Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 7 de março de 2024

Itália - Descoberto astrolábio raro que revela "intercâmbio científico" entre muçulmanos, judeus e cristãos

Esteve durante décadas num pequeno museu da cidade de Verona e ninguém sabia o que era, nem suspeitava do seu valor. Mas precisamente há um ano, quando fazia uma pesquisa online, a investigadora Federica Gigante foi parar ao sítio do museu e viu-o numa foto. Percebeu que era especial. Decidiu ir observá-lo ao vivo. O Astrolábio de Verona, como depois o apelidou, é agora o objeto mais importante da coleção e a sua história acaba de ser dada a conhecer ao mundo


“Quando visitei o museu e estudei o astrolábio de perto, notei que não só estava coberto de inscrições árabes belamente gravadas, como também conseguia ver inscrições ténues em hebraico. Eu só conseguia distingui-las sob a luz forte que entrava por uma janela. Achei que poderia estar a sonhar, mas continuei a ver cada vez mais. Foi muito emocionante”, recorda a historiadora da Universidade de Cambridge, Federica Gigante, no artigo de apresentação da sua descoberta, publicado na segunda-feira, 4 de março, no sítio da instituição.

Não era um sonho, era mesmo verdade. Especialista em astrolábios islâmicos, a investigadora verificou que um lado da placa estava inscrito em árabe “para a latitude de Córdoba, 38° 30’”, enquanto o outro lado “para a latitude de Toledo, 40°, o que leva a crer que possa ter sido feito em Toledo, numa época em que aquela cidade espanhola era um próspero centro de coexistência e intercâmbio cultural entre muçulmanos, judeus e cristãos. Uma segunda placa adicionada estava inscrita para latitudes típicas do norte da África, sugerindo que, em algum momento da vida do objeto, talvez este tenha sido usado em Marrocos ou no Egipto. E inscrições hebraicas foram adicionadas ao astrolábio por mais que uma mão. Um conjunto de acréscimos foi esculpido de maneira profunda e organizada, enquanto um conjunto diferente de traduções surge muito ao de leve, irregular, e mostra uma mão insegura.


“Essas adições e traduções em hebraico sugerem que em determinado momento o objeto deixou a Espanha ou o Norte da África e circulou entre a comunidade da diáspora judaica em Itália, onde o árabe não era compreendido e o hebraico era usado em seu lugar”, explica Federica Gigante.

O astrolábio apresenta ainda correções inscritas em algarismos ocidentais, os mesmos que usamos hoje na língua portuguesa. E todos os lados das placas do astrolábio apresentam marcas levemente riscadas em algarismos ocidentais, traduzindo e corrigindo os valores de latitude, alguns até várias vezes. Federica Gigante considera “altamente provável” que estas adições tenham sido feitas já em Verona por um falante de latim ou italiano.

A rete (ou aranha) que integra o astrolábio – um disco perfurado que representa um mapa do céu – é uma das primeiras conhecidas feitas em Espanha, apresentando semelhanças com as dos primeiros astrolábios europeus, feitos naquele país segundo o modelo dos islâmicos. Analisando a posição das estrelas na rete, é possível concluir que elas foram colocadas nos locais que teriam no final do século XI.

Pode dizer-se que os astrolábios “foram o primeiro smartphone do mundo”, refere o artigo. Eram como computadores portáteis que poderiam ter centenas de usos: forneciam um modelo bidimensional do universo que cabia na mão do utilizador, permitiam calcular tempo, distâncias, traçar a posição das estrelas… e até prever o futuro, através do horóscopo.

Acredita-se que este astrolábio em concreto tenha feito parte da coleção do nobre veronês Ludovico Moscardo (1611-1681) antes de passar por via do casamento para a família Miniscalchi. Em 1990, a família criou a Fondazione Museo Miniscalchi-Erizzo para preservar as suas coleções, local onde, passados mais de 30 anos, Federica Gigante descobriu o seu inestimável valor.

