Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Camarões - Investigador da Universidade do Porto estuda papel dos morcegos na produção do cacau

Diogo Ferreira (FCUP/BIOPOLIS/CIBIO-InBIO) estudou o papel dos morcegos no controlo das pragas de insetos nas plantações de cacau em África


Quando comemos chocolate, não é propriamente em morcegos que pensamos. Mas, na verdade, é também graças a eles que o temos. No âmbito do doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), Diogo Ferreira estudou o papel dos morcegos no controlo das pragas de insetos nas plantações de cacau em África.

O jovem investigador apaixonou-se, há 10 anos, por morcegos e, quando surgiu uma oportunidade de liderar uma equipa de investigação para um trabalho de campo nos Camarões, com estes animais, não hesitou. Em 2018, candidatou-se a uma bolsa de doutoramento na Fundação para a Ciência e Tecnologia e começou uma aventura que terminou em fevereiro deste ano com a defesa da sua tese na FCUP.

“Apesar de todos ouvirmos falar de cacau e amarmos chocolate, a verdade é que sabemos muito pouco sobre o assunto. Por exemplo, poucas pessoas sabem que grande parte do cacau que consumimos, quase 70%, vem de África”, conta o investigador que desenvolveu o seu trabalho em colaboração com o BIOPOLIS/CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos).

“As pragas do cacau podem custar à volta de 700 milhões de euros anualmente aos agricultores e, tendo em conta que os morcegos podem consumir até dois terços do seu peso em insetos por noite, o papel que têm nas plantações de cacau pode ser enorme”, salienta.

Gestão da paisagem e das plantações para ajudar os morcegos a “proteger” o cacau

Em dez meses de viagens aos Camarões, Diogo Ferreira estudou as populações de morcegos insetívoros em 38 plantações de cacau. Realizou também, durante um ano, uma experiência de exclusão. O objetivo foi, através de uma rede de pesca à volta de algumas árvores de cacau, bloquear o acesso dos morcegos às árvores.

“A ideia era tentar perceber se, quando os morcegos não conseguiam consumir os insetos presentes nestas árvores excluídas, haveria uma quebra na produção dos frutos do cacau devido ao aumento de pragas”, revela.

Os resultados obtidos foram divulgados num estudo publicado em abril de 2023. “Descobrimos que os morcegos estavam realmente a contribuir para o aumento do número de frutos de cacau, à volta de 450 euros por hectare, e por ano, mas isso só acontecia quando havia plantações com muitas árvores de grande porte a fazer sombra”, conta.

Para além disso, Diogo estudou também o número e a diversidade de espécies de morcegos insetívoros, frugívoros e nectarívoros, montando redes para captura e voltando a libertá-los após a sua identificação. Os resultados sugeriram uma maior diversidade de morcegos insetívoros em plantações com mais sombra e com árvores de sombra de grande porte, e floresta à sua volta.

“Como plantações com mais sombra são mais semelhantes às florestas nativas, vão ter mais insetívoros e portanto maior potencial para suprimir pragas”, destaca.

Decidiu, assim, adicionar à sua tese sugestões para a gestão das plantações de cacau para serem “bat-friendly”. “Propus medidas de gestão para tentar maximizar a diversidade de morcegos e os serviços de supressão de pragas que eles efetuam nas plantações”. E é por aqui que devem seguir os próximos passos de Diogo Ferreira após a conclusão da sua tese. Diogo quer testar, por exemplo, alternativas a árvores de grande porte para fazer sombra, como “a construção de abrigos artificiais onde os morcegos possam dormir durante o dia”.

Certificados bat-friendly e ações para ajudar os agricultores

Tendo convivido com os agricultores e com a realidade de quem vive das plantações de cacau, Diogo Ferreira conheceu de perto a importância dos morcegos e também o impacto das escolhas do consumidor. Regressou a Portugal com um sonho: “estabelecer um certificado Bat-Friendly para conseguir preços melhores para o cacau vendido por estes agricultores e assim reconhecer todo o sacrifício que eles têm que fazer para manter estas plantações sustentáveis”.

Segundo o investigador, “os agricultores de cacau recebem uma pequena fração do preço dos chocolates: apenas entre 3% e 6% do valor final”. Defende, por isso, que tenham acesso a preços premium que considerem uma margem maior de lucro, uma realidade que só é possível através da certificação do cacau.

