Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Em busca de rastros de Bocage

Adelto Gonçalves, 70 anos, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é um dos maiores especialistas em século XVIII português. Um de seus trabalhos notáveis é Bocage, o perfil perdido, que sai agora pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), depois de publicado em 2003 pela Editorial Caminho, de Lisboa, resultado de um trabalho de pesquisa em arquivos portugueses com bolsa de pós-doutoramento da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp).

Ainda sobre o século XVIII, o pesquisador publicou outro trabalho notável, Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), biografia do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), sua tese de doutoramento, e os ensaios históricos Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo colonial – 1709-1820 (2015), e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (2019), publicados pela Imesp.

Jornalista desde 1972, Adelto Gonçalves passou por várias redações, incluindo Cidade de Santos, A Tribuna, de Santos, O Estado de S. Paulo e Folha da Tarde e as editoras Abril e Globo. Em Portugal, é colaborador do quinzenário impresso As Artes Entre as Letras, do Porto, e das revistas Vértice e Colóquio/Letras, de Lisboa. É também colaborador do Jornal Opção, de Goiânia, do Diário do Nordeste, de Fortaleza, e da revista digital VuJonga, de Lisboa, dedicada aos povos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre outros sites do Brasil e Portugal.

Foi professor da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e da Universidade São Judas-Unimonte, nos cursos de Jornalismo, e da Universidade Paulista (Unip), nos cursos de Direito e Pedagogia, em Santos. Ganhou os prêmios José Lins do Rego de Romance (1980) da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro; Fernando Pessoa (1986) da Fundação Cultural Brasil-Portugal, do Rio de Janeiro; Assis Chateaubriand (1987) e Aníbal Freire (1994) da Academia Brasileira de Letras, e Ivan Lins de Ensaios (2000) da União Brasileira de Escritores e Academia Carioca de Letras. É sócio correspondente da Academia Brasileira de Filologia.

É ainda autor dos romances Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2003) e Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem 2015), do livro de ensaios e artigos Fernando Pessoa: a voz de Deus (Santos, Unisanta, 1997), e do livro de contos Mariela morta (Ourinhos, Complemento, 1977).

Luthero Maynard – Por que escolheu a vida e a obra do poeta português Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) para tema de seu pós-doutorado?

Adelto Gonçalves – Com o conhecimento que havia adquirido do século XVIII português, entendi que só me restava escrever a biografia de Bocage. Deixando de lado os poetas do século XX – Fernando Pessoa, especialmente –, os maiores poetas da literatura portuguesa são, pela ordem, Luís de Camões (c.1524-c.1580), Bocage e Gonzaga. Em popularidade, em sua época, Gonzaga, que teve o seu primeiro livro publicado em 1792, quando já estava no degredo em Moçambique, só perdia para Bocage. Isso pode ser constatado se contarmos, por exemplo, as vezes em que os dois poetas são citados na Gazeta de Lisboa, entre 1790 e 1810. Mas é preciso ver que Bocage morava em Lisboa, enquanto Gonzaga estava desterrado na África Oriental. Marília de Dirceu servia como termo de comparação sempre que algum crítico queria elogiar algum poeta ainda desconhecido. Foi o que ocorreu, por exemplo, com Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814), quando apareceu o seu livro Glaura (1799). Marília de Dirceu é a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, só perdendo, em número de edições, para Os Lusíadas, de Camões. Diante disso, só me cabia como pesquisador sair em busca de rastros de Bocage. Contei com o apoio do professor Fernando Cristóvão, da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, e do professor Massaud Moisés (1928-2018), que foi meu orientador no doutorado. Fiquei em Portugal de 15 de março de 1999 a 15 de março de 2000. Também contei com o apoio de três ex-embaixadores em Portugal: José Aparecido de Oliveira (1929-2007), Dario Moreira de Castro Alves (1927-2010) e Alberto da Costa e Silva, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras.

Uma das principais descobertas de sua pesquisa é que Bocage não nasceu numa casa localizada à rua de São Domingos, atual rua de Edmond de Bartissol, em Setúbal. Como descobriu que aquilo não passava de um equívoco ou de uma farsa?

