Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

São Tomé e Príncipe - A Conferência Internacional sobre os 150 Anos da Abolição da Escravatura: uma perplexidade sem tamanho

Adotei, há vários anos, de uma prima muito querida e grande amiga, a expressão ‘’desligar a ficha.’’ Quando consigo. A expressão era utilizada sempre que ela me visse em profundas e tensas cogitações sobre algo que ultrapassava os limites da minha capacidade de compreensão lógica. Os acontecimentos políticos mais recentes em São Tomé e Príncipe, e não só políticos, intimam-me, em nome da salvaguarda de um mínimo de sanidade mental, a observar a fórmula da minha prima: desligar a ficha. A insólita e inexplicável interrupção das comemorações dos 50 anos da independência nacional, que incluíam a condecoração das figuras fundadoras da nação e dos cidadãos são-tomenses (e alguns estrangeiros) que melhor serviram a causa coletiva de São Tomé e Príncipe, a moção de censura interposta e, depois, bizarramente retirada pelo partido maioritário, o ADI, entre uma série de justificações aparentemente ziguezagueantes, a súbita e prévia passagem de Abenildo de Oliveira, ex-vice – presidente da bancada parlamentar do ADI à condição de deputado independente, o acórdão do Tribunal Constitucional declarando inconstitucional o governo do Primeiro-ministro Américo Ramos mais de um ano depois da sua entrada em funções e em cima da marcação das datas das próximas eleições, a carnavalesca sessão parlamentar que alimentou o insaciável falatório nacional durante dias, os termos em que se dá a reconfiguração da maioria parlamentar, entre outros, são factos que me intimam simplesmente a dizer: ‘’desliga a ficha.’’


Convenhamos: vinda de uma jornalista, afastada embora da cobertura noticiosa política, será uma atitude censurável. Admito e faço o mea culpa. Contudo, não logrando ver em tudo isso mais do que encenações, (para não dizer ficções) e não conseguindo vislumbrar um grãozinho de motivo que possa ter levado a classe política são-tomense a embarcar numa monumental farsa a conta-gotas, vi-me obrigada a recorrer à prudente e auto – defensiva recomendação da minha prima. Aqueles que tiverem paciência suficiente para ler estas linhas, perguntarão: ‘’E por que razão decidiu voltar a ligar agora a ficha?’’

Respondo já, já e sem hesitações: a Conferência Internacional sobre os 150 anos da Abolição da Escravatura em São Tomé e Príncipe, a decorrer entre hoje e amanhã, aqui, em São Tomé. De mérito indiscutível, pensada com antecedência pela Direcção-Geral da Cultura na pessoa do seu chefe, Emir Boa Morte, esta iniciativa coloca os decisores culturais do país, ao mais alto nível, no tabuleiro do bizarro e do insólito.

A abolição, em São Tomé e Príncipe, de uma das mais abomináveis invenções da mente humana e da história da Humanidade, vai culminar num diálogo académico entre dois historiadores são-tomenses (Emir Boa Morte e Natália Umbelina) e vários estrangeiros. Ninguém consegue explicar (e julgo que tal explicação deveria ser extensiva a toda a nação), por que razão, historiadores são-tomenses reputados e competentes como Carlos Agostinho das Neves, Maria Nazaré Ceita ou Lúcio Pinto, estão ausentes do painel de conferencistas.

É estarrecedor que a Direção-Geral da Cultura, sabendo que qualquer narrativa histórica é uma interpretação, tenha, com valentia e destemor, optado, não por maximizar o leque de interpretações nacionais, mas por as diminuir ao mínimo. Não são segredo para ninguém as discórdias, desavenças, ressentimentos, “clubites” e uma espécie de rancor de estimação que grassa no seio da comunidade de historiadores residentes, com queixas mútuas de exclusão esvoaçando de tempos a tempos quando acontece acontecer algum evento. E, dada a envergadura deste evento em particular, o seu profundo significado e o destino das conclusões que daí poderão, eventualmente, emergir, torna-se difícil compreender que a máxima decisora cultural do país, a intrépida ministra Isabel Viegas de Abreu, não se tenha apercebido, ao longo de todo o processo preparatório, da afronta aos são-tomenses que esta conferência acaba por ser, salvaguardado o máximo respeito pela competência e pelas qualificações dos conferencistas estrangeiros, cujos olhares e contributos são e serão sempre necessários e benvindos. (Atrevi-me, sem que tal me tivesse sido solicitado, a propor convites a historiadores angolanos e nigerianos, países africanos na génese da nossa construção societária. Suspeito que a proposta terá sido tratada como irrelevante bizantinice.)