Enquanto o sonho não se realiza, Diogo Ferreira deixa um apelo aos apreciadores de chocolate. “Todos nós podemos tentar comprar chocolate certificado que seja feito com comércio justo (fair-trade), e que mostre rastreabilidade e transparência em todas as etapas. Assim podemos aproveitar o chocolate na sua plenitude”, defende. Universidade do Porto - Portugal

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Portugal - Donos infetados com Covid-19 podem contagiar cães e gatos

Estudo assinado por investigadores da FCUP e do CIIMAR concluiu que os gatos são mais propensos a ter sintomas e os cães têm maior carga viral


Um estudo português, que contou com a participação de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR-UP), revela que os animais domésticos podem contrair o vírus Sars-Cov-2, causador da Covid-19.

De acordo com o estudo, que acaba de ser publicado na revista científica  Microorganisms, são os gatos os mais propensos a ter sintomas, ao passo que os cães têm maior carga viral. Para chegar a esta conclusão, foram analisados 217 animais de estimação (148 cães e 67 gatos) de cinco distritos portugueses: Lisboa, Porto, Braga, Aveiro e Coimbra.

“Verificámos que 15 em 69 gatos e 7 em 148 cães continham anticorpos contra o Sars-Cov-2, ou seja, já tinham tido contacto com o vírus”, revela  Ricardo Barroso, primeiro autor do artigo, realizado no âmbito da sua dissertação de mestrado em Aplicações em Biotecnologia e Biologia Sintética pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), sob orientação de Agostinho Antunes, docente da FCUP e investigador do CIIMAR-UP e de Isabel Fidalgo Carvalho, CEO da Equigerminal S.A e docente na Escola Universitária Vasco da Gama.

Iniciado na FCUP, o trabalho envolveu a recolha, entre dezembro de 2020 e maio de 2021, de amostras de sangue de cães e gatos para pesquisa de anticorpos. Em paralelo, Ricardo Barroso realizou inquéritos epidemiológicos aos donos desses animais e também a clínicas veterinárias, com o objetivo de fazer uma sinalização completa de história clínica de cada animal, bem como da respetiva exposição ao novo coronavírus (em ambiente familiar ou ao ar livre).


Cães com maior carga viral e gatos mais suscetíveis

No âmbito do estudo, foram efetuados testes por PCR quantitativo em tempo real em cinco animais (quatro cães e um gato). Destes, apenas um cão assintomático testou positivo para RNA do SARS-CoV-2 sete dias após o resultado positivo do dono ser conhecido. Este cão, descreve Ricardo Barroso, tinha uma “alta carga viral”. Apesar de poder não ser muito expressivo nestes animais, os cães parecem replicar o vírus com maior carga viral.

“Quanto aos gatos, recolhemos dados junto dos donos e de clínicas veterinárias se os animais de estimação tinham tido sintomas e havia gatos com sintomatologias muito diversificadas, como problemas respiratórios, neurológicos e digestivos”, explica.

Dos 15 felinos com anticorpos detetados, nove (60%) apresentaram mais do que um sintoma: quatro (44,44%) tinham sintomas respiratórios, dois (22,22%) tinham sintomas neurológicos, três (33,33%) tinham sintomas digestivos, dois (22,22%) apresentavam uma redução de apetite e um (11,11%) teve febre.

Animais não infetam os humanos

Mas se os humanos podem infetar os animais de animação, será o contrário possível? Ricardo Barroso afasta essa possibilidade, ou não fosse o Sars-Cov-2 uma “zoonose reversa”. Ou seja, passou de um primeiro evento de um animal, que ainda não está identificado, e transmitido para humanos, para o oposto: “Uma doença que passa dos humanos para os animais ao contrário da zoonose”.

A mesma mensagem é reforçada por Isabel Fidalgo Carvalho: “Até à data, sabemos que só está provado que nós infetamos os animais e não ao contrário”, frisa  a investigadora. E deixa o apelo a que os donos não se sintam assustados e, com isso, abandonem os animais. “Nós devemos proteger os animais”, apela a coordenadora do estudo.

Os autores da investigação, entre os quais se inclui também Alexandre Vieira-Pires da Ecogerminal e da Universidade de Coimbra, concordam que são necessários mais estudos para saber como atua o vírus e as suas futuras variantes nestes animais.

Os resultados deste estudo referem-se à variante Alpha (a segunda mais severa) nos animais de estimação. Universidade do Porto - Portugal