Adelto Gonçalves – No começo, não imaginava. Só comecei a desconfiar depois de pesquisar a documentação na Torre do Tombo, quando constatei que a família de Bocage tivera uma propriedade sequestrada pelo Estado. E que essa propriedade não ficava na rua de São Domingos, mas no largo de Santa Maria. Depois, confirmei na documentação da décima de prédios urbanos de Setúbal, na Torre do Tombo, que, na rua de São Domingos, na metade final do século XVIII, não havia morado nenhuma família Bocage. Havia, sim, na casa onde diziam ter nascido Bocage um morador chamado Manuel Gomes Borralho. A semelhança no nome talvez tenha contribuído para a crença de que Bocage tivera nascido naquela casa que, afinal, ficava muito próxima à igreja onde ele havia sido batizado. Isso descobri depois de quase seis meses de pesquisas nos arquivos.

Como foi a farsa montada pelo poeta setubalense Manuel Maria Portela?

Adelto Gonçalves – Foi nos papéis do historiador João Carlos de Almeida Carvalho, no Arquivo Distrital de Setúbal, que encontrei a farsa já denunciada. Carvalho pretendia escrever uma biografia de Bocage. Fez algumas pesquisas, conversou com descendentes da família do poeta e deixou muitas anotações. Não escreveu a biografia, mas a sua família se lembrou de encaminhar esses documentos para o Arquivo Distrital de Setúbal. Ainda bem. Carvalho era contemporâneo de Portela e sabia que não havia nenhum fundamento na sua afirmação segundo a qual Bocage teria nascido numa casa da rua de São Domingos. Em 1863, descobriu-se alguns arabescos no teto de uma casa daquela rua que a alguém pareceu brasão de uma família. Disseram que na família de Bocage alguém fora representante do Vaticano e aquilo seria brasão de armas do papa, de algum bispo ou coisa que o valha. Mas nada daquilo era provado. Um bisavô paterno de Bocage tinha o sobrenome de Bispo, mas nada mais que isso. Talvez tenha surgido daí a confusão.

E, mesmo assim, aquilo foi adiante e durou até há pouco tempo?

Adelto Gonçalves – Apesar da falta de provas materiais, Portela, que era funcionário da Câmara e redator do jornal A Voz do Progresso, achou de levar adiante a ideia. De repente, aquilo se tornou algo muito importante para Setúbal. Portela conseguiu recursos financeiros e mandou colocar uma lápide na morada, sem o apoio da Câmara. Ele e outros setubalenses convenceram o industrial francês Edmond de Bartissol, grande proprietário de terras em Alcácer do Sal e produtor de vinhos, a comprar a propriedade para oferecê-la, em seguida, à Câmara com o objetivo de tornar o local uma casa de cultura. Em troca, a Câmara deu nome dele à rua. Os irmãos Castilhos – Antônio (1800-1875) e José Feliciano de Castilho (1810-1879) – apoiaram a ideia e, quando eles entravam no páreo, era para ganhar. Formavam uma espécie de “máfia” literária, um em Lisboa e outro no Rio de Janeiro. Faziam e desfaziam reputações. No Rio, José Feliciano movimentou a comunidade portuguesa e arrecadou fundos para mandar levantar uma estátua de Bocage e colocá-la em Setúbal. Diante desse movimento todo, Carvalho recuou: mesmo que falasse alto que não havia nenhum documento provando que Bocage nascera naquela morada, ninguém lhe daria ouvidos. Preferiu anotar tudo e deixar seus papéis para a posteridade. Fui aos jornais da época e reconstituí a festa de inauguração da estátua na Praça do Sapal, hoje Praça Bocage, que, por sinal, será relembrada em 21 de dezembro de 2021, por ocasião dos 150 anos do monumento. A data marca o dia da morte do poeta (21/12/1805).

Outra descoberta importante de seu livro é a prisão do pai do poeta. Como foi isso?

