Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 31 de julho de 2022

Galiza - Do Manifesto de 1974 até hoje

Em setembro de 1974 viu a luz em Seara nova, e um mês despois em Cuadernos para el diálogo, o “Manifesto para a supervivência da cultura galega”, assinado por Martinho Montero e unha dúzia mais de curas e leigos que estavam daquela em Roma. Na Introdução, Rodrigues Lapa diz que o texto “deverá estar na base de tudo quanto daqui em diante se escrever sobre o problema do galego, onde mergulham as nossas mais antigas raízes”, porque “uma coisa é a língua que falamos e outra a que escrevemos”. Mas não foi assim na escrita posterior.


Tampouco houve o progresso no uso do galego que se desejava, e para o que se faziam umas propostas concretas verbo dos meios de comunicação (rádio, tv, imprensa), o ensino oficial, a Administração e a Igreja. Temos rtv galega, mas mui frustrante e com escasso eco nas urbes; as cadeias privadas são nulas ao respeito. Aos jornais pedia-se “aumentar as publicações em língua galego-portuguesa numa proporção pelo menos ao 50%”, e… tururu. O ensino já sabemos como vai no de “todos sabem falar e escrever corretamente os dois idiomas”… Outro tanto a Administração e a Igreja. Verbo desta última, a situação do galego é hoje pior que então, ainda que se disponha da Bíblia e de todos os textos litúrgicos em galego. Resulta atualíssimo o que dizia há 45 anos: “Na situação atual, a língua galego-portuguesa está mui longe de gozar em Galícia de paridade de direitos com a língua castelhana”. Penso com os meus amigos reintegracionistas que a perspectiva do galego hoje deveria ter em conta a dramática situação atual de perda de falantes novos, que não sabem falar galego mesmo estudando-o na escola. Frente aos que dizem que o reintegracionismo dificultaria isto, possivelmente só poderia frear-se o descenso do galego com uma nova visão do idioma como “extenso e útil”, que dizia já Castelao; e –ainda valorando mui positivamente as publicações galegas– com todos os recursos (livros, películas, tv, programas informáticos, etc.) de que se dispõe em português. Como dizia Carvalho Calero nessas datas, a nossa alternativa é “ou galego-castelhano ou galego-português”; mas a primeira é a morte do galego. Victorino Prieto – Galiza in “Portal Galego da Língua” com “Nós Diario”

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Victorino Pérez Prieto - (Hospital de Órbigo-León, 1954) é professor de universidade reformado, escritor, teólogo e pensador. Especialista em temas de cultura galega; em particular na Geraçom "Nós" e Prisciliano. Também em Raimon Panikkar, sobre quem fez as Teses de Doutoramento em Filosofia (USC) e Teologia (UPSA). Colaborador habitual em jornais (atualmente em Nós Diario) e revistas galegas (Encrucillada, Grial, A Nosa Terra...) e internacionais (Iglesia viva, Dialogal, Theologica Xaveriana, CIRPIT review, Complessitá...). Publicou mais de vinte livros individuais (A geraçom "Nós", Do teu verdor cinguido, Contra a síndrome N.N.A.Unha aposta pola esperanza, Más allá de la fragmentación de la teología el saber y la vida. Raimon Panikkar, Prisciliano na cultura galega, Prisciliano. Um cristâo livre, La búsqueda de la armonía en la diversidad...). E mais de cinquenta em colaboraçom (Diccionario Enciclopedia do Pensamento Galego, O Pensamento Luso-Galaico-Brasileiro 1850-2000, Galegos Universais...).


quarta-feira, 2 de março de 2022

Galiza versus Galicia

Utilizar na escrita o nh é uma tomada de postura por um galego mais nosso e mais irmão do português, frente ao ñ de Espanha, que assimila o galego ao castelhano. Mas há uma palavra fundamental que me parece um verdadeiro símbolo da identidade do galego e dos galegos: Galiza.

Segue a manter-se o debate sobre qual é a forma correta do nome da nossa nação: Galiza ou Galicia. Eu mesmo tive que padecer em tempos a imposição da segunda em algumas das minhas publicações, apesar de ter assinado o apoio à primeira. A decisão salomónica dos últimos tempos é que ambas as formas são “galegas”, corretas e legítimas. Mas isto não faz verdadeira justiça ao nome.

De novo, a postura defendida por A. López Carreira num trabalho recente semelha clara: “En canto ao nome do país, de entre as varias grafías xa existentes impúxose, por propia evolución, a de ‘Galicia’, e así se recoñecía como nosa en toda parte” (“Máis Galicia”, Sermos Galiza).

