Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Macau – Lançamento de Guia das literaturas africanas em língua portuguesa a pensar no público de português como língua estrangeira

Guia das literaturas africanas em português e contos numa abordagem didáctica são publicações pioneiras



“Literaturas africanas em Português: uma introdução”, da autoria de Lola Geraldes Xavier, e “Contos em Português – Ler para aprender em PLE”, uma compilação de 20 contos de autores de língua portuguesa, de Rosa Bizarro em co-autoria com Lola Geraldes Xavier, são os primeiros livros do género publicados na Ásia a pensar no público de português como língua estrangeira.

“Um guia sobre Literaturas Africanas (dos cinco países), publicado em Macau, é um facto muito importante para as ‘relações lusófonas’ e translusófonas”, diz o professor Pires Laranjeira, da Universidade de Coimbra, no prefácio de “Literaturas africanas em Português: uma introdução”, da autoria de Lola Geraldes Xavier. A publicação deste livro é descrito por Pires Laranjeira como “um gesto pioneiro marcante”.

“A nossa preocupação agora é que os livros cheguem ao público, porque no caso das literaturas africanas não há efectivamente aqui na China, nem na Ásia, nenhum material sobre isto, pelo menos direccionado numa perspectiva sintética”, disse ao Ponto Final Lola Geraldes Xavier. A autora é pós-doutorada pela Universidade de Coimbra em Ensino das Literaturas dos Países de Língua Portuguesa e é, actualmente, professora coordenadora do Instituto Politécnico de Macau (IPM), desenvolvendo actividade na Escola Superior de Línguas e Tradução.

A professor afirmou que, “mesmo a nível do mundo da língua portuguesa, já há alguma publicação considerável, e muito também no Brasil, sobre as literaturas africanas, mas é tudo muito díspar. Há um livro da Universidade Aberta do Professor Pires Laranjeira da década de 1990, sobre literaturas de expressão portuguesa, sendo que esse termo ‘expressão’ foi se abandonando. Tirando esse, não estou a ver mais nenhum que tenha esta orgânica de tentar sistematizar as literaturas africanas”, disse a académica.

Obras disponíveis gratuitamente

As duas obras “Literaturas africanas em Português: uma introdução” e “Contos em Português – Ler para aprender em PLE” foram editadas pelo Instituto Politécnico de Macau (IPM) com o apoio do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES). Podem ser adquiridas gratuitamente através do contacto com as autoras, via IPM.

“Gostaríamos muito que estes livros chegassem ao público e tendo sido edições financiadas o nosso objectivo não foi sequer vender os livros, pareceu-nos que não fazia sentido ter um preço de capa”, afirmou Lola Geraldes Xavier.

“Literaturas africanas em Português: uma introdução” é “o primeiro livro de síntese sobre as literaturas africanas em português escrito na Ásia a pensar no público de português como língua estrangeira”. Divide-se por seis capítulos: um capítulo introdutório sobre a construção dessas literaturas e outros cinco capítulos dedicados a cada uma das literaturas: angolana, cabo-verdiana, guineense, moçambicana e santomense. O capítulo introdutório “visa apresentar a história dessas literaturas, a importância da língua em comum e, inclusive, os aspectos característicos dessa língua portuguesa que se africanizou, portanto é um primeiro capítulo que pretende apresentar algumas reflexões sobre a construção dessas literaturas, que são literaturas recentes”, explicou Lola Geraldes Xavier.

Escolha de autores reflecte consensos da crítica

Cada capítulo seguinte inclui uma síntese cronológica sobre a literatura em questão e de dados biobibliográficos de autores e obras do país em análise. Porém, a inclusão de autores não é exaustiva, houve uma escolha, uma tarefa delicada, admitiu a autora. “Este capítulo foi arriscado, tentei ser exaustiva nas obras de cada autor, referir todas, mas pode haver alguma que me tenha escapado. Mas, os autores é que não estão lá todos”, disse.

Na introdução da obra, a autora explica que “aos autores abordados e referidos ao longo deste livro poderiam ser acrescentados outros nomes. As escolhas apresentadas tentam, no entanto, reflectir consensos alargados da crítica internacional, autores mais clássicos, antologiados no país e no estrangeiro, premiados, com obra publicada internacionalmente e lidos por um público internacional e não apenas nacional. Têm surgido autores jovens, promissores, que ainda não estão reconhecidos pela crítica. Nesses não se fala ainda aqui, também”, explica a autora.

O livro inclui também um quadro-síntese sobre dados gerais do país, que abrange alguns factos históricos, geografia, línguas, economia e cultura e um “Elucidário”, com definição de termos e conceitos literários.