Adelto Gonçalves – Há um dossier na Torre do Tombo que conta toda essa história. O pai de Bocage, José Luís Soares de Barbosa, era ouvidor em Beja quando foi acusado de desviar dinheiro da arrecadação da décima de 1769. Ele era ligado por compadrio a Antônio da Silva e Sousa, juiz-geral do Tombo da Sereníssima Casa do Infantado e um dos homens mais beneficiados do rei d. Pedro III, então infante. Era a quem o ouvidor dizia que remetia todos os dinheiros da décima. Acontece que esse Silva e Sousa era ligado à corrente política da princesa d. Maria e d. Pedro III, seu marido, que eram contrários ao marquês de Pombal. Por causa de uma daquelas intrigas palacianas, Silva e Sousa foi deportado para o presídio das Pedras Negras, na África, e José Luís foi obrigado a prestar contas. Em 1771, a morada do largo de Santa Maria, com a rua das Canas Verdes (atual rua de Antônio Joaquim Granjo), foi sequestrada pela Coroa, bem como seus bens móveis. E José Luís encaminhado para a cadeia do Limoeiro, onde ficou até 1777, quando veio a Viradeira e ele pôde sair da prisão. A culpa lhe foi perdoada pela rainha d. Maria, mas ele não teve seus direitos reintegrados nem voltou à magistratura. A família dele continuou a morar na casa, mas teria agora de pagar aluguel ao Estado, o que nunca foi feito.

E o processo deve ter rolado bastante tempo na Justiça?

Adelto Gonçalves – De fato, o processo do confisco rolou na Justiça quase trinta anos até que, em 1800, a casa foi à arrematação. Os descendentes de José Luís, liderados por Gil Francisco, o primogênito, mas sem a participação de Manuel Maria, tentaram obstar o confisco, alegando que a casa pertencia à avó deles. Várias testemunhas afiançaram que José Luís Soares de Barbosa, ao se casar com Mariana Joaquina du Bocage, fora morar na casa da sogra e não levara para o matrimônio mais que a roupa do corpo. A casa era herança da mãe de Bocage. Na Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL), constatei que fora comprada em 1693 por Leonardo Lustoff, abastado comerciante que exercera também as funções de cônsul da Holanda, em Setúbal, falecido em 1701. Leonardo era pai de Clara Francisca, que se casaria em 1720 com o francês Gil l´Hedois du Bocage, coronel da Armada Real. O francês estava perto dos 70 anos e ela tinha pouco mais de 20 anos. Tiveram duas filhas: uma delas, Mariana Joaquina, seria a mãe do poeta Bocage.

Qual a importância de Bocage para a literatura brasileira?

Adelto Gonçalves – Bocage é hoje pouco lido no Brasil, mas, em Portugal, ainda é muito reverenciado. Para a literatura brasileira, tem grande importância porque é de uma época em que o Brasil não existia como nação independente. E, portanto, éramos todos portugueses. Espero que essa biografia ajude a retirar Bocage do limbo em que se encontra no Brasil.

Quais as principais dificuldades encontradas pelo pesquisador de História e Literatura no País?

Adelto Gonçalves – As dificuldades não são muitas – e as que existem são benéficas, pois permitem ao pesquisador encontrar informações inéditas. Se tudo nos arquivos estivesse organizado e disponível, não haveria muito que pesquisar porque já seria conhecido. Além disso, ao tempo de meu doutorado e pós-doutorado, havia bastante apoio por parte do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fapesp, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, e de outras instituições. Luthero Maynard - Brasil

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Bocage, o perfil perdido, de Adelto Gonçalves, com prefácio de Fernando Cristóvão. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp), 520 páginas, 2021, R$ 85,00. Site: https://livraria.imprensaoficial.com.br/bocage-o-perfil-perdido.html

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Luthero Maynard, jornalista formado pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, passou por várias redações em São Paulo, incluindo O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde e Folha da Tarde e diversas revistas da Editora Abril. Lançou a revista História Viva, da Duetto Editorial, da qual foi editor. Foi assessor de imprensa do governador Franco Montoro e da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb-SP).  Foi membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e pertence ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHG-SP). E-mail: luthero.maynard@gmail.com.

