Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Marca Lusofonia

Ao invés de uma política cultural feita de remendos, é preciso criar um nome que se imponha internacionalmente, que ombreie com a anglofonia, a francofonia, a hispanofonia. Roma não se fez num dia, e a língua portuguesa também não

Houve duas coisas que quase coincidiram no tempo: em Setembro de 2024, Mia Couto recebeu o prémio Feira Internacional do Livro de Guadalajara; em Fevereiro do ano seguinte, fui à livraria McNally Jackson em Nova Iorque.

Fiquei contente com o prémio dado ao autor moçambicano. Não escondo o meu clubismo na literatura, e o meu clube é a língua portuguesa. Isto não passa por nacionalismo nem por manifestação identitária bacoca: passa pelo facto de ser leitora e escritora, e por aprender em primeiro grau com quem faz na minha língua. Ainda era criança e já lia Mia Couto – era um dos meus a direito, aprendia com ele. E o mesmo com outros, de Vergílio Ferreira a Almeida Garrett, de Saramago a Jorge Amado, de Júlio Dinis a Érico Veríssimo, de Nelson Rodrigues a Pepetela. Quando se é criança e já se sabe que a vida passará pela escrita, os adultos que já têm romances feitos são um misto de guardiões da prosa, inovadores da técnica, líderes espirituais e professores. Mia Couto, entre os seus pares da prateleira, era tudo isso para mim. Lembro-me até do meu espanto com os neologismos – miacoutices, portanto. Cheguei lá pela primeira vez através da literatura moçambicana, não das aulas de Português. E adorei que fosse possível inventar palavras, eu, que tanto adorava dicionários, que eram para mim quase fonte de reverência: não apenas os lia à procura de verbetes que me agradassem, como decorava alguns significados como se fossem uma lei. Teria uns 11 anos e explicava assim a filosofia: “ciência geral dos princípios e das causas”. Ou a hipocrisia: “demonstração de bondade que não corresponde ao que alguém pensa ou sente”. Ou cinismo: “filosofia dos cínicos, impudência”. E, como estas, muitas outras palavras que lia nos livros mas não conseguia entender senão através do dicionário.

Ora, aí com uns 11 anos, também quis miacoutar. E, num teste, metendo num texto uma biblioteca, descrevi-a como o que me era: inconsumerável. Uma mistura entre incomensurável e algo que não se podia consumir, não se podia ler até ao fim. Achei que tinha feito uma grande coisa. Achei que, se o Mia Couto podia, eu também devia poder. Isto de inventarmos palavras em português não ia unir-nos uns aos outros? O resultado do teste chegou e a minha palavra inventada saiu-me rasurada. A professora considerou-a um erro e tirou-me um ponto. Rebati: a literatura provava que podíamos inventar palavras. A professora rebateu: claro que não podíamos inventar palavras, só podíamos usar as que existiam. Um neologismo seria um erro ou a língua a voar à solta? Para uma escritora em potência, claro que era a segunda – claro que devia dar um ponto extra, não um ponto a menos. Sobretudo, achei que aquele traço a vermelho era um atentado à língua e ao Mia Couto, que por ser meu escritor era meu amigo, apesar de nem saber que eu existia, muito menos que me dava estes desgostos. Meu escritor, não sei se é preciso explicar, porque eu era leitora dele.

Tudo isto é contexto. Anos depois, eis o prémio FIL nas mãos de um lusófono. E eu contente, a achar que era um prémio que estava na minha equipa. Dias depois, a minha equipa marcou-me um auto-golo: o autor considerou que o prémio não o distinguia apenas a si, mas também ao continente africano. Ou seja, o prémio seria festejado, de forma colectiva, por outros. A equipa que eu cogitava, e que para mim era um território linguístico, talvez fosse vista como identidade imposta noutros lados, que escolhiam, como pertença, um lugar sócio-político, continental, que não pertence ao imaginário do Velho Continente.

Talvez tenha sido essa a primeira vez em que percebi, de caras, que a lusofonia como marca, como equipa, não era um dado adquirido por todos os falantes. É evidente que leio muita literatura traduzida, mas ler lusófonos é-me sempre mais intenso: trata-se de ler em primeira voz quem trabalha com a mesma língua que eu. Escrever não é só contar uma história. É fazê-lo recorrendo a um instrumento, que no caso é um instrumento comum, mesmo que venha cheio de maningues e chapas e matolas (Moçambique), kambas, musseques e jinguibas (Angola), cafunés, dengos e gambiarras (Brasil), mambos rijos, ecobocas e biquakuebos (São Tomé e Príncipe), e por aí fora.

