Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 6 de abril de 2025

Canadá - Bairro português em Montreal mantém-se, mas com dificuldades

O bairro português de Montreal continua a preservar marcas da presença lusa na cidade canadiana, mas enfrenta desafios como a dispersão comunitária, envelhecimento populacional e falta de apoio institucional, alertam figuras históricas da comunidade portuguesa no Quebeque



Natural do concelho de Arcos de Valdevez, Joaquina Pires, que chegou de Portugal em 1966 com apenas 10 anos, considera que “a presença portuguesa no bairro continua, mas de forma cada vez mais invisível no dia a dia”.

Autora do livro “Empreintes Portugaises” (Marcas Portuguesas), publicado aquando dos 70 anos da imigração portuguesa para o Canadá, Joaquina Pires defende que todos os membros da comunidade “fazem parte da história” e lamenta que muitos episódios marcantes, como o movimento de alfabetização dos anos 1970, estejam ausentes da memória coletiva: “Há histórias que não estão documentadas, mas tiveram um enorme impacto social.”

A primeira vaga de imigração portuguesa para Montreal chegou em 1953. Muitos fixaram-se no Plateau-Mont-Royal, onde criaram negócios e deram vida ao bairro hoje conhecido como “Pequeno Portugal”.

O restaurante “Castanheira do Ribatejo”, atual “Jano”, fundado em 1970 por um dos pioneiros da comunidade, é um exemplo de resiliência e é atualmente gerido pela família.

“O bairro vive um ciclo de transições geracionais. A comunidade envelheceu, muitos foram viver para os subúrbios, mas há jovens que estão a regressar às raízes”, explicou Maria do Céu Castanheira, filha do fundador.

Na perspetiva da empresária, verifica-se cada vez mais um envolvimento de lusodescendentes em iniciativas culturais, como o festival português ou projetos artísticos.

“São a nossa esperança”, afirmou, sublinhando que os seus estabelecimentos “mantêm-se ativos e adaptados aos novos tempos”.

No espaço público, a herança lusa continua visível no ‘Parc du Portugal’, inaugurado em 1975, e nos murais dedicados à fadista Amália Rodrigues, ao “Hino à Emigração Portuguesa em azulejos” (2017) e ao diplomata Aristides de Sousa Mendes, este último inaugurado em 2022.

Outro projeto emblemático são os Bancos Literários: 12 bancos de pedra instalados no Boulevard Saint-Laurent, com citações que vão desde D. Dinis até José Saramago.

“É um projeto participativo que envolveu escolas, artistas e cidadãos, mas que pouca gente conhece. Está muito pouco divulgado”, lamenta Joaquina Pires.

Para Carlos Moleirinho, empresário da restauração e proprietário do Café Central, o bairro continua a ser um ponto de encontro essencial para a comunidade.

O luso-canadiano, natural do concelho de Marinha Grande, está no setor desde os 24 anos e há 14 que gere este restaurante, café e bar com 52 anos de história, localizado no coração do bairro português.

“É mais do que um negócio, é um espaço de convivência. Aqui cruzam-se gerações, histórias, memórias”, afirmou à Lusa.

O empresário reconhece as mudanças na comunidade, mas acredita que há caminho para renovar a ligação às raízes: “Hoje a comunidade está espalhada por toda a região de Montreal. Mas continuam a vir aqui, porque sentem que este espaço ainda é deles”.

Maria do Céu Castanheira sublinha que “falta um espaço central” onde seja possível reunir as diferentes associações e iniciativas culturais.

Em vez de fragmentação, defende maior coesão: “Hoje cada um puxa para o seu lado. Precisamos de união e de não nos deixarmos levar por expressões de bairrismo.”

A restauração continua a desempenhar um papel essencial na promoção da cultura portuguesa.

“A comida é o primeiro contacto com a nossa cultura. Temos casas como o Cocorico, a Casa Minhota, o Douro, o Portus 360, o Jano e muitos outros. Enquanto houver pratos típicos, há Portugal no prato e na alma”, afirmou Céu Castanheira.