 

 

domingo, 16 de junho de 2019

Uma leitura brasileira de Pessoa, Bocage e Gonzaga

Em Quito, pesquisador Adelto Gonçalves discorre sobre a vida e a obra dos poetas em conferências para estudantes e acadêmicos

QUITO – A convite da Embaixada do Brasil no Equador, o jornalista e escritor Adelto Gonçalves fez na segunda semana de junho duas apresentações de sua obra literária em palestras dirigidas ao público estudantil e acadêmico de Quito. Sábado, dia 8, no Instituto Brasileiro-Equatoriano de Cultura (Ibec), o pesquisador apresentou a um público formado por mais de 50 estudantes equatorianos de Português um alentado trabalho sobre sua trajetória literária que inclui nove livros publicados e uma nova obra a sair ainda neste ano pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Na segunda-feira, à noite, dia 11, participou, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrión, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. Os dois encontros contaram com a presença e a participação do embaixador Joao Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras.  Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa (1888-1935), Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) e Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, Gonçalves destacou que o ensaio "O ideal político de Fernando Pessoa", que consta de seu livro Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória internacional interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

Na introdução que escreveu para esta segunda edição, De Cusatis lembra que o fato de o ensaísta ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano. Em artigo publicado no diário Il Corriere della Sera, de Milão, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se lê à página 24 da edição atual de Politica i Profezia.  De Cusatis destacou que "Adelto Goncalves é um ensaísta de prestígio e crítico, autor de uma biografia crítica do poeta português Tomás Antônio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro".

Durante a apresentação, Gonçalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como "um conservador ao estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionário". Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explícita da escravidão. "Seria um anarquista utópico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre (1900-1987)”, acrescentou.

Lembrou, porém, que Pessoa defendia que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerceriam influência sobre outros. “Como exemplo, citava a França", disse, lembrando que esta posição política do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) de dar o seu nome a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003), Prêmio Camões de 1991, filho de pai algarvio e de mãe ronga.

Depois de fazer referência a escritores equatorianos como Jorge Icaza (1906-1978) e Jorge Enrique Adoum (1926-2009), Gonçalves destacou principalmente a vida de Tomás Antônio Gonzaga, lembrando que, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), corrigiu a informação do professor e filólogo português Rodrigues Lapa (1897-1989) segundo o qual o poeta, no exilio na Ilha de Mocambique, casara com a "herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócios da escravatura" e dedicara "as horas vagas ao rendoso comércio de escravos".

"De fato, Gonzaga casou em 1793 com Juliana de França Mascarenhas, de 18 anos de idade, filha de Alexandre Mascarenhas, que era escrivão e subordinado ao poeta na estrutura judiciaria da comarca local. Mais: Mascarenhas morreria em 1793 e, portanto, Gonzaga não teria tempo de ajudar o sogro arredondar a fortuna, como disse Lapa”, observou. “Além disso, Mascarenhas não era pessoa de muitas posses: tinha uma casa na ilha e outra no continente fronteiro que obtivera pelo casamento”, disse, ressaltando também que nas edições da Gazeta de Lisboa, de 1792 a 1810, Gonzaga, autor de Marília de Dirceu, só seria superado em número de citações por Bocage, que sempre viveu em Lisboa, com exceção dos quatro anos (1786-1790) que passou entre Rio de Janeiro, Goa, Damão e Macau". Lembrou ainda que Gonzaga não participou do comércio negreiro, embora como advogado tenha trabalhado para grandes comerciantes de escravos. “Ele tinha cerca de 30 escravos para o trabalho doméstico. Já os grandes traficantes aparecem nas listas como proprietários de mais de três centenas de escravos”, disse.

De Bocage, Gonçalves destacou que, em Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), provou com documentos que o poeta não nasceu na Rua de São Domingos, atual Edmond Bartissol, em Setúbal, mas sim numa casa localizada à Rua das Canas Verdes, atual António Joaquim Granjo, na esquina com o Largo de Santa Maria. "Essa casa a mãe de Bocage herdara do avô, Leonardo Lustoff, comerciante, representante de interesses batavos em Setúbal, que fora cônsul da Holanda. Em 1771, o pai de Bocage, José Luís Soares de Barbosa, ouvidor em Beja, seria acusado de desviar a arrecadação da décima, ficando preso na cadeia do Limoeiro até 1777. A casa, sequestrada, iria a leilão em 1800. Da documentação referente à Rua de São Domingos, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, não há registro de que alguma família Bocage ou Barbosa tenha residido naquela casa. Até hoje, porém, a Câmara Municipal de Setúbal não se resolveu a adquirir o imóvel da verdadeira casa onde nasceu Bocage. E corrigir uma informação equivocada de quase século e meio", concluiu. Adelto Gonçalves - Brasil

