Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Algoritmo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Algoritmo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Brasil - Algoritmo da Universidade de São Paulo consegue prever surtos de dengue, zika e chikungunya com até três meses de antecedência

Um algoritmo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) consegue prever surtos de dengue, zika e chikungunya com até três meses de antecedência. O estudo em que detalham a criação do modelo de aprendizado de máquina (machine learning) recebeu o prémio de melhor artigo no Workshop Internacional AI4Health, evento sobre aplicação de inteligência artificial em temas de saúde realizado na Itália

Para criar a novidade, os cientistas utilizaram dados disponíveis da cidade do Rio de Janeiro. O algoritmo baseia-se em informações como número de casos em determinado bairro e nas regiões vizinhas, dados ambientais de temperatura e precipitação, demografia da área, entre outros, para estimar a proximidade de um próximo surto provocado pelas arboviroses.

O modelo foi desenvolvido baseado na capital fluminense, mas os pesquisadores pretendem adaptar para outros municípios do país. O algoritmo pode tornar-se uma importante arma na luta contra as doenças, que ainda provocam números altos de casos no Brasil. A dengue, por exemplo, foi responsável por mais óbitos nos primeiros seis meses de 2022 que o dobro do total registado em 2021.

Em comunicado, os criadores explicam que a ideia é que a inteligência artificial torne mais rápida a análise de dados e auxilie as autoridades de saúde a prepararem-se para novos surtos e tomarem medidas a tempo, otimizando recursos. Além dos pesquisadores da USP, colaboraram no estudo cientistas do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde (IEPS) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“O grande diferencial da inteligência artificial é, justamente, identificar comportamentos e padrões dos dados históricos, para dar visibilidade ao que é relevante para a análise e a elaboração de ações preventivas. Por exemplo: preocupar-se com ações que lidam com focos de dengue pode trazer mais benefícios do que construir um novo estabelecimento de saúde naquela região”, afirma Robson Aleixo, pesquisador principal do estudo, em comunicado.

A elaboração do algoritmo contou com uma análise de dados de 160 bairros do Rio de Janeiro entre 2015 e 2020. Os responsáveis pela novidade explicam que já existiam outros modelos, especialmente em países tropicais que também enfrentam altas de arboviroses, como Indonésia e Tailândia, que utilizam informações de precipitação, temperatura e humidade do ar para prever casos das doenças. No entanto, os resultados eram precisos apenas com uma antecedência de um ou dois meses, e somente para a dengue.

Raphael Camargo, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) que orientou o projeto, explica que a ideia é que o algoritmo auxilie um trabalho que já é feito pelas prefeituras, de análise de dados para tentar encontrar padrões que indiquem a chegada de um novo surto. Agora, para que se torne de facto uma estratégia de saúde pública, o algoritmo precisa ser aprimorado e incorporado a um sistema que possibilite que usuários sem domínio de linguagens de programação consigam interpretá-lo e adotá-lo na prática cotidiana.

“Precisaríamos aprimorar o modelo com melhores características como, por exemplo, pensar como os sorotipos da dengue e outros indicadores da doença poderiam interferir, além de incorporar técnicas avançadas de séries temporais em conjunto com o modelo de árvores de decisão e incluir dados de novas regiões”, ressalta Camargo. In “Milénio Stadium” – Canadá com “Globo”

 


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Internacional - Projeto de investigação recorre à inteligência artificial para tentar combater a escassez de órgãos para transplante renal

Cerca de 50% dos rins provenientes de dadores falecidos são rejeitados para transplante porque os métodos atuais de classificação de biópsias renais, um meio essencial para o médico decidir se o órgão doado pode ou não ser utilizado, são subjetivos e propensos a erros de avaliação.

Para tentar ultrapassar este problema, uma equipa de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) e médicos do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), com a colaboração da Universidade de Buffalo, nos EUA, está a desenvolver um algoritmo inteligente que permita auxiliar os médicos especialistas na complexa tarefa de avaliar as biópsias renais de dadores falecidos no momento da colheita, o designado tempo-zero.

