Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 2 de maio de 2024

Timor-Leste - Fretilin denuncia deterioração do sistema de saúde pública

A Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (Fretilin) denunciou a deterioração do sistema de saúde pública no país com impacto no acesso aos serviços essenciais pelos cidadãos, que estão a optar pelos privados. “Mas o senhor primeiro-ministro [Xanana Gusmão] e a senhora ministra da Saúde [Élia Amaral] ignoram e permitem que o setor público de saúde caia em declínio, facilitando assim a prosperidade do sector privado de saúde no país”, afirmou a deputada da Fretilin, Nuri Alkatiri, numa declaração política do partido no parlamento.


Segundo a deputada, o “público tem menos confiança no sistema de saúde público” e “muitas vezes escolhem o setor privado”, apesar dos recursos financeiros.

Nuri Alkatiri sustentou as afirmações com o aumento do “número de mortes” em Janeiro deste ano no Hospital Nacional Guido Valadares. “As estatísticas do Hospital Nacional Guido Valadares demonstram que em janeiro deste ano foram registadas 186 mortes naquela unidade hospitalar, o maior número em comparação com o mesmo mês de anos anteriores”, salientou a deputada.

A deputada da Fretilin denunciou igualmente o que considera serem irregularidades no fornecimento de medicamentos e outros consumíveis médicos e no recrutamento de funcionários, considerando que a “ministra ignora a lei”.

Nuri Alkatiri disse que também foi cancelado o projeto com o Banco Mundial para a construção de novos hospitais e outras obras, atribuídas por concurso público internacional. “Pedimos uma explicação da ministra da Saúde no parlamento nacional”, disse Nuri Alkatiri, acrescentando que a ministra concordou com tudo durante o debate do Orçamento de Estado para 2024. In “Ponto Final” - Macau


quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Portugal - Descoberto novo género e espécie de fungo microcolonial negro com potencial para deteriorar monumentos de pedra

Diana Paiva, investigadora do Centro de Ecologia Funcional (CFE) do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou e descreveu um novo género e espécie de fungo microcolonial negro, com potencial para deteriorar monumentos de pedra.

Denominada Saxispiralis lemnorum, esta nova espécie foi encontrada no Panteão dos Lemos, Monumento Nacional localizado em Trofa do Vouga, Águeda, numa peça de arte fúnebre calcária com sinais de biodeterioração, e pertence à família Aeminiaceae, descoberta pelo mesmo grupo de investigação, liderado pelo professor do DCV, António Portugal, em 2019, na Sé Velha de Coimbra. O nome deste novo género é alusivo ao substrato de onde foi isolado, às suas características morfológicas peculiares, enquanto o restritivo específico é um tributo ao monumento onde foi identificado.

À semelhança da espécie Aeminium ludgeri, a única espécie descrita nesta família até esta descoberta, «a nova espécie também se caracteriza pela sua impressionante capacidade de sobreviver a condições adversas. Os fungos negros são um grupo ecológico de fungos melanizados que são amplamente reconhecidos como um dos principais contribuintes para a biodeterioração de património cultural em pedra», revela Diana Paiva.

Como explica a investigadora do CFE, «estes fungos possuem notáveis adaptações que lhes permitem tolerar uma ampla gama de fatores de stress, tais como temperaturas extremas, doses elevadas de radiação ultravioleta, baixa disponibilidade de água e nutrientes, altas concentrações de sal e flutuações de pH, frequentemente encontradas na superfície da pedra. Ao colonizar rochas, estes fungos podem induzir deterioração química ao excretar vários tipos de compostos, como por exemplo sideróforos».

No entanto, «o dano mais significativo resulta da ação mecânica causada pelo crescimento das suas hifas, que pode levar à erosão, à formação de pequenas fissuras e também à desagregação de pequenos fragmentos da pedra, consequentemente, fragilizando o substrato. Além disso, causam danos estéticos como consequência da produção de melanina, resultando no aparecimento de manchas negras», descreve.

De acordo com a investigadora, esta descoberta não deve ser encarada de forma alarmante. «O objetivo não deve ser tentar erradicar este tipo de fungos, e daí a importância de estudos como este, mas sim compreender a melhor forma de minimizar o impacto que têm e, consequentemente, proteger estes monumentos», afirma.

Dado o valor inestimável que estes monumentos históricos têm, para Diana Paiva «a realização de tipo de estudos como este é crucial para a construção de uma base de informação sobre esta e outras espécies que colonizam a pedra, que possa ser útil para o estabelecimento de processos de restauro mais adequados e eficazes para a conservação do património cultural, podendo auxiliar no controlo do desenvolvimento destes organismos».

Este trabalho, desenvolvido no âmbito do seu Doutoramento em Biociências, «representa uma contribuição significativa para o entendimento da diversidade fúngica envolvida na biodeterioração do património em calcário», acredita Diana Paiva, revelando ainda que, no Panteão dos Lemos, foi encontrada uma diversidade muito além das expectativas inicias. «Estamos a trabalhar para a descrição de mais sete novas espécies, o que envolve um trabalho longo e laborioso», conclui.

