Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 7 de junho de 2026

Cabo Verde - Armindo Ferreira desafia narrativas sobre a independência, o PAIGC e Amilcar Cabral em “Diálogos Inquietantes”

Em Diálogos Inquietantes, Armindo Ferreira revisita alguns dos episódios mais sensíveis da história contemporânea de Cabo Verde, questionando narrativas consolidadas sobre a independência, o PAIGC, Amílcar Cabral e os debates identitários no arquipélago. Publicado em edição de autor, o livro reflecte a recusa do autor em submeter a escrita a critérios editoriais e comerciais, assumindo a publicação como espaço de liberdade pessoal, reflexão e prazer intelectual. Em entrevista, Armindo Ferreira explica o alcance provocador da obra, defende a dessacralização de certos mitos políticos e fala também de O Divórcio, conto integrado na publicação. Entre reflexão histórica, ficção e polémica, o livro assume-se como um convite ao questionamento. Ferreira revela que pondera ainda a realização do lançamento da obra, que, entretanto, já se encontra à venda nas livrarias Nhô Eugénio, em Achada Santo António, e Pedro Cardoso, na Fazenda

O livro está dividido em duas partes. Por que Diálogos Inquietantes dá título à obra?

Na verdade, o livro não está dividido em duas partes. Só o está aparentemente. São na realidade dois livros numa única brochura. O que chama segunda parte, é um livrinho que publiquei no ano passado “domesticamente” – uma distribuição extremamente reduzida e quase familiar ou muito pouco mais do que isso e que achei por bem agora incluir nesta brochura cujo título é Diálogos Inquietantes. São temáticas absolutamente autónomas, ambos diálogos inquietantes de natureza díspar, que reflectem, de certa forma, um antes e um depois do mesmo período histórico, abordados e expostos de forma bem diferentes.

Em que sentido estes 14 diálogos são inquietantes? Pelos temas controversos que aborda?

Não, não são 14 diálogos, mas sim, 14 capítulos. Aceito a sua conclusão com uma ligeira alteração: a controvérsia não é propriamente dos temas, pois estes são velhos e batidos, mas sobretudo pela temeridade da abordagem que deles faço: a dessacralização de determinados mitos e o ajustamento, com uma visão bem diferente e devidamente fundamentada e justificada, – obviamente do meu ponto de vista – de determinadas fantasiosas narrativas históricas.

Por exemplo, pela voz de uma das personagens, afirma que a independência de Cabo Verde resultou de uma cumplicidade entre o MFA (Movimento das Forças Armadas) e o PAIGC. Em que fundamenta essa afirmação?”

Eu provo lá que é uma cumplicidade. Bom, não vou explicar porque não vou falar do livro. O livro, o leitor chega lá mais tarde. Mas está lá explicado porque é que é uma cumplicidade. Tenho os dados que levam qualquer pessoa a chegar a esta conclusão, porque até há livros e ensaios publicados nesse sentido, de autores portugueses, que mostram que houve uma enorme cumplicidade entre o MFA e o PAIGC. E entregaram de bandeja a independência, não ao povo cabo-verdiano que devia ser, mas ao PAIGC, porque a independência foi entregue. Resultado: passamos 15 anos na continuação de um regime ditatorial e totalitarista. Portanto, nós saímos do Estado Novo e entramos numa ditadura que nada ficou a dever à outra: a censura, as torturas, as prisões arbitrárias, tudo o que a outra senhora tinha, nós continuamos a ter. Portanto, foi o MFA que entregou de bandeja... mas eu explico isso no livro de maneira mais acabada, não como estou a falar aqui de forma atabalhoada, porque infelizmente o MFA não escondeu isso. Pelo contrário, fez gala disso, no género de afirmações: já deixei o PAIGC pronto para poder fazer isto e aquilo e não sei quantos. Mas está tudo fundamentado no livro.

O livro refere também que o assassinato de Amílcar Cabral era, desde o Congresso de Cassacá, uma “morte anunciada”. Em que assenta a sua interpretação histórica?

Sim, as coisas do Congresso de Cassacá foram violentíssimas. Ele cavou um fosso e criou inimigos para todo o percurso que fez. E Amílcar Cabral, ao dogmatizar a unidade Guiné-Cabe Verde, ele estava a defender Cabo Verde e não a Guiné. Eu tenho isto mais ou menos exposto no livro. Note que Cabral dogmatizou a questão da unidade Guiné-Cabo Verde, não foi uma aliança. Cabral impôs uma questão como prioritária. Quer dizer que ele estava à frente da própria independência: é mais importante manter a unidade Guiné-Cabo Verde do que criar situações para que essa unidade viesse a ser aceite pelos povos dos dois países. Mas, como eu disse, eu tenho tudo isso escrito, não quero entrar nos pormenores do livro.

Através da personagem Dr. Leonardo Gonçalo, aborda criticamente certas manifestações contemporâneas do africanismo e questiona possíveis tendências de negação da mestiçagem que marcou historicamente Cabo Verde. Que reflexão pretende suscitar sobre os debates identitários contemporâneos no país?

Compreendo a sua pergunta, mas a minha posição sobre o assunto é, ou seria neste caso, irrelevante. Mas mesmo assim, posso-lhe dizer, que, para mim é um não-assunto. Mas não o é, de todo, para o Dr. Leonardo Gonçalo, personagem do meu livro, que o aborda en passant, posta de uma forma muito breve, nas seguintes posições: os primeiros homens que chegaram a este território eram caucasianos europeus. Logo Cabo Verde deve ser a única colónia portuguesa cuja história começa com a chegada dos portugueses. Estes trouxeram – não vieram!... – do continente africano pessoas escravizadas de várias e diferentes etnias – mais de três dezenas! – cada uma com a sua língua, com os seus costumes, com as suas tradições, com a sua cultura, com a sua História. Isto é, as pessoas escravizadas, para além da sua situação ou circunstância, estavam “apenas” unidas entre si pela cor da pele. A homogeneização de tudo isto, incluindo os caucasianos, deu o cabo-verdiano. Um produto acabado e definido há já alguns séculos! Usando, grosseiramente, uma linguagem e configuração química: formou-se um composto e deixou de ser uma mistura. Isto é, as especificidades de cada elemento “desaparecem” no produto final, no todo. Como bem disse Gabriel Mariano: “Nós somos as nossas raízes!”


O livro abre com uma citação de Bertrand Russell: “Dos infinitos desejos do homem, os principais são os desejos de poder e de glória.” Que significado pretendeu atribuir a esta citação no contexto da obra?

Eu penso que ao longo do livro o leitor não terá qualquer dúvida quanto ao alcance que dei a essa conclusão de Bertrand Russel. Deixo ao leitor esta incumbência.

