Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Uma obra para recuperar a história de Setúbal

Projeto prevê três volumes que, por sua pluralidade de temas, tornar-se-ão instrumento de consulta obrigatória para historiadores, professores e estudantes

                                                                                                     

                                                            I


Setúbal, a cidade onde nasceu o poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805), acaba de ganhar um projeto editorial que pretende se tornar a maior obra de investigação sobre a história do município, trazendo à luz informações sobre temas pouco conhecidos, além de incentivar novas investigações. Nesse sentido, foi lançado em julho de 2025 o primeiro volume do Dicionário de História de Setúbal, trabalho coordenado pelo historiador Albérico Afonso Costa e publicado pelo jornal O Setubalense, com o apoio da Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra e da Câmara Municipal de Setúbal.

Para julho de 2026, está previsto o lançamento do segundo volume. E, para julho do ano seguinte, o terceiro e último. O primeiro volume marcou também a passagem do 170.º aniversário de fundação de O Setubalense, o mais antigo jornal em circulação em Portugal continental. No total, os três volumes contam com a colaboração de quase uma centena de profissionais de áreas como arqueologia, sociologia, antropologia, economia, arquitetura e jornalismo.

Com a participação de 76 historiadores, o primeiro volume, que já foi distribuído para as bibliotecas escolares da cidade, traz cerca de 500 entradas que vão de A até E e, como os demais, abrange um período de cerca de dois mil anos, desde a presença romana, quando o vilarejo era conhecido como Cetóbriga, até a época contemporânea (ano de 1976), sendo os temas dos séculos XIX e XX de maior presença, como observa o coordenador no prefácio. Por isso, o leitor vai encontrar nos três volumes desde a época em que o burgo não passava de uma medieval vila amuralhada contra piratas e invasões até a sua transformação numa cidade industrial e moderna.

De surpreender é que, ao contrário do que comumente se lê em tradicionais livros de História, os verbetes trazem também referências sobre a chamada Setúbal rebelde, ou seja, sobre as lutas de tendência anarquista que a levaram a ser conhecida como Barcelona portuguesa, sem deixar de  mostrar igualmente a cidade assolada pela opressão fascista nos anos salazaristas (1933-1974), bem como a luta dos menos favorecidos que moravam em bairros com construções precárias, até se transformar num burgo industrial a partir da década de 1960, situado na margem norte do estuário do rio Sado, a cerca de 50 quilômetros ao Sul de Lisboa. Enfim, uma cidade com fortes ligações com o mar, a pesca e o turismo, famosa também por suas mulheres conserveiras, que trabalhavam nas indústrias de conservas de pescado e eram parte integrante de um proletariado que buscava um futuro digno.

 

 

                                                            II

Como não poderia deixar de ser, a família Bocage recebeu largo espaço neste Dicionário, a começar pela entrada dedicada ao famoso poeta, que vai da página 195 à de número 199, de autoria do professor e historiador António Chitas, que foi vice-presidente do Centro de Estudos Bocagianos (2006-2014) e é autor de numerosos artigos e crônicas sobre a história e figuras de Setúbal. Com base em quatro obras do historiador Daniel Pires, especialmente a mais recente, O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2023), do investigador Jorge Morais, autor de Bocage Maçon (Coimbra, Via Occidentalis Editora, 2007), e sobretudo deste articulista, Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), além da citação de uma famosa conferência do poeta Olavo Bilac (1865-1918) no Teatro Municipal de São Paulo, em 1917, Chitas traça, em rápidas palavras, a trajetória do poeta, desde sua infância e adolescência em Setúbal, sua vida um tanto desregrada em Lisboa, suas viagens, a partir de 1786, a princípio como guarda-marinha, a Goa  e, posteriormente, já como desertor, a Surrate, na Índia, Cantão e Macau, na China. Quatro anos depois, já de volta à Lisboa e sua vida boêmia, Bocage inicia uma carreira literária com sua inscrição na Nova Arcádia e a publicação, a partir de 1791, de pelo menos três obras. Influenciado pelo clima de liberdade provocado pela Revolução Francesa (1789-1799), produz poemas e traduz obras que não haveriam de agradar às autoridades constituídas, o que o levou até a projetar uma fuga para o Brasil, que lhe não foi possível empreender. Acusado de autor de “papéis ímpios, sediciosos e críticos”, seria colocado na Cadeia do Limoeiro e, depois, transferido para os cárceres da Inquisição. Recuperaria a liberdade no último dia de 1798 e passaria a trabalhar como revisor e tradutor na Tipografia do Arco do Cego, período em que, em 1799, publicaria o segundo tomo de suas Rimas, cuja primeira edição é de 1791.

