Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 10 de junho de 2022

Myanmar - Lusodescendentes pedem apoio português

Os lusodescendentes em Myanmar (antiga Birmânia) orgulham-se das suas origens, mesmo que de Portugal só conheçam Cristiano Ronaldo, e é ao país dos seus antepassados que pedem agora ajuda, numa altura em que são perseguidos pelos militares, denunciou uma associação


“Eles têm muito orgulho em ser de origem portuguesa, apesar de alguns deles, a maior parte, desconhecer onde se situa Portugal”, disse, em entrevista à agência Lusa, o investigador da história da expansão portuguesa e diretor-geral para a Ásia/Pacífico da  Associação Internacional dos Lusodescendentes (AILD), Joaquim Magalhães de Castro.

A AILD tem vindo a denunciar o “genocídio” em curso de milhares de lusodescendentes católicos (bayingyis) em Myanmar, que se tem traduzido em destruição, mortes e refugiados.

Segundo Joaquim Magalhães de Castro, a comunidade de lusodescendentes em Myanmar existe há mais de 400 anos, resultando de casamentos feitos entre aventureiros portugueses, muitos deles mercenários.

Passaram de soldados a camponeses, ficando-se pelo norte do país e mantendo o culto católico, ao contrário da língua e dos apelidos.

Várias coisas os identificam, a começar pelos traços físicos, mas também a arte de, por exemplo, fazer chouriços, contou o investigador.

Desde dezembro do ano passado que elementos da Junta Militar de Myanmar têm atacado as maiores aldeias de bayingyis, afetando “várias dezenas de milhares de pessoas”.

Joaquim Magalhães de Castro, que conhece a região e é autor de vários artigos, livros e documentários sobre estes lusodescendentes, refere que, para eles, Portugal é “um país quase mítico”.

Apenas os padres, que tiveram acesso à educação, é que sabem mais sobre o país e alguns já o visitaram.

Estes lusodescendentes têm sofrido a força com que os militares regressaram ao poder, atacando as minorias, nomeadamente os católicos, pois a igreja católica sempre foi “do contra”, sempre foi pró-democracia, por Aung San Suu Kyi”, a ex-líder e Prémio Nobel da Paz (1991), deposta e detida.

Segundo Joaquim Magalhães de Castro, os militares estão de regresso e a utilizar o mesmo “modus operandi”, que é “a repressão, sobretudo das etnias, as etnias minoritárias que se rebelam contra este poder, que contesta a junta militar, que é maioritariamente birmanesa”.

Católicos, os lusodescendentes são um alvo dos militares que sentem um “desprezo e desconsideração” pelas minorias, disse o investigador.

Segundo a AILD, logo em dezembro do ano passado, a aldeia de Chaung Yoe foi alvo da violência e saque dos militares, saldando-se por 300 casas destruídas à bomba.

Seguiu-se Chan-tha-ywa, em janeiro passado: “Os soldados tomaram toda a aldeia, saqueando as habitações, abatendo todo o tipo de animais domésticos e aprisionando doentes e idosos que não puderam fugir. Três pessoas foram assassinadas a tiro”.

Os militares regressaram a esta aldeia em 06 de maio passado, incendiando 22 casas e destruindo as colheitas.

“Eu tenho imagens das igrejas, das cúpulas das igrejas com buracos de bombas”, disse Joaquim Magalhães de Castro, dando conta de casas destruídas, gado abatido e cereais queimados.

Milhares de bayingyis tornaram-se refugiados, encontrando-se agora distribuídos por aldeias vizinhas ou nos complexos das organizações religiosas.

“As pessoas tiveram de fugir porque em episódios anteriores houve casos de mortes, com tortura antes do assassínio”, referiu o investigador.

Joaquim Magalhães de Castro receia que este “genocídio” caia no esquecimento, pois acontece em “sítios esquecidos” que passam “despercebidos”.

Daí a necessidade do alerta que a AILD realizou, contactando organizações portuguesas e internacionais, a igreja católica, o Governo, o Parlamento e os partidos políticos portugueses.

O investigador considera que, se as autoridades não atuarem, é porque não querem, mas recorda que outros massacres, como em Timor-Leste, também aconteceram até que as imagens os denunciaram, obrigando a uma intervenção.

Uma solução para este problema poderia ser, na sua opinião, a atribuição de nacionalidade portuguesa.

“Se aos sefarditas é atribuída a origem portuguesa, porque não a estas comunidades que deixámos espalhadas na Ásia, pelo mundo”, questionou.

E defendeu a atribuição de “bolsas de estudo para os jovens dessas comunidades poderem vir estudar para Portugal, porque eles têm, de facto, um amor muito grande a Portugal”.

Questionado pela agência Lusa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros recordou que, desde o primeiro instante, Portugal condenou “o golpe militar de 01 de fevereiro de 2021, praticado pelas autoridades militares do Myanmar, uma violação flagrante da vontade da população, expressa nas eleições gerais de 08 de novembro de 2020”.

