Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 11 de março de 2024

Macau - Camões no Rota das Letras: As dúvidas sobre o poeta e uma nova teoria para a sua data de nascimento

Luís de Camões foi um dos temas centrais do primeiro fim-de-semana do Festival Literário Rota das Letras. Na sessão “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões”, Kenneth David Jackson, Fido Nesti e Felipe de Saavedra falaram sobre o que se sabe e o que ainda está por saber sobre a vida e obra do poeta. Saavedra chegou mesmo a avançar uma nova data para o nascimento de Camões: 25 de Fevereiro de 1525


“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades – as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões” foi o nome do painel que se realizou no sábado, no âmbito do Festival Literário Rota das Letras, e que procurou dar resposta a algumas das dúvidas que subsistem acerca do poeta, por exemplo, no que toca às diferenças entre cada edição e aos estudos camonianos. A sessão foi moderada por Sara Augusto e teve a participação de Kenneth David Jackson, Felipe de Saavedra e Fido Nesti, que ontem também apresentou “Os Lusíadas em Quadrinhos” [artigo seguinte].

Uma das grandes questões relacionadas com o poeta é a sua data de nascimento. No final do ano passado, um grupo de cientistas da Universidade de Coimbra chegou a uma possível data de nascimento através da interpretação de uma passagem da obra de Camões e do estudo de efemérides astronómicas. A estrofe em causa é: “O dia em que eu nasci, morra e pereça/Não o queira jamais o tempo dar/Não torne mais ao mundo e, se tornar/, Eclipse nesse passo o Sol padeça”. Isto levou a que este grupo de investigadores, com base no estudo astronómico e da ocorrência de eclipses, a dizer que a data de nascimento do poeta foi 23 de Janeiro de 1524.

No entanto, Felipe de Saavedra, especialista em Camões e coordenador da Rede Camões na Ásia e África, refutou a teoria e adiantou que, segundo os seus cálculos, Camões nasceu a 25 de Fevereiro de 1525.

Saavedra disse, na sessão de sábado do Rota das Letras, que o eclipse de 23 de Janeiro de 1524 não foi sequer visto na zona de Lisboa, onde Camões terá nascido. Por sua vez, houve um outro eclipse, a 25 de Fevereiro de 1525, e terá sido esse a marcar o nascimento do poeta. O historiador baseou a teoria em registos de eclipses da NASA e indicou que, no futuro, irá apresentar os seus cálculos detalhados.

Tropeções e alterações nas edições de “Os Lusíadas”

Outra das questões levantadas na sessão de sábado foi a das diferenças entre as primeiras edições de “Os Lusíadas”. Kenneth David Jackson, professor de literatura luso-brasileira na Universidade de Yale e autor de uma compilação das primeiras edições da obra, falou sobre o tema e assinalou que, “em todos os livros impressos naquela época havia mudanças inconcebíveis”. “Não há exemplares iguais. Só no caso de ‘Os Lusíadas’, houve mais ou menos, depois dos primeiros volumes, 15 ou 20 impressões”, completou.

A primeira edição de 1572 teve duas edições e ambas impressas por António Gonçalves. No entanto, com o tempo, foram surgindo mais. Terá sido contrafacção? “Contra quê?”, brincou Kenneth David Jackson, defendendo que todas seriam da autoria de António Gonçalves, devido aos elementos em comum que cada uma delas tinha. As mudanças em cada uma das versões são explicadas como “tropeções e mudanças no caminho”. Felipe de Saavedra concordou, dizendo que “o grosso ou até a totalidade” das edições da época seriam da autoria de António Gonçalves, salientando que “não há duas [edições] iguais, como qualquer livro da época”.

Falta de especialistas

A falta de especialistas na obra de Camões também foi falada nesta sessão do Festival Literário. Kenneth David Jackson, que fez o Doutoramento na Universidade de Wisconsin com Jorge de Sena, afirmou que “é difícil Camões entrar nos estudos renascentistas dos EUA por falta de especialistas”. “Os grandes especialistas são pessoas do passado, espero que o quadro mude. Camões não está a ser celebrado nos EUA por falta de especialistas e leitores”, referiu o professor universitário.