Apesar das dificuldades, como a pressão fiscal, os desafios da era digital e a mudança dos hábitos de consumo, há vontade de inovar.

“Estamos a lançar um novo projeto que une gastronomia e arte. Queremos continuar a contar a nossa história de forma criativa”, anunciou.

A sobrevivência do “Pequeno Portugal” dependerá da capacidade de reinventar a presença lusa em Montreal e de envolver as novas gerações.

Como defende Carlos Moleirinho, “a tradição mantém-se viva enquanto houver vontade de a partilhar, uma chama que ainda não se apagou”.

O bairro português em Montreal está localizado na freguesia urbana de Le Plateau-Mont-Royal, na Boulevard Saint-Laurent, entre a rua Mont-Royal e a avenida Des Pins.

De acordo com o recenseamento canadiano de 2021, viviam no Canadá 448.310 pessoas que se identificavam com ascendência portuguesa, das quais 46.535 residiam na região metropolitana de Montreal, no Quebeque. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Malaca - Lusodescendentes criticam proposta de mudar nome de colina com legado português



Lusodescendentes em Malaca, antiga colônia portuguesa na Malásia, criticaram a possível alteração do nome de uma colina que alberga ruínas de uma muralha e igreja construídas pelos portugueses e ainda a estátua de São Francisco Xavier.

“As autoridades devem pensar seriamente sobre a ideia de se alterar o nome da Colina de São Paulo para Bukit Melaka”, disse à Lusa o representante da minoria luso-malaia perante o estado de Malaca, Joseph Santa Maria.

Joseph Santa Maria foi um dos lusodescendentes, a maioria a residir no bairro português em Malaca, onde vivem cerca de mil a dois mil descendentes de portugueses em mais de 110 casas, que se juntaram nas redes sociais para criticar as pretensões do diretor geral da Corporação dos Museus de Malaca.

“Gosto do que temos hoje, da diversidade na cultura. Unidade na diversidade”, afirmou à Lusa o ex-conselheiro da cidade Ronald Gan.

Os dois lembram que Malaca foi em 2007 considerada Patrimônio Mundial da UNESCO precisamente devido à sua história e singularidade.

Em resposta à Lusa, o diretor geral da Corporação dos Museus de Malaca, Mohd Nasruddin bin Rahman, confirmou que a mudança deverá avançar: “Estamos em vias de obter a permissão do Estado para alterar o nome”.

O responsável pelos museus de Malaca justificou esta pretensão com o facto de, segundo o próprio, Bukit Melaka ser o nome da colina antes da época colonial, “desde a era do Sultanato de Melaka”, por volta do século XIV, dissolvido em 1511 quando Afonso de Albuquerque, o 2.º Governador da Índia Portuguesa, desembarcou ali, demoliu a Grande Mesquita e levantou no local uma fortaleza.

A relação de Portugal com Malaca remonta a 1509, quando Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou àquela localidade malaia para estabelecer relações com o soberano local.

Após a chegada dos portugueses a Malaca, a colina foi batizada Nossa Senhora do Oiteiro e no cimo foi construída uma igreja com o mesmo nome, pelo capitão e fidalgo português Duarte Coelho, em agradecimento à Virgem Maria por lhe ter salvo a vida durante uma tempestade no mar.

Em 1590, uma torre de campanários foi acrescentada à frente da igreja, rebatizada Igreja de Madre de Deus.

“Nessa colina histórica está também o túmulo de São Francisco Xavier, que foi enterrado na colina e mais tarde exumado e enviado para Goa, na Índia”, recordou Joseph Santa Maria, sublinhando que o missionário católico visitou Malaca seis vezes e pregou várias vezes na colina.

Uma estátua em mármore de São Francisco Xavier, construída em 1953, encontra-se no cimo da colina, e foi erguida em homenagem ao missionário mais conhecido da Malásia. Contam as lendas que quando o português ia ser canonizado em 1614, o Vaticano exigiu o braço direito, o mesmo braço que São Francisco Xavier utilizava para abençoar os convertidos.

A estátua, sem o braço direito, encontra-se ainda hoje no topo da colina, assim como ruínas de arquitetura portuguesa, holandesa e inglesa.