Há uma passagem no livro em que o doutor Leonardo entra em cena no momento em que alguém afirma: “Temos de fazer como aquele camarada que incentivava outros camaradas a suicidarem-se como classe social, a fim de serem recebidos como ‘os melhores filhos’.” Como refere no livro, a expressão “suicídio de classe” não é originalmente de Amílcar Cabral, mas sim é atribuída a um médico maliano. Que reflexão pretende suscitar com esta referência?

Não, não pretendo suscitar qualquer reflexão. Apenas alertar para o facto de muitas das expressões ou frases atribuídas de forma grandiloquente a Amílcar Cabral não passam de lugares-comuns ou de adaptações de expressões já utilizadas por outras personalidades. O problema não é Cabral usá-las, mas os seus seguidores, por pura ignorância ou ostentação bacoca do culto de personalidade, na ânsia de o exaltar, citarem-no como autor, o que, no meu ponto de vista, até o menoriza.

Que enquadramento atribui ao conto O Divórcio dentro da estrutura e do universo temático do livro?

Penso que já expliquei atrás o aparecimento de O Divórcio bem como o seu enquadramento na estrutura da brochura.

À primeira vista, O Divórcio parece destoar um pouco do ambiente político e social vivido em Cabo Verde no período pós-25 de Abril. Considera que há um contraste deliberado ou entende que ambos os planos acabam por se complementar?

O conto O Divórcio situa-se precisamente no momento logo a seguir à Independência e passa-se no ambiente vivido pelos protagonistas na sua abrangente intimidade… Não parece existir qualquer contraste interno. Estarei de acordo consigo sim, que, de certa forma, poderá existir uma complementaridade.

A temática do divórcio é pouco abordada na literatura cabo-verdiana. O voo foi feito sobre as nuvens?

Talvez não. Note que o período logo a seguir à independência, nós tínhamos um regime católico em que o divórcio era uma espécie de um anatoma. As pessoas separavam às vezes e fingiam e continuavam a viver juntas. E quando se deu a independência, não é o seu tempo, não é o meu, foi uma explosão de divórcio por todo o lado, porque liberalizou-se. A concordata que existia com a igreja depois caiu. E os tempos foram outros, foram tempos de divórcio. Este é um elemento e por acaso até se justifica, porque a minha ideia é que o casamento, quer dizer, o indivíduo que é transportado para uma outra região, a senhora [personagem do conto O Divórcio], não obstante ser uma mestiça, tinha outra cultura e não aceitou a invasão familiar, que é normal em Cabo Verde, mas para ela não é normal, é uma intromissão na sua vida. Por outro lado, ela não se sentia integrada. E à essa falta de integração, de certa forma, culpou o marido. Mas deu uma chance ao marido: ou vens comigo ou divorciamos. Mas não vou contar toda a história, porque está no livro.

Considera adequado o timing escolhido para a venda do livro?

Esta seria uma preocupação de uma edição comercial. A edição do autor, normalmente, de reduzida tiragem, não deve ter essa preocupação, a de exponenciar essa vertente, mas sim, a de priorizar a divulgação. Neste caso específico, Diálogos Inquietantes, penso que a sua leitura seria, sem qualquer presunção, uma possível oportunidade para questionar, mesmo que apenas interiormente, certos posicionamentos!

Por que optou pela publicação do livro em edição do autor?

Eu poderia muito simplesmente responder-lhe: E porque não, edição do autor? Mas presumo que possa ter algum, não direi preconceito, mas alguma reserva, sobre a edição do autor, porque senão não a questionava. No meu caso específico, dir-lhe-ei que escrevo por prazer, para me divertir, não sou escritor. É uma maneira como outra qualquer de ocupar, de passar o tempo: registar as minhas reflexões, as minhas cogitações, os meus devaneios. E também sou eu que me divirto a fazer a composição e a paginação dos meus livros. Só a impressão não faço quando são muitas páginas. Indo directamente à sua questão: não tenho paciência para me submeter às prioridades do editor nem aos seus critérios, designadamente, comerciais. Bem me basta a “comissão de leitura” doméstica que, para além da apertada avaliação técnica, tem em conta, – porque também interessada, – a eventualidade de um fútil despesismo e que, normalmente não se fica pelo simples “no objection” indo, bastas vezes, à recomendação expressa e explícita de publicação ou não. António Monteiro – Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”


quinta-feira, 14 de março de 2024

Cabo Verde, África? Convenhamos!...

De há uns tempos a esta parte, vem-se assistindo a uma vaga de “africanistas” que, por algum desconhecimento, distracção, ou, quiçá, interesses de natureza ideológica, têm reivindicado a pertença de Cabo Verde ao continente africano. Parece confundirem a opção geopolítica do Estado cabo-verdiano com a geologia, a geomorfologia, a geografia, a geoquímica, a geofísica e a oceanografia do arquipélago e do litoral do continente que lhe está mais próximo que caracterizam e definem as suas afinidades. Na verdade, todas as geociências que acabamos de elencar apresentam dados convincentes de que Cabo Verde não é África nem Europa.

Cabo Verde inclui-se, geograficamente, no grupo de ilhas – arquipélagos – que se estende entre os paralelos 15º e 40º Norte em frente ao continente africano que se denomina “Atlântida” ou “Macaronésia”. Desse grupo fazem parte os arquipélagos da Madeira, Selvagens, Canárias e Açores; e o mais próximo, de entre estes arquipélagos, do continente africano é o das “Canárias” que se situa a menos de escassos 100 Km da costa africana enquanto Cabo Verde entre 450 a 600 Km.

Para melhor enquadramento geográfico de Cabo Verde não nos parece despiciendo referir que a plataforma continental – “continuação” submarina ou “parte submersa” do continente – que envolve a África tem uma extensão média de apenas 25 Km e uma profundidade que, normalmente, não deve ultrapassar os 200 metros. A completar este raciocínio de individualização física do arquipélago em relação ao continente que lhe está mais próximo, será importante referir as batimétricas que circundam o arquipélago cabo-verdiano onde vamos encontrar profundidades da ordem dos 3500 metros, que constituem barreiras significativas de separação entre o arquipélago e o continente, barreiras estas que não podem ser consideradas apenas de natureza topográfica.

Dizer que Cabo Verde é, geograficamente, África, significa, rigorosamente, dizer que Açores, Madeira e Canárias são também África, uma vez que “são bem estreitas as afinidades biogeográficas” (Geógrafo e Investigador Francisco Tenreiro) entre eles.

Outra confusão que igualmente decorre dos “africanistas”, esta, parece-nos, de natureza estritamente ideológica, é a generalização, a nosso ver, abusiva, da inclusão de Cabo Verde no processo geral do colonialismo africano.

Antes de mais, não é subestimável, o ponto de partida. Primeiro, da ocupação do território; depois, do exercício efectivo do colonialismo europeu que se situa, com algum rigor histórico, a partir da Conferência de Berlim em 1885 – bem depois da instalação (1866) do Seminário-Liceu em S. Nicolau! – e não na data dos “descobrimentos dos caminhos marítimos” do século XV.