Contrariamente, como bem diz Martinho Montero Santalha num artigo de há mais de dez anos: “Galiza é a forma [galego-]portuguesa, mantida em Portugal desde os inícios da língua escrita (s. XIII) até hoje; enquanto Galicia é a forma atual castelhana, usual também na fala da Galiza desde há tempo… A oposição Galiza / Galicia é só um caso particular do confronto geral entre duas conceções da língua da Galiza e do seu futuro”; ou integrar-se com o português ou uma submissão ao castelhano (“O nome da Galiza”, Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa). No seu trabalho defende-se que Galiza é a forma que deve ser normativa: a) porque –com argumentos filológicos– Galiza é a forma genuína da nossa língua, enquanto Galicia é um castelhanismo difundido em tempos modernos; b) porque Galiza é a forma que se emprega no restante âmbito internacional da língua.

Galiza –como escreviam Castelao, Viqueira e as Irmandades– é a forma genuína do nome do país na nossa língua, Galicia é um castelhanismo. Não é só uma questão linguística e histórica, mas política. Não é de estranhar que o último slogan do PP fora: “Galicia, Galicia, Galicia”… Victorino Prieto – Galiza in “Portal Galego da Língua”

 

Victorino Pérez Prieto - (Hospital de Órbigo-León, 1954) é professor de universidade reformado, escritor, teólogo e pensador. Especialista em temas de cultura galega; em particular na Geraçom "Nós" e Prisciliano. Também em Raimon Panikkar, sobre quem fez as Teses de Doutoramento em Filosofia (USC) e Teologia (UPSA). Colaborador habitual em jornais (atualmente em Nós Diario) e revistas galegas (Encrucillada, Grial, A Nosa Terra...) e internacionais (Iglesia viva, Dialogal, Theologica Xaveriana, CIRPIT review, Complessitá...). Publicou mais de vinte livros individuais (A geraçom "Nós", Do teu verdor cinguido, Contra a síndrome N.N.A.Unha aposta pola esperanza, Más allá de la fragmentación de la teología el saber y la vida. Raimon Panikkar, Prisciliano na cultura galega, Prisciliano. Um cristâo livre, La búsqueda de la armonía en la diversidad...). E mais de cinquenta em colaboraçom (Diccionario Enciclopedia do Pensamento Galego, O Pensamento Luso-Galaico-Brasileiro 1850-2000, Galegos Universais...).

 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Galiza - “A língua o primeiro”

O título da coluna desta semana vai entre vírgulas porque, ainda que seja uma afirmação reiteradamente sustida pelos galeguistas, é aqui uma frase de Ramón Otero Pedrayo num dos seus ensaios: Morte e Resurrección (Ourense 1932); onde fala do galego como um povo em caminho desde a sua origem céltica, na que “callou o principio da nebulosa maternal de Galiza”. Um caminho no qual “a Galiza xoga a morrer e a viver”, e no que “o galeguismo quer decir a integridade do ser e da alma galega”; salientavelmente na língua galega. Galeguismo quer dizer reconhecimento dos valores galegos, reconhecimento de Galiza como povo de seu, com a sua identidade própria.

Nesses valores, para Otero a língua é o primeiro. O seu abandono é um “estado de suicidio, de renunciamento, de parva imitanza”; mas a ele, infelizmente, “figuran aspirar moitos que se gaban de galegos e de bos galegos”. Um parágrafo cara ao remate do ensaio resulta definitório da conceção galeguista-nacionalista de Don Ramón (sublinhado seu):

“A língua o primeiro. A língua, forma psicolóxica da raza, tem de ser a primeira obligación de todos. Pois co uso e cultivo cotidián chegaráse axiña ao punto de unanimidade mínimo para que a galeguidade seña a fórmula completa das arelas de todos os galegos. Ao caír a língua cai tamén a vida galega… Podemos asegurar ser mellor unha Galiza probe falando galego que unha Galiza rica usando outra língua… Ainda que a realidade nos enseña que para ser ricos e fortes, non hai outro camiño que o de ser cada dia máis xurdiamente galegos, dando ao concepto de galeguidade as notas da humanidade superior que lle son propias por naturaleza”.

