comercial além Macau.

“Macau é uma plataforma e base fundamentais, mas temos de olhar além das suas fronteiras”, afirmou, chamando ainda a atenção para o potencial do comércio através de Hong Kong.

“O volume de comércio, quer em importações, quer em exportações, está actualmente muito aquém do que poderia ser”, referiu, citado pelo portal em língua inglesa.

As relações comerciais luso-chinesas têm registado uma evolução “bastante interessante” ao longo dos últimos 10 anos, disse, ainda no Club Lusitano, o director da Agência para o Investimento e Comércio Externo (AICEP) para Macau e Hong Kong.

“Em 2013 as trocas comerciais atingiram dois mil milhões de euros e dez anos depois, em 2023, o total das trocas comerciais ascendeu a seis mil milhões de euros, o que faz da China o 10.º maior parceiro comercial de bens de Portugal”, referiu Bernardo Pinho.

Quanto a Macau, o responsável referiu que as relações comerciais têm vindo a aumentar, com o comércio de mercadorias a crescer 15% em 2023, em termos anuais, com mais de 400 empresas a exportar para a cidade, mas com níveis abaixo dos valores anteriores à pandemia de covid-19. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


segunda-feira, 13 de março de 2023

Hong Kong - Pandemia levou jovens lusófonos a abandonar a Região, diz Club Lusitano


A crise económica e as restrições impostas devido à pandemia da covid-19 levaram muitos jovens portugueses e brasileiros a abandonar Hong Kong, disse o presidente do Club Lusitano. “Antes da pandemia, porque Hong Kong é um lugar muito rico, havia sempre jovens a chegar à procura de emprego. Mas infelizmente alguns deles acabaram por partir. Alguns perderam o trabalho, para outros o isolamento começou a ser demais”, explicou Patrick Rozario.

A economia de Hong Kong contraiu 6,1% em 2020, com a taxa de desemprego a quase duplicar, para 5,83%, numa cidade que ficou praticamente fechada ao exterior, seguindo a política ‘zero covid’, que incluiu quarentenas à chegada e confinamentos de bairros inteiros.

O Club Lusitano, cujos membros têm de ser cidadãos de países lusófonos ou lusodescendentes, também sentiu o impacto. “Provavelmente perdemos cerca de dez famílias macaenses que partiram para o estrangeiro”, disse Rozario.

A região administrativa especial chinesa, já com uma das populações mais envelhecidas do mundo, perdeu 187300 pessoas, 2,5% do total, no espaço de três anos, de acordo com dados oficiais.

O pior veio em Março de 2022, quando Hong Kong enfrentou o primeiro surto de covid-19. “Durante algum tempo estivemos mesmo fechados por alguns dos nossos funcionários terem ficado doentes. Em outros períodos, havia muitas restrições”, lembrou Rozario.

“Em alguns períodos tínhamos as despesas do costume, mas nenhumas receitas”, explicou o presidente do Club Lusitano. O clube chegou a perder 500 mil dólares de Hong Kong por mês, acrescentou. “Toda a gente estava a pensar: ‘Se calhar é para o mês que as coisas vão reabrir’. Sobrevivemos, ao contrário de outros negócios que morreram na praia”, disse Rozario, referindo-se à reabertura das fronteiras com a China, a 08 de janeiro, ao fim de três anos.

O Club Lusitano, fundado em 1866 por macaenses, uma comunidade euro-asiática com raízes em Macau, muitos dos quais são lusodescendentes, voltou aos lucros e há mais pessoas interessadas em tornarem-se membros, disse o presidente. Entre eles estão dois residentes de Hong Kong que fizeram parte “da primeira leva de vistos ‘gold’” e mais tarde obtiveram a nacionalidade portuguesa, indicou Rozario. “Ambos têm filhos a estudar em Portugal”.