A maior parte dos estudiosos da colonização admite que ela só pode existir se houver população autóctone.

É consabido que Cabo Verde não era habitado aquando da chegada dos portugueses, et pour cause, são os seus primeiros habitantes. Era o que se designa na linguagem jurídica res nullius, o que leva alguns autores, designadamente António de Sousa em “Colonização Moderna e Descolonização” a defender que não se podia falar, com propriedade, de colonização, mas sim de povoamento, uma vez que à data dos descobrimentos, não tinham os territórios [da Macronésia] «nenhum povo autóctone nem nenhuma cultura indígena». Esta concepção, embora seja maioritariamente defendida, não é unânime dado que a questão de quem detém o poder, – político e económico – poderá ser fracturante na definição de colonização, admitem uns poucos. Não está em causa, neste momento, a abordagem deste contexto, que é deveras complexo e de configuração polémica.

O que acontece, é quase todos os estudiosos, os pensadores, deste assunto serem defensores de que toda a colonização implica, numa sequência directa: o descobrimento, a conquista, a ocupação e o povoamento.  Em Cabo Verde isto não aconteceu.

O que é pacífico, no nosso Arquipélago, é que tanto o branco europeu como o negro africano eram, à partida, “estrangeiros”, o que leva Amílcar Cabral, – o grande mentor dos africanistas cabo-verdianos – sem se ater aos problemas procedimentais e sociais envolvendo as relações dos ocupantes do território, a sentenciar em “Evolução e Perspectivas da Luta. Seminário de Quadros do PAIGC,” ao sintetizar a questão nos termos que a seguir transcrevemos:

Se pensarmos bem, se estudarmos bem o problema, vemos que os cabo-verdianos não são de Cabo Verde. Se recuarmos muito (…) até 1600, por exemplo, 1500 e tal, 1400, vemos que Cabo Verde não tinha ninguém. Podia ser, por exemplo, que os suecos, nas suas viagens marítimas, se tivessem fixado lá. Hoje, Cabo Verde seria uma terra com gente de origem sueca. Aconteceu, porém, que os portugueses chegaram lá primeiro, mas não ocuparam tudo eles mesmos. Arranjaram escravos de África, principalmente, da Guiné e puseram lá esses escravos. Hoje, são esses os cabo-verdianos, descendentes de escravos africanos e de portugueses, os quais têm todo o direito à sua terra. Porque eles é que a fizeram com o suor do seu trabalho, embora sob a dominação dos tugas

Não está em causa o processo de miscigenação, ou de aculturação, que é quase sempre doloroso, e que não é nenhuma criação dos portugueses ou de qualquer outro povo, pois a “colonização é tão velha como a existência de agrupamentos humanos organizados” sendo-lhe inerente a natureza quase sempre conflitual. Mas a verdade nua e crua, no caso de Cabo Verde, é a miscigenação, os chamados «filhos da terra» que nascem do cruzamento e da aculturação mútua dos povoadores. Como dizem os anglo-saxónicos, o que interessa é, de facto, “the bottom-line”, os resultados finais.

Tendo em conta o processo de povoamento de Cabo Verde, muito diferente do das outras colónias, o “colonialismo” em Cabo Verde não era, nem podia ser igual ao das colónias continentais. Nestas, o processo foi conflituoso, turbulento, tormentoso, porque a ocupação foi feita pela força das armas, porque existia um povo que foi submetido e que resistia, enquanto em Cabo Verde a ocupação foi pacífica pelas razões óbvias, o que não significa que não tenham existido, posteriormente, episódicos focos de conflitos, quase sempre de carácter muito localizado e circunscrito, muitas vezes de natureza socio-laboral e, outras vezes, até, estritamente social. É natural e compreensível, que em determinadas circunstâncias se tente hiperbolizar esses acontecimentos conferindo-lhes desmedida dimensão histórica. É isto, com outras envolvências, que se depreende do pensamento de Amílcar Cabral expresso na obra já citada, que a seguir transcrevemos:

«Mas temos que entender bem porque é que a situação era diferente em Cabo Verde. É porque Cabo Verde não foi uma terra conquistada como a Guiné, ou como Angola e Moçambique. Nestas colónias, os tugas tiveram que criar, imediatamente, uma situação para garantir que aqueles nativos contra os quais fizeram a guerra nunca mais se levantariam e dividiram o povo em indígenas e assimilados. Em Cabo Verde, não era preciso, as pessoas não eram de lá, não tinham vida organizada nas ilhas. Fizeram dela a sua terra, reproduziram-se, até dar a população de Cabo Verde. Os tugas adoptaram, portanto, uma outra política: todos são cidadãos».

Atente-se bem às conclusões de Amílcar Cabral e tenha-se algum cuidado na abordagem generalista do colonialismo português, – sem nunca esquecer a sua natureza abjecta e deplorável – designadamente e sobretudo, na aplicação do abominável “Acto Colonial” e da execrável lei do “Indigenato”.

Não é, por acaso que uma plêiade de distintos sociólogos e académicos que estudam a problemática da colonização nos diz que “aquele arquipélago [Cabo Verde] era, científica e tecnicamente, uma colónia sem colonização e sem colonialismo.”

Impõe-se, pois, uma outra abordagem, mais atenta, científica e demorada!... Armindo Ferreira – Cabo Verde in coral-vermelho.blogspot


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Cabo Verde - A emigração laboral não pode ser um desígnio!... é um alerta!

Tem vindo a causar alguma inquietação, com muitas interpelações ainda por se fazer, esta procura, esta vontade, este desejo explicitamente manifestado por muitos jovens de saírem de Cabo Verde, com rumo a Portugal. E estratagemas para o fazer têm sido vários conforme informação constante de vários órgãos da comunicação social.

Podia parecer um movimento normal, dado que nos habituamos ao longo dos anos a alguma movimentação da população cabo-verdiana que se dizia ser idiossincrática. Só que respeitava a polémica e politizada expressão “querer ficar e ter de partir”. Expressão esta que alimentava uma das grandes vertentes da luta pela independência das ilhas, nos anos 60 e princípios de 70 do século XX, que era a de pôr fim à emigração uma vez independentes, ao desaparecer deste modo as suas razões – fuga à pobreza e procura de bem-estar e vida digna – que, supostamente, se resolveriam com a independência do Arquipélago.

Ironia do destino! nunca o cabo-verdiano emigrou tanto, como após a independência! Uma inversão total nos suportes dessa independência – agora é querer partir e ter de ficar!

Os destinos então procurados, pelos nossos ilhéus, – Estados Unidos e Europa – fecharam-se há muito à emigração cabo-verdiana.

E a acompanhar a ironia surge o paradoxo: É precisamente o país que “voluntariamente” declinámos no passado que hoje mais desejamos e é praticamente o único cujas portas ainda se nos abrem e de forma condicionadamente escancarada – Portugal.