O pluridisciplinar investigador angolano, Mário Pinto de Andrade, defendeu tenazmente, ao longo do seu incansável percurso, a imprescindibilidade de uma História africana contada por africanos. Na mesma linha, o icónico historiador burkinabé, Joseph Ki Zerbo, cujo contributo foi decisivo para a coleção da UNESCO sobre a história de África, dedica a sua obra ‘’Histoire de l’Afrique noire, d’hier à demain/ História da África negra, de hoje a amanhã’’, a ‘’Todos aqueles que acreditam que os africanos são os que estão melhor posicionados para contar a sua própria história.’’

A comissão organizadora da Conferência Internacional sobre os 150 anos de Abolição da Escravatura pecou deliberadamente, acintosamente, quando decidiu não congregar todas as valências nacionais. Não pensou (não quis pensar) que uma seleção nacional deve incluir os melhores. Todos.

A lógica de exclusão que emana da representação nacional nesta conferência constitui um exemplo a não ser seguido jamais, um muito nefasto serviço prestado à nação são-tomense. E dito isto, espero que o evento venha a ser um êxito, dentro dos limites que comissão organizadora entendeu impor. Conceição Lima – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón” 

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Conceição Lima (Maria da Conceição de Deus Lima), de São Tomé e Príncipe, nasceu em 8 de dezembro de 1961. Jornalista, poeta e cronista, é membro-fundadora da União Nacional dos Escritores e Artistas São-tomenses, UNEAS. Fez os estudos primários e secundários em São Tomé, onde reside e trabalha como jornalista da TVS, Televisão São-tomense. Foi durante longos anos jornalista e produtora dos Serviços em Língua Portuguesa da BBC, em Londres. É licenciada (com distinção) em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros pelo King's College of London e possui o grau de Mestre em Estudos Africanos, com especialização em Governos e Políticas na África sub-saariana, pela School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres.  

Pela Editorial Caminho, de Lisboa (Portugal), publicou os livros: "O útero da casa" (2004), "A dolorosa raiz do Micondó" (1ª ed., 2006; 2ª ed., 2008) e "O país de Akendenguê" (2011).   

Em São Tomé e Príncipe, sua terra, publicou pela editora Lexonics (com patrocínio do Banco Equador), em 2012, os livros: "O útero da casa""A dolorosa raiz do Micondó" e "O país de Akendenguê". O seu último livro "Quando florirem salambás no tecto do Pico", foi publicado em 2015, numa edição da Autora. 

No Brasil tem publicado o livro "A dolorosa raiz do Micondó", pela Geração Editorial (São Paulo, 2012). Em 2015, venceu o PNBE, Programa Nacional de Bibliotecas Escolares do Brasil, selecionada em primeiro lugar entre mais de 400 títulos concorrentes. O livro "A dolorosa raiz do Micondó" teve uma tiragem de 35.500 exemplares pelo Ministério da Educação (Brasil).  

Tem livros traduzidos para o alemão, espanhol e italiano: os seus 4 livros foram traduzidos para o alemão, em edição bilíngue "Útero da casa" e "A dolorosa raiz do Micondó" (Delta, 2010); "O país de Akendenguê" e "Quando florirem salambás no Tecto do pico" (Delta, 2021); para o espanhol, o livro "A dolorosa raiz do Micondó", publicado na Espanha (Baile del Sol, 2011) e na Venezuela (El Perro y la Rana, 2013); e para o italiano "A dolorosa raiz do Micondó" (Kolibris edizioni, 2014). ** Ver detalhes abaixo em: Obra (livros) traduzida em outras línguas. 

É o nome mais traduzido da literatura são-tomense de todos os tempos, foi traduzido para o alemão, árabe, espanhol, inglês, francês, italiano, checo, servo-croata, turco e galego.  Tem seus poemas publicados em jornais, revistas e antologias em diversos países. 

Em 2021, o "World Poetry Movement - WPM" designou 58 coordenadores nacionais, com representados de diversas regiões: América (13), África (17), Europa (18) e Ásia (9). A poeta Conceição Lima foi designada Coordenadora do Movimento Poético Mundial para São Tomé e Príncipe. Os trabalhos do WPM podem ser acompanhados na página e grupo do facebook. 