O artigo publicado na revista científica Jounal of Fungi pode ser consultado aqui. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Goa - Apela a peritos portugueses para salvar Basílica do Bom Jesus


O arquitecto Fernando Velho, membro do grupo independente Colectivo de Goa, que defende a conservação de monumentos históricos naquele estado indiano, apelou à intervenção de peritos portugueses para salvar a Basílica do Bom Jesus, ameaçada pelas chuvas.

“Era preciso que especialistas portugueses se reunissem com peritos locais e fizessem um relatório” sobre o restauro da Basílica, apelou Fernando Velho, considerando “urgente” a intervenção naquele monumento, considerado património mundial.

O arquitecto indiano, que falava à Lusa após o reitor da Basílica em Goa Velha ter alertado que a igreja está em “grave perigo” de “colapso”, confirmou que a infiltração de água nas paredes ameaça o monumento, depois do estuque que recobria originalmente a fachada ter sido removido nos anos 1950.

A polémica intervenção deixou a igreja, construída em rocha porosa pouco resistente ao clima húmido indiano, exposta à chuva e às monções. “Nos anos 1950, além do estuque ter sido removido, houve uma série de outras intervenções, como a adição de lajes de betão e a modificação do telhado”, explicou Fernando Velho, um dos arquitectos consultados pelo reitor da Basílica, o padre Patrício Fernandes.

“A integridade da estrutura da Basílica foi afectada”, explicou, e os reforços introduzidos há 70 anos “estão agora a ceder, por causa da deterioração do betão”.

Exposta aos elementos, “a pedra deteriorou-se muito em algumas áreas da fachada, por causa das monções”, explicou o arquitecto.

A situação agravou-se devido às alterações climáticas, afirmou. “Por causa do aquecimento global, deixou de haver estação seca e monção na Índia, chove durante o ano todo. Todos os meses chove mais, o que não acontecia antes, e as paredes não têm oportunidade de secar”, disse o arquitecto.

A expansão urbana da vizinha Pangim, capital do estado de Goa, também ameaça o monumento, classificado pela UNESCO em 1986.

“O governo de Goa não definiu zonas tampão, obrigatórias pela lei nacional”, disse o arquitecto, denunciando “interesses imobiliários”.

“É um problema que não existia no passado, mas com a construção de uma auto-estrada muito perto da Basílica e o aumento do betão naquela zona, toda a água é absorvida pela igreja”, lamentou.

Para Fernando Velho, “é urgente rebocar a igreja” e salvaguardar o monumento, considerando que a protecção da Basílica “é um problema transnacional”.

“Era importante ter peritos de Portugal envolvidos, porque o reboco em igrejas também foi feito lá”, disse, recordando que há vários especialistas portugueses que estudaram a Basílica do Bom Jesus.

Antes, o reitor da Basílica do Bom Jesus dissera que a igreja construída pelos portugueses no séc. XVI está “em grave risco” de “colapso”, apelando a obras urgentes.

Segundo o reitor, a água das chuvas e monções infiltrou-se nas paredes, expostas aos elementos desde que, nos anos 1950, foi removido o estuque que recobria originalmente a fachada da Basílica, inaugurada em 1605 em Goa Velha, então capital da Índia Portuguesa. Por essa razão, as paredes da igreja, construída com blocos em laterite, uma rocha local porosa, ficaram expostas às chuvas e monções nos últimos 70 anos, provocando a sua erosão.

Esta não é a primeira vez que o reitor alerta para o estado do monumento, mas segundo o prelado, a situação agravou-se nos últimos meses. “Pela primeira vez, há tanta água que acabou por se infiltrar na pedra. A monção acabou em Outubro e as paredes continuam molhadas”, contou. “Quando se passa a mão pela pedra, há pedaços que caem ao chão”, acrescentou.

O reitor recordou que a última monção, em Outubro de 2020, fez ruir a fachada da igreja de São Roque, situada na localidade de Velim, no sul de Goa, e teme que o mesmo aconteça à Basílica do Bom Jesus.

“Não sou apenas eu que temo que isso aconteça. Consultei arquitectos e engenheiros e disseram-me: ‘Padre, isto [o reboco das paredes] tem de ser feito, ou há um grave perigo de que a basílica colapse’”.

O padre Patrício Fernandes alertou os serviços de conservação de monumentos de Goa (ASI), instando-os a rebocar as paredes da igreja e a fazer obras no telhado, mas segundo o prelado, tem havido resistência em proceder à intervenção. “A maioria das pessoas sempre conheceram esta igreja sem reboco, por isso pensam que era assim originalmente”, explicou.

A Lusa questionou os serviços de conservação de monumentos em Goa e em Nova Deli por escrito, mas não recebeu resposta em tempo útil.

Construída entre 1594 e 1605, a Basílica do Bom Jesus faz parte de um grupo de igrejas e conventos erigidos pelos portugueses, classificados pela Unesco como Património Mundial, em 1986.