Saavedra, que lecciona na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, sublinhou o interesse que os alunos que estudam no ensino superior de Macau têm na obra de Camões, nomeadamente os estudantes que vêm do interior da China: “Um dos pontos fortes da ligação que vão criando a Macau é a ligação a Camões. Cria-se uma dinâmica muito interessante. O coordenador da Rede Camões na Ásia & África, que organizou o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, voltou a referir a necessidade de Macau estabelecer no território um centro interpretativo de Camões. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”



“Os Lusíadas em quadrinhos” pretende despertar curiosidade sobre a vida de Camões

Decorreu no sábado, dia 9, uma sessão intitulada “Mudam-se os Tempos, mudam-se as vontades: as perguntas sem resposta de Luís Vaz de Camões”, que contou com um painel moderado por Sara Augusto e com a presença de Kenneth David Jackson e Felipe de Saavedra, autores e estudiosos da obra do poeta português. Entre estes figurava o ilustrador Fido Nesti e a sua obra de banda desenhada baseada no clássico “Os Lusíadas”. Recordando com os presentes que o estudo de trechos de “Os Lusíadas” é obrigatório nas escolas brasileiras, o autor partilhou que foi a convite da editora Peirópolis que se lançou da adaptação da história para banda desenhada


“Foi uma surpresa, porque já se tinham passado tantos anos desde os meus tempos de estudos e tive que ir buscar na memória o que me tinha chamado mais atenção durante a leitura”. Relendo o livro inteiro, selecionou os cantos que lhe despertaram mais a atenção e foi “costurando”. Aludindo-se ao tamanho singelo do livro de BD, diz que este é apenas um “aperitivo”, e não se compara com a dimensão da epopeia original. “É justamente isso, ele funciona como um aperitivo para despertar o interesse dos leitores mais jovens”, que o autor diz terem resistência a livros, e preferirem antes os telemóveis.

Fido Nesti esclareceu ainda que o texto do livro é em português de Portugal, retirado do original, da primeira edição. A escolha dos episódios foi feita no sentido de resumir as experiências da obra. “Mostra o episódio da Inês de Castro, da ilha dos amores, e do gigante Adamastor. Mostra um pouco da viagem de Vasco da Gama pelas Índias, e do contraponto do velho do Restelo, que sempre achei muito interessante na altura em que estudei a obra na escola”. O autor acrescentou ainda que também quis colocar o próprio Camões como personagem, “falando com o leitor e fazendo a ponte entre um canto e outro”, algo que considerou interessante porque “a vida de Camões é um caso aparte”, e assim os leitores iriam também, para além de “Os Lusíadas”, querer saber e ir desse modo “atrás da vida de Camões, pesquisando sobre o assunto”. Rita Gonçalves – Macau in “Ponto Final”


sexta-feira, 1 de março de 2024

Macau - Rota das Letras regressa para celebrar Camões, Li Bai e o 25 de Abril

Começa já no dia 8 de Março a 13.ª edição do Festival Literário Rota das Letras. Este é um regresso do evento à Primavera, depois de três anos em que se realizou no Outono. Nesta edição, o Rota das Letras assinala os 500 anos de Luís de Camões, celebra a obra poética de Li Bai e destaca o 50.º aniversário do 25 de Abril, por exemplo. Entre os convidados, estão o chinês Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun de Literatura, e o norte-americano Chang-rae Lee, finalista do Pulitzer, entre outros


Depois de três edições no Outono, o Festival Literário Rota das Letras está de volta à Primavera. Começa já daqui a uma semana, dia 8 de Março, e prolonga-se até dia 17. Entre as várias sessões que se vão realizar na Casa Garden, o evento vai celebrar Camões, Li Bai e o 25 de Abril, por exemplo.

Este regresso à Primavera é explicado por Ricardo Pinto, director do Rota das Letras, pelo facto de esta ser “uma época do ano com menor sobrecarga de eventos”. “Daí que, à primeira oportunidade, e depois de várias edições realizadas nos meses de Outubro e Novembro, por força da pandemia, tenhamos decidido fazê-lo regressar à sua data original”, explica, citado no comunicado enviado ontem às redacções.

Camões e Li Bai em foco

Os 500 anos do nascimento de Luís de Camões serão assinalados na Casa Garden com a presença de Kenneth David Jackson, professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos da América, e autor de vários estudos sobre o poeta português. Além disso, também o ilustrador brasileiro Fido Nesti irá evocar Camões numa adaptação de “Os Lusíadas” para crianças.

Li Bai será também lembrado no Rota das Letras através de uma exposição de fotografia de Xu Peiwu, artista chinês que, ao longo da última década, percorreu os mesmos caminhos por onde andou o poeta há mais de mil anos. João Miguel Barros, curador da exposição, descreve as imagens como sendo “de uma enorme beleza e densidade, que nos permitem contemplar uma China despida e cativante”. Li Bai será também o protagonista da sessão inaugural do Festival Literário, com Carlos Morais José, responsável da editora Livros do Meio, a apresentar o livro “Li Bai – A Vida do Imortal”, de António Izidro.

