Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 5 de maio de 2025

Portugal - Migração brasileira desafia escolas e o futuro da língua portuguesa, segundo especialistas

Especialistas consideram que o aumento do número de brasileiros em Portugal molda a forma como se fala a língua no país, e que estas alterações até enriquecem o idioma.



Em declarações à Lusa a propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se assinala hoje, 05 de maio, o presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos, José Manuel Diogo, destacou que a forte emigração de brasileiros para Portugal resulta na intensificação ao nível académico e comercial.

José Manuel Diogo defende, no entanto, a necessidade de “mais políticas públicas para explicar mais a cultura portuguesa aos brasileiros antes de emigrarem”, observando a preocupação em Portugal com a crescente influência do português do Brasil na linguagem dos jovens.

Contudo, o especialista considera a língua um “território sem fronteiras”, recordando a sua natureza mutante ao longo da história, desde o galaico-português ao latim, citando Camões: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

Adotando uma visão inclusiva, o presidente da associação critica as barreiras a outras formas de falar português, especialmente o brasileiro, falado por 220 milhões de pessoas.

José Manuel Diogo exemplificou com o movimento na Academia Brasileira de Letras para incluir vozes indígenas, que utilizam o português para organizar as suas línguas.

O responsável referiu ainda a importância geopolítica do português como língua oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) une hemisférios, e propõe um eixo econômico Norte-Sul de colaboração igualitária entre Portugal e o Brasil, acreditando que “o português e a língua portuguesa podem ser centrais nesse momento histórico”.

Por outro lado, a linguista do Priberam Helena Figueira, também em declarações à Lusa, enfatiza o peso global do português como “língua de trabalho, língua de comércio e língua franca”.

Embora a especialista reconheça as interferências do português do Brasil no europeu, relativiza essa influência, afirmando que é menor que a do inglês, não acreditando numa fusão das variantes, dada a manutenção das suas particularidades.

A linguista partilha a perspetiva de enriquecimento mútuo através do contacto e das interferências entre as variantes, recordando a evolução da língua portuguesa como resultado de contactos anteriores.

Tanto para José Manuel Diogo quanto para Helena Figueira, a dinâmica entre as diversas formas de falar português, impulsionada por fatores como a migração e a globalização, molda o futuro do idioma, mantendo a sua relevância e adaptabilidade no cenário mundial.

Esta influência no território português deriva da forte presença das comunidades imigrantes provenientes do Brasil, sendo que nas escolas portuguesas “cerca de um terço dos alunos”, em 2019–2020, eram brasileiros, o que torna as salas de aula cada vez mais luso-brasileiras, segundo o presidente da Associação de Professores de Português, João Pedro Aido.

O responsável acredita que é crucial ultrapassar-se preconceitos linguísticos e reconhecer-se o direito dos alunos de falarem a variedade do português do Brasil, ao mesmo tempo em que se ensina a norma culta de Portugal, legitimada pela escrita literária.

Para tal, torna-se fundamental que os professores dominem as características das duas normas padrão, para poderem trabalhar textos de ambas as variedades e corrigir os alunos com rigor científico.

Segundo o especialista, os desafios enfrentados na educação exige um “equilíbrio entre o acolhimento linguístico e a exigência académica”. Apesar de o programa de português já abordar a variação da língua, a revisão das aprendizagens essenciais poderá explicitar o “pluricentrismo da língua portuguesa”. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”


domingo, 4 de maio de 2025

Lusofonia - Diversidade e influência marcam evolução do léxico português

A linguista Helena Figueira, do Priberam, considerou que há um aumento do léxico, com forte influência do português do Brasil e um crescente contributo dos PALOP, e desmistificou questões ortográficas, celebrando a diversidade da língua

Diversas e novas palavras são adicionadas aos dicionários de português com frequência, segundo a linguista do Priberam, embora haja um maior número de palavras provenientes do Brasil, não só pela dimensão da comunidade em Portugal, mas porque há uma maior exposição à variante do português do Brasil.

A especialista esclarece que as palavras no Priberam – dicionário online de português – são inseridas “por algum motivo, por alguma evidência ou de frequência, ou de atualidade, ou de sugestões dos utilizadores”, adiantando que as palavras são sempre analisadas.

Em relação a palavras vindas do Brasil, Helena Figueira afirmou que a causa de haver mais está nos utilizadores, pois grande parte deles são do Brasil.

No último ano, tem-se verificado um aumento de termos provenientes de países lusófonos como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, nos dicionários, sendo dipanda (independência), meninência (meninos e/ou meninas), manguana (amanhã) e baiar (fazer um feitiço contra alguém) alguns exemplos de palavras adicionadas que vêm dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

As palavras vindas dos PALOP “são menos do que provavelmente as que vêm do Portugal e do Brasil” porque os portugueses têm “menos acesso às coisas que são produzidas na língua desses países”, sublinha Helena Figueira.