“Contos em Português – Ler para aprender em PLE”, de Rosa Bizarro em co-autoria com Lola Geraldes Xavier, é, na Ásia, “o primeiro livro do género direccionado para um público de português língua não materna”. Apresenta propostas didácticas de abordagem do texto literário, na forma de narrativa breve, e pretende despertar o gosto pela leitura de autores como a brasileira Clarice Lispector, os angolanos José Eduardo Agualusa e Luandino Vieira, os moçambicanos Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto, ou a portuguesa Sophia de Mello Breyner. O livro inclui os dados biobibliográficos dos autores.

A autora Rosa Bizarro é doutorada em Didáctica das Línguas Vivas Estrangeiras pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professora coordenadora no IPM, integrada na Escola Superior de Línguas e Tradução, “especialista sempre citada nas didácticas das línguas estrangeiras e também da educação multicultural, é de facto uma autora muito conceituada em Portugal”, explicou Lola Geraldes Xavier. Cláudia Aranda – Macau in “Ponto Final”

sábado, 27 de abril de 2013

Horizontes


                               A literatura de Moçambique
                            vista do outro lado do Atlântico


                                                           I
Escritores moçambicanos na fase inicial da literatura de seu país sempre se declararam inspirados por autores brasileiros. Foi o caso de José Craveirinha (1922-2003), filho de pai português e mãe africana, que se dizia leitor atento de Manuel Bandeira (1886-1968), Mário de Andrade (1893-1945), Graciliano Ramos (1892-1953), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Jorge Amado (1912-2001), Raquel de Queiroz (1910-2003), João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e outros. Sem contar que tivera em Leônidas da Silva (1913-2004), o Diamante Negro, centroavante da seleção brasileira de 1938 e inventor do lance chamado de “gol de bicicleta”, um ídolo de sua juventude, admiração que compartilhava com muitos de sua geração.


Tantos anos depois, faz-se agora o percurso inverso com estudiosos brasileiros, alguns em atividade em universidades fora do Brasil, escrevendo sobre a produção de escritores moçambicanos mais recentes. É o que se vê em Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana (Maputo: Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012), organizado pelas professoras Rita Chaves e Tania Macêdo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), com prefácio do professor Lourenço do Rosário, o scholar moçambicano com maior trânsito nas universidades de Portugal e do Brasil.


Para realizar essa obra, as organizadoras convidaram 20 especialistas em Literatura Africana de Expressão Portuguesa, inclusive este articulista, para que escrevessem ensaios sobre a produção de autores moçambicanos contemporâneos. O livro inclui ainda o ensaio “A literatura moçambicana e os leitores brasileiros”, das organizadoras, responsáveis também pela introdução. Para as professoras, a exemplo de A kinda e a misanga: encontros brasileiros com a literatura angolana, lançado em 2007, este volume “corresponde a mais uma ação para tornar cada vez mais vivos os laços que nos prendem”.


                                                           II
Como não podia deixar de ser, Mia Couto, o escritor moçambicano com maior visibilidade da mídia do mundo lusófono, alcança espaço destacado na análise dos especialistas. De sua obra ocupam-se Anita Martins Rodrigues de Moraes, doutora em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Maria Nazareth Soares Fonseca, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-MG), e Patrícia Schor, que faz doutoramento em Humanidades na Utrecht University, da Holanda.


Já a narrativa feminina, especialmente a de Paulina Chiziane, é objeto de atenção de Laura Padilha, doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora emérita da UFF, Débora Leite David, que faz pós-doutorado em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa na USP, e deste articulista.


Em “Literatura e política: José Craveirinha e as inclinações prospectivas de uma poética popular”, o professor Benjamin Abdala Junior, doutor em Letras pela USP e professor titular de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da mesma instituição, aproxima a poesia do poeta moçambicano do fazer poético do angolano António Jacinto (1924-1991) e do brasileiro Solano Trindade (1908-1974), observando que o horizonte de expectativa de Craveirinha “enlaça os poetas da geração de 50 em Angola e os poetas brasileiros articulados politicamente e que viriam a promover os Centros Populares de Cultura”.


No contexto socialmente reivindicativo, e ainda anticolonial e antifascista das literaturas africanas de Língua Portuguesa dos anos 1950-1960-1970, diz Abdala, esse horizonte estético-ideológico promovia um olhar para outros poetas, de outros sistemas lingüísticos, como o cubano Nicolás Guillén (1902-1989), que seria colocado como poeta-símbolo na antologia do angolano Mario de Andrade (1928-1990) e do são-tomense Francisco José Tenreiro (1921-1963), “onde a condição negra se associava à proletária – um humanismo em que as diferenças étnicas se abriam à solidariedade social”.


Em “A voz, o canto, o sonho e o corpo: reflexões sobre a poesia feminina em Moçambique”, Carmen Lucia Tindó Secco, doutora em Letras pela UFRJ e docente que criou a disciplina de Literaturas Africanas na mesma instituição, diz que, ao contrário do que ocorreu em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, em Moçambique o silêncio em torno de textos de autoria feminina se manteve por mais de uma década depois da independência não só na poesia como nos demais gêneros.


