Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Macau - Intérpretes-tradutores do Governo diminuíram 12% em cinco anos

Nos últimos cinco anos, o número de intérpretes-tradutores do Governo baixou de 414 para 363, revelam os SAFP ao Jornal Tribuna de Macau. Com o rápido desenvolvimento de modelos linguísticos de grande escala, o volume de serviços de tradução prestados pela Divisão de Tradução dos SAFP em 2025 foi semelhante ao registado há cinco anos


Em 2025, o Governo da RAEM contava com 363 funcionários da carreira de intérprete-tradutor, maioritariamente de Chinês-Português, revelou a Direcção dos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP) ao Jornal Tribuna de Macau. Isto significa que o número de intérpretes-tradutores na Função Pública sofreu uma quebra de 12,3% (menos 51 pessoas) nos últimos cinco anos, tendo em conta os 414 registados em 2021.

Relativamente ao volume de serviços de tradução, os SAFP observam que, “com o rápido desenvolvimento de modelos linguísticos de grande escala nos últimos anos, a tecnologia de tradução por inteligência artificial está a servir como uma ferramenta de forte apoio na tradução a diversos interessados em diferentes contextos”.

Ainda assim, de um modo geral, em termos dos serviços prestados pela Divisão de Tradução do então Departamento dos Assuntos Linguísticos dos SAFP, o volume de tradução no ano transacto foi semelhante ao de 2021. Actualmente, esta Divisão disponibiliza serviços de tradução escrita de documentos, de Chinês para Português e vice-versa, bem como serviços de interpretação simultânea ou consecutiva nas duas línguas, prestados in loco em reuniões oficiais ou cerimónias públicas, aos serviços e entidades públicos que necessitam de apoio nessa área.

Entre 2019 e 2021, os SAFP realizaram três edições do “Programa de Aprendizagem de Tradução e Interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa”, que aliviaram “consideravelmente a escassez de recursos humanos nesta área”.

Questionado sobre se planeia voltar a lançar iniciativas semelhantes, o organismo sublinhou que, seguindo as linhas de acção governativa de “elevação do nível de precisão na gestão para melhor valorização dos recursos humanos”, irá “analisar, com base nas necessidades reais, a possibilidade de uma nova implementação do programa”.

Segundo alguns comunicados dos SAFP, nas três edições do programa, um projecto com uma concepção nova, foram formados, no total, cerca de 60 intérpretes-tradutores das línguas chinesa e portuguesa. Os formandos são divididos em dois grupos, com um grupo a deslocar-se para a Bélgica e Portugal para aprender técnicas de interpretação de conferência e outro a deslocar-se para a Universidade de Estudos Internacionais de Xangai para adquirir conhecimentos de língua chinesa e de tradução Português-Chinês.

Antes disso, o Governo da RAEM organizou, desde 2005, em conjunto com a Direcção-Geral da Interpretação da Comissão Europeia, três edições do Seminário de Formação de Tradução e Interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa para Conferências, com 12 participantes a concluírem o curso. Entre 2010 e 2013, dando continuidade à cooperação com aquela instituição europeia, promoveu quatro edições do Programa de Formação de Tradução e Interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa. Por último, entre 2013 e 2017, foram realizadas mais três edições do Programa de Aprendizagem de Tradução e Interpretação das Línguas Chinesa e Portuguesa. Com estes dois programas, foi dada formação a cerca de 60 tradutores de Chinês-Português.

Segundo estatísticas disponíveis na “Plataforma de Dados Abertos do Governo da RAEM”, a RAEM contava em 2025 com 33.856 funcionários públicos (incluindo o Chefe do Executivo, titulares dos principais cargos, trabalhadores das fundações e outros organismos públicos sujeitos ao regime de direito privado).

Este jornal tentou saber o número de funcionários públicos que dominam a língua portuguesa, tendo os SAFP sugerido uma pesquisa na referida plataforma, “onde são disponibilizados, em formatos padronizados, dados estatísticos detidos por cada serviço público”. No entanto, a informação solicitada não foi encontrada na plataforma.

Numa segunda resposta, o organismo referiu apenas que “não tem mais a acrescentar” sobre o número de funcionários públicos que dominam a língua portuguesa.

A Plataforma mostra que, entre 2016 e 2022, o número de funcionários públicos que nasceram em Portugal seguiu uma tendência de diminuição contínua, tendo caído de 320 para 226. Em 2023, o número de funcionários nascidos em Portugal subiu para 257. Voltou a cair para 246 em 2024 e atingiu novamente 226 em 2025.