Depois de cerca de 100 anos de domínio português, a cidade foi tomada pelos holandeses, em 1641. O complexo ficou parcialmente destruído, tendo sido mais tarde reparado e renomeado Igreja de São Paulo, designação que permanece até aos dias de hoje, assim como a colina, com igual denominação mesmo durante a administração inglesa, até 1957, data da independência da Malásia.

De acordo com vários historiadores, defendeu Joseph Santa Maria, a Colina de São Paulo era referida como “Monte dos Animais ou Monte Delimaria”.

“O diretor do Museu de Malaca deve fazer mais investigação e justificar as suas afirmações de que a Colina de São Paulo era originalmente conhecida como Bukit Melaka, sem se tornar [em motivo] de riso para historiadores e para o mundo, incluindo a UNESCO”, afirmou o luso-malaio.

“Espero que tenhamos historiadores qualificados para realizar o estudo necessário”, acrescentou.

Nas declarações à Lusa, o diretor geral da Corporação dos Museus de Malaca assegurou que o que está em causa não é apagar a História de Malaca, mas sim repor a designação original.

“O seu local histórico será preservado como habitualmente pela agência responsável”, prometeu. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Malaca - No Bairro português celebram-se os santos populares




O São João foi ontem celebrado no bairro português em Malaca, Malásia. E para a semana está prometida a festa do São Pedro, apesar de este ano as celebrações serem mais restritas devido à Covid-19.

“Apesar da atual pandemia mundial”, frisou à Lusa Joseph Santa Maria, os lusodescendentes do bairro português em Malaca “vão fazer as suas celebrações tradições do San Juang (São João) e do San Pedro (São Pedro)”, tradição que “remonta há vários séculos, introduzida pelos portugueses”.

Os cerca de mil a dois mil lusodescendentes em mais de 110 casas vão acender velas “na frente das casas hoje à noite”, garantiu o representante da minoria luso-malaia perante o estado de Malaca.

Além disso, sublinhou Joseph Santa Maria, “as tradições também incluem crianças vestidas com roupas verdes”, uma cor que representa a “pureza das crianças”.

Já na próxima semana, em 29 de junho, é assinalado o São Pedro.

“Estamos a planear algo também com o apoio do Governo para permitir que as restrições da Covid-19 sejam agora um pouco mais flexíveis. Esperamos ter um programa de uma hora, em particular a bênção dos barcos de pesca, que é feita todos os anos”, afirmou.

No ano passado, o então secretário de Estado das Comunidades Portugueses, José Luís Carneiro, participou na procissão e bênção dos barcos de pesca, dois eventos que juntam centenas de luso-malaios no Bairro Português da cidade, após ter marcado presença na 2ª Conferência das Comunidades Portuguesas na Ásia.

Em 2019, o encontro juntou no Bairro Português de Malaca representantes das comunidades asiáticas descendentes de portugueses, numa iniciativa de partilha das raízes culturais, com cerca de 300 luso-asiáticos, de várias comunidades do continente.

A relação de Portugal com Malaca remonta a 1509 quando Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou em Malaca para estabelecer relações com o soberano local e dois anos mais tarde Afonso de Albuquerque desembarcou em Malaca, demoliu a Grande Mesquita, e levantou no local uma fortaleza que seria um importante entreposto comercial.

Na mesma altura surge o crioulo de matriz portuguesa kristang, uma língua agora ameaçada de extinção, que emprega a maior parte do seu vocabulário do português, mas a sua estrutura gramatical é semelhante ao malaio e extrai as suas influências dos dialetos chinês e indiano.

Depois de 100 anos de domínio português, a cidade foi tomada pelos holandeses, depois pelos ingleses, até à independência da Malásia, em 1957. In “Mundo Português” - Portugal

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Malaca - Lusodescendentes querem manter tradição do bairro português

Líderes da comunidade luso-malaia afirmaram que espaços de restauração no bairro português em Malaca estão a ser indevidamente arrendados a pessoas que não pertencem à comunidade lusodescendente.