A biópsia fornece informação essencial para a avaliação da qualidade do órgão, se reúne ou não condições para ser implantado no recetor. Porém, os atuais métodos de classificação das biópsias renais são visuais, semiquantitativos e, por vezes, imprecisos, ou seja, «é um exame que resulta da observação humana e depende muito da experiência do especialista que interpreta os resultados, sendo difícil prever a evolução do órgão a longo prazo. É uma análise semiquantitativa porque está sujeita à forma como o clínico classifica uma imagem. O médico observa, avalia determinadas estruturas e toma uma decisão sobre a qualidade ou não do órgão. É um processo muito manual, laborioso e subjetivo, suscetível de gerar o desperdício de órgãos que poderiam ser utilizados», explica Luís Rodrigues, investigador principal do projeto, que foi recentemente distinguido pela Sociedade Portuguesa de Nefrologia.

«A melhor opção terapêutica para tratar doentes com insuficiência renal muito grave, dependentes de hemodiálise, é o transplante, mas debatemo-nos com a escassez de órgãos, um grande problema. Em Portugal a taxa de incidência de doença renal terminal tratada é uma das maiores da Europa, e a lista de espera para transplante aumenta todos os anos, sendo por isso urgente desenvolver ferramentas que permitam aumentar o número de órgãos disponíveis para transplante e otimizar a sua alocação, melhorando assim a sobrevida e qualidade de vida dos recetores dos órgãos», frisa o também médico do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC). 


A equipa do projeto não tem dúvidas de que a inteligência artificial (IA) pode ser uma grande aliada para evitar o desperdício de órgãos. Mas não só. Luís Rodrigues esclarece que o grande objetivo da investigação, que faz parte do seu doutoramento, orientado pelo professor Rui Alves, é desenvolver um algoritmo inteligente de análise de imagem que «além de aumentar a eficácia e precisão da caracterização morfológica dos rins doados, também melhore a alocação dos órgãos, com correspondência de longevidade entre dador e recetor».

«Os dados obtidos através da análise computacional podem fortalecer significativamente a nossa capacidade de prever os resultados do transplante e otimizar o uso e a alocação de órgãos. Quanto mais durarem os órgãos que nós implantamos, menor é a possibilidade de um segundo transplante e menor é a possibilidade de precisarmos de mais um dador», nota o investigador da FMUC.

Se o desenvolvimento de um novo meio de diagnóstico, baseado em inteligência artificial, que permita uma abordagem robusta e sistemática de análise de biópsias renais for bem-sucedido, Luís Rodrigues estima que «entre 10 e 25% dos órgãos que atualmente são rejeitados poderão ser aproveitados». No entanto, acautela, até conseguir um algoritmo robusto para ser aplicado na patologia renal, a equipa ainda tem muito trabalho pela frente. Neste momento, os investigadores estão a recolher informação junto de doentes renais envolvidos no projeto. Os dados obtidos na amostragem clínica serão aplicados na aprendizagem e no treino do algoritmo.

O projeto, com o título “Redes neurais convolucionais para avaliação de biópsias de dadores cadáver de rim em tempo-zero”, decorre na Unidade de Transplante Renal do CHUC, envolvendo a colaboração dos serviços de Nefrologia, de Urologia e Transplantação Renal e de Anatomia Patológica. Além de Luís Rodrigues e Rui Alves, a equipa portuguesa é constituída por Vitor Sousa, Rui Almeida, Ana Pimenta, Catarina Romãozinho, Lídia Santos, Edgar Silva e Arnaldo Figueiredo. Universidade de Coimbra- Portugal


domingo, 26 de julho de 2020

Estados Unidos da América - Algoritmos têm responsabilidade pela violência contra mulheres e pessoas negras, diz pesquisadora da Universidade da Califórnia

Safiya Noble estuda o racismo e o sexismo nos algoritmos do Google. Ela afirma que não existe imparcialidade nas ferramentas de busca e que as “Big Tech” devem reparações para as “muitas pessoas que foram prejudicadas por práticas de negócios que fomentam a desigualdade social e racial”



Já imaginou que qualquer pesquisa que faça no Google ou em outra ferramenta de busca na internet está mediada pelos mesmos preconceitos e vieses inconscientes que pautam as nossas relações sociais? Ao notar que a busca por Black girls (meninas negras) sempre resultava em imagens hipersexualizadas e até pornográficas de mulheres negras americanas, a americana Safiya Noble decidiu estudar o funcionamento dos algoritmos que estão por trás dessas ferramentas.