Formação ininterrupta em Português

No que concerne às acções de formação de língua portuguesa para os trabalhadores dos serviços públicos, os SAFP salientaram a organização de três workshops práticos destinados aos intérpretes-tradutores em 2025.

Segundo esclareceram, o corpo docente dos cursos de formação de português e de tradução é composto por pessoal com experiência prática dos SAFP e formadores profissionais do Instituto Português do Oriente.

Informações divulgadas na “Plataforma de Dados Abertos do Governo da RAEM” indicam que a formação linguística dos SAFP, relacionada com o português, engloba três cursos: Língua Portuguesa (lançado em 2000), Língua Portuguesa para as Forças de Segurança de Macau (FSM) (que se estreou em 2002) e Língua Chinesa e Língua Portuguesa (Interpretação-Tradução), criado em 2009. Os primeiros dois cursos têm sido promovidos de forma contínua durante mais de duas décadas, todavia, na Plataforma, não há dados sobre o curso de Língua Chinesa e Língua Portuguesa (Interpretação-Tradução) de 2011 a 2016.

Em 2017, este curso de tradução voltou a ser realizado, continuamente, até 2024. Relativamente ao ano passado, só há dados sobre os cursos de Língua Portuguesa e de Língua Portuguesa para as FSM.

Sem responder se foi cancelada a formação em interpretação-tradução nas línguas chinesa e portuguesa em 2025 e se voltará a ser promovida no futuro, os SAFP apontaram que “as matérias abordadas nos cursos são ajustadas consoante as necessidades decorrentes da reforma da Administração Pública, das funções dos serviços e do desenvolvimento dos trabalhadores dos serviços públicos, reforçando-se assim a sua pertinência e utilidade”.

Nesse sentido, asseguraram que “irão continuar a organizar diversos tipos de workshops de acordo com as necessidades, concretizando as linhas de formação orientada para a prática”. Quanto à avaliação da eficácia dessas acções de formação, garantiram que, “depois de concluído cada curso, é realizado um questionário de avaliação, de modo a aperfeiçoar o futuro planeamento de formação”.

Os SAFP prometeram ainda continuar a desenvolver diversos trabalhos, alinhando-se com o posicionamento de Macau como plataforma de serviços para a cooperação comercial sino-lusófona. Na última meia década, o Governo “tem participado activamente no estabelecimento da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, aprofundando o intercâmbio internacional e reforçando ainda mais o papel singular de Macau como ‘interlocutor de precisão entre a China e os Países de Língua Portuguesa’”, acentuaram.

Nos últimos cinco anos, o número de acções do curso de “Língua Portuguesa” oscilou entre 17 e 30, o número de formandos entre 143 e 244 e a carga horária entre 1825 e 3680 horas. Em 2025, os SAFP organizaram 18 acções de formação em Língua Portuguesa, com duração de 1825 horas, para 170 formandos.

Quanto ao curso “Língua Portuguesa para as FSM”, o pico do número de acções foi de 24 nos últimos cinco anos, registado em 2023. Nesse ano, o curso juntou 628, quase 1,7 vezes do número registado em 2022.

Em 2024, o pessoal das FSM que recebeu a formação dos SAFP em Português continuou a aumentar, tendo atingido 646, antes de diminuir para 573 em 2025. Na vertente da carga horária, no ano passado, os formandos cumpriram 366 horas, num total de 21 acções.

Ao Jornal Tribuna de Macau, os Serviços de Alfândega (SA) referiram que, na fase de formação de integração para alfandegários, dispõem sempre de um curso de português. “A Alfândega tem encorajado activamente o pessoal a participar na formação contínua, sendo a formação em serviço na língua portuguesa que o pessoal da Alfândega recebe coordenada e prestada pelos SAFP, podendo todo o pessoal inscrever-se livremente”, responderam os SA.

Na mesma linha, o Corpo de Polícia de Segurança Pública, a Polícia Judiciária, o Corpo de Bombeiros e a Escola Superior das Forças de Segurança asseguram todos que a formação em serviço em Português para o seu pessoal é coordenada e proporcionada pelos SAFP, “podendo todos os colegas inscrever-se de forma livre”.