O Club Lusitano tem cerca de 390 membros e quer chegar aos 500. “Somos um clube muito diverso, temos as antigas famílias macaenses, expatriados portugueses e brasileiros, chineses com nacionalidade portuguesa, goeses e até judeus” descendentes de sefarditas, sublinhou Rozario. A instituição organizou aulas de português, com um professor brasileiro, e que tem atraído chineses com investimentos em Portugal, mas também lusodescendentes cujas famílias “ao longo do tempo se anglicizaram e perderam a língua”, lamentou o presidente. In “Ponto Final” - Macau


 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Hong Kong - “Club Lusitano é a casa de todos os portugueses”

A comunidade portuguesa em Hong Kong tem tipo um papel de destaque desde o início da antiga colónia britânica até aos dias de hoje, já com administração chinesa. Talvez por isso, e muito mais, o Club Lusitano foi homenageado em várias ocasiões pelos governos português e de Macau, incluindo a Ordem Militar de Cristo (1949) e a Ordem do Infante Dom Henrique (1991) pelos serviços prestados à sua comunidade


Fundado a 17 de Dezembro de 1866 por elementos da comunidade portuguesa de Hong Kong, o Club Lusitano tem mais de 150 anos de uma história recheada de grandes momentos. Erguido em Shelley Street, Mid-Levels, o clube ocupava um edifício com características coloniais neoclássicas. Em 1920, a direcção da instituição decidiu sair da antiga localização e assentar arraias na Ice House Street, onde se mantêm até hoje. Ao Ponto Final, Anthony Correa, gerente e tesoureiro honorário do Club Lusitano, falou um pouco da história, das iniciativas e dos projectos futuros do clube, numa altura em que o mundo ainda não conseguiu controlar a pandemia de Covid-19 e os desafios são ainda maiores.

Qual tem sido o grande papel do clube, desde 1866, primeiro durante a administração britânica do território, e agora com a administração chinesa?

O Club Lusitano é a casa exclusiva da comunidade portuguesa em Hong Kong há 155 anos. Foi fundada por membros filantrópicos da comunidade empresarial portuguesa para que os portugueses locais pudessem usufruir do seu próprio clube social, que incluía, nos seus primórdios, alojamento para homens que se deslocassem de Macau e outros territórios portugueses para Hong Kong a trabalho. O Club Lusitano foi homenageado em várias ocasiões pelos governos português e de Macau, incluindo a Ordem Militar de Cristo (1949) e a Ordem do Infante Dom Henrique (1991) pelos serviços prestados à sua comunidade. O Club Lusitano é a casa de todos os portugueses.

Como é ser português em Hong Kong, uma das maiores e mais populosas cidades do mundo?

A comunidade portuguesa desempenhou um papel de destaque em Hong Kong desde o seu início, enquanto colónia britânica, e continua a fazê-lo até hoje. Muitos dos nossos membros são proeminentes homens de negócios, na área do direito, na esfera governamental, em bancos, na arquitetura, na educação e nas artes de Hong Kong. Os portugueses têm contribuído significativamente para a qualidade de vida e diversidade da sociedade de Hong Kong desde a sua fundação em 1842.

É possível saber aproximadamente quantos cidadãos com passaporte português existem em Hong Kong? Destes, quantos são macaenses? E quantos destes são portugueses de Hong Kong?

Não temos estatísticas precisas sobre os cidadãos portugueses em Hong Kong, mas fomos informados anteriormente de que existem cerca de 200 mil cidadãos portugueses entre Hong Kong e Macau, o que a torna uma das maiores comunidades internacionais da Grande Baía. Tanto os residentes de Hong Kong como de Macau podem candidatar-se à adesão ao Club Lusitano.

Além do renomado restaurante, que outras actividades o Club Lusitano tem vindo a proporcionar aos seus associados?

O clube tem, de facto, um restaurante muito concorrido, o Sala Leal Senado, bem como a Pastelaria Lusitano, aberta o dia todo, e ainda o bar Piso Praia Grande e uma bibloteca. Além disso, possui um espectacular salão de festas, o Salão Nobre de Camões, e diversos outros salões para festas privadas, seminários de negócios e ainda uma sala para jogar mahjong. O clube acolhe muitas actividades culturais para os seus membros e convidados com enfoque na herança portuguesa e macaense. Publicamos uma revista trimestral, em forma de newsletter, que apresenta histórias antigas e actuais sobre a nossa comunidade.

