Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Ortografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ortografia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de maio de 2023

Lusofonia - A língua, a ortografia, voluntarismos e bajulações

Foi o erro de se achar que havia uma “língua portuguesa” igual para todos, quando já era saudavelmente diferente consoante as geografias, que conduziu ao desastre do Acordo Ortográfico

Amanhã, 5 de Maio, celebra-se mais um Dia Mundial da Língua Portuguesa e nem vale a pena sublinhar o que aí vem de euforias, quanto a “oportunidades” e “internacionalizações”, como se a língua portuguesa não fosse já uma língua internacional “desde pelo menos o fim da Idade Média […], sem problemas de difusão ou promoção independentemente da forma como se escreva”, como acertadamente escreveu António Emiliano em 2008. Mas enfim, os políticos têm de se entreter com alguma coisa — só é pena que a língua se inclua nessa “cobiçada” lista. Este ano, nos festejos anunciados, há uma novidade: a sua celebração em Olivença, em aliança entre o município local, espanhol (o Ayuntamiento de Olivenza) e a UCCLA, nela participando escritores, professores, o alcaide de Olivença e o presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Dado o velho diferendo ali existente em matéria de soberania, trata-se de um oásis amistoso e digno de nota. Abre, claro, com uma “receção” aos participantes, que seria “recepção” se fosse no Brasil ou “recepción” caso ocorresse em Madrid. Malhas que o nosso acordismo tece. Por falar em acordismo, quase a coincidir com mais um Dia da Língua foi divulgado um apelo ao Presidente da República para que “seja reconhecido e revertido o gravíssimo erro cometido e por via do qual o Estado Português adoptou o Acordo Ortográfico, anulando-o”. Com um total de 169 subscritores (continuando, segundo os promotores, a recolha de mais assinaturas, que serão enviadas igualmente para o Palácio de Belém), tal apelo vem somar-se a iniciativas com idêntico fim, sob a forma de manifestos, abaixo-assinados ou iniciativas legislativas, às quais a classe política tem reagido, na sua grande maioria, com desinteresse ou mesmo desprezo. O que não deve desmotivar quem nelas se empenha, pelo contrário; desistir, aqui, não será nunca o lema. Daí que tal apelo mereça também boa nota, face ao aviltamento ortográfico reinante. A propósito da língua portuguesa, uma das discussões recorrentes é a do abuso do inglês. Um interessante artigo assinado por Carl Eric Johnson (“Porque é tão difícil dominar a língua portuguesa?”, PÚBLICO, 21 de Abril) atribuía “a dificuldade de muitas pessoas em dominarem o básico da língua portuguesa”, não só a complicações gramaticais e fonéticas, mas ao facto de haver uma “abundância de portugueses que falam bem inglês” e à “prevalência de informação apresentada em inglês”. Muitos encontros entre portugueses e estrangeiros, escreve Carl, “iniciam-se com o português a falar inglês, sem dar ao visitante a oportunidade de provar a sua capacidade de falar na língua da terra”. Se é duvidoso que haja assim tantos portugueses a falar bem inglês (sublinhe-se o “bem”), já parece pacífico que o português, por desejo de mostrar simpatia ou simples voluntarismo, tenda a exprimir-se em qualquer língua que não a sua, até numa mistura macarrónica de várias, quando tem um estrangeiro pela frente. Pior do que isso, bem pior, é o abuso de termos ingleses nas mais diversas áreas, que leva a anúncios públicos com frases como “Net talks”, “Apoia a tua crew” ou “Boosted odds para a tua laife” (assim mesmo, com “ai”), além da verdadeira praga que são as brands, o background, os shares, as views, os likes, os smarts, os gamings e toda a panóplia de pretenso novo-riquismo linguístico que não é mais do que pobreza lexical disfarçada. Mas disto já se encarregou (e bem) o escritor Alexandre Borges no artigo “Erradicar o Português: ponto de situação” (Observador, 2021). Por fim, uma frase delirante, dita pelo primeiro-ministro português, António Costa, perante empresários brasileiros num encontro onde participou Lula da Silva: “O que temos mesmo pena é de não falarmos com o vosso sotaque.” Não se imagina tal frase dita por um brasileiro a um português. Ou um nortenho a um alentejano, um beirão a um algarvio, um inglês a um americano, um escocês a um londrino — e vice-versa, em todos os casos. Porque é mesmo pela diversidade de sotaques que se torna interessante o nosso intercâmbio linguístico, não por um qualquer aplainamento ou acto bajulatório disfarçado de admiração. Foi esse erro, o de se achar que havia uma “língua portuguesa” igual para todos, quando já era saudavelmente diferente consoante as geografias, que conduziu ao desastre do Acordo Ortográfico de 1990, uma peça demonstrativa do pior que poderíamos juntar: a ambição política, a servidão académica e o desvario de um punhado de crentes que se julgaram “iluminados” para tal façanha. Se, por hipótese, alguém se virasse para um amigo e dissesse qualquer coisa como “o que tenho pena é de não usar um fato como o teu”, viam nisso sinal de amizade? Ou razão para desconfiar? Nuno Pacheco – Portugal in “Público”


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Galiza - Menos mal que nos queda Portugal!