Em 1802, ainda seria denunciado como pedreiro-livre (maçom) e passaria por novos dissabores, que incluiriam seu encarceramento. Em 1804, publica o terceiro volume de Rimas para, no ano seguinte, adoecer gravemente, vítima de um aneurisma nas carótidas, e vir a falecer a 21 de dezembro, com apenas 40 anos. Da família Bocage, há ainda verbetes sobre Gilles Hedois Ledoux du Bocage, avô materno do poeta, Mariana Joaquina Caetana Xavier Lustoff du Bocage, sua mãe, Gil Francisco Barbosa du Bocage, seu irmão mais velho, José Luís Soares de Barbosa, seu pai, além de outros parentes. Sem contar as entradas que tratam das comemorações bocagianas que se realizaram durante os séculos XIX e XX, entre as quais a história da colocação da estátua do poeta na antiga Praça do Sapal que passaria a ser chamada de Praça Bocage, inaugurada no dia 21 de dezembro de 1871.

 

                                                                III

Nos demais verbetes, o leitor tomará conhecimento de vários aspectos que emolduram a história de Setúbal, como, por exemplo, fatos que ocorreram em 1949, à época da realização de eleições para a presidência da República, quando pela primeira vez, após o golpe de 28 de maio de 1926, hostes contrárias ao regime concorreram, tendo à frente o general Norton de Matos (1867-1955), contra o general Óscar Carmona (1869-1951), candidato da situação. Como diz em extenso verbete o historiador Albérico Afonso Costa, o movimento, iniciado em 1948, “tentará reerguer dos escombros o movimento antifascista que havia sido destroçado no pós-guerra”.

Da resistência ao fascismo salazarista, há ainda vários verbetes que tratam da história de vida de setubalenses militantes da causa da liberdade que foram perseguidos pela PIDE, a polícia política do regime, inclusive à época das eleições marcadas para 1958, que apoiavam a candidatura do general Humberto Delgado (1906-1965), igualmente derrotado em pleito fraudulento contra o almirante Américo Tomás (1894-1987), candidato do regime.

Além de fatos ligados diretamente à História de Setúbal, o leitor irá encontrar centenas de verbetes que relembram personagens que foram reconhecidos por suas atuações na cidade, biografias de personalidades políticas, culturais, desportivas, militares e religiosas, além de jornalistas, empresários, artistas plásticos, pintores, escultores, médicos, poetas, escritores, jogadores de futebol e outros profissionais. Como observa o coordenador, houve a preocupação de selecionar apenas pessoas já falecidas.

Outra preocupação, segundo ele, foi a de dar realce àqueles que habitualmente são esquecidos pela História e que, “fazendo parte de sua matéria-prima, deixaram no seu mundo/cidade uma nítida impressão digital”. Nesse sentido, também foram lembradas instituições que marcaram (e ainda marcam) sua existência na História de Setúbal, como a Casa de Bocage, onde se acreditava erroneamente que teria nascido o poeta, a Casa dos Pescadores, o Casino Setubalense, associações representativas de diversas profissões, clubes de futebol, jornais e publicações impressas já desaparecidas, igrejas, conventos, ermidas e capelas católicas, confrarias e irmandades negras, além de relatos de viajantes estrangeiros que estiveram na Setúbal nos séculos XVIII e XIX.  Enfim, trata-se de uma obra que, com certeza, ficará na História de Setúbal.

 

                                                                    IV


Albérico Afonso Costa (1951) é historiador e investigador integrado do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Professor coordenador na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). Doutor em História Contemporânea, na especialidade de História Cultural e das Mentalidades, pela FCSH da UNL, tem colaborado e coordenado projetos na área da História, formação de professores e formação profissional.

