Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 9 de janeiro de 2022

Estados Unidos da América - Carta de soldado lusodescendente chegou ao destino 76 anos depois

Um soldado da II Guerra Mundial enviou uma carta à mãe em 1945, quando estava destacado na Alemanha. Um procedimento normal para os soldados, mas que ganhou novos contornos porque a carta só foi entregue no final de 2021


O sargento John Gonsalves, de origem portuguesa, tinha 22 anos quando escreveu a carta que ficou esquecida durante 76 anos na delegação de Pittsburgh do Serviço Postal dos Estados Unidos.

Os empregados que encontraram a carta conseguiram localizar a viúva do sargento, em Woburn, Massachusetts. John Gonsalves morreu em 2015, a mãe também já faleceu.

“Querida mãe, recebi outra carta tua hoje e fiquei feliz por saber que está tudo bem. Quanto a mim, estou bem e estou a adaptar-me bem. Mas, quanto à comida, é bastante má na maior parte das vezes. Com muito amor e beijos, o teu filho Johnny. Vejo-te em breve, espero”, lê-se na carta entregue a Angelina Gonsalves, que conheceu o marido cinco anos depois de ele enviar a carta.


Angelina Gonsalves, de 89 anos, diz que receber a carta pouco antes do Natal foi como se o marido, com quem esteve casada 61 anos, tivesse regressado a casa. “Imaginem! 76 anos! Eu simplesmente não conseguia acreditar. E depois é a letra dele e tudo. É tão maravilhoso”, afirmou.

Juntamente com a carta, os empregados dos correios – que encontraram a carta do lusodescendente – enviaram uma segunda carta em que explicaram que “entregar esta carta foi de extrema importância” para a equipa. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo




sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Espanha - Banda desenhada relata o jogo de futebol que embaraçou os nazis

No álbum em quadrinhos El partido de la muerte, o guionista Pepe Gálvez (Teruel, 1950) e o desenhador Guillem Escriche (Barcelona, 1972) descrevem uma história real de heroísmo frente à barbárie. Em 9 de Agosto de 1942, em Kiev, disputou-se um jogo de futebol que fez murchar o sorriso dos ocupantes nazis. Dentro de campo eram 11 contra 11, mas a diferença de circunstâncias entre as duas equipas era enorme.

A equipa local era formada por jogadores desnutridos, com profundas cicatrizes pela repressão, quase sem tempo de preparação e com o ódio de uma invasão genocida. Como diz um dos protagonistas da história, eram “os restos de uma derrota”. Já a equipa visitante era um combinado preparado pela Luftwaffe com o único objectivo de vencer e humilhar o rival; queriam demonstrar que a raça ariana era superior também no terreno de jogo frente aos que considerava untermensch (sub-gente), por serem eslavos. Eram o time de futebol que representava a Operação Barbarossa, a descomunal ofensiva de Hitler contra a União Soviética. Uma frente de guerra que se engasgou primeiro às portas de Moscovo, e depois em Estalinegrado, deixando milhões de mortos à sua passagem.


Essa perspectiva de um jogo disputado num tempo de tantas agruras é a base de uma banda desenhada narrada em ritmo ágil, um guião bem documentado e um tratamento de cor, nas ilustrações e personagens, que reflecte à perfeição aquele tempo. Gálvez e Escriche contam as desventuras desse grupo de jogadores que se reencontram depois da invasão nazi a trabalhar numa padaria. O dono contratou-os com a intenção de voltar a montar uma equipa de futebol com jogadores de dois conjuntos emblemáticos da cidade: Dínamo e Lokomotiv. O novo elenco assumiria o nome de FC Start e tornar-se-ia uma equipe imbatível, exemplo de resistência colectiva, cujos jogadores entravam em campo cheios de dignidade, até a partida final contra a equipa nazi.

Gálvez e Escriche recuperam as vicissitudes daquele grupo e suas circunstâncias pela perspectiva da importância da memória histórica e da necessidade de não relativizar os horrores do passado. Para Gálvez, “os jogadores ucranianos eram um grupo de sobreviventes perante um desafio brutal”, que entraram no relvado motivados “pela reivindicação da vida”. E Escriche acrescenta: “Tínhamos a responsabilidade de sermos muito honestos com o que íamos contar. Em geral há duas versões desse jogo: uma muito heróica, e outra que minimiza. Então, tínhamos a obrigação de ser sinceros, pois parte do nosso trabalho é termos posição, mas sem mentir nem alterar o ocorrido”.


No estádio do Zenit de Kiev, quem ganhou foi o FC Start – e muitos jogadores vieram a ser detidos, torturados e deportados para campos de concentração. Vários morreram antes que Kiev fosse liberada, em 6 de Novembro de 1943. A façanha ecoou depois da guerra em livros, filmes e documentários.

