Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Internacional - Cientistas observam pela primeira vez interações de neutrinos solares com núcleos atómicos

A colaboração internacional LUX-ZEPLIN (LZ), da qual o Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) é membro fundador, observou, pela primeira vez, interações de neutrinos solares com núcleos atómicos e alcançou os melhores limites de sempre na procura direta por matéria escura de baixa massa.


Estes resultados, disponíveis em preprint e submetidos para a revista científica Physical Review Letters, representam um marco histórico na física de partículas e abrem uma nova janela para o estudo do interior do Sol.

Após a análise do maior conjunto de dados alguma vez obtido por um detetor de matéria escura — 417 dias de operação efetiva, entre março de 2023 e abril de 2025 — a experiência LZ estabeleceu os limites mais restritivos conhecidos para partículas de matéria escura do tipo WIMPs (weakly interacting massive particles), em particular para massas inferiores a 9 GeV/c². Embora não tenham sido observados sinais diretos destas partículas, os novos resultados reforçam a posição da LZ como a experiência mais sensível do mundo para WIMPs com massas acima de 5 GeV/c².

«A existência e a natureza da matéria escura são questões fundamentais para a compreensão do Universo. Ainda não a conseguimos observar diretamente, mas estes resultados permitem-nos compreender melhor como poderá interagir com a matéria normal», afirma Isabel Lopes, professora da FCTUC e investigadora do LIP, que lidera o grupo português na colaboração LZ.

Em paralelo, a excecional sensibilidade do detetor permitiu observar, pela primeira vez, interações de neutrinos solares com núcleos atómicos, através do processo raro conhecido como espalhamento coerente elástico de neutrinos com o núcleo (CEvNS). Neste processo, observado pela primeira vez apenas em 2017 usando um elevado fluxo de neutrinos produzidos em reatores nucleares, um neutrino interage com todo o núcleo atómico, transferindo uma quantidade ínfima de energia.

LZ é a primeira experiência a observar este processo em neutrinos solares com uma significância de 4,5 sigma, acima do limite de 3 sigma tradicionalmente usado para considerar uma observação como “evidência”. As experiências PandaX-4T e XENONnT reportaram indícios deste processo no ano passado, mas com um nível de confiança inferior a 3 sigma. 

O novo resultado de LZ é assim a primeira “evidência” de um sinal de CEvNS de neutrinos extraterrestres. Esta não é a primeira vez que neutrinos provenientes do Sol são detetados neste laboratório. Nos anos 60 e 70, Raymond Davis Jr. e John Bahcall mediram, pela primeira vez, o fluxo de neutrinos solares com um detetor com 380 m3 nessa mesma caverna, agora conhecida como a “caverna Davis”. Este resultado valeu a Ray Davis o prémio Nobel da física de 2002.

«A novidade não é apenas a deteção de neutrinos solares, mas o mecanismo extremamente subtil pelo qual foram observados. Estamos a falar de apenas alguns fotões e eletrões por interação, o que demonstra a extraordinária sensibilidade do detetor LZ», sublinha Paulo Brás, investigador do LIP e vice-coordenador de física da colaboração LZ.

A experiência LZ é composta por cerca de 250 cientistas e engenheiros de 37 instituições dos Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Suíça, Austrália e Coreia do Sul. O detetor utiliza 10 toneladas de xénon líquido ultra-puro, operando a −98 °C, e está instalado a 1,5 km de profundidade no Sanford Underground Research Facility (SURF), no Dakota do Sul (EUA), para minimizar a interferência de radiação cósmica.