“Este não é apenas um objeto incrivelmente raro. É um registo poderoso de intercâmbio científico entre árabes, judeus e cristãos ao longo de centenas de anos”, conclui. Clara Raimundo – Portugal in “7Margens”






quinta-feira, 21 de março de 2019

Internacional - Astrolábio reconhecido pelo Guiness como o mais velho do mundo é português


Um astrolábio recuperado no local do naufrágio de uma nau da armada portuguesa participante na segunda viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1502-1503, foi classificado pelo livro "Guinness World Records" como o mais velho do mundo



Resgatado ao fundo do mar Arábico, ao largo da costa de Omã, por arqueólogos britânicos em 2016, o instrumento de navegação pertencente à nau "Esmeralda", naufragada em 1503, foi também autenticado por investigadores como o único astrolábio de disco sólido com uma proveniência verificável e o único exemplar decorado com um símbolo nacional: o brasão real de Portugal.

O fino disco de 175 milímetros de diâmetro e apenas 344 gramas foi analisado por uma equipa de investigadores que viajou até Mascate, Omã, em novembro de 2016, para fazer imagens 'laser' de uma seleção dos mais importantes artefactos recuperados no local do naufrágio da nau portuguesa.

O processo científico de autenticação do disco como sendo um astrolábio, realizado por meio de imagens 'laser', foi descrito num trabalho publicado terça-feira no International Journal of Nautical Archaeology por David Mearns e Jason Warnett, da empresa Blue Water Recoveries, e Mark Williams, do departamento de investigação WMG da Universidade de Warwick, no Reino Unido.

Os investigadores creem que o astrolábio Sodré que agora entrou para o "Livro Guinness dos Recordes Mundiais" foi feito entre 1496 e 1501.

Como o mais antigo astrolábio autenticado, preenche uma lacuna cronológica no desenvolvimento destes instrumentos icónicos e pensa-se ter sido um instrumento de transição entre o astrolábio planisférico clássico e o astrolábio de roda aberta, que começou a ser usado algum tempo antes de 1517.

Os astrolábios são considerados o mais raro e mais valioso dos artefactos encontrados em locais de naufrágios antigos, existindo apenas 104 exemplares em todo o mundo. In “Visão” - Portugal

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Reino Unido - Será este o astrolábio náutico mais antigo do mundo?

Instrumento do início do século XVI tinha sido descoberto em 2014 e agora foi analisado por técnicas de imagem por um investigador britânico, que afirma tratar-se mesmo de um astrolábio. E que é o mais antigo que se conhece. Arqueólogos portugueses têm as suas dúvidas



Logo pela manhã desta terça-feira a Universidade de Warwick, no Reino Unido, fez um anúncio que despertou curiosidade: um disco de bronze que tinha sido descoberto em 2014 na costa de Omã (na Península Arábica) é, afinal, o astrolábio náutico mais antigo do mundo. Através de tecnologias de obtenção de imagens em 3D, um investigador daquela universidade detectou traços nas margens do objecto, cada um separado por cinco graus, pelo que considerou estarmos na presença de um astrolábio náutico. Além disso, referiu que pertenceu a um navio da frota de Vasco da Gama. Mas arqueólogos portugueses colocam algumas dúvidas quanto à credibilidade científica do projecto que descobriu o artefacto. Será então este o astrolábio náutico português mais antigo?

Decorria o ano de 2014 quando uma campanha de uma equipa liderada por David L. Mearns – da empresa privada Blue Water Recoveries (que aqui trabalhou em parceria com o Ministério do Património e da Cultura de Omã e com financiamento do sultanato, da National Geographic Society e da Fundação Waitt) – encontrou um disco de bronze com uma esfera armilar associada a D. Manuel I, rei de Portugal entre 1495 e 1521. Tem 175 milímetros de diâmetro e pesa 344 gramas, segundo a informação da equipa que o descobriu.

Quando se descobriu, suspeitou-se de que se tratava de um astrolábio – um instrumento usado pelos marinheiros durante as viagens para medir a altura do Sol e calcular assim a latitude do sítio onde se encontravam –, mas não existiam provas disso.

