Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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domingo, 22 de agosto de 2021

Argentina - Maior instituição portuguesa conta história da diáspora

O Clube Português da Grande Buenos Aires, maior instituição lusitana na Argentina, lançou um livro com 43 anos de uma história com dois diferenciais: levar a cultura portuguesa a outras nacionalidades e promover a assistência social


“O objetivo do livro é registar a história da instituição e a sua identidade que é também a de milhares de portugueses que escolheram esta terra. Este clube nasceu com a ideia de que os portugueses pudessem matar saudades”, conta à Lusa Víctor Estanqueiro, presidente do clube.

A obra “Clube Português da Grande Buenos Aires: do Rio Tejo ao Rio da Prata” é o resultado de um ano de pesquisas e do testemunho de 40 entrevistados que, em 410 páginas, contam como foi a saga de milhares de portugueses que, simbolicamente, trocaram de rios e de continentes.

Víctor Estanqueiro, filho de portugueses, encomendou o trabalho a Carlos Correa, um destacado jornalista, sem descendência portuguesa, mas especialista nesse tipo de pesquisa histórica, autor de outros oito livros.

“Ao escrever o livro, fiquei surpreso com a recetividade da comunidade portuguesa em geral. Foi emocionante ver os olhos lacrimejantes dessa gente ao contarem as suas histórias. Transmitiram-me essa emoção e acolheram-me como mais um integrante. É a história do clube, mas são também histórias de vida”, descreve Carlos Correa à Lusa.

A instituição portuguesa nasceu em 23 de agosto de 1978 na cidade de Isidro Casanova, no distrito de La Matanza, o mais populoso da região que rodeia Buenos Aires, a 30 quilómetros da capital argentina. Foi declarada de interesse cultural pelas câmaras municipal e provincial.

Na Argentina, as instituições portuguesas têm vindo a completar o seu centenário. É o caso da Associação Portuguesa de Socorros Mútuos de Salliqueló (1916), do Clube Português da Cidade de Buenos Aires (1918) e da Associação Portuguesa de Comodoro Rivadavia (1923), mas em apenas 43 anos, o Clube Português da Grande Buenos Aires tornou-se a maior das 15 instituições portuguesas na Argentina em infraestrutura, em quantidade de sócios (três mil) e em variedade de disciplinas desportivas e culturais.

O livro, previsto para ser lançado com nove capítulos há um ano, teve o seu lançamento adiado devido à pandemia de covid-19. O evento que comove o mundo inspirou um décimo capítulo que descreve como o ginásio do clube foi preparado para se tornar um “hospital de campanha”, com 100 leitos para casos leves.

Também aparece a visita, em 1995, do então Presidente português, Mário Soares, que recebeu a chave da cidade ao tornar-se o primeiro Presidente estrangeiro em exercício a visitar o distrito de La Matanza.

Em junho de 1982, o clube foi um dos mais significativos doadores ao Fundo Patriótico Ilhas Malvinas, criado para apoiar financeiramente os gastos durante a guerra contra a Inglaterra (entre 02 abril e 14 junho), a assistência e as indemnizações aos ex-combatentes e parentes.

O almoço do Dia de Portugal daquele ano, o evento mais importante em arrecadação de receitas, rendeu 70 milhões de pesos da época. Para se ter uma ideia do esforço de cerca de mil portugueses, Diego Maradona doou 100 milhões.

Essa generosidade é uma das duas principais marcas diferenciais da instituição portuguesa. Como forma de integração com a sociedade ao seu redor e de retribuir parte do que os portugueses conquistaram, o Clube Português da Grande Buenos Aires promove uma série de campanhas para assistência social.

Neste inverno, distribuiu roupa para o frio aos sem-abrigo. Todos os anos torna-se ponto de recolha e de doação de sangue. No dia das crianças, leva brinquedos a um hospital infantil.

Outra vocação estratégica do clube é a difusão da cultura portuguesa. É a única instituição portuguesa aberta às demais nacionalidades e às suas descendências. É também o que mais procura levar a cultura portuguesa a outros âmbitos, a festivais que não sejam os de origem lusitana.

“Embora tenhamos um embaixador formal de Portugal na Argentina, somos também embaixadores de Portugal. O nosso objetivo é que quem não tem nada a ver com Portugal possa escutar um fado, saborear a nossa culinária, ver a nossa dança típica e aprender a nossa língua. Queremos chegar a essa gente. Esse é o nosso lema”, explica Víctor Estanqueiro.

O clube tem duas grandes ferramentas para esse objetivo: os ranchos folclóricos Mocidade Portuguesa e Dançares da Nossa Terra, sendo este segundo o que mais viaja pelo país e o que mais procura exibir Portugal nas festividades de outras nacionalidades.

“Os portugueses já conhecem a nossa cultura. É necessário abrir a nossa cultura para que outros nos possam conhecer. Por isso, vamos às festas de outras comunidades”, indica José Aniceto Domingos, um dos fundadores do Dançares da Nossa Terra em 1993 e um dos primeiros sócios do clube.

Este algarvio de Pechão, concelho de Olhão, chegou à Argentina com 13 anos. Aos 48, fundou o rancho com bailarinos infantis entre 5 e 8 anos. Aquela primeira turma era integrada por Natália Rodrigues e Pablo da Silva Pais, com 6 e 8 anos, respetivamente. Os dois casaram-se e hoje, aos 34 e 36 anos, são os professores da nova geração.

Essa forma de relacionar-se através de redes de amigos ou parentes foi justamente a chave para a chegada de milhares de portugueses a La Matanza entre as décadas de 1920 e 1960. Um amigo já estabelecido convidava o outro ou trazia a sua mulher e filhos.