Mas voltando um pouco atrás e fazendo uma pequena retrospectiva à década de sessenta do século passado, data da partida dos homens oriundos do interior da ilha de Santiago, que constituíram a principal mão-de-obra para a construção não só da rede do Metro de Lisboa como da expansão urbanística da chamada Grande Lisboa, destacando-se os empreendimentos “J. Pimenta, Lda”.

Aí tivemos a grande leva, – quiçá a primeira – de migrantes cabo-verdianos que assentou raízes em Portugal. Mais tarde, em 1974, com a ocorrência da Revolução de Abril, uma outra leva, esta «diasporizada» – era mesmo uma diáspora no sentido literal do termo – por motivos políticos, chega a Portugal integrando aquilo a que então se generalizou chamar “Retornados”.

Ora bem, abreviando, de 40 mil pessoas que constituía a comunidade cabo-verdiana imigrada em Portugal, rapidamente se passou para 80 mil na década de oitenta do século anterior, – sem ter em conta as dezenas de milhares que terão adquirido a nacionalidade portuguesa, – chegando a ser, naquela década, a maior comunidade dos PALOP, imigrada em Portugal. Refira-se que alguns estudiosos das migrações defendem que, de uma maneira geral, a imigração tem como destino final a aquisição da nacionalidade do país de acolhimento numa óptica de integração plena, globalizando os direitos dos nacionais.

As migrações hoje, na era da globalização, são de vária índole, de motivações várias e de escalões sociais diversos. Mas aqui, referimo-nos às de natureza laboral feitas por gente profissionalmente pouco qualificada.

Pois bem, como atrás verificamos, tudo isso tem vindo a acontecer com particular frenesim após a independência do nosso país, não obstante as medidas impeditivas que inicialmente se tomaram com evidente incidência no fluxo migratório de saída.

Isto porque nos primórdios da independência havia da parte do regime então instalado uma antipatia aos conterrâneos que viviam no estrangeiro; eram desprovidos do exercício dos seus direitos de cidadania enquanto residentes no estrangeiro; impedidos de ter uma segunda nacionalidade, designadamente a do país de acolhimento; apreciados apenas pela sua ajuda aos familiares constituindo aquilo que se designa de “remessa de emigrantes”; e apelidados pejorativamente de “estrangeirados”.  O fluxo migratório de saída, de então, era absolutamente controlado administrativamente pela chamada “autorização de saída” um documento obrigatório para se viajar passado pela polícia, – hoje só praticada na Coreia do Norte – o que manifestamente significa ausência de liberdade definindo deste modo a natureza antidemocrática e repressiva do regime.

O espectáculo triste e deprimente que temos assistido junto dos consulados de Portugal no Mindelo e na Praia  é afrontoso e devia encher de vergonha, todas as instâncias do poder, nelas incluídos não só os nossos governantes, mas também, toda a classe política responsável dos últimos cinquenta anos. Neste quadro não podemos culpar aqueles que o fazem à procura de uma saída para uma vida melhor, para o seu bem-estar, mas sim aqueles que não criaram condições para que eles, no seu país, pudessem viver com algum conforto mínimo e dignidade. É simplesmente triste e desolador o que se passa junto dos consulados de Portugal de Mindelo e Praia. Acaba por ser algo deprimente e constrangedor para o País!

O fluxo migratório de entrada é normalmente considerado, uma questão de soberania dos Estados e é regido pelas leis internas baseadas, logicamente, nos interesses directos ou indirectos desses Estados e cobertos – nos países democráticos – pelos preceitos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O direito internacional pouco ou nada tem a ver com isto. Daí que acusar Portugal ou os seus serviços consulares pelo espectáculo deprimente que se assiste em Cabo Verde junto dos seus consulados não faz qualquer sentido. Ou é má-fé ou não é querer aceitar que somos independentes há quase cinquenta anos... e Portugal como País soberano tem o direito de controlar as suas fronteiras e de seleccionar a entrada dos migrantes legislando e procedendo de acordo com os seus interesses de soberania.

Como travar e explicar esta avalanche de jovens que tentam sair do país a todo o custo?

Sobre este assunto, ouvimos de um alto responsável do País de que a emigração é boa e importante porque corresponderá a uma maior remessa de divisas.

Este comentário público, porque o achámos demasiado simplista, não cremos que tenha resultado de uma análise séria do problema, a montante, em pleno século XXI; mas mais, perguntamos: será que tal pensamento sintetiza tudo o que um governante pensa quanto à fuga, ao desperdício da força jovem produtiva para o desenvolvimento do País?

E jamais acreditaríamos que tais palavras comportassem qualquer espécie de regozijo e de alívio pela outorga dessa força produtiva a um outro país. Com quem contará o País, para o seu desenvolvimento?

Perante tal crise, pois de uma crise se configura, ao que parece os responsáveis nacionais ainda não se perguntaram o porquê deste afã, esta ânsia generalizada de deixar a terra? Não vamos apresentar a estatística do desemprego, da pobreza nem da pobreza extrema.

Quase 50 anos se passaram desde a nossa independência. E elencando os principais problemas à partida, muito poucos se resolveram fora da evolução que o decorrer natural do tempo não solucionaria.

Na verdade ao se nos deparar a possibilidade de autodeterminação e independência – duas fases que nos permitiria reflectir sobre uma eventual transição, se necessária; ao invés, quisemos fazer – e fizemos! – jus à célebre frase que se atribui a Ahmed Sékou Touré:  “Nous préférons la liberté dans la pauvreté  à la richesse dans l’esclavage!” e não demos tempo a uma ponderação sobre os nossos interesses vitais como muito preconizavam alguns que bem conheciam o Arquipélago, e abraçámos uma “independência na pobreza”; e, tal como Sekou Touré, também sem a apregoada liberdade, liberdade esta que levámos 15 longos anos para a conquistar.

Daí que talvez a posição de Aristides Pereira tenha mesmo cabimento quando disse: “depois de ter pensado muito a sério, e muito a frio, sobre todos estes anos”[i] que (transcrevemos) “Hoje em dia, é minha firme convicção que a aspiração do povo de Cabo Verde não era a independência, mas a autonomia”[ii]. (fim da transcrição) Mas talvez quisesse dizer que [a independência] devia ter sido negociada em vez de se aceitar a encenação[iii].

Mas ao que parece também [a posição de A. Pereira] se respaldava no pensamento do seu camarada, amigo e mentor Amílcar Cabral que a seguir transcrevemos:

«Se porventura em Portugal houvesse um regime (…) disposto a construir não só o futuro de Portugal, mas também o nosso, mas em pé de absoluta igualdade, quer dizer que o Presidente da República pudesse ser tanto de Cabo Verde (…) como de Portugal, etc., que todas as funções (…) fossem igualmente possíveis para toda a gente, nós não veríamos nenhuma necessidade de (…) fazer a luta pela independência, porque já seríamos independentes num quadro humano muito mais largo e talvez muito mais eficaz do ponto de vista de história»[iv].  (fim de transcrição)

e, igualmente, se inspirava nas conhecidas conversas e insistência de Mário Soares quanto à independência de Cabo Verde.

