Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 6 de maio de 2025

Lusofonia - Influenciadores estrangeiros destacam “calor humano” da língua portuguesa

Francês Paul Cabannes, americana Bridget Fancy e a russa Ekaterina Puchkova, ou Katiusha, produzem conteúdos, em português, para 4 milhões de seguidores nas redes sociais, para eles, falar o idioma é como entrar numa outra personalidade, com mais carinho, amabilidade e simpatia

Neste Dia Mundial da Língua Portuguesa, o Podcast ONU News procurou um olhar de fora sobre a beleza e as qualidades do idioma ao dar o microfone a três pessoas que abraçaram o português como língua estrangeira.

Eles são o humorista francês Paul Cabannes, a influenciadora digital americana Bridget Fancy e a produtora de conteúdo russa, Ekaterina Puchkova, também conhecida como Katiusha. O encontro de cada um com o idioma ocorreu de forma variada. Mas os destinos deles se cruzam na internet, onde produzem conteúdos acompanhados por milhões de seguidores todos os dias.

Nesta conversa com a ONU News, eles foram unânimes em concordar que o português teve o poder de transformar as suas personalidades, trazendo à tona aspectos que não eram tão evidentes quando usavam as suas línguas maternas.

Paul Cabannes: “prefiro a minha personalidade em português com minhas filhas”



Cabannes, por exemplo, define a sua língua materna, o francês, como “refinada e sarcástica”, em contraste com o português, que para ele, traz uma grande dose de simpatia. No plano pessoal, o português o ajudou a ser um pai mais amoroso quando se tornou o veículo de comunicação com as filhas.

“Eu falava com as minhas filhas em francês até o momento que eu percebi que eu preferia a minha personalidade em português com elas, porque eu sou capaz de ter mais simpatia, mais carinho, mais fofura quando eu falo em português. E agora faz alguns anos que eu falo em português com as minhas filhas. Elas aprendem francês, porque também eu faço questão de ensinar a elas, mas no dia a dia eu falo português com elas”.

O humorista francês começou a aprender português em 2012, após se casar com uma brasileira. E a partir daí não parou mais. Ele compartilha as suas experiências na internet.

Bri Fancy: “sinto-me mais amorosa em português”



Já para a americana Bridget Fancy, o contato com o idioma ocorreu ainda na infância. Dos oito aos 16 anos, ela viveu no Brasil acompanhada pelos pais. E se para eles, falar português era uma tarefa difícil, para ela caiu como uma luva. Voltou para os Estados Unidos e retornou ao Brasil, onde se sente inspirada ao falar português nas redes sociais e experimentar muito calor humano.

“Acho que em inglês eu sinto-me muito mais direta ao ponto. Eu sinto-me muito mais séria, profissional e em português eu sinto-me mais amorosa, eu acho-me mais carinhosa. Até o jeito que a gente fala sobre as coisas, eu estava a falar ‘carinhosa’, eu falei ‘carinhoooosa’. Então em português você tem esse calor humano já no idioma, na minha opinião”.

Katiusha: “em português sou muito brincalhona”



Bridget e Paul participaram da edição especial do Podcast ONU News para este Dia Mundial da Língua Portuguesa ao lado da influenciadora russa Katiusha. No caso dela, o amor pelo português veio através do ouvir brasileiros conversando num hotel no seu país natal.

Desde então, o universo dela mudou. Primeiro foi a curiosidade por uma língua que soava interessante, mas depois veio o encanto com um mundo cheio de descobertas de um lado mais brincalhão e divertido.

“Eu acredito que aconteça a mesma coisa com a língua russa, porque o russo em si a gente tem esse estereótipo de que é algo frio, algo brusco. E quando a pessoa fala em russo as pessoas acham: meu Deus, você está me xingando, só pode ser, né? Eu acredito que tenho a mesma situação com o russo. Em russo sou mais séria, talvez até possa dizer fria, mas em português sou muito brincalhona. Até a voz muda”.

Katiusha admira o Brasil e se diverte com o uso frequente do diminutivo pelos brasileiros. Para ela, essa forma confere “mais charme e fofura” a situações simples do dia a dia, como comprar um pão na padaria dizendo: “um pãozinho por favor”.

Criatividade linguística das expressões populares

Já adaptados ao Brasil, os três influenciadores relatam que ainda vivem confusões e situações cómicas com as expressões populares, algo que Cabannes chamou de “português real”, que é diferente do português oficial.

E se alguém pensa que filosofar é melhor em francês, ele lembra que nos bares brasileiros sempre escuta expressões memoráveis sobre como lidar de forma positiva com as dificuldades da vida.

“Em qualquer boteco, sempre tem um cara que está lá e que está passando por uma fase de fracasso na vida dele. E quanto mais ele está fracassado, mais as expressões dele melhoram. Esses caras conseguem ter uma fluidez de criação de texto que parece o Chat GPT. O cara está lá com um copo de cerveja e começa: ‘É rapaz, tá difícil, mas quem está na chuva é pra se molhar, quem tem fé vai de sandália mesmo. Aí ele acende um cigarro e continua: Nós tá firme que nem um prego na areia, que o barco está furado ele está, mas a gente cola um chiclete no fundo e vai remando do mesmo jeito, porque o que dói mesmo é a saudade da morena’, ri”.