Já quanto ao curso “Língua Chinesa e Língua Portuguesa (Interpretação-Tradução)”, realizaram-se duas acções de formação tanto em 2021 como em 2022, e uma em 2023 e 2024. Entre 2021 e 2024, os formandos desse curso fixaram-se em 23, 15, 11 e 15, respectivamente. Já a carga horária diminuiu continuamente de 100 horas em 2021 para 30 em 2024. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau


terça-feira, 9 de junho de 2026

Macau - Recém-licenciados vêem língua portuguesa como essencial no Direito da Região

Recém-licenciados dos cursos de Direito em português e chinês da Universidade de Macau (UM) indicaram à Lusa acreditarem que o português vai continuar a ser uma ferramenta essencial na prática jurídica do território.


A universidade oferece a única licenciatura em Direito Chinês-Português do mundo, um curso que prepara juristas para o sistema jurídico de Macau, de tradição romano-germânica e matriz portuguesa.

A UM realizou a 30 de Maio a cerimónia de graduação que conferiu diplomas a mais de 1700 licenciados, com 30 alunos licenciados no curso de direito bilingue, e dois no curso administrado somente em português.

Tam Sio Pang confessou à Lusa que não tinha interesse na língua portuguesa antes da universidade, com o curso bilingue a ser uma “escolha estratégica” para o futuro profissional.

“Continuo a considerar que a língua portuguesa desempenha um papel importante em certas áreas, sobretudo no Direito. É previsível que no futuro haja mais chineses a trabalhar em Macau e é preciso preparar-se, aprender algo que muitos chineses não sabem, o que considero ser a principal razão pela qual escolhi o [curso] bilingue”, destacou.

O estudante chinês de Macau considera que aprender português o ajudou consideravelmente no estudo de Direito local, por existirem “poucas referências jurídicas escritas em chinês”.

Ao mesmo tempo, apesar de admitir uma certa redução no seu uso na cidade, mostra-se “positivo” quanto ao futuro da língua portuguesa em Macau. “De acordo com a política do Governo chinês, Macau é a cidade de ligação aos países lusófonos. Não acredito que um bom governante abandonasse a característica mais icónica que a cidade tem em comparação com outras cidades chinesas”, apontou.

A Lei Básica estabelece que “o português é igualmente uma língua oficial”, e que decretos-lei consagram que “o chinês e o português têm igual dignidade”.

Após a transição de soberania em 1999, Macau manteve o próprio quadro legal, com a legislação local construída a partir de códigos e leis da República Portuguesa, incluindo o Código Civil, Código Penal e Código Comercial.

Em termos oficiais o sistema vigente está em vigor até 2049, mas advogados defenderam recentemente à Lusa que a posição oficial do Governo de Macau sobre a língua portuguesa contrasta com a “erosão silenciosa” desta enquanto idioma oficial na região.

Juliana Tavares, uma estudante luso-descendente, cuja língua materna é o cantonês, decidiu apostar na internacionalização completando o curso de direito em português da UM. “Escolhi estudar Direito em português porque não falava uma única palavra de português antes da universidade e queria mergulhar num ambiente de língua portuguesa para poder aprender”, explicou.

Em Setembro deste ano vai iniciar um mestrado no Porto em Direito Internacional e Europeu, mas mantém planos de regressar temporariamente a Macau. “Pretendo trabalhar em Macau durante algum tempo depois disso para passar no exame [equivalente ao] da Ordem dos Advogados,” apontou.

Para Juliana, o português continua a ser relevante, e “apesar cada vez menos utilizado”, continua a ser a língua oficial e assim permanecerá até 2049. “Macau está a tentar afirmar-se como uma plataforma intermediária entre a China e os países de língua portuguesa, e penso que também aí existem oportunidades.”

Por sua vez, Cheang Pak In sublinhou ter escolhido o curso bilingue por sempre ter tido interesse “em ciências humanas e de línguas”. “Dentro das escolhas disponíveis, o direito bilingue pareceu-me a opção mais adequada”, disse.

O recém-licenciado pretende continuar a estudar em Macau para compreender melhor as diferenças entre a jurisprudência local e a portuguesa. “Acho que é melhor saber ambas as perspectivas, se estudasse em Portugal só iria saber a perspectiva de Portugal”, apontou.

Já no plano profissional, está decidido a continuar a trabalhar em Macau, e que “não vale a pena ir a Portugal e arriscar perder oportunidades” que existem no território.

“A sociedade precisa de juristas que saibam chinês e português. Dizer isto pode parecer um cliché, mas é verdade”, descreveu. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”