Acontece que entre as ilhas Atlântidas[v] ou Macaronésia, na qual nos inserimos, somos aqueles que têm o pior nível de vida. E somos também aqueles que durante estes últimos 50 anos menos se desenvolveram.

É com elas que nos comparamos – Açores, Madeira e Canárias – as da Macaronésia. É o espaço geográfico a que pertencemos e no dizer de Francisco Tenreiro [aquele em que os arquipélagos citados] apresentam “estreitas afinidades bio-geográficas”. Eles, como nós, elegem democraticamente o seu presidente, a sua assembleia (deputados), constituem os seus governos e têm os seus tribunais – administram integralmente os seus respectivos territórios. E não perderam a sua identidade! Só não têm Forças Armadas e Negócios Estrangeiros, e não têm também a mão estendida para fazer os seus orçamentos ou financiar os seus investimentos – reivindicam, não pedem! Não precisam – e não têm necessidade económica de o fazer – de visto para entrar na Europa nem nos Estados Unidos.

Não nos parece oportuno nem pertinente entrar por aí, porque teríamos talvez que falar e de nisso incluir, a ganância de poder – o poder pelo poder – como motivação principal dos jovens candidatos a governantes da luta pela independência o que iria encurtar a sua já curta visão cultural, económica e política do arquipélago; e também porque nos parece que aqui sim, adequa-se o adágio “não vale a pena chorar sobre o leite derramado”.

E voltando à nossa emigração, perguntamos o que pensam todos os nossos responsáveis políticos fazer – Presidente da República, Governo, Assembleia e as demais organizações políticas – para travar esta compulsão da nossa juventude em deixar o país?

É sabido que em democracia o controlo de saída só pode ser regulado através de medidas de política. O tempo de «autorização de saída» – via administrativa repressiva – passou porque só lá podia estar, na ditadura e repressão da 1ª república.

Só políticas sérias e realistas de desenvolvimento, – sem retóricas propagandísticas e de conservação de poder, nem debates estéreis e inconsequentes, – o que implica aproveitar com inteligência e pragmatismo todos os potenciais recursos – sobretudo os humanos – existentes, poderão salvar este surto, sustar o movimento ou mesmo – quem sabe? – reverter-lhe o sentido. O exemplo de Coreia do Sul e Taiwan costuma ser apresentado como paradigmático. Consistiu numa política de retorno da sua emigração pensante, da sua gente qualificada, dando-lhes e criando-lhes condições para desenvolverem e aplicarem nos seus países de origem todas as suas potencialidades e conhecimentos que adquiriram na emigração.

Impõe-se, pois, uma orientação estratégica para a questão migratória – normalmente associada a uma agenda demográfica – centrada na educação, formação, trabalho, fixação dos jovens, economia e, obviamente, desenvolvimento.

Mas o que na realidade também muito nos preocupa nesta saída em massa de jovens sem qualquer preparação, com uma escolaridade precária e sem estarem, na sua grande maioria, aptos a expressarem-se na nossa Língua segunda, a Língua portuguesa, é a sua impreparação para enfrentar e concorrer em Portugal a empregos com gente oriunda do Brasil, de Angola, que fala português e, consequentemente, com as desvantagens de resultados bem conhecidos.

Os eventuais insucessos, fracassos, frustrações e desencantos com origem nesta desvantagem linguística ou outra, podem ter um forte e grave efeito boomerang e trazer para o País outros problemas bem mais graves do que os de partida.

A sociedade cabo-verdiana, os seus responsáveis, terão de prestar mais atenção a este fenómeno.

Falamos de Cabo Verde, mas parece que o fenómeno se estende a outros PALOP e, incompreensivelmente, ao Brasil. E de tal forma neste último país que o seu presidente já veio dizer que qualquer dia haverá mais brasileiros em Portugal do que portugueses.

O problema é complexo, sabemos, e assente em causas, motivações, particularidades, circunstâncias e especificidades de cada país, não obstante permanecerem certos parâmetros, que, parece, serem comuns a todos: Falta de visão estratégica da classe política e ineficiência dos governos.

A emigração laboral não pode ser um desígnio!... É sempre um alerta! Ondina Ferreira e Armindo Ferreira – Cabo Verde in coral-vermelho.blogspot.com

[i] In “Expresso” de 20 de Novembro de 1993 pág. 45-R

[ii] Idem

[iii] Vide “Quase Memórias – Da Descolonização de Cada Território em Particular - 2º   Volume” – António Almeida Santos – Casa das Letras – 2007

[iv] CABRAL, Amílcar – Guiné-Bissau: Nação Africana Forjada na Luta. Lisboa: Publicações Nova Aurora, 1974, p. 117.

[v] Ilhas Atlântidas − arquipélagos [Açores, Madeira, Selvagens e Canárias] que no Atlântico, e em frente ao «Velho Mundo» se estendem entre 15 e 400 de latitude norte – Francisco Tenreiro in Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe: esquema de uma evolução conjunta. – Cabo Verde – Boletim de Propaganda e Informação Nº 76 - Ano VII - Janeiro de 1956

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Comentários:

Adriano Miranda Lima disse:

Só quem queira tapar o sol com a peneira deixará de subscrever integralmente este texto de reflexão sobre a nossa realidade política e social. Os seus autores retratam-na rigorosamente como ela é, focando e analisando aquilo que é uma perfeita evidência da pouca esperança que a população mais jovem deposita no futuro da sua/nossa terra.

Os autores recusam, melhor dizendo, denunciam, os disfarces ou mistificações em que outrora incorreram os que forçaram a independência das nossas ilhas e se assenhorearam exclusivamente do poder de decisão sobre o seu destino, na presunção de detentores de uma legitimidade inquestionável e outorgada pela vontade popular. Por um misto de entusiasmo revolucionário, de inexperiência e falta de ciência e de recusa em ver o óbvio não tiveram plena consciência da gravidade do compromisso que então assumiram. Não se aperceberam de que forçaram o povo das ilhas a embarcar numa carroça cujas rodas iriam futuramente e fatalmente revelar-se quadradas. Se nos tempos que imediatamente se seguiram ela andou empurrada pela comunidade internacional e também mercê de um evolucionismo natural, era inevitável que chegaria o tempo em que a verdade se apresentaria em toda a sua crueza: as nossas ilhas são pobres, são desprovidas de recursos naturais e o contexto geográfico não as privilegia. A sua posição geoestratégica deixou de ter a mesma importância de outrora, e mesmo ela dificilmente poderia constituir factor determinante para uma decisão crítica, como de facto não aconteceu. Esta é a realidade, mas apesar de tudo tem de se reconhecer aos que tomaram o poder um certo espírito de missão e coragem em enfrentar as adversidades.