A Basílica, um dos monumentos mais visitados em Goa, alberga o túmulo de S. Francisco Xavier, missionário jesuíta canonizado no séc. XVII, conhecido como o “apóstolo do Oriente”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Internacional - Privilegiando o elo social

O ecologista francês Hervé Kempf em L'Économie à l'épreuve de l'écologie, apontou a necessidade de privilegiarmos o elo social, ao invés da satisfação individual, muito identificada com o consumismo.

Para tanto, urge “renovar a economia”, substituindo a obsessão material que é alimentada pelo crescimento físico (mais produtos e serviços) das economias, robustecendo assim o mercado de consumo.

Num outro livro muito interessante, Pour sauver la planète, sortez du capitalisme, Hervé Kempf, em relação a esse mesmo assunto, é ainda mais incisivo ao estabelecer os laços estreitos entre a rápida destruição do planeta com o funcionamento do sistema capitalista em todas as suas dimensões, incluindo a cultural.

Usando as palavras originais de Kempf, com livre tradução no fim deste artigo, temos que (...) un autre monde est possible, il est indispensable, il est à notre portée. Le capitalisme, après un règne de deux cents ans, s’est métamorphosé en entrant dans une phase mortifère: il génère tout à la fois une crise économique majeure et une crise écologique d'ampleur historique. Pour sauver la planète, il faut sortir du capitalisme, en reconstruisant une société où l'économie n'est pas reine mais outil, où la coopération l'emporte sur la compétition, où le bien commun prévaut sur le profit (1).

A deterioração do meio ambiente, o esgotamento de alguns dos principais serviços ecossistêmicos, a depleção dos recursos naturais para “abastecer” uma economia de mercado cada vez mais exigente em matéria de produção econômica e, em especial, as extinções da fauna e flora, fruto de ação antrópica, alcançaram ritmo jamais visto no último século.

Essa é a razão que levou o Nobel de química, Paul Crutzen, a declarar que desde o final do século XVIII “entramos” no período “antropoceno”, ou seja, na era em que predomina a influência humana sobre a biodiversidade.

Com urgência, face a situação de deterioração que os humanos têm deixado o meio ambiente, clama-se pela necessidade de reconstruir a maneira como a atividade econômica tem atuado em relação ao meio natural.

É imprescindível, para isso, estabelecer outros valores, longe da sanha consumista patrocinada, em larga medida, por uma economia que somente “enxerga” valor no mercado e nos produtos e serviços produzidos, enfatizando assim a expansão do PIB.

Se o objetivo maior ainda é o de alcançar com eficiência uma política de sustentabilidade, que respeite o meio ambiente para salvaguardar as espécies de vidas existentes, é forçoso reconhecer, na seara dessa questão, que o sistema econômico deve passar pela capacidade de atingir prosperidade sem crescimento, abandonando assim a obsessão material que mencionamos acima, incrustada no subconsciente dos mais vorazes consumistas.

Uma vez reconhecendo que a pressão humana sobre o sistema ecológico tem sido expansiva e dilapidadora, progressiva e destruidora das bases do capital natural, três fatores precisam ser contornados para que essa “reconstrução econômica” aconteça de modo satisfatório: i) controlar o aumento populacional (em 1900, a população mundial era de 1,5 bilhão de habitantes. Oitenta e cinco anos depois, o planeta atingiu 5 bilhões de pessoas e, em apenas 28 anos mais, o mundo “ganhou” mais 2 bilhões de habitantes; em 2050, teremos uma população mundial de 9,5 bilhões); ii) estancar o nível desenfreado de consumo e, iii) reduzir o uso de novas tecnologias voltadas exclusivamente ao aumento da produtividade do trabalho – base de aceleração da economia; por isso, motivo de dilapidação dos bens da natureza.

Esses fatores – em especial, os dois últimos (aumento populacional e nível de consumo) – passam, na prática, por “encaixar” a atividade econômica dentro dos limites ecológicos. Razão pela qual é de suma importância não perder de vista que a economia não pode mais “funcionar” sob o paradigma do crescimento expansivo.

Tão importante quanto isso é o fato de a economia neoclássica – fascinada pela ideia de equilíbrio e liturgicamente adepta ao dogma do crescimento econômico como paradigma supremo de prosperidade – reconhecer o que é mostrado com bastante clareza pela segunda lei da termodinâmica: que o “circuito econômico” não funciona no “vazio”, longe do meio ambiente, mas sim por dentro da biosfera. Marcus Oliveira - Brasil in “Diário da Liberdade”

Nota:

(1) Outro mundo é possível, é essencial, ele está ao nosso alcance. O capitalismo, após um reinado de duzentos anos se converteu numa fase mortal que gera tudo de uma vez; uma grande crise econômica e uma crise ecológica de proporções históricas. Para salvar o planeta, temos de sair do capitalismo reconstruindo uma sociedade onde a economia não reine, mas que seja uma ferramenta que faça prevalecer a cooperação sobre a competição, e onde o bem comum prevaleça sobre o lucro.

Marcus Eduardo de Oliveira - Economista brasileiro, professor universitário. É especialista em Política Internacional e mestre em Estudos da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). É colaborador da Agência Zwela de Notícias (Angola) e do portal Notícias Lusófonas (Portugal). Autor dos livros "Conversando sobre Economia" e "Pensando como um economista".