Adelto Gonçalves - Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa e mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana pela Universidade de São Paulo (USP), Gonçalves é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. Tem prevista a publicação em 2019 de O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797, ensaio histórico, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Equador – Diálogo sobre poetas de língua portuguesa na cidade de Quito

Adelto Gonçalves faz palestra em Quito


Centro Cultural Benjamin Carrion

QUITO - O jornalista e escritor Adelto Gonçalves participou, na passada segunda-feira à noite, de uma conversa no Centro Cultural Benjamin Carrion, em Quito, com o escritor Rogério Pereira, ex-diretor da Biblioteca Publica do Paraná e editor do jornal mensal literário Rascunho, que contou com a moderação do poeta Santiago Estrella, jornalista do diário El Mercurio. O encontro foi promovido pela Embaixada do Brasil em Quito e contou também com a presença do embaixador João Almino, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Gonçalves fez uma leitura brasileira da obra e da vida dos poetas Fernando Pessoa, Bocage e Tomás Antônio Gonzaga. Já Rogério Pereira abordou a relação entre literatura e jornalismo como espaços confluentes.

De Fernando Pessoa, destacou que o ensaio "O ideal politico de Fernando Pessoa", que consta de seu livro "Fernando Pessoa: a Voz de Deus" (Santos, Editora da Unisanta, 1997) e foi publicado originalmente em "Estudos sobre Fernando Pessoa (Rio de Janeiro, Fundação Cultural Brasil Portugal, 1986), teve uma trajetória interessante, pois seria lido na Biblioteca Nacional de Lisboa pelo ensaísta Brunelo Natale De Cusatis, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Perugia, e citado no livro "Fernando Pessoa: Politica i Profezia: Apuntes y Frammenti 1910-1935" (Roma, Antonio Pelicanti Editore, 1996), do qual em 2018 saiu uma segunda edição.

Na introdução que escreveu para esta segunda edição, De Cusatis lembra que o fato de o ensaísta ter mostrado que o pensamento de Pessoa passava longe das hostes esquerdistas desagradou ao escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), tradutor da obra de Pessoa para o italiano. Em artigo publicado no diário Corriere dela Sera, de Milão, em 31 de maio de 2001, Tabucchi acusou De Cusatis de se basear num ignoto brasiliano (brasileiro desconhecido), como se lê a pagina 24 da edição atual de Politica i Profezia.

De Cusatis lembrou que "Adelto Gonçalves é um ensaísta de prestígio e crítico, autor de uma biografia critica do poeta português Tomás Antonio Gonzaga publicada em 1999 pela editora Nova Fronteira, do Rio de Janeiro".

Durante a apresentação, Gonçalves lembrou que Fernando Pessoa se definiu como "um conservador ao estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacionario". Mais: Pessoa era contra o comunismo, o socialismo, o catolicismo e o revolucionarismo. Mas nunca fez a defesa explícita da escravidão. "Seria um anarquista utópico, mas de direita, tal como se autodefiniu certa vez Gilberto Freyre. Defendia, porém, que havia um imperialismo da cultura, ou seja, certos povos exerciam influência sobre outros. Como exemplo, citava a França", disse, lembrando que esta posição politica do poeta tem despertado protestos de intelectuais africanos para a decisão da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) de dar o nome de Fernando Pessoa a um programa de bolsas para estudantes. E que seria melhor optar por um nome mais consensual, como o poeta moçambicano José Craveirinha (1922-2003), Prémio Camões de 1991, filho de pai algarvio e de mãe ronga.

Depois de fazer referência a escritores equatorianos como Jorge Icaza e Jorge Enrique Adoum, Gonçalves destacou principalmente a vida de Tomas Gonzaga, lembrando que, em Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), corrigiu a informação do professor português Rodrigues Lapa segundo o qual o poeta, no exilio na Ilha de Moçambique, casara com a "herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócios da escravatura" e dedicara "as horas vagas ao rendoso comércio de escravos".