O que a pandemia de Covid-19 trouxe de positivo e negativo para a instituição?

Como todos os estabelecimentos de restauração e clubes, a pandemia Covid-19 tem prejudicado as nossas operações devido ao distanciamento social imposto pelo Governo e outras restrições. No entanto, convém referir que o Club Lusitano continuou a prestar serviços aos seus membros durante a pandemia. Também continuamos a atrair novos membros para que conheçam as nossas instalações e serviços recém-renovados.

Como toda a questão da luta pela democracia em Hong Kong, a consequente adopção da Lei de Segurança Nacional afectou o clube e, mais importante, a comunidade portuguesa no território?

Não temos comentários sobre política, pois somos um clube social.

Que ligações, acordos ou parcerias mantém o clube com outras entidades da lusofonia como a Casa de Portugal em Macau, o Clube Militar ou o Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong?

O Club Lusitano mantém ligações estreitas com todas as instituições portuguesas e macaenses em Macau. Temos também ligações recíprocas com os nossos clubes irmãos em Hong Kong, o Club de Recreio e o Victoria Recreation Club que, historicamente, eram principalmente clubes portugueses.

Mantém outras ligações com entidades em Portugal ou noutros países de língua portuguesa?

Sim, mantemos ligações com muitos em todo o mundo, dos quais a Fundação Oriente, o Grémio Literário em Lisboa, as diversas Casas de Macau espalhadas pelo mundo, Associação Euro-asiáticos de Singapura, entre muitos outros.

Em 2019, foram realizadas grandes obras de renovação no Club Lusitano. O que mudou?

A nossa extensa renovação transformou o clube com novas instalações para os membros, como a pastelaria, uma adega, uma biblioteca, chuveiros e novas salas de função/jantares privados. A oferta de restauração foi actualizada com instalações dedicadas para refeições requintadas, novos serviços de pequeno almoço e ofertas de confeitaria/cafeteria durante o dia todo. A maior parte dos nossos principais produtos e vinhos são agora directamente provenientes de Portugal. Estamos entusiasmados com a recente adição do nosso chef executivo Fábio Pombo, que irá trazer uma nova oferta de comida portuguesa aos nossos membros e convidados.

Falou do chef Fábio. Tem sido uma aposta vencedora?

O Fábio juntou-se a nós recentemente e até agora tudo bem. É, de facto, um prazer tê-lo no Club Lusitano.

Quais são os planos do Club Lusitano para o futuro?

O clube está a trabalhar arduamente para promover eventos portugueses e macaenses em Hong Kong com o principal destino a comunidade lusitana. Também temos muitos planos para trabalhar com os nossos amigos em Macau, assim que conseguirmos estabelecer uma bolha de viagem entre Hong Kong e Macau. A instituição também está a apoiar activamente uma exposição portuguesa planeada para o Museu de História de Hong Kong, que apresentará as contribuições de longa data da comunidade portuguesa em Hong Kong.

Português Fábio Pombo é o novo Chef do restaurante do Club Lusitano

Em Março agarrou o projecto substituindo o carismático Chef Wing, que estava à frente da cozinha da entidade desde 2003 e aposentou-se. Fábio vê o Club Lusitano como o maior desafio da carreira até ao momento e pretende ficar “uns bons anos”


Abraçou a cozinha do Club Lusitano a 20 de Março deste ano. O português Fábio Pombo é o novo Chef executivo responsável por todo o catering da entidade de matriz portuguesa. O carismático Chef Wing aposentou-se 18 anos depois. “O convite surgiu no início deste ano, depois do chef executivo que esteve à frente do clube durante 18 anos se ter aposentado. Nessa altura a direcção do clube abordou-me para saber se teria interesse em assumir o cargo, o que para mim foi uma grande honra”, afirmou Fábio Pombo ao Ponto Final, assumindo que nem pensou duas vezes na proposta.

Já com vasta experiência e a viver em Hong Kong há quatro anos, o português aposta forte no novo desafio. “Todos os projectos por que passei no Ocidente tiveram características muito diferentes, como o modelo de negócio, localização, público target, etc. O Club Lusitano é possivelmente o desafio mais interessante da minha carreira, pela sua história centenária, dimensão, e pelas expectativas que os membros têm”, assumiu Pombo, notando que está no sítio certo e com as ferramentas apropriadas para manter e, como é seu objetivo, elevar o nome da entidade.