O cinema reflectiu em diferentes visões esse duelo entre David e Golias. Houve relatos mais ou menos aproximados do que realmente passou, às vezes tratados pela exaltação patriótica, em outras vezes como referência difusa para contar uma história de resistência. O filme mais conhecido é Victory (1981), de John Houston, protagonizado por Michael Caine, Sylvester Stallone e Max von Sydow, e com a participação especial de grandes referências do futebol, como Bobby Moore, Osvaldo Ardiles e Pelé.


Contudo, o argumento, a composição dos personagens e a localização do encontro final, em Paris, pouco têm a ver com a história original. Da documentação que consultaram, os autores consideram que a mais fidedigna é o livro Gagner à en mourir, de Pierre-Louis Basse, publicado na França em 2012.

El partido de la muerte é também um testemunho útil para não esquecer os desmandos do totalitarismo. O escritor soviético Alexei Tolstói, num intervalo do julgamento de Nuremberga, dirige-se aos seus colegas da imprensa: “Por que matar os feridos? Por que aniquilar milhares de pessoas pacíficas? Que racionalidade há nisso? Tudo para que alguém, não fique a saber que você não é um gigante, mas sim, simplesmente, um psicopata medroso, e para que as pessoas continuem a ter medo de si …”.

Essa cobardia genocida foi derrotada nas quatro linhas por um grupo de futebolistas e amigos, “felizes dentro de campo”, como observa Mario Kempes no prólogo do livro, numa partida que confrontou a vida contra a morte. In “Jornal Tribuna de Macau – Macau com “Agências internacionais”







 

sábado, 19 de setembro de 2020

França - O Cemitério militar português de Richebourg precisa de obras

 


O Cemitério militar português de Richebourg, no norte da França, onde estão sepultados 1831 soldados portugueses que participaram na I Guerra mundial, precisa de obras.

Em francês poderíamos acrescentar que esta é uma “vérité de La Palice”, uma “verdade evidente”. Esta observação tem sido evocada pelo LusoJornal, mas também por todos quantos se deslocam a este lugar único do património português, e que nele passe um pouco de tempo a observar. Evocamos aqui o que é o único Cemitério militar português fora do país.

Por ser único e dado a importância que reveste, é nosso dever tudo fazermos para a sua dignidade e que sirva de testemunha de agradecimento para com todos os que ali estão sepultados e de uma forma geral de reconhecimento da Pátria de 2020 pelos que há mais de 100 anos tão valorosamente defenderam os valores fundamentais da Humanidade.

Temos visitado muito regularmente o Cemitério de Richebourg. A fim de alimentarmos o debate e sobretudo de incentivarmos as Autoridades portuguesas a tomar a decisão que se impõe. Recolhemos detalhadamente dados que passamos a apresentar.

Luís Gonçalves e Jean-Pierre Tintilier fotografaram todas as 1831 campas dos soldados ali sepultados, pessoalmente passei e qualifiquei cada uma delas.

A recolha dos dados foram feitos nos dias 29 e 30 de julho e 1 de agosto de 2020.

  • Total das campas no cemitério: 1831
  • 1592 campas são de soldados conhecidos (87%)
  • 239 campas são de soldados desconhecidos (13%)

Lisibilidade das escrituras nas campas

Existem cerca de 200 estelas cuja superfície frontal está em bom estado, mas em todas as outras, a pedra apresenta-se granulada e porosa tornando a qualidade da escrita totalmente invisível ou parcialmente visível devido ao desgaste da pedra.

Quando consideramos que as inscrições são visíveis nas estelas, estamos a afirmá-lo em relação ao nome do soldado. Se olharmos para o estado da inscrição abaixo do nome, poderíamos classificar a estela como tendo inscrições parcialmente visíveis ou totalmente invisíveis. As escrituras abaixo do nome, dados do soldado, não são praticamente nunca visíveis.

De notar que a grande maioria das estelas não apresentam as últimas inscrições na parte inferior, onde poderíamos ler “Morto pela Pátria” e a data da morte. Existem duas razões para este facto: a chuva que cai sobre a terra envolvente salpica a base da estela e esta última não sendo limpa não revela este importante dado da história do soldado enterrado.

A outra razão é que por vezes a estela encontra-se demasiado enterrada e aquelas indicações acabam por ficar igualmente escondidas.

Estatisticamente eis, os dados recolhidos:

  • Em 595 campas, os nomes são visíveis (32,5%)
  • Em 669 campas, os nomes são parcialmente visíveis (36,5%)
  • Em 567 campas, os nomes são totalmente invisíveis (31%)

A vegetação no cemitério

Em nossa opinião, toda a vegetação do Cemitério deve ser revista.

