Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sábado, 29 de dezembro de 2018

Língua portuguesa


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac – Brasil

(no centenário do seu falecimento – 28.12.2018)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Deserto


Presença do deserto

Presença do deserto que não finda,
sem ti o que seria, a imensidão
do meu deserto longo, em escuridão
sem o brilhar do sol, em luz infinda,

Que dardejando em ti, te tornou linda
qual borboleta esquiva em solidão
abrindo asas frementes, ao condão
da liturgia etérea, que não finda!

Se por te ver chorar também eu choro...
se é minha, a grande dor da minha dor,
e igual à tua sorte que deploro,

Que sejas no teu reino, sempre aquela
que feita minha irmã, na mesma cor
segue em destino o fim, que um amor sela…

Joana Couto – Angola

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Noite


Um homem, — era aquela noite amiga,
noite cristã, berço no Nazareno, —
ao relembrar os dias de pequeno,
e a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
as sensações da sua idade antiga,
naquela mesma velha noite amiga,
noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
a pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis - Brasil