Pelo menos quatro restaurantes, num total de 10, foram subarrendados por pessoas externas à comunidade do Bairro Português em Malaca, onde se estima viverem ainda entre mil a dois mil lusodescendentes em cerca de 180 casas, denunciou o regedor cultural do Bairro português em Malaca, Martin Theseira.

Também Joseph Santa Maria, um dos representantes da minoria luso-malaia perante o estado de Malaca, confirmou à Lusa a existência destes casos, que estão a gerar revolta dentro da comunidade do bairro.

O Governo local determina o arrendamento destes espaços exclusivamente à comunidade lusodescendente, explicou Joseph Santa Maria.

“O Governo não pode permitir esta transferência a pessoas de fora da comunidade”, frisou o regedor cultural do Bairro português em Malaca, cidade onde em 1509 Diogo Lopes Sequeira, enviado do rei D. Manuel, aportou para estabelecer relações e dois anos mais tarde Afonso de Albuquerque desembarcou, demolindo a Grande Mesquita e levantando no local uma fortaleza que seria um importante entreposto comercial, durante cerca de 100 anos, até à tomada da cidade pelos holandeses.

As denúncias já chegaram ao ‘mayor’ de Malaca, Mansor Sudin, que assegurou, em declarações ao jornal The Malaysian Insight, que vai investigar o caso.

“Se estas denúncias forem verdadeiras, o Conselho Histórico da Cidade de Malaca vai encerrar os contratos com os inquilinos”, prometeu o autarca.

Os dois lusodescendentes mostraram-se satisfeitos com a tomada de posição do ‘mayor’ de Malaca.

“Protegendo o interesse da comunidade, o Governo tomará uma ação se alguém vender ou alugar o espaço a um empresário que não seja português de Malaca. É uma notícia positiva para a comunidade”, congratulou Joseph Santa Maria.

Este caso só acontece porque membros da comunidade decidiram trespassar os restaurantes a pessoas que não pertencem ao bairro. Quanto a isso, o regedor cultural mostrou-se compreensivo e solidário para com estes membros da comunidade. “Não tinham dinheiro e decidiram fazer isto”, afirmou.

Para além da ilegalidade destes casos, a perda da autenticidade gastronómica nestes restaurantes é vista também como um problema sério que a comunidade não pode virar as costas.

“Quem não é da comunidade não cozinha como nós e por isso a autenticidade gastronómica vai-se perder”, afirmou.

Para além da gastronomia, a comunidade do bairro português em Malaca mantém ainda vivas muitas tradições e costumes portugueses, como o crioulo de matriz portuguesa kristang, uma língua agora ameaçada de extinção, que emprega a maior parte do seu vocabulário do português, mas a sua estrutura gramatical é semelhante ao malaio e extrai as suas influências dos dialetos chinês e indiano.

Outro dos laços que esta comunidade ainda mantém com a antiga metrópole são as tradições católicas, que fazem parte da identidade cultural desta população como por exemplo o Natal e as festas de São Pedro. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Malaca - Guardião da herança portuguesa desapontado com falta de apoio

O responsável do museu do Bairro Português em Malaca, Malásia, está desapontado com Portugal por não ajudar na remodelação do espaço, visivelmente degradado, que conta uma história do legado português com mais de 500 anos



Em entrevista à Lusa no museu situado no coração do Bairro Português em Malaca onde se estima viverem ainda mil a dois mil luso-descendentes em cerca de 180 casas, Jerry Alcantra afirma estar desapontado com os portugueses que “dizem querer ajudar”, sem que esta chegue. “Não quero ofender ninguém, só digo o que deve ser dito”, sublinha o lusodescendente.

Carpetes velhas, molduras partidas e danificadas, quadros rasgados, pratos do séc XVI partidos, entre algumas outras relíquias em relativo bom estado, é o cenário que se vê ao entrar neste espaço, no qual se procura preservar uma história que remonta a 1509 quando Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou em Malaca para estabelecer relações e dois anos mais tarde Afonso de Albuquerque desembarcou, demoliu a Grande Mesquita, e levantou no local uma fortaleza que seria um importante entreposto comercial.