A colaboração LZ continuará a recolher dados até 2028, com o objetivo de atingir 1000 dias de aquisição, aprofundando a exploração de massas de WIMPs ainda mais baixas, processos exóticos raros e novos fenómenos fundamentais da física. Universidade de Coimbra – Portugal


sexta-feira, 8 de julho de 2022

Internacional - Cientistas mostram que a experiência de matéria escura LZ é a mais sensível do mundo

A colaboração internacional LUX-ZEPLIN (LZ), que integra uma equipa do LIP-Coimbra (Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas, polo de Coimbra), sediado na Universidade de Coimbra (UC), acaba de apresentar os seus primeiros resultados científicos. Os investigadores mostram que, com apenas 60 dias de aquisição de dados, a LZ é a experiência de matéria escura mais sensível do mundo.

Isabel Lopes, investigadora principal do grupo do LIP que participa na experiência e professora do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), afirma que estes resultados, disponibilizados em https://lz.lbl.gov/, «são um passo determinante para a deteção das partículas de matéria escura».


As partículas de matéria escura, uma forma de matéria que não emite, absorve ou interage de qualquer forma com a luz, nunca foram detetadas – mas isso pode estar prestes a mudar, segundo os cientistas que integram esta colaboração internacional. A contagem decrescente para uma descoberta pode ter sido iniciada com estes resultados. «Planeamos adquirir cerca de 20 vezes mais dados nos próximos anos, por isso estamos só a começar. Há muita ciência para fazer e isso é muito excitante!», salienta Hugh Lippincott, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e atual porta-voz da LZ.

 Várias observações científicas indicam que a matéria escura é um ingrediente fundamental para a receita do cosmos. Essas observações apontam para que esta matéria desconhecida contribua em 85% para o conteúdo total de matéria do universo, sendo assim cinco vezes mais comum do que a matéria com que interagimos no nosso dia-a-dia. Apesar de nunca ter sido observada diretamente, a sua influência gravitacional dita o movimento das grandes estruturas de matéria do universo e age como uma cola que mantém as galáxias coesas, alertando-nos indiretamente para a sua presença.

 O detetor da LZ é composto por 10 toneladas de xénon líquido ultrapuro contido num tanque de titânio e observado por 494 sensores de luz capazes de detetar a mais ínfima quantidade de luz. Se a matéria escura interagir com a matéria normal, mesmo que muito fracamente, então é possível que colida com um núcleo de xénon e produza nele um sinal de cintilação capaz de ser medido pelos sensores de luz.

Além de fornecer informação precisa acerca da posição e tipo de partícula que interage no seu alvo, o detetor da LZ é capaz de medir energias com grande exatidão. «É espantosa a precisão que é possível obter na determinação da energia», declara Guilherme Pereira, estudante de doutoramento da FCTUC que integra a equipa do LIP na LZ e que foi responsável pelos estudos que conduziram a essa elevada precisão, acrescentando que «fazer o doutoramento nesta equipa tem sido uma experiência extremamente estimulante».

 A experiência LZ foi instalada a uma profundidade de 1.5 quilómetros, numa antiga mina de ouro convertida em laboratório (Sanford Lab), para proteger o detetor da radiação cósmica que chega à superfície da Terra. A colaboração é constituída por 250 cientistas e engenheiros de mais de 35 instituições dos EUA, Reino Unido, Portugal e Coreia do Sul. A equipa portuguesa é composta por investigadores e estudantes de doutoramento e mestrado do LIP, que é um membro fundador da colaboração LZ.


A equipa do LIP deu numerosas contribuições fundamentais para a experiência LZ. Entre elas, «o desenvolvimento e implementação do sistema de controlo do detetor – o sistema nevrálgico da experiência – e do sistema que permite monitorizar em tempo real os dados adquiridos pela LZ. Também desenvolveu ferramentas avançadas fundamentais para a análise e processamento de dados e liderou os estudos de decaimentos raros de xénon que estão entre os eventos mais raros do universo», relata Isabel Lopes.

A participação do LIP na experiência LZ é financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). A LZ é financiada pelo Department of Energy (DOE) dos Estados Unidos, pelo Science & Technology Facilities Council do Reino Unido, pelo Institute for Basic Science da Coreia do Sul e pelas instituições colaboradoras. Universidade de Coimbra - Portugal