Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Xulio Ríos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Xulio Ríos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Macau – Entrevista a Xulio Ríos

Espanha deve “aproveitar” a Galiza para se aproximar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, à semelhança do que acontece com a China, que “potencia e facilita através de Macau as suas relações com as comunidades lusófonas”, diz Xulio Ríos, coordenador do Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional.

PLATAFORMA MACAU – Há quem defenda o ingresso da Galiza na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Qual é a sua posição?

XULIO RÍOS - Faz todo sentido. É uma das nossas identidades para estarmos no mundo e à qual não devemos renunciar. Temos uma vocação atlântica e americana, mas também o fator linguístico que nos aproxima à realidade de expressão portuguesa.

P.M. - Com a aprovação da Lei Paz-Andrade na Galiza por unanimidade parlamentar surge uma nova perspetiva: a Galiza, como região, não pode entrar na CPLP, mas Espanha pode, e poderá posteriormente atribuir à Galiza a coordenação desta relação com este espaço lusófono. Faz sentido?

X.R. – Espanha como Estado deverá aproveitar mais esta circunstância para ter pontes com o mundo de expressão portuguesa. É uma dimensão muito ignorada e tem a ver com o difícil reconhecimento da realidade plurinacional e pluricultural de Espanha. A China, por exemplo, facilita e potencia através de Macau as suas relações com as comunidades lusófonas. Espanha pode acalentar esta dimensão com a Galiza.

P.M. - Que papel poderia ter a Galiza no seio desta comunidade?

X.R. - Acho que a Comunidade está incompleta sem a Galiza, dada a nossa proximidade linguística. A Galiza pode, além disso, com as suas vantagens comparativas em diversas ordens e com a sua singularidade, ajudar a alargar as pontes com a Europa.

P.M. - Que interesse julga ter a Galiza em integrar esta comunidade. A entrada ultrapassa as razões económicas?

X.R. - Sem dúvida, há razões de ordem cultural e política e têm a ver com a potenciação de uma dimensão lusófona na nossa ação exterior que já está presente desde há anos, por exemplo, na Comunidade de Trabalho Galiza-Norte de Portugal, uma euroregião que é um modelo na União Europeia.

P.M. – Portugal está mesmo ali ao lado, mas não é o caso dos restantes países do universo de língua portuguesa. Que interesse e relação poderá ter a Galiza nestes países que falam português?

X.R. - A relação é muito mais ampla. Pensemos no Brasil, por exemplo, onde há uma presença da diáspora galega muito significante. As relações com Cabo Verde estão a crescer e uma aliança entre a Galiza e Portugal em diversos setores pode facilitar uma intensificação das relações com os países de expressão portuguesa em qualquer que seja o continente.

P.M. – Há pouco tempo a Escócia realizou um referendo para a independência. A Catalunha convocou também um referendo civil para se tornar num Estado independente. Estes referendos parecem ter um efeito dominó. Que repercussão poderá ter na Galiza?

X.R. - Na Galiza há um sentimento nacionalista relativamente importante, mas a força do movimento independentista é sensivelmente menor do que em outras nacionalidades do Estado espanhol. A Constituição espanhola reconhece a Galiza como uma nacionalidade, à semelhança da Catalunha e do País Basco. No meu entender, o que está em debate no fundo não é propriamente a independência, mas a formulação de outras formas de união. Mesmo assim, estes processos são inseparáveis da mundialização em curso e da urgência, como resposta, em arbitrar fórmulas de ecologia politica que preservem a diversidade identitária.

PROXIMIDADE ENTRE OCCUPY CENTRAL E 15M EM ESPANHA

P.M. – É responsável pelo `Observatorio de la Política China´ e por outras publicações de análise da realidade chinesa. Organiza também o `Simposio Eletrónico Internacional sobre Política China´, que já está na quinta edição. Por que razão toda esta dedicação à China?

X.R. - O nosso think tank, o IGADI – Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional, impulsionador do Observatorio de la Politica China – nasceu com o propósito de acompanhar os processos de transformação das economias planificadas. A China é uma das experiências mais destacadas e bem sucedidas dessa transição e hoje é um pais cada vez mais importante no sistema global.

P.M. – Como olha hoje Espanha para a China? A crise europeia propiciou esta aproximação, com um aumento do investimento de Pequim no país?

X.R. – A Espanha mantém há vários anos uma sintonia política muito estreita com a China, mas no âmbito económico há ainda muito que fazer. Os investimentos aumentaram, mesmo com os compromissos evidentes em âmbitos como a aquisição de dívida. No entanto, estes investimentos ainda são menores do que as suas possibilidades. A potencialidade continua a marcar a relação entre as duas partes.

P.M. – O `Observatorio de la Politica China´ tem seguido de perto os acontecimentos em Hong Kong. Que relevância está a ter o movimento Occupy Central?

X.R. - Acredito que há uma grande proximidade do que está a acontecer em Hong Kong com o movimento do 15M em Espanha, em 2011, que também reclamava uma democracia real, ainda que os contextos sejam diferentes. No caso de Hong Kong, reflete um distanciamento entre segmentos importantes da sociedade local e continental que vêm de longe e que transcendem o mero debate sobre as formas de exercício do sufrágio universal. É apenas a ponta do iceberg.

P.M. – E que valor atribui à proposta apresentada para Pequim no que diz respeito à escolha de futuros chefes do Governo de Hong Kong?