Nunca esquecerei estas palavras de um meu superior hierárquico (português da metrópole), em finais de Abril de 1974, que em idade mais jovem prestou serviço em S. Vicente, conhecendo bem a nossa realidade social: “Lima, Cabo Verde tem mesmo necessidade se se tornar independente agora que vamos ter um Portugal livre e democrático?” Isto foi-me perguntado depois de ouvirmos uma declaração de Pedro Pires acerca da independência da Guiné… e necessariamente de Cabo Verde. Respondi-lhe que ignorava de todo o que iria ou poderia acontecer, mas que duvidava que os meus conterrâneos tivessem qualquer interesse ou vantagem na independência. Ademais, não me parecia crível que Portugal pudesse prescindir das suas próprias e inequívocas responsabilidades relativamente a ilhas que descobriu e povoou, e bem ou mal administrou ao longo de 5 séculos, tempo longo demais para ser ignorado e rompido em breves momentos de exaltação emocional.

Derivando agora para a questão da língua que os prezados autores consideram ser uma desvantagem para os nossos jovens que anseiam competir no mercado de trabalho em Portugal. De facto, é uma desvantagem iniludível, mais do que poderá parecer. E vou mais longe. É sermos falantes de um crioulo próprio que em parte nos cria a ilusão de uma identidade distinta que por sua vez alimenta um exagerado sentimento de auto-estima. Não terá esta circunstância pesado sobremaneira na presunção de que uma singularidade cultural bastava para justificar e impor a independência política, independentemente de esta ser ou não economicamente sustentável? Mas, ao mesmo tempo, cabe perguntar se essa singularidade cultural não é produto de um excesso de auréola, a ponto de os promotores da independência terem enveredado por uma política em matéria linguística com os resultados desastrosos que hoje estão bem à vista e tanto limitam as possibilidades da nossa gente quer no ensino quer no mercado de trabalho.

E é assim que ironicamente caímos no estranho paradoxo de termos irresponsavelmente enjeitado o antigo país administrante das ilhas – sem dúvida facilitando-lhe a vida na medida em que se livrou dos encargos e responsabilidades a que a história e o direito o obrigavam – e agora darmos um cavaquinho para que ele abra as portas e ofereça trabalho aos jovens que nas nossas ilhas vêem o futuro trancado.

Insisto em ver no crioulo (que eu ainda consigo falar com a maior desenvoltura, porque jamais se esquece da língua aprendida no berço) um enorme e verdadeiro estorvo para a nossa gente. E até mesmo no mercado da música em Portugal. Ligo o rádio do meu automóvel e ouço música angolana com grande frequência, e só muito raramente a nossa música. Actualmente, dois jovens oriundos de S. Tomé, pertencentes ao grupo “Calema” estão a ter um grande sucesso em Portugal. Na última festa dos Tabuleiros em Tomar foram um dos grupos convidados para animar o público num espaço público. Foram muito aplaudidos porque na verdade são talentosos. Ora, os nossos cantores não são menos talentosos. Só que os angolanos, são-tomenses e outros cantam em português e o conteúdo das letras é percebido por todos, portugueses, brasileiros, angolanos e os outros falantes da mesma língua. Ao passo que as nossas intervenções vocalistas têm o handicap de só serem percebidos por cabo-verdianos. Aliás, é esta limitação natural que inibe ou não encoraja os escritores cabo-verdianos a publicar obras em crioulo. Se nas nossas ilhas ainda assim poderiam encontrar algum ocasional ou raro comprador, o mesmo não se dirá no vasto mercado dos PALOP.

Bem, gostaria de partilhar o optimismo – é bom que o não deixemos morrer – dos dois prezados e amigos autores. Bom seria que conseguíssemos replicar o exemplo paradigmático da Coreia do Sul e de Taiwan. Mas creio que são distintos os contextos históricos e os marcos temporais que permitiram o desenvolvimento explosivo desses países e o que determina a actualidade da nossa terra. No início da década de 1950 fizeram escolhas decisivas nos planos sociais e económicos que encorajaram os EUA a prestar-lhes importantes apoios financeiros. Por outro lado, é possível que a localização geográfica e a questão cultural e a da idiossincrasia, muito diferentes, não permitam reeditar experiências semelhantes com o mesmo sucesso. Dificilmente estou a ver a nossa gente “diasporizada” a regressar à origem para pôr o seu saber e a sua ciência ao serviço da terra natal, tantos anos se passaram e tão adaptados estão a realidades sociais diferentes. Também não estou a ver os governantes e políticos cabo-verdianos a abrir mão de oportunidades que julgam irrepartíveis. Tive conhecimento de 3 casos de pessoas que ofereceram ajuda e nem resposta tiveram, o que acho simplesmente deplorável. Assim, é possível que haja requisitos de mentalidade que também não nos favorecem. No entanto, para não ser excessivamente pessimista, julgo que é de enaltecer o facto de Cabo Verde ser o único país das antigas colónias em que a democracia formal funciona sem peias e os direitos humanos são respeitados, embora não seja confortável conceber uma plenitude de direitos humanos sem a satisfação de necessidades básicas para a maioria das populações.

Para finalizar, porque já fui longe demais, intriga-me que os responsáveis por esta nossa precária independência pouco ou nada dêem a cara, refugiando-se num silêncio que talvez só se explique por um certo constrangimento moral. É que praticamente foram os únicos que em termos pessoais verdadeiramente beneficiaram com a independência. Pelo que acompanho desde há anos na imprensa, não se vê um artigo de opinião ou intervenção pública em que partilhem das preocupações gerais ou sugiram soluções para desbloquear esta “carroça de rodas quadradas” em que meteram o nosso povo. Ainda não há muito tempo, alguns conterrâneos, residentes e na diáspora, muito opinaram acerca de uma reforma administrativa e política que conduzisse a um modelo de regionalização ou descentralização do poder favorecendo o relançamento da economia e o desenvolvimento mais harmónico das ilhas. Não me recordo de uma única intervenção dos “heróis da pátria” que ainda sobrevivem.

É lastimável que sejamos o único arquipélago da Macaronésia obrigado a arcar com todos os encargos da sua sobrevivência económica, para isso tendo de estender a mão ao mundo, quando poderia simplesmente ser parte de um todo mais extenso e receber o que é de direito.

Mas dar a volta a esta situação poderá estar na mão das gerações mais novas ou futuras.

Um abraço amigo aos autores Ondina e Armindo Ferreira.

 

Desconhecido disse:

Este artigo devia ser publicado num jornal de grande tiragem para poder ter a difusão que a sua importância justifica. A maioria dos caboverdeanos talvez tenha a mesma opinião de concordância que eu e outros têm mas estou convencida que haverá muitos hipócritas a fazer de conta que está tudo bem.