Com exceção de Glória de Sant´Anna, que teve condições próprias de editar vários livros antes da independência, poucas mulheres tiveram seus textos publicados no período colonial. Mesmo a conhecida Noémia de Sousa, acrescenta, só teve a sua obra reunida em livro, em 2001, por empreendimento do poeta Nelson Saúte, atual editor da Marimbique, que publicou o livro que se resenha aqui. Hoje, já não são poucas as poetisas moçambicanas: Ana Mafalda Leite, Tânia Tomé, Sónia Sultuane são alguns nomes que têm sua produção analisada por Carmen Lucia neste ensaio.


                                                           III
Em “José Francisco Albasini e a saúde do corpus moçambicano”, César Braga-Pinto, doutor em Literatura Comparada pela University of California, Berkeley, e professor da Northwestern University, em Illinois, recupera a trajetória literária e jornalística de José Francisco Albasini, o Bandana (1877-1935), irmão de João Albasini. Ambos fundaram o primeiro jornal escrito e dirigido por uma elite de intelectuais negros e mulatos em Moçambique, O Africano (1908-1918), que seria sucedido por O Brado Africano (1918-1974).


Lidos numa perspectiva pós-independência e, portanto, anacrônica, os Albasini são vistos hoje com certo distanciamento. Descendente de um italiano e neto de português e de uma neta do régulo do clã Mpfumo, de Maxaquene, Bandana, ao seu tempo, defendeu a “causa indígena”, lançando uma campanha pela educação em português que tinha por base a luta pelo direito à cidadania plena, no caso a cidadania portuguesa, à época do salazarismo. Como diz Braga-Pinto, essa é ainda uma questão que permanece em debate e longe de um consenso, ou seja, “a situação do sujeito assimilado em relação não somente ao sujeito “indígena”, mas também ao passado pré-colonial e à tradição africana”.


Um dos textos mais interessantes desta coletânea é “Os lugares do indiano na literatura moçambicana”, de Nazir Ahmed Can, doutor em Letras pela Universidade Autônoma de Barcelona e professor-colaborador do Instituto Camões de Barcelona, que registra um “silêncio” a respeito da participação indiana nos estudos literários sobre Moçambique dos dias atuais. É de lembrar que a comunidade indiana se fixou no país em meados do século XVII ou ainda em época anterior à chegada dos portugueses e, hoje, “representa uma parte significativa da população moçambicana (inclusive da elite política e intelectual)”.


Can cita Francisco Noa para quem “a figura do indiano aparece-nos marcada pelo ressentimento, pelo preconceito e por um indisfarçável sentimento de intolerância”. Para Can, “a prosa do período pós-independência sente-se ainda numa posição desconfortável para representar estas comunidades de forma pormenorizada para lhes fornecer protagonismo ou voz”.


Conhecidos de maneira depreciativa por monhés, baneanes e canarins, os indianos sempre foram vistos de maneira preconceituosa – de início, porque representariam um obstáculo à hegemonia portuguesa na região e, depois, porque desenvolviam, na maioria, atividades ligadas ao ilícito, como contrabando e a sonegação fiscal, e eram adeptos do islaminismo e, portanto, adversários das práticas cristãs.


Depois de apontar a presença de protagonistas indianos (monhés), referidos de forma negativa por personagens em autores como Nelson Saúte, Lília Momplé e Suleiman Cassamo e positiva ou neutra em Mia Couto, João Paulo Borges Coelho e Paulina Chiziane, o ensaísta assinala a ausência de uma auto-representação da travessia indiana na prosa moçambicana, questionando quais seriam os motivos pelos quais isso não foi possível até agora.


                                                           IV
O livro traz ainda ensaios dos professores José Nicolau Gregorin Filho, doutor em Letras pela Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) e professor da USP, Érica Antunes Pereira, pós-doutoranda na USP, Maria Anória de Jesus Oliveira, professora assistente da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e doutora em Letras pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Marinei Almeida, doutora em Letras pela USP e professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Maurício Sales Vasconcelos, doutor em Letras e pós-doutorando na USP, Prisca Agustoni de Almeida Pereira, doutora em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela PUC-MG, Rosania da Silva, doutora em Letras pela Universidade Nova de Lisboa, Simone Caputo Gomes, doutora em Letras pela PUC-RJ,  Sueli Saraiva, doutoranda em Letras pela USP, e Teresinha Taborda Moreira, doutora em Letras pela UFMG e professora da PUC-MG. Adelto Gonçalves - Brasil

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PASSAGENS PARA O ÍNDICO: ENCONTROS BRASILEIROS COM A LITERATURA MOÇAMBICANA, organização de Rita Chaves e Tania Macêdo. 1ª ed. Maputo: Marimbique – Conteúdos e Publicações. 327 págs., 2012.


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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) e Tomás Antônio Gonzaga (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2012). E-mail: marilizadelto@uol.com.br