Em setembro de 2021, Conceição Lima vence o importante prêmio ex-aequo, com  poema "Afroinsularidade", do primeiro livro da poeta. O prêmio foi concedido dentro do Concurso de Tradução de Poemas 2021, organizado pela prestigiada revista literária Word Without Borders, em parceria com a Academia Americana de Poetas, nos EUA. InTemplo Cultural Delfos


sábado, 31 de maio de 2025

Portugal - Zé Povinho celebra 150 anos

O Zé Povinho está a celebrar 150 anos e o Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, vai renovar a sua coleção permanente e preparar festejos a partir de julho até ao próximo ano, disse o diretor

“Mais do que uma ideologia, o Zé Povinho é uma figura de cidadania e contra as injustiças”, disse à agência Lusa João Alpuim Botelho, diretor do Museu Bordalo, referindo que a figura foi apropriada “por todos, lembrando a ‘Cantiga da Rua’, ‘não é minha nem é tua é de toda a gente'”.

A personagem Zé Povinho surgiu pela primeira vez no dia 12 de junho de 1875, nas páginas centrais do jornal A Lanterna Mágica, de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905).

“O que torna a figura do Zé Povinho absolutamente genial e faz com que ela sobreviva ao longo destes 150 anos é que ele criou a figura como quem nos põe um espelho à frente da cara e diz: ‘estás a ver, eles estão a fazer aquela negociata, ou uma lei contra a liberdade de imprensa’, e é sempre uma maneira de provocar o Zé Povinho ou o levar a reagir, portanto é uma mensagem de cidadania”, argumentou o responsável.

O diretor do museu acrescentou: “É uma mensagem para estarmos sempre atentos, a Democracia tem de se construir todos os dias, temos de estar sempre atentos, podem vir outras forças políticas que derrubem a democracia, e essa é a grande mensagem do Zé Povinho, a Democracia constrói-se com o nosso esforço, o nosso trabalho, e uma das coisas com que o Bordalo se preocupa com o Zé Povinho é que é preguiçoso e analfabeto, não se preocupa em aprender a ler, e é através do trabalho e do ensino que o Zé Povinho é capaz de tornar a sua vida melhor”.

João Alpuim Botelho referiu-se à figura do Zé Povinho como “uma criação genial” de Bordalo Pinheiro por “ser praticamente intemporal e se aplicar a várias situações”.

“Ele critica os políticos, mas cada situação dos políticos, não diz ‘os políticos são todos iguais’ ou ‘os políticos são todos corruptos’, como os populismos que ouvimos hoje em dia. O Zé Povinho, pela mão do Bordalo, critica situações concretas”, afirmou.

A figura do Zé Povinho foi imediatamente apropriada, nomeadamente por outros artistas que “ainda em vida do Bordalo o desenharam e continuou depois da sua morte”.

Bordalo Pinheiro era “muito generoso como pessoa, e teria muito interesse e gosto em ver a sua figura a ser usada por outros”.

O Zé Povinho surgiu na Monarquia Constitucional, passou a I República, o Estado Novo – “tendo sido muito censurado” -, “explodiu com o 25 de Abril, e continua a ser usado”.

“Com o advento da República [1910], o Zé Povinho, que era essencialmente republicano e contra a monarquia, aparece numa série de jornais como monárquico a lutar contra a República”, relatou o diretor do museu.

Alpuim Botelho realçou a forte ligação do Zé Povinho à causa republicana, associado sempre à personagem a “Cartilha Maternal”, de João de Deus, recordando que a instrução era um dos postulados do republicanismo.

No âmbito do 150.º aniversário do Zé Povinho, o Museu Bordalo Pinheiro inaugura, em 21 de julho, a sua nova exposição permanente, que incluirá uma sala dedicada exclusivamente ao Zé Povinho.

Em novembro, é inaugurada uma exposição temporária constituída por ‘Zés Povinhos’, desde o século XIX até à atualidade, com curadoria do ‘designer’ Jorge Silva.

Está previsto a colocação ‘online’ no sítio do Museu Bordalo, a 12 de junho, de uma página dedicada aos 150 anos, expondo os resultados de uma investigação, e com várias galerias de imagens com Zés Povinhos, desde o século XIX, passando pela 1.ª República, pelo 25 de Abril e até à atualidade.