X.R. - É uma proposta que melhora a situação atual, mas com sérias limitações. O receio da China é que os EUA ou o Reino Unido lhe imponham um candidato hostil e da sua preferência, pondo em risco o controlo do único paraíso fiscal do mundo que não é dominado politicamente pelo ocidente. Também é temido um efeito contágio no interior da China. A suma desses medos explica as suas reservas, mas abre um fosso importante com a população de Hong Kong, especialmente nas novas gerações, e complica a relação com Taiwan.

P.M. – O combate à corrupção é a palavra de ordem do Governo chinês e temos assistido a uma série de investigações, que foram tornadas públicas nos últimos tempos. Em comparação com Hu Jintao, diz-se que a China ganhou um pulso de ferro com a subida de Xi Jinping ao poder. Concorda?

X.R. - Sem dúvida, a luta contra a corrupção é muito mais intensa agora. Há razões políticas: o Partido precisa com urgência de recuperar credibilidade aos olhos da opinião pública. Há também razões económicas: entendo que isto faz parte da promoção da reforma pois a [a luta contra a] corrupção oferece um argumento que está fora de discussão para eliminar resistências internas em setores estratégicos do aparelho económico controlado pelos monopólios e os clãs que deles usufruem. Há ainda sinais de uma clara luta interna que nos remete à longa influência de Jiang Zemin (antigo Presidente da China) no aparelho do Partido.

P.M. – Isto pode significar que o debate dos direitos individuais não vai ter em breve uma hipótese de discussão?

X.R. – Pode haver avanços, mas serão lentos e estarão sempre sujeitos à manutenção da estabilidade. Para o Partido é fundamental garantir o controlo numa etapa muito delicada do processo de modernização. Quanto mais perto estão, maiores são os perigos. Predomina a ideia de que uma democracia de estilo ocidental pode ser um “Cavalo de Troia” para impedir a recuperação da grandeza perdida para os rivais estratégicos, aqueles que tanto se preocupam pelos direitos individuais na China mas muito menos com os da Arábia Saudita, por exemplo.

P.M. – Com a desaceleração económica, como analisa os planos do Governo para equilibrar a economia chinesa? O`Likonomics´ é um plano que faz sentido?

X.R. – Quando a locomotiva procura mudar de carril, há que moderar a velocidade. Para operar as mudanças estruturais que se propõem e mudar o modelo de crescimento da China, é imprescindível promover a despesa social, o investimento em inovação, o consumo, etc. Quanto ao mercado, penso que a partir da nossa própria experiência, deve-se ter muito cuidado e evitar que se transforme no “imperador” das nossas sociedades, pois isso vai em detrimento do bem comum. Não é só a eficiência. A justiça importa. Catarina Domingues – Macau in “Plataforma Macau”

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

As tres almas de Galicia

De onde somos? Pois de aquí e de alá. Somos europeos por imperativo xeopolítico, pero iso non quer dicir que un non poida sentir mais afinidade con un caboverdiano e ata cun arxentino, sobre todo en momentos de silencio, ca con un sueco ou un teutón. Isto non supón que ser europeo e sentírmonos europeos sexa un problema, senón que a lingua, a historia, e ata a ideoloxía, entre outros, conforman patróns de conduta persoal e colectiva que se superpoñen ás simplezas do tipo común e reducionistas que se derivan da aplicación mecánica da xeografía. Hai case un século, a Galicia máis avanzada estaba á vangarda do europeísmo cando na península, mesmo en boa parte da intelectualidade, predominaba a caverna.

As virtudes e riquezas de Galicia nese contexto son incomparables, a non ser que entendamos como “problema”, como os ruíns, que ser de aquí e de alá é un inconveniente insuperable que dispersa as nosas enerxías. Debe haber poucos países no mundo onde proliferen tantos bizantinismos que nos deixan esgotados. Pero vese que non hai bebedoiro milagroso contra iso. En tempos híbridos como os que vivimos, pola contra, esas almas “dispersas” que nos habitan permítennos tirar proveito, se actuamos con intelixencia e operatividade, dun capital relacional que vale o seu peso en ouro.

Obviamente, somos parte de Europa. Non hai jangada de pedra, a non ser literaria. E a nosa economía e o noso comercio impoñen unha realidade contra a que non só non debemos revirarnos senón que debemos explorar e explotar en propio beneficio. Na práctica, esas magnitudes empíricas fóronse superpoñendo claramente ao que algúns cualifican de sentimentalismo e que renegan de afán algún da vena celtista. Non entro na discusión científica, pero é unha renuncia absurda produto dun exceso de purismo. Hai elos comúns que nos afinan cos pobos célticos en maior medida ca con moitos outros pobos europeos.

Polo demais, esas mesmas almas explican que nos sintamos mais próximos dun cubano ou dun ecuatoriano ca dun holandés. Ou ata dun angolano se nos comparamos cun flamenco por mais que as realidades sexan tan distantes e dispares. Pouco poden dicirnos algunhas Europas onde podemos sentirnos mais estraños que en Montevideo.

Se Galicia virase a súa mirada con maior frecuencia e con un horizonte amplo cara fóra, capaz de transcender a política ou a economía, non soamente relativizaría os seus dramas, tantas veces tan incriblemente desconcertantes, senón que recoñecería a súa propia versatilidade como característica nacional. A cultura ten aquí unha gran función a desempeñar.

Esa forma de ser e de estar só pode xerar admiración alá onde se manifeste entre quen ignora, sen prexuízos, o que somos. Hai motivo para agradecer e exhibir con orgullo esa rica ambigüidade que nos define e na que radica a nosa forza. A teima de nos querer facer só dun sitio, con límites espesos, renega disto. E por iso, desvalendo a complexidade en lugar de potenciala, tanto empeño en que só sexamos de aquí ou de alá. Xulio Ríos – Galiza in “Palavra Comum”