"De fato, Gonzaga casou em 1793 com Juliana de França Mascarenhas, de 18 anos de idade, filha de Alexandre Mascarenhas, que era escrivão e subordinado do poeta na estrutura judiciária da comarca local. Mais: Mascarenhas morreria em 1793 e, portanto, Gonzaga não teria tempo de ajudar o sogro a aumentar a fortuna", disse. “Além disso, Mascarenhas era pessoa de poucas posses: tinha uma casa na ilha e outra no continente fronteiro que obtivera pelo casamento. Ressaltei também que nas edições da Gazeta de Lisboa, de 1792 a 1810, Gonzaga, autor de Marília de Dirceu, só seria superado em número de citações por Bocage, que sempre viveu em Lisboa, com exceção dos quatro anos (1786-1790) que passou entre Rio de Janeiro, Goa, Damão e Macau", acrescentou.

De Bocage, Gonçalves destacou que, em Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003), provou com documentos que o poeta não nasceu na rua de São Domingos, atual Edmond Bartissol, em Setúbal, mas sim numa casa localizada a rua das Canas Verdes, atual Antonio Joaquim Granjo.

"Essa casa a mãe de Bocage herdara do pai, o corsário francês l`Hedois du Bocage. Em 1771, o pai de Bocage, José Luis de Barbosa, ouvidor em Beja, seria acusado de desviar a arrecadação da décima, sendo preso na cadeia do Limoeiro ate 1777. A casa, sequestrada, iria a leilão em 1800. Da documentação referente a rua de São Domingos, no Arquivo da Torre do Tombo, não há registro de que alguma família Bocage ou Barbosa tenha residido naquela casa. Até hoje, porém, a Câmara Municipal de Setúbal não se resolveu a adquirir o imóvel da verdadeira casa onde nasceu Bocage e corrigir uma informação falsa de quase século e meio", concluiu.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Poesias eróticas de Bocage: as falsas e as verdadeiras

                                                          I
Durante largos anos, a imagem de Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) que ficaria para a posteridade seria a de um poeta erótico, pornográfico e chocarreiro. Nos últimos anos, porém, graças ao trabalho de estudiosos – inclusive, deste articulista –, essa imagem tem sido substituída por um perfil menos caricaturesco. Essa revisão ganha agora ainda mais força com a publicação de Obras completas de Bocage: Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2017), com organização e notas do pesquisador setubalense Daniel Pires, que reúne as composições de caráter fescenino do poeta, as de autoria duvidosa e as indevidamente atribuídas a ele, acompanhadas por estudo introdutório fundamental para uma melhor compreensão da dimensão do homem, da obra e do seu contexto.

Aliás, as Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas podem ser consideradas como o sétimo volume da obra completa de Bocage, depois de terem sido publicadas inicialmente de maneira anônima em forma de folheto no início do século XIX. Mas só foram, pela primeira vez integradas na obra completa de Bocage em 2004, na edição preparada pelo mesmo Daniel Pires para as Edições Caixotim, do Porto.

Nesta nova edição, porém, os poemas foram divididos por Pires em três núcleos: o primeiro contempla aqueles que são de Bocage, enquanto o segundo reúne aqueles de autoria duvidosa e o terceiro é constituído por peças que não lhe pertencem, mas que lhe foram atribuídas por editores pouco responsáveis ou ainda forjadas por seus inimigos, entre eles Belchior Curvo Semedo (1766-1838) e José Agostinho de Macedo (1761-1831), inclusive a famosa Ribeirada: poema em um só canto, de autor anônimo.

Como diz Pires na conclusão da introdução que escreveu para este livro, é urgente inverter aquela imagem desvirtuada de Bocage que ainda perdura junto a setores menos ilustrados da população tanto em Portugal como no Brasil, ou seja, a do “Bocage chocarreiro, protagonista de anedotas boçais, fura-vidas, promíscuo e pornográfico”. Ou ainda: homem de caráter obsceno, licencioso, difamador, libelista e devasso, que teria lido com sofreguidão alguns dos escritores libertinos franceses dos séculos XVII e XVIII, como Donatien Alphonse François de Sade, o marquês de Sade (1740-1814), e até o italiano Aretino (1492-1556), “pena corrosiva e temida tanto pelo clero como pela nobreza”.

Em oposição a esta caricatura, quem conhece a sua obra sabe que a imagem mais adequada à realidade – aquela que deveria ter ficado para a posteridade – é a do poeta genial, conhecedor profundo da literatura francesa, predominante em seu tempo, tradutor rigoroso do latim e do francês, homem de paradigma cívico,  muito superior àquela que ficou, a de “cidadão que marcou múltiplas gerações de portugueses, influenciadas pela sua irreverência, frontalidade, demanda de liberdade, humor corrosivo e pela assunção inequívoca do corpo”, como observa o estudioso.