A cidade de Caldas da Rainha, à qual Bordalo esteve ligado, celebra também o 150.º aniversário com uma exposição no Centro Cultural e de Congressos a partir de 28 de junho. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo com “Lusa”


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Macau - Clube Militar assinala 150 anos e testa “a capacidade de se reinventar”

O Clube Militar de Macau comemora 150 anos num ano “extremamente difícil” devido à pandemia e que testa mais uma vez a capacidade de a instituição se reinventar, salientou à Lusa um dos membros da direcção, Manuel Geraldes


O Clube Militar passou por momentos “extremamente difíceis ao longo da sua História”, o edifício, “de grande e rara beleza”, chegou a fechar, “serviu de casa de refugiados” da guerra e de repartição de finanças, “mas sempre soube ressuscitar” e a assumir-se como ponto de encontro entre as comunidades locais e lusófonas, frisou Manuel Geraldes.

O ex-presidente da instituição privada admitiu “momentos menos felizes” desde a fundação do Clube Militar, mas destacou sobretudo as “fases de grande glória”, que contam histórias de encontros de culturas, chinesa e portuguesa, das forças armadas com a sociedade civil.

Desde a sua fundação, em 1870, existem momentos que Manuel Geraldes faz questão em enumerar, orgulhoso da forma como a associação conseguiu, à semelhança de Macau, preservar a História onde habitam tantas culturas diversas.

Alguns exemplos: Em 1912, recebeu o primeiro Presidente da República Popular da China, Sun Yat Sen, que “veio a Macau para estar com os seus amigos, que lhe tinham dado apoio”, lembrou.

Na década de 60 do século passado, após servir de alojamento a refugiados da guerra e de funcionar como repartição de finanças, resgatou “a sua atividade normal como ponto de reunião e convívio, não só para oficias das forças armadas, (…) mas também com a sociedade civil”.

Em 1975, novo teste à capacidade de adaptação, após “as forças armadas terminarem a sua missão em Macau”, cuja renovação dos estatutos ajudou a abrir ainda mais a instituição à sociedade, com o clube a abraçar, gradualmente, a vocação “ao longo dos anos 80 e 90 como um importante ponto de encontro da comunidade portuguesa”, acrescentou.

Era assim quando os portugueses chegavam, sobretudo aqueles que “vinham em comissão para Macau”. Encontravam ali “a sua primeira casa, as suas primeiras refeições, o primeiro ponto de encontro com os amigos”, é assim, também hoje, quando apesar da pandemia o clube “não fechou um único dia”, importante, por exemplo, para alguns dos sócios “terem alguém para conversar” e não ficarem confinados “apenas à solidão da sua casa”.

Um dos períodos marcantes viveu-se pouco antes da transição para a China do antigo território administrado por Portugal. “Era preciso cuidar do futuro e (…) em 1991 chega o general Rocha Vieira, como último governador português de Macau, que tinha prestado aqui serviço e teve essa sensibilidade, a par do seu pensamento estratégico, (…) grande obreiro que proporcionou à direção que era presidida por mim, a grande renovação deste clube”, recordou o dirigente.

Em 1995, a sede foi para obras, patrocinada em termos financeiros na sua quase totalidade “por grandes empresários e amigos chineses”, o edifício cresceu, manteve a fachada histórica que “não nega o século e meio do clube, e fez-se outro conceito de clube muito mais aberto a pouco tempo da transição”, explicou, com a inauguração a ser presidida pelo então Presidente, Mário Soares.

A resposta à transição é feita com mais uma renovação dos estatutos. “Já sem tutela militar, mantivemos o nome, com o apoio dos nossos amigos chineses, o que é admirável”, destacando-se a partir daí o acesso de chineses e civis aos cargos dirigentes, disse.

O primeiro presidente civil foi eleito em 1998 e, dois anos mais tarde, o primeiro líder da direcção chinês, Edmundo Ho, “que teve depois de resignar após ser eleito chefe do Governo de Macau”, lembrou Manuel Geraldes.

Um ano depois de ter celebrado os 20 anos da transferência de Macau para a China, o Clube Militar celebra agora os seus 150 anos, num momento que trouxe muitos e inesperados desafios à instituição, muito por culpa da pandemia. “Foi um ano muito difícil para toda a gente, (…) mas para o clube em si, na sua estrutura e conceito de sustentabilidade, foi tremendo”, disse. “Temos alguma preocupação, mas por outro lado estamos confiantes (…) que em conjunto vamos encontrar uma solução”, mostrou-se convicto o dirigente da instituição, onde o restaurante celebra diariamente a gastronomia portuguesa e a sede acolhe regularmente exposições e concertos. João Carreira – Agência Lusa in “Ponto Final”