Tem vários trabalhos publicados nestas áreas de investigação, com destaque para: FPA, a Fábrica LeccionadaAventuras dos Tecnocatólicos no Ministério das Corporações (2008); Roteiro Republicano de Setúbal, coord. (2010); História e Cronologia de Setúbal - 1248-1926 (2011);   Salazar e a Escola TécnicaUma reforma tolerada num regime intolerante (2011); Setúbal sob a Ditadura Militar – 1926-1933 (2014) e Setúbal Cidade VermelhaSem perguntar ao Estado qual o caminho a tomar —1974/1975 (2017); Lugares de José Afonso na Geografia de Setúbal (2019); Setúbal no Centro do Mundo, 165 anos do jornal O Setubalense, coord. (2020); Setúbal sob o Estado Novo – A Resistência  a Salazar, vol. 1, 1933-1949, 2021, e Setúbal sob o Estado NovoA Resistência a Salazar e a Caetano, vol. 2, 1950-1974 (2023); e O Círculo Cultural de Setúbal – De Ninho Oposicionista a Quartel-General da Revolução, um redondo vocábulo, pela mão de José Afonso (2024).

Tem proferido dezenas de comunicações e conferências sobre os temas de História Contemporânea e formação de professores. Tem ainda publicações em livros coletivos, revistas e atas de eventos científicos. Diretor da revista Medi@ções da Escola Superior de Educação de Setúbal, é também coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Pedagogia e membro do Conselho Técnico Científico da Escola Superior de Educação do IPS.

Em 2019, recebeu da Câmara Municipal de Setúbal a medalha de honra da cidade na classe de atividades culturais. Em 2020, foi homenageado pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) pelo “valioso contributo que tem dado à comunidade setubalense”. Adelto Gonçalves - Brasil

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Dicionário de História de Setúbal, vol. I:A-E, de Albérico Afonso Costa (coordenação). Setúbal, Jornal O Setubalense, 20 euros, 456 páginas, 2025. E-mail: geral@osetubalense.com

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Adelto Gonçalves (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br




domingo, 14 de abril de 2024

Portugal - Em Outubro haverá um congresso internacional dedicado a José Afonso

Um congresso internacional para discutir “a prática musical” e a “intervenção cívica” do músico José Afonso vai acontecer em Outubro em Setúbal, revelou a Associação José Afonso

O congresso está marcado para 26 e 27 de Outubro, no Fórum Municipal Luísa Todi, e a organização espera que seja “uma oportunidade, até hoje inédita, de amplo cruzamento de vários saberes sobre o percurso de José Afonso”, numa altura em que se assinalam os 50 anos do 25 de Abril.

Além disso, a associação quer “estimular a localização e recolha de documentação e material fonográfico relacionado com José Afonso para posterior preservação”.

Ainda sem programa oficial anunciado, estão previstas conferências, comunicações, “sessões testemunhais”, exposições e concertos e a espera-se que reúna tanto “especialistas dedicados ao estudo das várias facetas” da obra de José Afonso, como “colaboradores e amigos do cantor”.

Entre os temas a abordar no Congresso estão a intervenção política de José Afonso antes e depois do 25 de Abril de 1974, “o impacto dos anos de Moçambique”, “os aparelhos repressivos”, as “influências culturais e filosóficas” ou ainda “a mulher na obra de José Afonso”.

A comissão organizadora integra responsáveis da Associação José Afonso, do Instituto de História Contemporânea, da câmara municipal de Setúbal e do Instituto de Etnomusicologia.

José Afonso nasceu em 1929, em Aveiro, e morreu em 1987, em Setúbal, cidade se encontram sepultados os seus restos mortais.

A obra do cantautor tem estado a ser reeditada, em acordo com a família, num plano editorial que se iniciou em 2021 e que se prolongará pelos próximos dois anos, disponibilizando álbuns que há muito estavam indisponíveis no mercado e que atestam o percurso lírico e musical do compositor.

Neste plano editorial foram reeditados, por exemplo, o disco de estreia na editora Orfeu, “Cantares do Andarilho” (1968), e também “Cantigas do Maio” (1971), “Venham Mais Cinco” (1973) e “Com as Minhas Tamanquinhas” (1976).

Autor de “Grândola, Vila Morena”, uma das canções escolhidas para senha do avanço das tropas, na Revolução de Abril de 1974, José Afonso morreu em 23 de Fevereiro de 1987, de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada cinco anos antes.

Em 2020, o Ministério da Cultura abriu um processo de classificação da obra de José Afonso, mas, até Dezembro passado, estava por concluir, porque nem todos os proprietários permitem uma avaliação dos bens e materiais fonográficos, segundo informações divulgadas no final de 2023 pela então designada Direcção-Geral do Património Cultural. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”