Aquilo fez-me comichão uns meses. Depois, fui de viagem a Nova Iorque. Entrei na livraria McNally Jackson, em SoHo. Havia secções inteiras dedicadas a literatura anglófona, francófona, hispanófona. Não havia lusófona. Ou seja, a lusofonia não aparecia como marca, como equipa. Poder-se-á dizer, como já ouvi, como talvez até já o tenha dito, que a lusofonia é o colonialismo de esquerda, mas a verdade é que existe enquanto território linguístico, independentemente do passado atroz que conduziu à disseminação da língua portuguesa, que pertence em igual medida a cada um dos falantes. O potencial da partilha da língua é infinito: a facilidade que temos em nos lermos e entendermos uns aos outros, malgrado os passados diferentes, os presentes antagónicos, as vidas de pernas para o ar, dá-nos um lugar de privilégio, de acesso ao mundo, que um italiano ou um alemão, já para não falar de um islandês ou de um sueco, nunca terão. E não é que eu não entenda a ideia de “identidade” africana ou sul-americana; há identidades que nascem por oposição, e dificilmente alguém dirá que se sente europeu. Nunca me passaria pela cabeça, em matéria de distinção literária ou autoral, considerar-me “europeia”. Dir-me-ia, em primeiro lugar, lusófona, e só em segundo portuguesa. E se, por um lado, é evidente que a literatura enquanto marcação social vai ter mais pontos de contacto – por exemplo, vidas, matérias ou preocupações semelhantes – entre Espanha e Portugal, também o é que, do ponto de vista técnico, no exercício de observar e até tentar repetir a criatividade de países que escrevem na mesma língua, já de forma transformada (que português se atreveria a dizer jobar ou chuinga, ou a transformar pequeno-almoço em pequeno-almoçar?), o campo da lusofonia mune qualquer leitor – e principalmente qualquer escritor – de ferramentas estilísticas que não pode ir buscar a mais lado nenhum.

Tudo isto para dizer que me parece que a prioridade do Ministério da Cultura deve ser criar a Marca Lusofonia. Ao invés de uma política cultural feita de remendos, é preciso criar um nome que se imponha internacionalmente, que ombreie com a anglofonia, a francofonia, a hispanofonia. Roma não se fez num dia, e a língua portuguesa também não. E, sobretudo, a produção cultural não pode servir só para circular entre vizinhos, tem de chegar aos vizinhos dos que moram longe, seja através da valorização da língua como campo comum, de apoio a publicação e a tradução ou de programas de intercâmbio, isto entre a literatura, o teatro, o cinema, a música. Aliás, a própria União Africana tem o português como uma das línguas oficiais de comunicação, mas privilegia o inglês, o francês, o árabe e o swahili.

Na McNally Jackson, quase tive vontade de arrumar os livros, de meter o Fernando Pessoa ao lado do Jorge Amado. Não foi por acaso que Eça e Machado de Assis trocaram cartas sem recurso a tradutor. Há um património linguístico que não está a ser usado para projectar a língua fora de portas. E por isso o portugês, traduzido ou não, espalha-se por prateleiras avulsas, a ver se alguém lhe faz a ligação, se organiza o património comum. Uma língua falada por centenas de milhões, em três continentes diferentes, dá uma biblioteca inteira – e logo inconsumerável. Ana Pedrosa – Portugal in “Semanário Expresso

____________________

Ana Bárbara Pedrosa – Natural de Vizela, onde nasceu em 1990, é autora de Lisboa, chão sagrado (2019), Palavra do Senhor (2021), Amor estragado (2023), também publicado no Brasil, e Viagens com o Mehdi (2024) – todos com chancela Bertrand Editora. Escreve textos para vários órgãos de imprensa com regularidade, assina crónicas no jornal Mensagem de Lisboa e na revista Sábado e faz crítica literária no Observador. É doutorada em Ciências Humanas, mestre em Estudos Portugueses, pós-graduada em Linguística e em Economia e Políticas Públicas e licenciada em Línguas Aplicadas. Viveu e estudou em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos. Nos tempos livres, estuda línguas, faz jiu-jítsu e scuba diving – e viaja. In “Wook”



Sem comentários:

Enviar um comentário