O instrumento mais usado era uma carta de chamada, muitas vezes com a tentação de um contrato de trabalho.

A Zona Oeste da região periférica de Buenos Aires era um fértil cinturão para a pequena agricultura de frutas, verduras e hortaliças. A região era também propícia para os fornos de tijolos. Os portugueses foram líderes nas duas atividades e protagonistas da transformação da área, incluído o Clube Português da Grande Buenos Aires, hoje um dos principais da Argentina. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo





quinta-feira, 16 de julho de 2020

Argentina - Instituições portuguesas entram no combate à pandemia de covid-19

Duas instituições da comunidade portuguesa na Argentina ofereceram as suas instalações para se tornarem hospitais de campanha, ajudando a descomprimir a ocupação da rede de Saúde e exaltando a solidariedade dos portugueses no exterior.

“O objectivo dessa iniciativa é que não se sature a capacidade do sistema de saúde, público e privado, para que todos possam ser bem atendidos. Aqui vão ficar pacientes com sintomas leves”, indica à Lusa o presidente do Clube Português da Grande Buenos Aires, Víctor Estanqueiro.

O ginásio do clube onde antes da pandemia se praticavam desportos, deu lugar ao que se denomina oficialmente como Centro de Isolamento Social, Preventivo e Obrigatório, pronto a receber os primeiros pacientes.

São cem camas, com dois metros de distância entre si, que receberão doentes a cada 14 dias, período em que ou o paciente recupera, ou passa a uma internação hospitalar mais intensiva. Com a chegada dos doentes, outras cem pessoas, entre médicos, enfermeiros e seguranças, vão começar os trabalhos.

A estrutura está prevista para enfrentar uma realidade de desigualdade social, própria da América Latina, considerada um dos desafios na propagação do vírus.

Os bairros mais populares desta região são compostos por moradias precárias, onde num espaço reduzido, equivalente a um quarto, podem conviver várias pessoas de uma mesma família. Essa vulnerabilidade social impede que o contagiado ou o suspeito de contágio possa isolar-se dos demais.

“Estamos a estender mão solidária a quem tem problemas habitacionais. Basicamente, este centro é para os mais necessitados que não podem isolar-se em casa, mas que não estão [numa situação tão grave] a ponto de um internamento hospitalar”, aponta Estanqueiro.

O Clube Português da Grande Buenos Aires foi um dos primeiros a disponibilizar o quarteirão que ocupa, ainda nos primeiros dias de Abril. O processo para condicionar o ginásio com aquecimento para temperaturas invernais abaixo de 10 graus, instalações eléctricas, iluminação, câmaras e ligação à Internet durou dois meses.

“Estamos prontos. Está iminente a chegada dos primeiros pacientes”, anuncia Víctor Estanqueiro.

A instituição portuguesa fica na cidade de Isidro Casanova, no distrito de La Matanza, o mais populoso da região periférica de Buenos Aires.

A região metropolitana é composta pela capital argentina, com três milhões de habitantes, além de dez distritos, com 13 milhões de habitantes, formando um conjunto urbano, entre a cidade e os seus subúrbios e ‘satélites’ (conurbação), que vive uma quarentena total e obrigatória.

Enquanto 54,1% das camas de Cuidados Intensivos estão ocupadas na região metropolitana de Buenos Aires, a ocupação em La Matanza, especificamente, chega a 69,6%.

Nesse distrito, 40 clubes, igrejas e associações ofereceram as suas instalações para se tornarem hospitais provisórios. Juntas vão ampliar em quatro mil o número de camas disponíveis nos 16 municípios do distrito. O Clube Português é a referência para Isidro Casanova.

“Quisemos devolver um pouco do que recebemos quando os imigrantes portugueses, nossos pais e avós, chegaram aqui. Isidro Casanova é uma cidade praticamente feita por portugueses. A pandemia mundial leva-nos a cumprir o nosso papel social, além de representarmos o braço solidário de Portugal”, orgulha-se Víctor Estanqueiro.

Na cidade de Villa Elisa, distrito de La Plata, a Casa de Portugal – Virgem de Fátima é a outra instituição portuguesa que se ofereceu para se tornar hospital de campanha. A iniciativa foi uma decisão unânime da sua direção, antes mesmo de a Argentina se declarar em quarentena total, a 20 de Março.

“Vimos que a situação se complicava e que a ocupação de leitos seria o grande desafio. Colocamo-nos à disposição das autoridades municipais que nos incluíram numa lista como instituição disponível para emergências”, explica à Lusa o secretário-geral da Casa de Portugal, Carlos de Oliveira, destacando que “as autoridades locais ficaram bem impressionadas com a iniciativa da comunidade portuguesa”.

Com uma situação mais administrável do que La Matanza, as autoridades de La Plata ainda não iniciaram o processo para que a instituição portuguesa se torne, na prática, um centro de socorro, mas os primeiros passos já foram tomados perante a contingência.

“Esvaziámos o ginásio e os espaços que poderiam ser úteis. Está tudo vedado à espera de um pedido das autoridades, mas ainda não há camas nem equipamentos. Estamos prontos para o caso de sermos accionados”, avisa Carlos de Oliveira.

“Essas iniciativas reflectem os valores portugueses da solidariedade e da partilha. Nessas coisas, especialmente nas adversidades, os portugueses são exemplares. O cidadão português no exterior revela-se tão bom cidadão do país que o acolhe quanto do país de origem”, emociona-se o embaixador português na Argentina, João Ribeiro de Almeida, em declarações à Lusa.

A comunidade na Argentina é composta por 21 mil inscritos no Consulado, um número que duplica com os lusodescendentes. In “O Século de Joanesburgo” – África do Sul com “Lusa”