São aqueles que têm as suas vidas bem orientadas nos grandes tachos do estado ou nos negócios e não se importam se chove ou não, se há trabalho ou não para a população juvenil ou se há ou não pão para todas as bocas. Ia dizer cachupa mas ela hoje é muito cara. E estou a pensar principalmente naqueles que foram os responsáveis originários para a situação de bloqueio em que estamos e que vivem com chorudas reformas. Dói olhar para a realidade e não se pode assobiar para o lado.

 

Adriano Miranda Lima disse:

É irresistível não continuar a comentar.

No jornal Público (Portugal) de hoje li que “um estudo recente sobre os países do Norte de África e do Médio Oriente, citado pelo Financial Times, mostra que cerca de metade das pessoas entre os 18 e os 24 anos pretende procurar trabalho no exterior”. Depreende-se que os países africanos do Sahel só não são citados porque se pretendeu restringir o estudo aos países geograficamente mais próximos da Europa. Mas ninguém ignora que eles estão e sempre estarão na primeira linha para integrar maciçamente as ondas migratórias, fazendo-o com custos e riscos acrescidos e em condições bem mais penosas porque os seus migrantes têm de chegar ao Norte de África antes de tentarem demandar a Europa atravessando o Mediterrâneo.

Não foi objecto do artigo “A emigração laboral não pode ser um desígnio… é um alerta” abordar as causas do desequilíbrio planetário que impede os povos de viverem nos seus países com um mínimo de condições, tais como: o sub-desenvolvimento, as alterações climáticas, a incontrolável corrupção e a instabilidade política. Ainda hoje foi noticiado um golpe militar no Gabão que depôs o presidente recentemente reeleito e dissolveu todas as instituições. Independentemente das razões invocadas pelos golpistas, o facto é que a África sub-saariana parece destinada a não conseguir libertar-se dos círculos viciosos de violência e instabilidade. Muitas vezes se responsabiliza a Europa e o mundo desenvolvido por não investirem em África de forma mais decisiva, mais extensiva e mais controlada, pressupondo-o como a medida mais acertada para fixar as populações nas suas terras, travar as ondas migratórias e possivelmente prevenir uma desestabilização que poderá ter dimensão e riscos imprevisíveis e incomportáveis. Um amigo bloguista, economista reformado, publicou há tempos um texto em que demonstrava que o deserto do Saará poderá tornar-se o celeiro do mundo e resolver os problemas de África. Apontou soluções técnicas, como a irrigação maciça através de água dessalinizada e transporte de terra arável a uma escala gigantesca, tudo financiado pela UE e outras potências. Acredita que a progressão do desenvolvimento agrícola iria inclusivamente alterar com o tempo as condições climáticas em toda a região. Seria uma reversão ambiental sem precedentes. Esse amigo português é um sonhador, um ser bom e um coração de ouro, e ao mesmo tempo um homem de ciência com uma visão pragmática do mundo. Mesmo que cientificamente viável, essa solução iria certamente levar muitas décadas a dar frutos, e isto desde que não fosse obstaculizada pelos problemas graves e endémicos de África, como a corrupção e a instabilidade política.

Posto isto, volto ao nosso caso concreto, o dos nossos jovens que “querem partir e têm que ficar”. No comentário anterior, ficou claro que em 1974 estivemos numa encruzilhada crítica e escolheu-se o caminho: um grupo supostamente iluminado ou presciente o fez em nome do povo. Honra-nos a circunstância de não sermos parcela dessa África politicamente atrasada ou imatura, mas infelizmente confrange reconhecer que para os nossos jovens os horizontes se apresentam quase tão limitados como o de outros países que até terão melhores condições económicas, como os magrebinos. E, no entanto, outra tivesse sido a escolha estaríamos naturalmente integrados no espaço político e económico que é avidamente procurado pelos migrantes de regiões desfavorecidas. Os nossos jovens poderiam demandar a Madeira, as Canárias, os Açores e, principalmente,

Portugal continental, para procurar trabalho, de onde poderiam rumar livremente aos países do espaço Schengen. Não somos etnicamente europeus? Também não o são as populações das regiões administrativas francesas: Martinica, Guadalupe, Guiana Francesa, Maurícia e Reunião. Ou dos diversos territórios britânicos ultramarinos que preferiram abdicar de uma ilusória independência, como: Anguilla, Acrotíri e Decelia, Bermudas, Malvinas, Gibraltar, Ilhas Caymans, Ilhas Virgens Britânicas, Montserrat, Pitcairn, Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha, etc. Isto para não falar dos que estão sob a tutela dessa Holanda que no passado acolheu a nossa gente: Aruba, Curaçau, São Martinho e Países Baixos Caribenhos.

Mas, orgulhosamente, ou talvez crentes numa qualquer predestinação, preferimos ficar “sozim na munde”, sem medir as consequências, sobretudo as futuras.

Alguns poderão observar que caso estivéssemos na mesma condição político-administrativa das restantes ilhas da Macaronésia, isto é, com possibilidade de transitar livremente pelo espaço comunitário, poderiam as nossas ilhas ficar esvaziadas de gente. Talvez não, porque haveria certamente outras condições de vida e, por conseguinte, mais trabalho. Alguém sai da sua terra de ânimo leve, mormente da nossa, que apesar de tudo tem “tcheu cosa sabe”?

Para terminar, porque voltei a ser prolixo, comento estas palavras do artigo do blogue: “Sobre este assunto, ouvimos de um alto responsável do País que a emigração é boa e importante porque corresponderá a uma maior remessa de divisas”. Os autores analisaram muito bem estas palavras, que considero lamentáveis, duvidando que pudessem ser proferidas por um governante mais sagaz ou atento. Pois, são assassinas, porque denunciam a pouca crença do governante no futuro do seu país, o que afinal só confirma as considerações por nós aqui feitas. Jamais e em tempo algum remessas de divisas podem substituir ou compensar a fuga da inteligência e da força produtiva de um país, a menos que este se conforme com a precariedade do seu destino. Pensar desse modo é admitir que uma vantagem imediata é suficiente para adiar ou iludir o futuro.

Um abraço amigo para os autores.

Adriano Lima

 

Mário de Sá Barbosa disse:

Acabo de ler o vosso artigo sobre a emigração de jovens, uma sangria irreparável de que Cabo Verde sofre, sem quaisquer perspectivas de estancamento ou inversão

Cumprimento-vos pela vossa coragem ao abordarem um tema tão sensível e, sobretudo por apontarem os responsáveis por essa hemorragia.

Sempre que me desloco em Lisboa, sobretudo quando utilizo transportes públicos, constato esta tragédia que atinge a população jovem das antigas colónias de Portugal. Virem vender a sua força de trabalho, por patacos, em tarefas que o português não está disposto a desempenhar. A Guiné tem uma imensa colónia de nacionais, sobretudo na construção civil, os homens, e nas limpezas, as mulheres. Trabalhos difíceis, mal remunerados, e precários. Parece que o círculo de pobreza, que os trouxe até cá não os deixa.