Fábio Pombo chegou a Hong Kong em 2017 para ser o Chef executivo do restaurante Casa Lisboa, em plena Hollywood Road. Por ali, com maior ou menor dificuldade, conseguiu impor alguns pratos de assinatura que chegaram a fazer sucesso, deliciando por quem ali passava. Depois dessa experiência esteve envolvido num projecto piloto que visava a abertura de um restaurante português em Foshan, na província de Cantão. A pandemia trocou as voltas ao projecto e Fábio acabou por ficar por Hong Kong onde se tornou o Chef do “Feather and Bone”, uma casa de bifes em Wanchai.

Agora é a vez do Club Lusitano provar as iguarias do lisboeta. “Como Chef executivo posso sugerir a carta do clube, mas todas as alterações no menu têm de ter em conta a vontade dos membros, por isso todos os pratos novos são apresentados ao comité de F&B para aprovação”, explicou Fábio Pombo ao nosso jornal.

Espaço para inovar, como sempre

Contudo, o português assume que “há bastante espaço para criar pratos e menus especiais”, tencionando ser irreverente com a cultura gastronómica portuguesa como fazia no Casa Lisboa, onde elaborou um dos pratos mais queridos da clientela, feito com um ingrediente pouco comum: o tutano. “Pessoalmente adoro tutano, e gosto de cozinhar o que me dá prazer, por isso é provável que venha a recriar algo com tutano aqui no clube”, revelou.

Fábio tem planos para ficar por Hong Kong mais anos. Quer estabilizar-se definitivamente e o Club Lusitano é o local ideal para tudo correr bem. “Adoro viver aqui e gostava de me ver como Chef executivo do Club Lusitano durante uns bons anos para criar estabilidade no clube e em mim. Dentro de três anos serei residente permanente de Hong Kong e as possibilidades para mim aumentam”, assumiu, expressando a possibilidade de que “voltar a Portugal está sempre no horizonte” apesar de o mundo estar a passar por uma fase instável.

Por falar em instabilidade, o Ponto Final quis saber junto do nosso Chef do Club Lusitano quais os desafios que a sua cozinha enfrenta em tempos de pandemia Covid-19 e ainda mais num território como Hong Kong que, apesar de ter conseguido controlar a doença, nunca a conseguiu debelar totalmente. “Para mim o mais difícil foi mesmo o início da pandemia porque havia um medo e incerteza instalados na população e os restaurantes perderam muitos clientes, houve muita incerteza e muitos restaurantes a fechar nessa altura”, começou por dizer, notando que “depois foi na altura de os restaurantes encerrarem às 18h como medida de controlo da pandemia, porque se perdia o volume da facturação do jantar que conta muito para a restauração”.

Outra coisa, esta muito particular, considera Pombo, “é este desconforto, que salva muitas vidas, o de ter de andar sempre com a máscara respiratória na cara enquanto estás a trabalhar, quando ao mesmo tempo tens de utilizar os sentidos do gosto e do olfacto para conseguires verificar a qualidade do teu trabalho”.

Em 2013, Fábio Pombo licenciou-se em Artes Culinárias e Produção Alimentar em Restauração pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, em Portugal. Arrecadou experiência com passagens pelas cozinhas do restaurante lisboeta Feitoria (uma estrela Michelin) e no madeirense Il Gallo d’Oro (duas estrelas Michelin). Foi Chef executivo do restaurante Vicente by Carnalentejana, em Lisboa, e Chef do restaurante do hotel Skyna, também em Lisboa. Marcou presença em diversos jornais e revistas como o South China Morning Post, Time Out ou Life Style Asia, assim como foi Chef convidado do Torneio Internacional de Golfe de Foshan, na China, em 2019, e Chef convidado nas comemorações do 20.º aniversário da Transferência de Administração de Macau, também em 2019. Gonçalo Pinheiro – Macau in “Ponto final”

goncalolobopinheiro.pontofinal@gmail.com