Questionada sobre quais as palavras ‘brasileiras’ mais utilizadas pelos portugueses, a linguista disse que não tinha “dados das palavras mais usadas”, mas que essas são muito poucas, sendo que o que é mais usado são as preposições como ‘de’ e ‘em’.

“Às vezes o nosso discurso é muito pobre porque, em termos de alta frequência, as palavras mais frequentes, aquelas que nós usamos todos os dias, são as palavras mais normais que nós podemos encontrar para articularmos o nosso discurso”, acrescenta.

Acerca do Acordo Ortográfico – uma convenção que visa a unificação da ortografia entre os países lusófonos com o objetivo de facilitar a comunicação entre os países – a especialista explica que este lida apenas com a ortografia, a parte mais artificial da língua, enquanto os “brasileirismos” pertencem ao léxico e, por vezes, à sintaxe.

“Quando falamos em Portugal, em alguns casos encontramos ‘facto’, quando queríamos escrever ‘fato’, porque em geral, o ‘C’, de facto, não cai porque é pronunciado. Estamos a falar de equívocos ortográficos ou de erros ortográficos”, explica a linguista, acrescentando que os brasileirismos são “outra coisa completamente diferente” e que “fazem parte das interferências no português europeu, mas que não têm a ver com a parte ortográfica, têm a ver com interferências que vêm através de fontes ou contactos, com a literatura, a televisão e a internet”.

Em 05 de maio celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, que foi estabelecida pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2009 e reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) a 25 de novembro de 2019.

A CPLP é constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. In “Inforpress” – Cabo Verde com “Lusa”


Portugal - Jovens brasileiros relatam desafios com o português europeu

Jovens brasileiros contam que enfrentaram desafios na adaptação ao português europeu, apesar da proximidade linguística, observando uma forte presença da cultura brasileira em Portugal, mas pouca influência portuguesa no Brasil

O estudante Gabriel Callagari, oriundo da região sul do Brasil, especificamente da cidade de Morretes, no estado do Paraná, que veio estudar para Portugal em 2022, conta à Lusa que já sentia muita diferença entre as variantes do português, o que identifica como uma barreira.

Para o estudante, a “questão mais difícil” foi as diferentes palavras com os seus múltiplos significados, nos quais acredita serem necessários “para poder entender o contexto”, admitindo ainda que os portugueses falam demasiado rápido.

Por seu lado, Guilherme Pinto, natural de São Paulo, que está em Portugal há quatro anos, confessou que ao princípio sofreu preconceito, nomeadamente na universidade, por falar português do Brasil.

Os jovens afirmam que no início, quando vieram para Portugal, foi um pouco difícil a adaptação à nova variante, mas que depois foram-se habituando ao português europeu devido às suas rotinas e à convivência.

Já Gabriela Lima, que veio do Rio de Janeiro com os seus pais há sete anos, conta que teve uma adaptação mais facilitada à língua e ao novo lugar e compara “o português daqui de Portugal com russo”.

Guilherme Pinto referiu que entender o português europeu “é a mesma coisa que tentar entender um sotaque diferente de uma região do Brasil” , opinião partilhada por Gabriela Lima.

Questionados sobre a influência e o impacto do português do Brasil em Portugal, responderam de forma semelhante, indicando que “Portugal é um país que não exporta uma cultura muito grande para o Brasil”, ao contrário do que acontece com os outros países lusófonos.

Segundo Guilherme Pinto, uma das possíveis causas para esta influência é o consumo da “cultura brasileira”, através de “novelas, música e cinema” e também Gabriela Lima defende que “tudo é traduzido mais para o português brasileiro do que para o português [europeu]”.

“Eu sinto que a gente não importa muito as coisas de hoje em dia, mas a nossa forma de viver é mais parecida com Portugal do que a gente gostaria de admitir”, conta a jovem.

Gabriel Cagallari referiu que as duas variantes da língua têm termos iguais, mas com diversos significados e conotações, como é o caso das palavras ‘malta’ e ‘rapariga’, sendo que esta última tem uma conotação negativa no Brasil, ligada a prostituição.

Para Guilherme Pinto, a palavra que o marca é ‘puto’, pois, segundo o jovem, “no Brasil não é uma palavra que é usada” e é cómica. Já para Gabriela Lima a palavra “‘pronto’ é incrível” porque, justifica, pode acontecer “a coisa mais absurda no mundo” e no final é só falar ‘pronto’.

De acordo com dados da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA), residiam em Portugal, em 2023, mais de 368 mil brasileiros, a maior comunidade imigrante em Portugal, ou seja, 35,3% do total de 1.044.606 imigrantes.

Em 05 de maio celebra-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, sendo estabelecida pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em 2009 e reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) a 25 de novembro de 2019. Esta efeméride é importante para promover a riqueza e a diversidade da língua portuguesa e as suas variantes. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”