No primeiro fim-de-semana do festival, de 8 a 10 de Março, vão ser apresentadas várias obras: San San, jovem escritora chinesa premiada, dará a conhecer “Primavera Tardia”, uma antologia de contos que esteve entre os candidatos ao Prémio literário de 2023 da rede social Douban; James Zimmerman, advogado norte-americano que reside em Pequim há mais de 25 anos, vai apresentar “The Peking Express”, um trabalho de investigação que conta com a história do Grande Assalto Ferroviário de 1923, considerado o maior da história da China e um factor determinante da evolução da guerra civil chinesa; e Ian Gill irá falar de “Searching for Billie”, em que o escritor neo-zelandês fruto da relação entre dois prisioneiros de guerra em Hong Kong tenta compreender o passado da sua mãe, o que o leva a descobrir uma China desaparecida. Ma Ka Fai, escritor e cineasta de Hong Kong, virá a Macau falar sobre “Once Upon a Time in Hong Kong”, o seu romance de estreia.

Celebrar os 50 anos do 25 de Abril

Este ano comemoram-se os 50 anos do 25 de Abril e o Rota das Letras vai aproveitar a efeméride para apresentar em Macau a obra de João Céu e Silva “O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses Antes dos Capitães”, a história de como o General António Spínola fez cair o regime. Ainda no âmbito da revolução de 1974, será inaugurada na Livraria Portuguesa uma exposição sobre os 50 anos de carreira de António Mil-Homens.

O segundo fim-de-semana do festival vai começar com a gastronomia de Macau. Na sexta-feira, 15 de Março, Graça Pacheco Jorge e Annabel Jackson irão acompanhar Barrie Sherwood, da Universidade de Singapura, numa reflexão sobre o momento presente da gastronomia macaense e as questões de identidade cultural que lhe estão associadas. Sherwood apresentará também o livro “The Macanese Pro-Wrestler’s Cookbook”.

Dong Xi e Chang-rae Lee marcam presença

O dia seguinte será dominado pela escrita no feminino, que reunirá autoras de Macau, Hong Kong e da China Continental. Nesse sábado estará presente também Dong Xi, vencedor do Prémio Mao Dun e do Prémio Lu Xun, que irá partilhar a sua experiência literária com vários autores de Macau. Yao Jingming, subdirector do festival, descreve Dong Xi como “um dos escritores mais representativos da actualidade”, sendo “reconhecido pela sua invulgar capacidade de contar estórias numa linguagem narrativa própria”.

No mesmo dia, Chang-rae Lee, escritor norte-americano de origem coreana e professor de escrita criativa na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, apresentará o seu mais recente romance, intitulado “My Year Abroad”, cuja acção decorre parcialmente em Macau. A escrita de Chang-rae Lee, que recebeu o Prémio da Fundação Hemingway pelo seu romance “Native Speaker”, explora temas como a imigração, a assimilação, a história da Coreia, a experiência dos americanos com raízes asiáticas numa América distópica.

Ainda no sábado, o programa encerra com o concerto de Marta Pereira da Costa, intérprete de guitarra portuguesa, que será acompanhada em palco por João José Pita. Outras performances serão promovidas numa colaboração entre o Rota das Letras e a livraria independente de Hong Kong Bookand.

Espaço às artes visuais

Domingo, dia 17 de Março, será o último dia do festival e, como vem sendo tradição, será dedicado à apresentação de obras do domínio das artes visuais e, em particular, à fotografia. João Miguel Barros e a associação de fotografia Halftone irão dar a conhecer as suas últimas realizações. A associação irá também apresentar no festival a mais recente edição da sua revista.

Duarte Drumond Braga vem a Macau apresentar o seu estudo sobre a “China e Macau”, de Camilo Pessanha, recentemente lançado em Portugal. Além disso, Peter Rose, advogado norte-americano, fará aqui o lançamento do seu primeiro romance, “The Good War of Consul Reeves”, que tem como pano de fundo o período da Guerra do Pacífico em Macau e a acção do diplomata britânico que soube tirar partido da neutralidade portuguesa para sobreviver à constante ameaça do inimigo japonês. A publicação desta obra é uma iniciativa da editora de Hong Kong Blacksmith Books. André Vinagre – Macau in “Ponto Final”