Também se desconfiou que o objecto datava de 1495 a 1500. E que poderia ter pertencido a um navio português que tinha naufragado na costa de Omã por causa de uma tempestade no oceano Índico em 1503: a nau Esmeralda, que faria parte da frota de Vasco da Gama. Esta é a versão de David Mearns, agora também descrita num comunicado da Universidade de Warwick. “É um grande privilégio encontrar algo tão raro, com uma tal importância histórica, e que irá ser estudado pela comunidade arqueológica e preencher um espaço vazio”, comenta o britânico no comunicado.



Agora, a Universidade de Warwick analisou este artefacto para obter imagens em 3D. As análises revelaram os tais traços nas margens do objecto separados entre si por cinco graus. De acordo com Mark Williams, isto prova que é um astrolábio. “Foi fantástico aplicar a nossa tecnologia de imagens 3D num projecto tão entusiasmante e ajudar a identificar algo tão raro e fascinante.”

Também Filipe Vieira de Castro, arqueólogo da Universidade do Texas (Estados Unidos), considera que este objecto pode ser um astrolábio, devido à escala (os tais traços) agora revelada. O arqueólogo não esteve envolvido neste trabalho, mas, como tem um inventário de astrolábios náuticos, foi contactado por David Mearns. Por isso, agora este objecto também vai integrar a sua base de dados de astrolábios náuticos.

Um caçador de tesouros

Também o arqueólogo Alexandre Monteiro, do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova de Lisboa, que trabalha há vários anos com o sultanato de Omã e é o autor da Carta Arqueológica Subaquática Potencial de Omã, é prudente: “Poderá ser um astrolábio, ou não.” Para este arqueólogo, falta uma “comprovação arqueológica” para se afirmar que é de facto um astrolábio náutico.

Alexandre Monteiro sublinha que David Mearns (que tem formação em geologia marinha) é um “caçador de tesouros” e que não tem “credibilidade científica para estar à frente deste projecto”, como já dizia ao Público em Abril de 2016.

Outra das informações avançada pela equipa de David Mearns é que o astrolábio pertencia a um navio naufragado em 1503. Aliás, segundo um artigo de Março de 2016 na revista International Journal of Nautical Archaeology, em que Mearns é um dos autores, terão naufragado duas embarcações portuguesas: as naus Esmeralda e São Pedro, comandadas pelos tios maternos de Vasco da Gama, Vicente e Brás Sodré. O astrolábio terá pertencido à primeira embarcação, de acordo com a equipa. Tendo o ano de 1503 como a referência, este o astrolábio náutico tornar-se-á assim o mais antigo até agora conhecido. Até então, o mais antigo que se conhecia era de 1533 e foi encontrado num navio português naufragado na costa atlântica de Oranjemund, na Namíbia.

“Se for mesmo um astrolábio, acho que é o mais antigo”, diz Filipe Vieira de Castro. “É quase de certeza de um dos navios dos irmãos Sodré, que se perderam nas ilhas Curia Muria [na costa de Omã] em 1503”. Mas salienta: “Acho que ninguém sabe a que navio pertence este astrolábio.” E acrescenta que as publicações que viu sobre o resgate dos artefactos são pouco informativas e que não lhe parece possível identificar o navio a partir dessa informação. “Julgo, contudo, que é quase certo que este navio era da armada de Vicente Sodré, que acompanhou a segunda viagem de Vasco da Gama, que saiu de Lisboa em 1502.”

Sobre a idade do astrolábio, Alexandre Monteiro diz que não faz ideia: “Não temos um paralelo, porque os [astrolábios] mais antigos são modelos que não são como este.” E refere até que se está a falar de um sítio onde ocorreram muitos naufrágios e do qual não há um contexto arqueológico. “Ainda não existem provas arqueológicas para que este seja o sítio do naufrágio [do Esmeralda], frisa.

Entre as muitas dúvidas que ainda subsistem, este artefacto veio (mais uma vez) lançar uma discussão científica. Teresa Serafim – Portugal in "Público"