Bridget contou que todos os dias está a aprender uma expressão diferente e que considera esse um aspecto muito divertido do português brasileiro.

“Eu acho muito engraçado a criatividade linguística que existe. Porque assim, mesmo se a expressão não existia, agora existe. Se a palavra não existia, só que existia uma necessidade, a pessoa vendo a necessidade tem a liberdade poética de criar uma palavra. Eu acho isso muito bom no português, eu poder criar uma expressão”.

Maior interesse pelo português ao redor do mundo

Quase todos os dias, ela recebe mensagens de seguidores dos Estados Unidos querendo aprender português e pedindo dicas. Katiusha também observa essa tendência em relação ao público russo, um indício do crescimento do interesse pelo idioma como língua estrangeira.

“O Brasil está a ganhar uma atenção mundial e na Rússia acaba acontecendo a mesma coisa. Antigamente, quando eu cheguei no Brasil, nossa, eu quase não encontrava os russos aqui, era muito raramente. Hoje em dia, se você vai ao sul, principalmente, meu Deus, são muitos russos. Para qualquer lado que você olha têm muitos russos, você escuta a língua russa. E na Rússia também é assim, muitas pessoas estão querendo aprender português”.

Os três influenciadores alcançam, somados, um público de mais de 4 milhões de pessoas, a grande maioria de brasileiros.

Por meio de conteúdos irreverentes eles falam de desafios de comunicação, mas especialmente de grandes descobertas e aprendizados que vivenciaram ao abraçar o português como segunda língua. Felipe de Carvalho ONU News – Nações Unidas


terça-feira, 29 de abril de 2025

Bolloré, o magnata da imprensa francesa

O Brasil já teve seus empresários donos da imprensa fixando a linha política do país. Basta lembrar dos nomes de Adolph Bloch com Manchete e de Victor Civita com a editora Abril. O panorama mediático da França mostra uma situação semelhante com o surgimento recente de um magnata da imprensa, cujas compras e controle de jornais, revistas e canais de televisão têm o objetivo de influenciar na formação da opinião do eleitorado francês.

Trata-se de um industrial e homem de negócios bretão. Vincent Bolloré, com um objetivo democrata-cristão, mas cujas diretrizes aplicadas nos seus grupos de imprensa e edição vão na direção da extrema-direita de Marine Le Pen e seu escolhido Jordan Bardella.

Suas primeiras medidas ao adquirir ou se tornar majoritário num órgão de imprensa são sempre de demitir os redatores considerados com tendência de esquerda e de acabar com os programas humorísticos ou sérios de análise e crítica política existentes.

Uma de suas iniciativas é bem atual: seu canal de televisão CNews vem promovendo o cardeal guineense Robert Sarah, considerado ultra conservador e reacionário, como o melhor nome para suceder ao Papa Francisco no Conclave, com início no próximo dia 7.

Essa campanha não tem possibilidade de sucesso. Entretanto, Bolloré está jogando pesado numa vitória do Rassemblement National, (partido de extrema-direita) nas eleições presidenciais de 2027, na sucessão de Emmanuel Macron. Se apesar do recurso apresentado à Justiça, Marine Le Pen continuar inelegível, Vincent Bolloré utilizará seu enorme aparelho mediático em favor de Jordan Bardella.

Como se bastasse sua coleção de jornais, revistas, canais de tv e editoras, Vincent Bolloré liderou um grupo de investidores na compra da Escola Superior de Jornalismo de Paris, provocando um manifesto assinado por 650 estudantes de jornalismo, no qual denunciam "uma nova expressão da subordinação da independência jornalística a interesses econômicos, políticos e ideológicos".

O grupo de investidores inclui os proprietários dos principais jornais franceses: Vincent Bolloré (Canal+, Europe 1, CNews, Le Journal du Dimanche, etc.), Bernard Arnaud (Parisien, Echos, Paris Match), Rodolphe Saadé (BFMTV, La Provence), a família Habert-Dassault (Le Figaro).

Os autores do manifesto acentuam que "esse ataque à mais velha escola de jornalismo do mundo é um ataque contra a profissão e isso desde sua formação." Haverá agora o respeito à deontologia jornalística, ao aprendizado da profissão e ao seu exercício? perguntam os estudantes.

E acrescentam: essa intrusão visa utilizar a mídia para assegurar um projeto político conservador e reacionário. De acordo com o jornal Libération, oito bilionários e dois milionários controlam 81% da difusão dos jornais diários nacionais. Cinco bilionários possuem 57% das audiências dos canais de televisão e 47% das rádios nacionais. "Como garantir uma formação de qualidade, completa, livre, independente e pluralista? perguntam os estudantes. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.