“Um museu precisa de ter boas molduras, boas luzes (…) isto assim não pode ser considerado um museu”, diz, visivelmente triste e revoltado, Jerry Alcantra, que toma conta do museu há sete anos.

O lusodescendente explica que antigamente o museu era em parte subsidiado pelo estado de Malaca, mas que “agora eles não têm dinheiro” e por isso toma conta do local de forma gratuita, pedindo apenas a quem entra algum donativo.

Para Jerry Alcantra, o facto de as autoridades malaias não ajudarem resulta de os luso-descendentes serem praticamente todos católicos romanos, num país onde o islamismo é a religião oficial, praticado por mais de 50 por cento da população malaia (31 milhões de habitantes). O budismo (17 por cento) e o taoismo (12 por cento) estão à frente do catolicismo, que é praticado por cerca de 8 por cento da população do país. “O Governo [da Malásia] não nos ajuda porque nós não somos malaios, isto é um país muçulmano, eles não nos vão ajudar, nós somos católicos romanos”, afirma.

Este cenário, juntamente com o facto de os portugueses os “terem deixado para trás”, põe em risco a própria manutenção deste legado. “Os portugueses deixaram-nos para trás”, acusa, garantindo que, apesar de tudo, aqui neste pequeno recanto de Malaca o bailado, a música, o português ‘antigo’, o Natal e as festas de São Pedro são rituais respeitados e praticados religiosamente por esta população.

“A cultura é o que nos resta para nós termos a noção que somos portugueses, mais nada. Nós não parecemos portugueses, nós somos a quinta geração”, diz, sublinhando que o cruzamento de culturas tem sido feito ao longo de 500 anos, até através do casamento.

“Se eu falar devagarinho vocês [os portugueses de Portugal] entendem”, dando depois alguns exemplos como “comer, beber, branco, janela”, em crioulo de matriz portuguesa kristang, uma língua agora ameaçada de extinção, que emprega a maior parte do seu vocabulário do português, mas a sua estrutura gramatical é semelhante ao malaio e extrai as suas influências dos dialectos chinês e indiano.

“O meu pai é português e a minha mãe é chinesa, o que é que isso faz de mim? Como é que querem que eu me pareça convosco?”, aponta. Miguel Mâncio – Portugal in “Hoje Macau” com “Agência Lusa”

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Malaca - Lusodescendentes de Malaca falam inglês com os filhos



Joseph de Costa, morador no Bairro Português em Malaca, disse à Lusa que desde pequeno falava o dialeto português em casa e com amigos, mas admite que agora fala com os filhos e netos em inglês.

“Nós falamos o típico dialeto português”, disse à Lusa o ex-pescador de 72 anos, admitindo que quando falava com os amigos dizia as palavras de forma diferente do que com os mais velhos.

“Os mais velhos dizem ‘igual’ e nós dizemos ‘sama sama’, já é uma mistura com a língua nacional”, contou, sentado num banco em frente ao mar onde em 1509 Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou em Malaca para estabelecer relações com o soberano local. Dois anos mais tarde, Afonso de Albuquerque desembarcou em Malaca, demoliu a Grande Mesquita, e levantou no local uma fortaleza que seria um importante entreposto comercial.

Na mesma altura, surge o crioulo de matriz portuguesa kristang, uma língua agora ameaçada de extinção, que emprega a maior parte do seu vocabulário do português, mas a sua estrutura gramatical é semelhante ao malaio e extrai as suas influências dos dialetos chinês e indiano.

“Por isso é que às vezes é difícil perceber quando os mais velhos falam a verdadeira língua portuguesa”, explicou, acrescentando que agora já nem o dialeto misturado é falado em sua casa quando está com os seis filhos e netos.

“O inglês hoje em dia é muito importante quando se vai à escola, porque temos de lidar com os estrangeiros, por isso temos de falar bem inglês, caso contrário é muito difícil arranjar trabalho”, justificou Joseph de Costa.