“A violência por motivos étnico-religiosos ou a violação da liberdade religiosa é injustificável e inaceitável, em todas as suas formas”, prossegue a nota do Palácio das Necessidades.

Myanmar “está no topo da agenda da União Europeia e Portugal continuará a participar ativamente no esforço coletivo da comunidade internacional para pôr termo a este conflito e auxiliar as populações vulneráveis”, disse. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Lusofonia - 9 Povos de Origem Portuguesa que talvez não conheça

Portugal teve uma grande influência em algumas populações fora do nosso território. Estes são alguns povos de origem portuguesa que provavelmente não conhecia


Que os portugueses descobriram vários territórios espalhados pelo mundo não é surpresa para ninguém. Todavia, o que muitos não sabem, nem desconfiam, é que ainda estão espalhados pelo mundo muitos povos que têm origem nos portugueses, conservando alguns dos seus hábitos e costumes, como a língua, a religião, entre outras tradições típicas.

Não, não falamos do povo brasileiro, por exemplo. Mas sim de outros, cuja existência provavelmente desconhece. Contudo, há que notar que algumas destas influências não sobreviveram à passagem do tempo. Já outras mantêm-se e há comunidades que ainda preservam essas marcas deixadas pelos portugueses no passado. Desvende de que povos se tratam e em que geografia se localizam e partilhe estas curiosidades com todos os amantes da história de Portugal e dos portugueses.

Mardicas, Indonésia

Este povo descende de escravos portugueses. A própria palavra “mardica” significa escravos libertos. Este povo era cristão e falava crioulo.

Apesar de já não existirem, ainda há quem carregue apelidos portugueses no seu nome e saiba cantar canções em crioulo antigo.

Kristang, Malaca, Malásia

A comunidade Kristang foi formada por cristãos portugueses, no século XVI. Eles falam papiá kristang.

Portugueses no Suriname

Na segunda metade de 1800, os portugueses chegaram ao Suriname. Muitos eram madeirenses escravos, que tinham como destino a Guiana.

Porém, este meio milhar de portugueses ficou no Suriname, tornando-se mais tarde em homens livres.

Assim, neste destino, é ainda hoje possível encontrar habitantes com apelidos como Gouveia, Dos Ramos, Vasconcellos, Miranda, Correia, Gonsalves, Teixeira, Rodrigues, De Faria, Figueira, de Gama ou Moniz.

Aceh, Lamno, Indonésia

O grupo “mata biru” ou “olhos azuis” refere-se, precisamente, aos descendentes de portugueses. Atualmente, restam apenas algumas dezenas

de sobreviventes desta comunidade. Embora conservem algumas tradições portuguesas, acabaram por se converter ao islamismo.

Ziguinchor, Senegal

Em Ziguinchor, encontra-se uma comunidade com dezenas de milhares de pessoas com apelidos portugueses e que se expressam em crioulo português. Ali existe um Centro da Língua Portuguesa e serviços públicos, onde a língua oficial é o português.

Bayingyi, Birmânia

Mercenários portugueses chegaram à antiga Birmânia, nos séculos XVI e XVII. Destacavam-se por serem católicos e caucasianos. Bayingyi deriva de “fheringi” que significa europeu. Este povo continua a existir, preservando uma religião e cultura de influência portuguesa.

Mardicas de Tugu, Indonésia

Na vila de Tugu, na ilha de Java, havia canções portuguesas que se continuam a ouvir. A explicação para isso estava no facto de haver um povo com origem portuguesa e holandesa. Os portugueses e os seus descendentes (mardicas) foram levados para Tugu como escravos, tendo aí permanecido.

Contudo, há 40 anos, morreu o último falante de crioulo. Atualmente, algumas influências permanecem, sobretudo na língua, nos costumes, nos instrumentos, nos nomes e na música.

Burghers Portugueses, Sri Lanka

No antigo Ceilão, existe um povo que fala crioulo português, os Burghers Portugueses. Trata-se de um grupo étnico de ascendência portuguesa, cingalesa e holandesa. Muitos dos seus membros têm apelidos portugueses nomeadamente: Pereira, Abreu, Salgado, Fonseca, Fernando, Rodrigo e Silva.

Korlai, Índia

Nesta pequena vila, o grupo Kristi (Cristo) continua a falar crioulo de origem portuguesa. Para eles, é a Nou Ling (“a nossa língua”). Em Korlai, há ainda ruínas de um forte português.

Curioso com esta lista de povos que ainda conservam influências dos portugueses de outros tempos? Com efeito, Portugal é um país de descobridores e os Descobrimentos são a prova máxima disso.

Mas além dos territórios conhecidos, que sabemos que os portugueses colonizaram, são diversos os espaços por onde os portugueses passaram e deixaram a sua influência e marca.