Para tanto, Pires fez, mais uma vez, aquilo em que se tem mostrado um mestre incomparável nas letras lusas de nossa geração: vasculhou arquivos e tratou de mostrar que essa imagem fescenina, em grande parte, nasceu de um comportamento nada ético de editores que, em busca do dinheiro fácil, trataram de atribuir à pena de Bocage, praticamente, toda a poesia erótica e pornográfica que surgira à época. Esses novos documentos colhidos nos arquivos confirmam essa trapaça da história e devolvem ao poeta a verdadeira dimensão de sua obra.

                                               II
Em busca das fontes consultadas por Bocage, Pires leu no Arquivo Nacional da Torre do Tombo o processo inquisitorial de Bocage, que inclui a devassa feita à casa de André da Ponte Quental, onde o poeta residia quando foi detido pelos esbirros do intendente de Polícia, Pina Manique, em 1797. Nessa devassa, está a relação dos títulos dos livros apreendidos, que inclui obras como Thérèse Philosophe, de Jean-Baptiste de Boyer d´Argens, o marquês d´Argens (1704-1771), considerada “imoral” e apreendida 12 vezes entre 1771 e 1789 pelas autoridades portuguesas. Depois, o pesquisador deslocou-se até a Biblioteca Nacional Francesa, em busca de outros livros inventariados pela polícia e que não são encontrados nos arquivos portugueses.

O pesquisador lembra que, no ano seguinte ao da morte de Bocage, aproveitando-se da comoção que o seu desaparecimento causara, saíram duas edições de Rimas e, em 1812-1813, à época em que a família real estava no Rio de Janeiro e a censura estava mais branda, a edição em dois volumes de Obras Poéticas de Manuel Maria de Bocage, feita pelo impressor Desidério Marques Leão sem qualquer cuidado, apenas com fins claramente pecuniários.

                                               III
Na introdução, Pires diz que o poema erótico Cartas de Olinda e Alzira saiu, sem dúvida, da pena de Bocage, mas dúvidas persistem até hoje. Pires diz ainda que as afinidades de Cartas de Olinda e Alzira com Pavorosa Ilusão da Eternidade colocam por terra a tese de que o texto não seria da lavra de Bocage. Mas é claro que afinidades não provam nada, pois continua a ser, no mínimo, estranho que alguém tenha dado, em 1825, Cartas de Olinda e Alzira como traduzidas de Voltaire por Bocage, como se vê no códice 10576, pág.81, da secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa.

O que intriga ainda mais é que Cartas de Olinda e Alzira não tenham nenhuma referência a personalidades e geografia portuguesas, enquanto na Pavorosa o autor pelo menos introduz a si mesmo no poema quando cita seu nome arcádico (Elmano). Poder-se-ia argumentar que a situação de clandestinidade a que estava sujeito obrigaria o autor à prudência de não se revelar nos textos, mas essa argumentação teria de ser válida também para a Pavorosa, que correu de mão de mão tanto quanto Cartas de Olinda e Alzira.

Além disso, sabe-se que Bocage traduziu outros textos de Voltaire e de vários autores franceses, como La Fontaine (1621-1695), Lesage (1668-1747), Evarist de Parny (1753-1814), Racine (1639-1699), Rousseau (1712-1778), Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814), Anne-Marie Fiquet du Bocage, madame du Bocage (1710-1802), François-Thomas-Marie de Baculard d'Arnaud, monsieur d´Arnaud (1718-1805), e outros. E que Voltaire foi uma das influências que mais marcaram as culturas que orbitavam em torno da cultura francesa. De uma coletânea apreendida pelos esbirros de Pina Manique, constavam composições de Voltaire, ao lado de outras de autores diversos e anônimas.