Seis anos de pesquisas resultaram no livro “Algorithms of Oppression” (Algoritmos da opressão, ainda sem tradução brasileira), lançado em 2018, em que examina como as ferramentas de busca, o Google em particular, reforçam o racismo e o sexismo das sociedades. Professora do Departamento de Estudos da Informação na Universidade da Califórnia, onde dirige o Centro para Investigação Crítica da Internet, ela afirma que a opressão e os preconceitos algorítmicos existem também nas redes sociais.

Safiya Noble participou do Festival Oi Futuro, evento online e gratuito, que foi transmitido em tempo real na passada semana no canal do Oi Futuro no Youtube, onde ficou disponível após o evento. Safiya esteve na mesa Ética e Humanidade na Inteligência Artificial, ao lado de Sérgio Branco.

Em entrevista à #Celina, ela conta que a decisão tomada por grandes empresas de não mais anunciar no Facebook porque a gigante da tecnologia não faz o suficiente para conter o discurso de ódio em suas plataformas é importante, mas alerta: “O modelo de negócios do Facebook, de muitas maneiras, depende da perpetuação da desinformação, da pouca informação e do discurso de ódio. É por isso que eles são tão relutantes em solucionar o problema.” Leia a entrevista completa a seguir:

CELINA: Como os algoritmos reproduzem ou até aumentam o racismo e o sexismo nas sociedades?

SAFIYA NOBLE: Em sentido amplo, um algoritmo é um conjunto de instruções para um computador. Isso abrange tecnologias que vão de ferramentas de busca a programas que controlam os mercados financeiro e industrial, passando por reconhecimento facial e biométrico e condução assistida. Em diversos setores, vemos cada vez mais confiança em decisões tomadas com base em algoritmos e inteligência artificial; seu impacto é enorme. Eu escrevi sobre a relação entre o modelo de negócios do Google e os estereótipos racistas e sexistas, mas também vemos como a opressão e os preconceitos algorítmicos existem fora dessa plataforma, por exemplo, nas mídias sociais.

Estamos testemunhando o desenvolvimento de decisões algorítimicas para lidar com a crise da Covid-19, o que inclui automatizar algumas das decisões de médicos e administradores hospitalares, sobretudo o uso de recursos. Esses algoritmos indubitavelmente envolvem fatores de classe e raça, já que racismo, sexismo e divisões de classe estão na estrutura da Medicina. Nunca temos a oportunidade de confrontar os processos de tomada de decisão a partir de uma cama de hospital, então agora precisamos pensar como as tecnologias aprofundam as desigualdades sociais. Precisamos de políticas de proteção e, em alguns casos, de deixar de usar certas tecnologias até compreendermos melhor os danos causados por elas.

Algoritmos afetam mais as mulheres negras?

Quero enfatizar que os algoritmos afetam as mulheres negras de maneiras que estão profundamente enraizadas na nossa História e na opressão profunda que encontramos desde cedo no comércio transatlântico de pessoas negras, na colonização e na escravização de africanos e na dolorosa e contínua privação dos direitos das mulheres negras. Quando comecei a minha pesquisa sobre o racismo nas ferramentas de busca, eu percebia nelas as mesmas ideias racistas que estão na estrutura da sociedade americana, mas que chegam diretamente a nós por esse tipo onipresente de tecnologia. Isso inclui respostas hipersexualizadas e pornográficas quando pesquisamos o termo “meninas negras”. O que é particularmente insidioso sobre o processo de busca é a persistente combinação de “negra”, “latina” e outras mulheres não-brancas com conteúdo hipersexualizado, o que perpetua essas ideias racistas como algo natural.

Existe imparcialidade ou neutralidade nas ferramentas de busca?

Não existe. As ideias de neutralidade e imparcialidade costumam ser usadas conceitualmente como uma maneira de protelar a responsabilidade de empresas, designers, técnicos, programadores e anunciantes, entre outros. É especialmente danoso quando as ferramentas de busca reivindicam neutralidade e parcialidade porque isso reforça sua imagem como confiáveis e de certa forma até mesmo como acima de qualquer julgamento. Mas sabemos que cada estágio do design e do desenvolvimento inclui interpretações, escolhas e valores. Esse ponto é crucial porque ele muda a nossa orientação sobre essas ferramentas; uma pesquisa é uma série ativa de decisões.