E ainda engade umas palavras particularmente caras: “Para o noso galeguismo a historia é sempre vital e moza, e por selo debe rectificar o feito doroso do arredamento de Portugal. Os mellores espritos portugueses e galegos son cidadáns da integridade da Galiza… A língua debe voltar a ser a mesma para fortalecemento do seu ser trascendental… O grande optimismo da galeguidade abrangue as esencias criadoras de Portugal”. Victorino Prieto – Galiza in “Portal Galego da Língua” comNós Diario

Victorino Pérez Prieto - (Hospital de Órbigo-León, 1954) é professor de universidade reformado, escritor, teólogo e pensador. Especialista em temas de cultura galega; em particular na Geraçom "Nós" e Prisciliano. Também em Raimon Panikkar, sobre quem fez as Teses de Doutoramento em Filosofia (USC) e Teologia (UPSA). Colaborador habitual em jornais (atualmente em Nós Diario) e revistas galegas (Encrucillada, Grial, A Nosa Terra...) e internacionais (Iglesia viva, Dialogal, Theologica Xaveriana, CIRPIT review, Complessitá...). Publicou mais de vinte livros individuais (A geraçom "Nós", Do teu verdor cinguido, Contra a síndrome N.N.A.Unha aposta pola esperanza, Más allá de la fragmentación de la teología el saber y la vida. Raimon Panikkar, Prisciliano na cultura galega, Prisciliano. Um cristâo livre, La búsqueda de la armonía en la diversidad...). E mais de cinquenta em colaboraçom (Diccionario Enciclopedia do Pensamento Galego, O Pensamento Luso-Galaico-Brasileiro 1850-2000, Galegos Universais...).

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Galiza – Lusofonia

Apesar da sua história milenária como língua de seu, não há muitos anos o galego era considerado em Espanha um castelhano mal falado, fala de ignorantes e incultos, fala marginal num estado que tinha como única língua oficial o castelhano


Esta imposição de séculos esquecia não só que o galego era a língua maioritária falada pelo povo galego, mas que possuía uma riqueza literária milenária afogada pelo império de Castela, e que tivera uma riquíssima produção escrita nas últimas décadas do século XIX, e sobretudo na criação literária nos primeiros trinta anos do XX.

Mas é um feito ignorado por muitos e negado por outros que a língua galega faz parte da grande família lusófona, sem desdouro da sua identidade. Um vencelho familiar conflituoso dentro e fora da Galiza. Particularmente na vizinha Portugal; e muito mais no resto dos países lusófonos: Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé-Príncipe e Timor-Leste.

Há anos escrevia o filólogo Martinho Montero: “Por muito que aos galegos nos doa, não podemos negar que os demais falantes da nossa língua nos consideram como um mundo à parte” (em Por um Galego Extenso e Útil. Leituras da Língua de Aquém e de Além 2009). Galiza é uma “filha pródiga” da lusofonia: “Dentro do conjunto de países lusófonos a Galiza é, no melhor dos casos —continua Martinho—, considerada como um membro não já de segunda categoria (como podem ser os países africanos…) mas de terceira classe”. Até o ponto que a maioria de portugueses nem sequer sabem que a Galiza é um país lusófono, considerando os galegos como “espanhóis”.

Esta atitude não tem que ver, ou pouco, com motivos de índole linguística; nem com essa atmosfera coletiva de desdém dos galegos cara aos portugueses e vice-versa: estes são para muitos galegos “sujos e miseráveis”, e os galegos são para eles “grosseiros e incivis”. Senão mais bem com a nossa história de dependência com respeito à Espanha, e a sua consequência no terreno linguístico: o espanhol foi a única língua oficial da Galiza até há poucos anos; e agora, apesar de ser co-oficial com o galego, continua, de facto, a desfrutar de muitas vantagens sobre a língua nativa. Victorino Prieto – Galiza in “Portal Galego da Língua” com “Nós Diario

Victorino Pérez Prieto - (Hospital de Órbigo-León, 1954) é professor de universidade reformado, escritor, teólogo e pensador. Especialista em temas de cultura galega; em particular na Geraçom "Nós" e Prisciliano. Também em Raimon Panikkar, sobre quem fez as Teses de Doutoramento em Filosofia (USC) e Teologia (UPSA). Colaborador habitual em jornais (atualmente em Nós Diario) e revistas galegas (Encrucillada, Grial, A Nosa Terra...) e internacionais (Iglesia viva, Dialogal, Theologica Xaveriana, CIRPIT review, Complessitá...). Publicou mais de vinte livros individuais (A geraçom "Nós", Do teu verdor cinguido, Contra a síndrome N.N.A.Unha aposta pola esperanza, Más allá de la fragmentación de la teología el saber y la vida. Raimon Panikkar, Prisciliano na cultura galega, Prisciliano. Um cristâo livre, La búsqueda de la armonía en la diversidad...). E mais de cinquenta em colaboraçom (Diccionario Enciclopedia do Pensamento Galego, O Pensamento Luso-Galaico-Brasileiro 1850-2000, Galegos Universais...).