Nos cemitérios ingleses, por exemplo, geralmente há apenas rosas, por conseguinte, um só tipo de ornamento. No Cemitério português de Richebourg contabilizamos cerca de trinta qualidades diferentes de flores e arbustos, o que tem por consequência uma falta de harmonia.

As sepulturas inglesas, em geral, são mais espaçadas entre si do que em Richebourg, as roseiras são colocadas entre duas sepulturas. No caso inglês, se as sepulturas estiverem próximas, a planta colocada é rasteira e relativamente uniforme.

Na nossa observação, indicamos a presença de flores junto às estelas a partir do momento em que há algo plantado, mesmo se a conservação da dita vegetação não seja das melhores.

Para além das duas árvores que se encontram nos quadrados A e B (entrada) que circundam as duas estelas, existem outras três árvores no interior do cemitério, incluindo uma árvore de fruto, ao fundo à direita, junto do pequeno museu. A árvore no quadrado C tem raízes superficiais que crescem ao longo de fileiras de estelas. A médio prazo, corre-se o risco de assistirmos, com as árvores fundeiras, ao mesmo que acontece com as duas árvores mais próximas da estrada, as quais estão a deslocar e a envolver duas estelas.

Em fim de julho de 2020, o calor era intenso, o que explica, em parte, que a relva entre as fileiras estava quase completamente seca. Há torneiras no cemitério e até um lavatório, ao fundo à esquerda, ao lado da pequena construção que serve de depósito. A água está, contudo, cortada, o que se compreende, em parte.

De notar que 40,25% das campas possuem decoração floral. Parte desta decoração, 11%, esconde as letras e parte da frente das campas.

  • 536 campas com vegetação (29,30%)
  • 201 campas com vegetação que encobre as estelas (11%)
  • 1094 campas sem vegetação (59,7%)

Estado de equilíbrio e base das campas

Há uma campa que está partida e deitada no chão desde meados do mês de junho. Aliás o LusoJornal deu já a notícia de um outro caso há um ano, que entretanto foi reparado.

Supomos que todas as campas estão cimentadas na sua base e que, num primeiro tempo, o cimento foi coberto com terra.

Com o passar do tempo, constatámos que 280 campas apresentam cimento na sua base visível e partido (15,3%). A consequência deste facto é o equilíbrio precário em que estão as ditas campas, provocando também um visível desalinhamento das fileiras das sepulturas.

  • 280 campas com cimento aparente e fragilizadas (15,30%)
  • 1551 campas sem cimento aparente (84,70%)

A parte de cima das estelas, não é lisa, sinal do desgaste pela chuva, outras condições climáticas e pelo passar do tempo.

Dada a longevidade das estelas e a sua localização, não há comparação possível com o alinhamento perfeito das estelas nos cemitérios ingleses.

Não há uma só fileira com alinhamento perfeito de estelas no Cemitério militar português de Richebourg, indicamos porém nas estatísticas efetuadas que uma estela estava inclinada a partir do momento em que esse facto, fosse visível, mesmo sem nos colocarmos no alinhamento da fileira das estelas.

  • 72 campas estavam inclinadas (4%)
  • 1759 campas estavam verticais (96%)

Medidas necessárias no exterior do Cemitério

No exterior do Cemitério é necessário limpar regularmente a rede de esgotos, de forma a permitir o escoamento normal das águas pluviais, evitando que o visitante não tenha que passar em chapas de água antes de entrar no Cemitério.

É necessário também construir ou adaptar as escadas para permitir o acesso a pessoas com mobilidade reduzida, assim como adaptar o acesso ao parque de estacionamento.

Também é necessário colocar, no final do parque de estacionamento, próximo do Cemitério, dois ou três bancos, de forma a permitir que os visitantes descansem, tomem notas ou reflitam. Novas árvores devem ser colocadas para dar sombra a essas novas áreas. A construção de sanitários também é recomendada.

Recomendamos ainda algumas medidas de segurança entre o Cemitério e a Capela de Nossa Senhora de Fátima: por exemplo a extensão da iluminação pública (a partir da rotunda), com iluminação específica à direita da passagem (escuridão e nevoeiro), a limitação de velocidade, 100 metros antes da travessia (com realização de elevações) e materializar a passadeira entre o Cemitério e a capela de Nossa Senhora de Fátima em frente.

O Cemitério de Richebourg é bonito e único

O trabalho por nós realizado e as sugestões que aqui deixamos, não têm por finalidade criticar quem ao longo de diversas dezenas de anos tem tudo feito para que o Cemitério se apresente com dignidade, dentro de um certo número de condicionalismos, e que muito tem feito para a boa organização das cerimónias comemorativas da Batalha de La Lys, como é o caso de João Marques, dos seus familiares e da União Portuguesa de Richebourg.