É possível aos usuários desviar dos preconceitos das ferramentas de busca? O que gigantes da mídia como o Google podem fazer para melhorar essas ferramentas? Fazem o suficiente?

Há muitas maneiras de pensar sobre isso. Quando os problemas são estruturais, as soluções também precisam ser. Isso começa com a compreensão de como funcionam os mecanismos por trás das buscas; desnaturalizar e contextualizar o processo de busca é um passo. Mas, para mudar, precisamos pensar de maneira mais ampla e estrutural sobre como operam a cultura e os negócios em volta das tecnologias. Não é uma surpresa que os sistemas de valor que as “Big Tech” refletem seja como é, já que elas têm legados de racismo e sexismo em seus produtos e em suas culturas. Essas empresas estão fazendo o suficiente? Não.

Buscar informações online é um ato político?

A busca por informações é definitivamente política. Na verdade, buscar afeta a nossa habilidade de conectar informação e também de ver aquele conteúdo como respeitável e confiável. A busca envolve o processo de colocar pessoas em categorias para que os anunciantes das ferramentas de busca possam combinar essas informações com projetos e indústrias que pagaram por isso. Esse processo também acontece nas mídias sociais.

Escolas e universidades voltadas à tecnologia deveriam incluir racismo e questões de gênero em seus currículos acadêmicos?

Claro que sim! Qualquer um envolvido com o design, a construção ou o uso de qualquer forma de tecnologia está fundamentalmente participando de um tipo de construção do mundo. A tecnologia molda e é moldada pelo mundo e por quem está nele. Desse modo, os currículos acadêmicos em Ciências da Computação e em Ciências de Dados deveriam refletir essa realidade. Em particular, os estudantes deveriam colocar o seu trabalho em contexto diante da História e das comunidades, de modo a entender como a tecnologia pode amplificar o racismo e as doenças sociais de muitas maneiras. Isso inclui, por exemplo, o uso de tecnologias de vigilância de maneira assimétrica contra pessoas negras, buscas que retornam resultados racistas e a falha das mídias sociais em proteger seus usuários. A tecnologia não opera no vácuo.

Recentemente, grandes empresas cancelaram publicidade alegando falta de ação do Facebook na repressão ao discurso de ódio. Como eliminar esse tipo de discurso?

Uma das dificuldades nisso é o modelo de negócios do Facebook, que, de muitas maneiras, depende da perpetuação da desinformação, da pouca informação e do discurso de ódio. É por isso que eles são tão relutantes em solucionar o problema. Além disso, há o problema da capacidade — se uma mídia social tem ou não a capacidade de lidar com o volume desses fenômenos. Conforme vemos a pressão dos anunciantes, também vemos respostas do Facebook, por exemplo, ao usar marcações e checagem básica. Mas, como ficou evidente pela resposta das lideranças que participaram das reuniões com o Facebook — quando chamaram o encontro de “frustrante” — podemos ver que, como a maioria das empresas de tecnologia, o Facebook procura soluções simples que não alteram substantivamente o seu modelo de negócios.

Algoritmos sexistas e racistas têm responsabilidade nas diferentes formas de violência contra mulheres e pessoas negras? Há quem argumente que as “Big Tech” deveriam fazer reparações.

Os algoritmos têm tanto responsabilidade direta quanto difusa pela violência contra mulheres e pessoas negras. Quando vemos o manifesto do assassino Dylann Roof [supremacista branco que, em 2015, matou nove pessoas negras em uma igreja na cidade de Charleston, nos EUA], nós imediatamente entendemos a conexão entre busca, propaganda racista e violência. No Centro para Investigação Crítica da Internet, na Universidade da Califórnia, temos pesquisado como tornar visível ao público o que é devido pelas empresas cujos modelos de negócio se beneficiam da extração de valor do público em uma economia que parece sobreviver e lucrar com o racismo, o sexismo, o nacionalismo, o fanatismo religioso e a homofobia. Muitas dessas empresas estão implicadas no crescimento de regimes autoritários ao redor do mundo, então, sem dúvidas, as “Big Tech” devem reparações para as muitas pessoas que foram prejudicadas pelas práticas de negócios que fomentam a desigualdade social e racial. Renata Izaal – Brasil “O Globo” através do “Portal Geledés”