O Governo chinês está a atrair cientistas e investigadores de todo o mundo com salários competitivos e laboratórios de ponta, num momento em que disputa com os Estados Unidos a liderança tecnológica global
Para captar talento internacional, a
China lançou programas como o “Mil Talentos”, que oferecem remunerações
elevadas e bolsas generosas a especialistas em áreas consideradas estratégicas,
sobretudo ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A progressão na
carreira e o acesso a infraestruturas avançadas também são fatores de atração.
“Na Europa estava preso no gargalo dos pós-doutoramentos.
Fiz quatro, mas a minha experiência já estava muito mais avançada do que o meu
perfil académico refletia”, disse à Lusa o investigador espanhol David
Fernández-Blanco, que trabalha no Instituto de Ciência e Engenharia do Mar
Profundo (IDSSE), na cidade costeira de Sanya, na ilha tropical de Hainan.
“Aqui fui avaliado pelos meus méritos e ofereceram-me uma posição mais alinhada
com a minha experiência”, acrescentou.
Fernández-Blanco é investigador associado no IDSSE, um
centro dedicado ao estudo do oceano profundo, área considerada estratégica
pelas autoridades chinesas. “O instituto tem três navios de investigação
oceanográfica e dois submersíveis tripulados”, disse. “Para quem trabalha em
investigação do oceano profundo, isso é fundamental”.
O acesso a equipamentos avançados permite realizar
investigação diretamente no local onde os dados são recolhidos, algo que nem
sempre é possível noutras instituições, salientou.
Não existem dados oficiais sobre o número de cientistas
estrangeiros que se mudaram para a China ou de investigadores chineses que
regressaram ao país. Ainda assim, notícias sobre académicos de alto nível que
optam por trabalhar no país têm-se tornado mais frequentes.
A cadeia televisiva norte-americana CNN contabilizou pelo
menos 85 cientistas que trabalhavam nos Estados Unidos em instituições de topo
e que passaram a integrar laboratórios chineses a tempo inteiro desde o início
de 2024.
Entre eles estão o especialista em fármacos contra o
cancro Lin Wenbin, antigo investigador da Universidade de Chicago que se juntou
à Universidade Westlake, e o matemático Qian Hong, que regressou à China após
mais de 40 anos nos Estados Unidos, deixando um cargo de professor catedrático
na Universidade de Washington para integrar a mesma instituição no leste do
país.
Observadores classificaram este fenómeno como uma “fuga
de cérebros inversa”, que pode favorecer a China num período de crescente
competição com os Estados Unidos pelo domínio das indústrias do futuro.
Linglin Zhang, que ingressou na China Europe
International Business School (CEIBS), em Xangai, após cerca de 20 anos nos
Estados Unidos, afirmou ter sido atraída por uma investigação “mais pragmática”
e pelo “excelente acesso a empresários e profissionais”.
Para Fernández-Blanco, outro factor importante é a
autonomia científica. “Existe uma abordagem pouco interventiva. Há linhas de
investigação definidas pelo instituto, mas ninguém está constantemente a
verificar o que estou a fazer”, disse.
Alguns programas de recrutamento oferecem financiamento
inicial significativo, que pode chegar a um milhão de yuan para criar um
laboratório e formar equipas de investigação.
Entre as áreas que recebem mais investimento estão o
espaço profundo e o oceano profundo, duas fronteiras científicas que exigem
equipamentos caros e projetos de longo prazo. “São duas das grandes prioridades
científicas neste momento”, afirmou Fernández-Blanco.
Além do interesse científico, estas áreas têm também
importância estratégica. No oceano profundo existem depósitos minerais que
poderão ser explorados, enquanto no espaço alguns asteroides podem conter de
metais raros em abundância.
Apesar das oportunidades, barreiras
linguísticas e culturais continuam a ser um desafio para investigadores
estrangeiros na China. “Há formas de trabalhar diferentes das que conhecemos na
Europa”, disse Fernández-Blanco. “Às vezes é preciso aceitar como as coisas
funcionam”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”
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