Desejamos apenas que os elementos que recolhemos, permitam uma reflexão sobre o estado do Cemitério e sobre as obras e/ou melhoramentos a realizar nos diversos domínios abordados.

A nossa reflexão vem juntar-se, de certa forma, a outros trabalhos já realizados, como por exemplo o de Jean-Pierre Tintilier e o da Associação “Paisagens e locais de recordação da Grande Guerra”.

É óbvio que o Cemitério militar português de Richebourg nunca poderá ser comparado aos cemitérios militares da Commonwealth, a menos que se possa empregar uma pessoa a tempo inteiro ao longo do ano para cortar a relva, regar, fazer algum trabalho de arranjo, manter a vegetação em boas condições, etc. O Commonwealth emprega, por vezes, uma pessoa em cemitérios de menor dimensão do que o dos Portugueses em Richebourg.

Mas é necessário que se faça uma reflexão sobre o estado das estelas, que na nossa opinião necessitam de ser totalmente substituídas, o que implica um financiamento que Portugal poderia suportar ou cujo custo poderia ser assumido conjuntamente pelas autoridades portuguesas e porque não por mecenas particulares e empresas, com vantagens fiscais para estas.

Há também toda a vegetação a rever. Deveríamos escolher menos espécies forais para decorar as campas, tornando o conjunto mais harmonioso e que daria menos trabalho de manutenção. Manutenção que deve ser feita regularmente para contribuir que as estelas e inscrições sejam visíveis. Por que não escolher apenas um tipo de plantas? Nos cemitérios da Commonwealth muitas vezes há apenas rosas vermelhas.

Se as estelas vierem a ser substituídas, parece-nos necessária uma reflexão sobre os escritos a serem gravados, o tamanho das letras e dos números.

Visitámos regularmente o Cemitério de Richebourg e apercebemo-nos que este é muito visitado, sobretudo por alunos, o programa do nono ano escolar aborda o tema da I Guerra Mundial e o Dever de Memória. Já lá cruzámos turmas do Liceu Francês do Porto. Este liceu todos os anos visita o Cemitério com 3 a 4 turmas.

O Cemitério militar português de Richebourg é lindo. As estelas de granito, que o caracterizam, tornam-no único. Devemos manter essa especificidade, mesmo se novas estelas vierem a ser substituídas.

Visitar o Cemitério português, é visitar um cemitério diferente.

O Cemitério militar português de Richebourg ajuda a exemplificar a natureza mundial do conflito. Este caráter global é tanto mais fácil a explicar e fazer compreender dado o facto de se poder visitar também, ao mesmo tempo, o Memorial da Índia, localizado mesmo ao lado do cemitério português. Temos aqui a vantagem de visitar dois exemplares num raio de apenas duzentos metros. Notamos que o Memorial da Índia está num estado de ótima apresentação e conservação.

O facto de o Cemitério militar português de Richebourg ser candidato a Património Mundial da Unesco – no quadro de um conjunto de outros cemitérios e monumentos, demonstra a importância deste local de memória, que necessita de ser restaurado e conservado.

Renovar e restaurar o Cemitério militar português de Richebourg é uma forma não só de mostrar o nosso respeito, de agradecer aos soldados do CEP, mas também de olharmos para o futuro.

Estamos convencidos que, se as estelas fossem substituídas e que um produto impermeável fosse colocado e renovado regularmente, ficaríamos descansados para algumas décadas e com menos manutenção regular do que nas estelas do Commonwealth porque o granito desgasta-se mais lentamente que a pedra utilizada nas campas inglesas.

O turismo de memória tem-se desenvolvido nestes últimos anos, turismo que vai ocupar de futuro uma parte dos nossos tempos livres, cada vez mais importante. Tudo fazer para contribuir para o seu desenvolvimento é agir por uma desejada paz duradoura, pelo desenvolvimento do intercâmbio e pela cooperação internacional.

É nossa responsabilidade, é responsabilidade dos nossos governantes.

Vai dar-se início, nas próximas semanas à construção do Jardim Português da Paz, em Richebourg. O financiamento é francês. Esperemos que para as próximas comemorações da Batalha de La Lys venha a ser inaugurado.

Este Jardim vai atrair ainda mais visitantes, que aproveitarão para visitar igualmente o Cemitério.

Por fim, Portugal, “está na moda”. Ora, Portugal muito tem feito para pôr em evidência os seus monumentos, as suas vilas e aldeias históricas,… seria incompreensível que nada fizesse em Richebourg. António Marrucho – França in “LusoJornal”