Um estudo recente destaca como Timor-Leste tem procurado mais investimentos da China como estratégia de desenvolvimento económico e de superação de isolamento geopolítico
O trabalho realizado por William Vogt,
membro executivo sénior de política no think-tank The Digital Economist,
e por Guilan Massoud-Moghaddam e Robert Miles Chong da Universidade de
Georgetown, explora a crescente presença da China em Timor-Leste e o impacto
dessa relação no desenvolvimento tecnológico do país.
“A presença chinesa em Timor-Leste ocorre num momento em
que três outras nações — Índia, Austrália e Portugal — fornecem ajuda em
tecnologias de informação e comunicação, sendo a Austrália o contribuinte mais
ativo”, destacou o estudo.
Segundo os autores, a abordagem da política externa
tecnológica da China é concebida para desafiar os interesses geopolíticos
australianos no Sudeste Asiático, investindo fortemente em áreas essenciais
para o desenvolvimento digital timorense, incluindo eletrificação e
conectividade.
Timor-Leste tem procurado integrar-se plenamente na
Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), embora enfrente escrutínio
devido a fragilidades económicas, com “cerca de 42% dos timorenses a viver
abaixo do limiar da pobreza e o fundo soberano do país em declínio”.
A adesão, apoiada diplomaticamente por Pequim, abriria
acesso ao fundo de cooperação ASEAN–China e a “benefícios económicos
tangíveis”, com os investigadores a descrever que Timor-Leste pode estar a
recalibrar a sua política externa, privilegiando novas parcerias.
Para os autores, a presença crescente da China em
sectores-chave — telecomunicações, energia, agricultura e defesa — sugere que
Díli procura superar o isolamento geopolítico e construir uma economia digital
funcional. “A China encontra-se bem posicionada para competir oferecendo o
trabalho de campeões nacionais como a Huawei, em conjunto com outros
fornecedores de energia e tecnologia”, assinalaram.
A companhia China Nuclear Industry 22nd Construction
Company, por exemplo adjudicou um contrato de 360 milhões de dólares para
melhorar a rede elétrica nacional timorense, enquanto a gigante tecnológica
Huawei se afirma como fornecedora central de infraestrutura de Internet.
A Austrália continua a ser um parceiro relevante,
financiando cabos de fibra ótica que substituem a dependência timorense de
conexões via satélite, contudo Pequim tem avançado em áreas sensíveis, apoiando
a Rádio e Televisão de Timor-Leste na digitalização de conteúdos e promovendo
um sistema de transmissão televisiva digital terrestre. “A China aumenta o
acesso dos timorenses a essas transmissões, criando um destino potencial para
propaganda chinesa”, alertam Vogt, Massoud-Moghaddam e Chong.
O estudo descreve também que a cooperação sino-timorense
não se limita ao setor civil, pois em julho de 2024 os dois países acordaram
reforçar intercâmbios militares e investir em áreas como formação de pessoal,
tecnologia de equipamentos e exercícios conjuntos.
Para os autores, esta aproximação reflete uma mudança
significativa na política externa timorense, com o presidente José Ramos-Horta
a alinhar-se cada vez mais com os interesses chineses. “Díli pode ser
persuadida a continuar a aprofundar suas relações com Pequim como estratégia
para o desenvolvimento económico contínuo e para a superação do isolamento
geopolítico”, acrescentou o estudo.
Além de apoiar a Marinha timorense e integrar Timor-Leste
na sua Rota Marítima da Seda, Pequim tem investido em tecnologia agrícola,
introduzindo arroz híbrido e métodos como a tecnologia Juncao, aplicados em
zonas agrícolas com suporte digital.
Segundo o estudo, os financiamentos são frequentemente
canalizados através do China Exim Bank, permitindo a Díli aceder a crédito para
obras públicas e projetos digitais, uma parceria é vista como alternativa às
limitações de capital interno, dependente das receitas de recursos naturais.
Ao mesmo tempo, o comércio eletrónico
é visto como caminho para o desenvolvimento económico moderno e Díli poderá
colher frutos ao integrar-se no mercado digital regional, recorrendo às
plataformas e produtos chineses. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”
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