É claro que os responsáveis, quer os revolucionários de 25ª hora e a classe política actual, são incapazes de admitir o erro e, por isso, iniciarem um ciclo de aproveitamento dos poucos recursos de que Cabo Verde dispõe.

Por agora, ainda não começaram a acontecer episódios graves de violência racista. Mas a sua ocorrência, na minha opinião, será inevitável, atendendo ao surto imigratório, não caucasiano, e à existência de uma associação nazi com uma forte representação parlamentar.

Contaram-me um episódio que terá acontecido durante a visita do Marcelo à Guiné, que reflecte o triste espectáculo que vocês descrevem passar-se à porta dos consulados de Portugal, na Praia e no Mindelo. Diz que cantavam, "No misti vistu, no misti vistu!"

Continuar a defender, volvidos mais de 50 anos, toda a teoria do Cabral sobre a luta de libertação, como se fosse um oráculo, parece-me, à luz da realidade, uma atitude que não prima pela honestidade.

Quando vieres a Portugal, espero ter oportunidade de me elucidares sobre as reacções da classe política a este vosso polémico e "incómodo" artigo.

Parabéns para a Ondina e para ti!

Abraços

 

segunda-feira, 6 de março de 2023

Cabo Verde – Proibição do Crioulo ou Recomendação do Português?

“…. Pode não ser intencional, mas resulta seguramente num método muito eficaz para reduzir drasticamente ou mesmo extinguir uma virtual (ou real) ameaça da concorrência.”


Tenho seguido em conversa rigorosamente de café, no caso no “Nhô Eugénio” que frequento regularmente, – felizmente que há muito que deixei de ler artigos sobre o assunto – uma polémica à volta de uma eventual “proibição” de falar outra língua que não o português, na circunstância o crioulo, entre os alunos da Escola Portuguesa de Cabo Verde, pelo menos no espaço restrito da Escola. Não descortinei qualquer problema no assunto e fiquei deveras surpreendido com a dimensão da polémica. Daí, ou melhor, daqui a minha surpresa; e esta apoia-se nos pressupostos seguintes:

1. Será que a medida tomada vai ao arrepio dos objectivos pedagógicos da Escola e, consequentemente, prejudicial aos alunos? Esta seria a minha preocupação primeira: Se os alunos são, de algum modo, prejudicados com a medida. Nessas discussões, alguém com conhecimentos nesta matéria, lembrou que o método que possivelmente usa a Escola Portuguesa no ensino do português, é o método vulgarmente chamado de “banho imersivo” dos alunos na aprendizagem de uma língua viva, segunda ou estrangeira, isto é, elimina-se à volta dela qualquer interferência de outra língua, ainda que seja a Língua nacional, para que o aprendente  possa interiorizar e automatizar no fim da aprendizagem a língua ensinada, no caso  em  foco,  a Língua portuguesa.

2. Ter em conta que a Escola Portuguesa é, para Cabo Verde, um estabelecimento de ensino privado, com o seu programa e com objectivos bem definidos entre os quais, – não sei se expressos nos Estatutos, – o fomento e a promoção da Língua portuguesa. Deste modo só a frequenta quem quer, e aquele que o fizer terá de se cingir aos seus objectivos e métodos desde que os mesmos não sejam inconstitucionais ou contrários às leis do País.

3. Outrossim, a recomendação – trata-se de uma recomendação pedagógica e não de uma proibição, – há anos que vem sendo praticada pelos estudantes do “Les Alizés” com o francês e, neste caso, mais me parece que tenha havido uma ufania, uma vanglória, na apresentação deste procedimento da parte dos pais e encarregados de educação dos estudantes que frequentam esse estabelecimento de ensino francês do que uma condenação ou repúdio como agora acontece com o português.

4. Que indivíduos da geração pós-independência – são eles os pais ou encarregados de educação dos alunos – a geração mais escolarizada e qualificada que Cabo Verde alguma vez já teve, sejam ainda, na era da globalização, reféns de um nacionalismo serôdio e em muitos aspectos retrógrado, que eu pensava ter ficado pela minha geração…

5. Pensar, depois de quase 50 anos de independência que se trata, ou poderia tratar-se, de uma retoma de práticas “coloniais” de um Portugal inquestionavelmente de Liberdade e Democracia, só pode resultar de uma ignorância total do Portugal de hoje, de um exercício de má-fé ou de falta de um mínimo de conhecimento do ensino de língua (segunda ou estrangeira) não materna ou de algum problema mais profundo muito mal resolvido.

6. Isto quando muitos dos nossos mais acérrimos “nacionalistas” já têm duas ou três nacionalidades – uma delas, seguramente, portuguesa – que tanto negaram aos seus concidadãos que viviam na emigração.

7. Ter sempre presente que se trata de uma Escola Portuguesa!!! Não uma Escola Pública cabo-verdiana. Uma Escola orientada prioritariamente para os portugueses que vivem na emigração e para a promoção da Língua portuguesa. A sua escolha, por parte de cabo-verdianos não é obrigatória nem imperativa. Ou não seria assim, se a Escola fosse na Arábia Saudita, no Quénia ou no Senegal?

Não se compreende a polémica e a sanha que sucedem com o ensino da língua portuguesa em Cabo Verde. Se calhar, é por este acantonamento, que no Brasil, um país de língua portuguesa, se exige ao estudante cabo-verdiano a prova do domínio da língua portuguesa e que em Portugal muitos conterrâneos são preteridos na procura de empregos em relação a outros da CPLP. Conheço vários casos confessos.

Mas, o mais interessante de tudo isto é que os mais exacerbados polemistas são todos indivíduos que bem dominam – e, muitos vivem, ou já viveram, quase que exclusivamente desse domínio, – a língua portuguesa.  Pode não ser intencional, mas resulta seguramente num método muito eficaz para reduzir drasticamente ou mesmo extinguir uma virtual (ou real) ameaça da concorrência.

O Governo bate palmas. A polémica vem mesmo a calhar: Enquanto se dissipam energias na discussão deste (não) assunto, esquecem-se os sérios e importantes problemas que o país enfrenta com a má qualidade do nosso ensino e com a oferta indigente da Escola pública nacional cuja contínua decadência constituiu uma das principais razões da instalação da Escola Portuguesa decorridos mais de 40 anos da Independência Nacional.

E, não há dúvidas que o êxito, o sucesso declarado e reconhecido da Escola Portuguesa de Cabo Verde - Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPCV-CELP) vem seguramente incomodando muita gente!...

É claro que não defendo que aqueles que não consideram a recomendação (ou mesmo “proibição” pedagógica) pertinente e benéfica que retirem os seus filhos ou educandos dessa Escola, mas sim, que promovam uma reflexão pedagógica sobre o assunto de onde resultem propostas alternativas, pelo menos, de igual eficácia. Seria uma reforma e, presumivelmente, a Escola agradeceria!!! Armindo Ferreira – Cabo Verde in “coral-vermelho.blogspot”