Algumas pessoas consideram que cambiar a ortografia da nossa língua, assemelhando-se mais a modalidade que se desenvolveu além Minho e não ao espanhol, seria próprio dos que querem fugir do âmbito espanholista para cair nas garras do lusismo, e inclusive alguns pretendem que o que cumpre é ter uma normativa própria, independente das duas, que até o momento presente não se realizou, salvo que se lhe chame assim ao feito de criar palavras artificiais, como “respecto”, que nunca ninguém pronunciou nem pronuncia no nosso pais, ou recorrer a diferencialismos artificiais derivando as palavras do nominativo latino, como tempada, quando o normal é fazê-lo a partir do genitivo, como em temporada, jurídico, etc. Os que assim pensam continuam sendo reféns da atração espanholista e parece que sentem vertigem de soltar amarras mentais com a normativa atual da nossa língua, imposta polo governo de Alianza Popular de Galicia, nomeadamente polo conselheiro da Presidência, José Luís Barreiro Rivas, um espanholista de pro e antinacionalista, e o Conselheiro de Cultura e reconhecido franquista, José Filgueira Valverde, em contra do decreto de Carvalho Calero e da tradição histórica da RAC, agora reconvertida à normativa oficialista.

Os defensores da normativa atual pretendem defender a sua opção apoiando-se na autoridade do magnífico literato José Luis Méndez Ferrín, merecedor do meu apoio e admiração. Creio que os que assim obram são vítimas do efeito psicológico de halo, que consiste na tendência a considerar como bom em todas as ramas do saber a aquele que destaca nalguma. A isto se deve que vários partidos da direita extrema solicitem o apoio entusiasta do prémio nóbel de literatura Vargas Llosa, que sempre se saldou com um fracasso estrepitoso. Méndez Ferrín defende um posicionamento político bastante isolado da realidade, como já tive ocasião de manifestar-lho no Congresso da AELG do ano 1981, ao que também assistiu Carvalho Calero, Manuel Maria, etc.  Ferrín defendia que a revolução a faz o proletariado, mas não soubo citar nenhum exemplo em que isto acontecesse. Ele defende claramente a repressão contra os reintegracionistas, mas quiçá deveria ser mais cauto, porque por vezes inventa palavras que não se compadecem com nenhuma norma, como “decer”, que provém do infinitivo do verbo latino dico, que é “dicere”; portanto o normal numa ortografia mais próxima ao latim, deveria ser dicer ou dizer, como dizem os amigos portugueses e nunca dicir nem decir. Não serei eu quem solicite sanções para ele, senão respeito, especialmente porque, como dizia Horácio, os poetas e pintores sempre tiveram uma razoável potestade de ousar qualquer cousa.

Não se trata de eleger entre Espanha e Portugal senão entre Galiza e Espanha; de desprender-nos duma legislação repressora, que impede claramente o desenvolvimento da nossa língua, cultura, economia, etc. mas não para ser Madeira ou as Açores, que tampouco Portugal o pretende, senão para sermos autenticamente galegos, ao estilo de Bélgica, Chipre, Malta, Luxemburgo, Eslovênia, … um pequeno país com personalidade própria numa Europa dos povos. Alguém pensa que se pode normalizar o nosso idioma numa Espanha que ainda quer limitar mais os estatutos de autonomia depois de ser invalidados de facto polos Tribunal Constitucional irregularmente constituído ad hoc em 2010? Metamo-nos duma vez na cabeça que os estatutos de autonomia são puras concessões graciosas do Estado a mercê do que decidam os partidos espanholistas, especialmente os do bipartidismo, com as muletas de C’s e Vox.  O legislativo catalão aprovou a imersão linguística para robustecer o seu idioma em perigo de extinção, mas o TSJC determinou que têm que dar em espanhol polo menos o 25 por cento do ensino, e isto num país no que todo o mundo fala perfeitamente o espanhol e de que muitos catalães não sabem falar catalão.

Esta repressão não é nova, pois já começou em 1985 em que o delegado do governo espanhol na Galiza, o presidente da RAC Domingo García Sabell recorreu a lei de normalização linguística de Galiza que pretendia pôr ao mesmo nível na Galiza o espanhol e o galego, recurso que foi falhado favoravelmente polo TC. Em base a que? Na CE espanhola não há nada que impeça que o galego tenha a mesma oficialidade na Galiza que o espanhol, mas isto agora é inconstitucional e não permite tomar as medidas pertinentes para que o nosso idioma sobreviva.

O regime borbónico-franquista, corrupto e repressor dos direitos dos povos asfixia os povos com personalidade de seu, e Portugal, com um regime muito mais moderno e democrático, pode facilitar o nosso desenvolvimento, e dar-lhe projeção internacional à nossa língua, igual que a deles ainda que com características específicas, e, por conseguinte, remedando a Siniestro Total, podemos dizer: menos mal que nos queda Portugal. Ramon Punhal – Galiza in “Portal Galego da Língua”

Ramom Varela Punhal - Nascido em Carvalho em 1942. Estudoi Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca, e Liturgia no Instituto Superior de Pastoral, em Madrid; Filosofia na Universidade de Pamplona e Filosofia, Psicologia e Organização do Trabalho na Universidade de Lovaina, Bélgica. Doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago. Catedrático de Filosofia reformado.