Histórias curiosas, embora o tempo vá apagando este passado e, por isso, alguns destes povos já tenham poucos membros capazes de exemplificarem essas heranças culturais de outros tempos. Márcio Magalhães – Portugal in Ncultura

 


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Myanmar - História lusa na antiga Birmânia traduzida para Português

James Swe quer que a comunidade de descendentes de portugueses no Myanmar conheça essa herança cultural. O seu livro sobre os portugueses que por lá passaram durante a primeira dinastia birmanesa vai ter lançamento em língua portuguesa no próximo ano. “Se formos até estas vilas [na zona de Ye U, em Myanmar] falar com as pessoas e perguntar qual a sua nacionalidade, dizem que são portugueses. Não sabem onde fica Portugal nem falar português, mas sentem-se portugueses. Mesmo o Governo, até cerca de 1970 não os reconhecia como birmaneses, chamava-lhes estrangeiros”



Myanmar, à época Birmânia, foi um dos países por onde os portugueses se chegaram a fixar enquanto exploravam a Ásia. “Cannon Soldiers of Burma”, um livro de James Swe que retrata os portugueses que passaram pela antiga Birmânia e assumiram a posição de mercenários entre lutas pelo poder de reis, vai ser traduzido para a língua de Camões. Espera-se que seja lançado em meados do próximo ano.

James Swe, autor da obra, é ele próprio descendente de portugueses que se radicaram na Birmânia no século 16, embora viva no Canadá. O livro vai sair numa publicação conjunta entre a Gradiva e a Macaulink, com o apoio do Instituto Internacional de Macau. No território vai contar com o lançamento de 200 exemplares, enquanto em Portugal planeiam lançar 500.

Foi em 1510 que os portugueses chegaram à Birmânia. Realizavam trocas comerciais com a comunidade local e actuavam como mercenários a favor dos reis, outras vezes como inimigos. O autor explicou que os mercenários portugueses em 1613 perderam uma guerra contra o rei Anaukpetlun, tornando-se prisioneiros e se deslocaram para o centro da Birmânia.

Os portugueses que aí ficaram, dados pelo nome de “Bayingyi”, concordaram em servir como soldados por várias gerações. Anos mais tarde, foi-lhes concedida uma terra, Ye U, onde construíram a primeira aldeia portuguesa. Foi neste local que também nasceu James Swe. É descendente de portugueses na 14ª ou 15ª geração, conseguindo traçar a árvore genealógica até ao século 17.

Um dos motivos que o inspirou a escrever o livro foram as histórias que ouvia durante os Verões passados na terra natal. “A maior história que todos os católicos conhecem é que quando os portugueses foram presos e tomados como prisioneiros de guerra, todos os jovens soldados tiveram o tendão de Aquiles cortado, porque assim não conseguiam controlar o pé. Então não podiam fugir nem lutar”, recordou James Swe. Histórias passadas de geração em geração que agora partilha com a sua família.

O autor tem três filhos e quatro netos. “A minha neta Maya, tem muito interesse nestas coisas. Quando era mais nova disse à professora que os avós ajudavam refugiados na fronteira da Birmânia. E depois de dois ou três dias havia pessoas a deixarem-nos coisas à porta”, disse, referindo-se o episódio ao facto de tanto James como a sua mulher terem trabalhado numa clínica na fronteira com a Tailândia que dava apoio a campos de refugiados.

Para além disso, quer que a actual população de Myanmar saiba a história dos portugueses. “A população só conhece uma versão, de que [os portugueses] foram destruir os pagodes budistas. Tenho de lhes dizer que não foi isso que fizeram, até construíram um pagode para o casamento budista de uma princesa. E ainda está lá”, sublinhou, acrescentando que “os portugueses foram os principais actores na construção de uma Birmânia contemporânea”.

A ligação não morreu. “Se formos até estas vilas falar com as pessoas e perguntar qual a sua nacionalidade, dizem que são portugueses. Não sabem onde fica Portugal nem falar português, mas sentem-se portugueses. Mesmo o Governo, até cerca de 1970 não os reconhecia como birmaneses, chamava-lhes estrangeiros. Só agora é que os aceitam como cidadãos”, disse. James Swe apontou também para outras características de ligação: “Ainda mantemos alguma comida ou nomes parecidos. Cozinhamos salsichas de forma muito parecida, o meu pai adorava fazer esses pratos”.

James Swe é agora mais canadiano do que birmanês, dado que durante quase 40 anos não pôde pisar o chão da sua terra natal. Quando lhe foi autorizado o regresso, em 2012, já levava oito anos de investigação feitos. Com grande parte da biblioteca dos reis birmaneses no Reino Unido, o autor explicou que passou muito tempo a voar entre Inglaterra, Portugal e o Canadá.

Em Myanmar, a informação era escassa e pouco acessível. “Quando o governo militar tomou o poder em 1962 fecharam a universidade. Há livros na universidade mas não nos é permitido ter-lhes acesso”, comentou. Salomé Fernandes – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”