Outra das diferenças que nota, comparando com a altura em que ia à escola, é a relação que os mais novos têm com as diferentes religiões: “eu tinha amigos muçulmanos, eles costumavam ir à nossa casa, nós costumávamos ir à deles”.

“Mas agora há algumas pessoas fanáticas que dizem que não podemos ir a casa de pessoas das outras religiões, beber do mesmo copo deles”, afirmou.

Quando vai buscar a sua neta à escola, Joseph de Costa tem notado que tem visto “as crianças muçulmanas todas num grupo, os chineses noutro grupo, os indianos também, à espera que os pais cheguem”.

“O que eles deviam fazer era estarem todos misturados”, defendeu.

O islamismo é a religião oficial na Malásia e é praticado por mais de 50% da população malaia (31 milhões de habitantes). O budismo (17%) e o taoismo (12%) estão à frente do catolicismo, que é praticado por cerca de 8% da população do país.

No bairro português, as tradições católicas fazem parte da identidade cultural desta população como por exemplo o Natal e as festas de São Pedro. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Malaca - Saudades levam especialista português ao Bairro Português

As saudades levaram o especialista em crioulo Sílvio Moreira de Sousa de regresso ao Bairro Português de Malaca, não para ensinar o dialeto, mas para ajudar na cozinha do restaurante da família De Mello nas festas de São Pedro



«Eu vivi aqui, tenho não um pé, mas talvez dois dedos do pé na comunidade (...) acabo por me sentir um pouco parte da comunidade e pertença a este local», disse à agência Lusa o professor de português na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST), de 39 anos, na cidade conquistada pelos portugueses em 1511, na época no coração de um lucrativo comércio de especiarias.

Em 2016 foi convidado para ser bolseiro Fernão Mendes Pinto, um projeto de parceria entre a associação Coração de Malaca e o instituto Camões, e coube-lhe a missão de ensinar português, o crioulo existente em Malaca e ainda de escrever um dicionário trilingue em português, inglês e no crioulo local, intitulado de "Bos podi papiah ku yo?"

«O que eu estive a fazer cá foi ensinar o português europeu, mas tendo muito cuidado de ensinar ao mesmo tempo a língua local», explicou Sílvio Moreira de Sousa, admitindo uma certa ironia por ser um português a ensinar este crioulo aos moradores do Bairro Português em Malaca.

Agora, pelo segundo ano consecutivo, Sílvio Moreira de Sousa faz a viagem desde o antigo território administrado por Portugal, Macau, até à cidade que Diogo Lopes Sequeira, enviado do Rei D. Manuel, aportou para estabelecer relações e dois anos mais tarde Afonso de Albuquerque desembarcou, deixando um legado cultural, patrimonial, linguístico e religioso que dura até aos dias de hoje.

«Já é o segundo ano consecutivo, o que é engraçado», afirmou o professor de português, referindo-se às festividades do São Pedro neste bairro, que todos os anos acolhe «a diáspora toda, não só de Kuala Lumpur, mas também de Singapura, Perth (Austrália) e algumas famílias até vêm de Londres».

No passado fim de semana, para além das habituais barraquinhas, da procissão e bênção dos barcos de pescas, o evento acolheu bandas de música e bailado provenientes de outras comunidades luso-asiáticas, como é o caso do grupo musical "Krontjog Toegoe' que vem de um bairro onde vive uma forte comunidade de descendentes de portugueses em Jacarta.

«Acaba por ser ouro sobre azul» vir às festividades, admitiu, porque por um lado «as amizades continuam a ser trabalhadas» e por outro permite continuar a «fazer pesquisa, andar a conversar com as pessoas e falar com as pessoas e simplesmente ouvir como elas dizem [as palavras], os pequenos pormenores da língua que lendo um livro, ou tendo só a comunicação esporádica com a população, não é possível».