Só que o suposto original de Voltaire de Cartas de Olinda e Alzira nunca apareceu. E não tem sido por falta de pesquisas. Florence Jacqueline Nys, autora de As Fontes Francesas de Cartas de Olinda e Alzira de Bocage (Braga, Centro de Estudos Humanísticos, Universidade do Minho, 2005), fez exaustivas pesquisas não só em arquivos portugueses como em bibliotecas de França. Igualmente o professor francês Jean-Michel Massa (1930-2012), estudioso da obra de Machado de Assis (1839-1908), a pedido deste articulista, deslocou-se várias vezes a arquivos franceses em busca de alguma pista que levasse à conclusão sobre a possível autoria voltairiana daquele poema. Todos os esforços foram infrutíferos.

                                             IV
Em sua introdução, Pires reconhece que a estrutura de Cartas de Olinda e Alzira é idêntica aos Ragionamenti, de Aretino, que “constituíram uma fonte úbere para os libertinos dos séculos XVII e XVIII”, inclusive Voltaire. E que Thérèse Philosophe, do marquês d´Argens, seria uma das obras que mais marcaram a lira de Bocage. De fato, na epístola VII de Cartas de Olinda e Alzira, há uma referência a uma Teresa francesa: “(...) Como é vil a expressão, e é vil o gozo/ Que uma Teresa, que outras tais francesas/ Em impuros bordéis gabar se ufanam!”. A diferença é que Thérèse Philosophe é um monólogo e Cartas de Olinda e Alzira um diálogo entre duas protagonistas.

Para Pires, a influência mais determinante em Bocage seria, isso sim, a do poeta romano Ovídio (43a.C.-18d.C) em quem o poeta “se revia na sua poesia e no seu percurso de vida”. Afinal, “ambos foram marginalizados pelo poder, sentiram o peso indelével do ostracismo, apesar do seu inequívoco talento, e lapidaram versos que a posteridade registou”.

Mas não se pode esquecer que Florence Jacqueline Nys detectou outra influência marcante em Cartas de Olinda e Alzira, a de L´Académie des Dames, de Nicolas Chorier (1612-1692), onde já havia um célebre par da literatura pornográfica: Octavie e Tullia. Segundo a estudiosa, o tema e a estrutura desse poema “estão muito mais próximos do texto de Bocage”. A investigadora contestou ainda que as Heroides, de Ovidio, possam ter inspirado Bocage, já que naqueles versos do poeta latino aparecem mulheres apaixonadas que escrevem aos seus maridos e amantes, dos quais se encontravam separadas, enquanto Olinda e Alzira têm contatos com seus parceiros.

Seja como for, a verdade é que esta nova edição de Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas torna-se, desde já, fundamental para quem quiser se aprofundar na obra e na vida de Bocage. Até porque biografia definitiva não passa de um termo inventado por editores astutos para atrair leitores, ainda que se trate de obra exaustivamente pesquisada, pois os arquivos sempre guardam segredos que demoram, às vezes, séculos para serem desvendados.

                                               V
Daniel Pires (1951), doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, é mais conhecido por suas pesquisas sobre Bocage, sua paixão literária, o que o levou a fundar o Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, em 1999, além de defender tese de doutoramento sobre a obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra Completa de Bocage, publicada por Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007.

Licenciado em Filologia Germânica, já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Sua paixão pela pesquisa e seu gosto pelo conhecimento já o levaram a trabalhar em São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, China, Goa e Escócia. Em Macau viveu por três anos, entre 1987 e 1990, onde atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.

É autor de importantes trabalhos de divulgação da obra de Bocage, como o livro Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000), Bocage: a Imagem e o Verbo (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015) e a organização e publicação da brochura da Exposição Biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos postais (sépia) sobre Bocage na Prisão (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999).

É autor de Padre Malagrida: o Último Condenado ao Fogo da Inquisição (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2012), O Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2013) e de ensaios sobre Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes e Raul Proença.

Publicou ainda o Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa no Século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes, e o Dicionário Cronológico da Imprensa Macaense do Século XIX,  em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio, saíram simultaneamente em Macau e em Cantão.

Colaborou no Dicionário de História de Portugal, Dicionário da República, Dictionary of Literature of the Iberian Peninsula, Cambridge Guide to World Theatre, Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Dicionário do 25 de Abril e no Dicionário de Fernando Pessoa, além de fazer parte das comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015. Adelto Gonçalves - Brasil


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Obras completas de Bocage: Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas, de Daniel Pires (organização e notas). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda Editora, 280 páginas, 20 euros, 2017. E-mail: editorial.apoiocliente@incm.pt Site: www.incm.pt
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br