O facto de ser convidado há dois anos seguidos acontece por ter sido «extremamente bem recebido e por ter criado laços de amizade. Vim para cá de braços abertos e cabeça limpa» e isso ajuda, admitiu. In “Revista Port. Com” - Portugal

terça-feira, 2 de julho de 2019

Malaca - Portugal tenciona abrir consulado honorário




O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas anunciou à Lusa que o Governo português pretende abrir um consulado honorário em Malaca, onde existe um legado patrimonial e imaterial desde a chegada de Afonso de Albuquerque, em 1511. “O senhor embaixador está a elaborar uma proposta que irá submeter ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (…) para criarmos aqui, em Malaca, um consulado honorário, disse à Lusa José Luís Carneiro, à margem da 2.ª Conferência das Comunidades Portuguesas na Ásia. O encontro juntou no Bairro Português de Malaca representantes das comunidades asiáticas descendentes de portugueses, numa iniciativa de partilha das raízes culturais, com cerca de 300 luso-asiáticos, de várias comunidades do continente. “Depois de ser apreciado pelas autoridades portugueses [pretensão de abrir consulado honorário em Malaca] irá ser submetido às autoridades malaias”, explicou o responsável português, que esteve reunido na sexta-feira com o secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Malásia, Muhammad Shahrul Ikram Yaakob, em Kuala Lumpur. “Tratar-se-á de um consulado honorário e naturalmente para que possa ser criado é necessário que haja condições físicas, materiais, para que possa funcionar como um consulado honorário”, revelou José Luís Carneiro, não apontando, contudo, uma possível data de abertura.

Acompanhado pelos artistas das comunidades de herança portuguesa da Indonésia, Malásia, Tailândia e Sri Lanka, que actuaram durante a conferência, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas assumiu o compromisso de ajudar estas comunidades através de apoio financeiro para actividades culturais e de preservação do legado deixado pelos portugueses, durante a época dos descobrimentos. José Luís Carneiro lembrou ainda o trabalho feito por dois portugueses em Malaca que querem identificar todo o património imaterial deixado por Portugal, desde o século XVI na cidade costeira da Malásia, onde ainda vive uma forte comunidade que diz ser portuguesa, e disse que o Governo os vai ajudar na candidatura à UNESCO, para que esta organização reconheça este património único. In “Ponto Final” - Macau


segunda-feira, 1 de julho de 2019

Malaca – Bairro português pode desaparecer



O presidente da AMI Portugal, Fernando Nobre, alertou no passado sábado que o Bairro português em Malaca, cidade costeira da Malásia onde ainda vive uma forte comunidade que se assume portuguesa, “pode já não existir” em 25 ou 30 anos.

“Eles mantiveram-se unidos enquanto permaneceram fechados isso durou cerca de três séculos e meio, mas atualmente com a revolução cultural, o mundo está a voltar a uma sociedade nómada e as “novas gerações vão procurar novos destinos onde eles se poderão melhor desenvolver”, afirmou Fernando Nobre, em Malaca.

Em entrevista à Lusa à margem da 2.ª Conferência das Comunidades Portuguesas na Ásia, que juntou no Bairro Português de Malaca representantes das comunidades asiáticas descendentes de portugueses, numa iniciativa de partilha das raízes culturais, com cerca de 300 luso-asiáticos, de várias comunidades do continente, Fernando Nobre disse que não é só a comunidade luso-malaia que “pode já não existir” em 25 ou 30 anos.

Todas as comunidades de descendentes de portugueses um pouco por toda a Ásia “estão em perigo de implosão, de dissolução”, frisou.

Defende que cabe ao Governo perceber a importância destas comunidades para a afirmação de Portugal como nação. Acrescenta instituições “como a AMI e outras” que possam vir e dar carinho e apoio financeiro para que sejam desenvolvidos projetos, é o caminho apontando por Fernando Nobre para que os luso-asiáticos continuem a praticar a sua cultura, língua e rituais, que herdaram dos portugueses durante a época dos descobrimentos.

“Eles sobreviveram 350 anos sozinhos, no espaço de duas gerações podem desaparecer. Desintegração total”, disse.

A 2.ª Conferência das Comunidades Portuguesas na Ásia decorreu hoje em Malaca, com vários alertas dos participantes sobre o risco de extinção que enfrentam comunidades herdeiras do período colonial português no século XVI, mas também com mostras musicais e de dança de algumas destas comunidades. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”