Há vidas que se contam em linha reta. E há outras - como esta - que só podem ser compreendidas em fragmentos.
Nasci antes da independência de São Tomé e Príncipe.
Carrego memórias de um tempo que já não existe e de sonhos de um tempo que
ainda não chegou.
Fragmentos de Memórias não é apenas um livro. É uma
tentativa de reunir, entre ruínas e iluminações, aquilo que fomos, aquilo que
perdemos e aquilo que, apesar de tudo, insistimos em ser.
Michel Montaigne escreveu” eu mesmo sou a matéria do meu
livro”. E é nesse território onde o autor se torna objeto e a vida se
transforma em reflexão que este texto habita.
Não há aqui a pretensão de oferecer respostas
definitivas. Há, antes, a humildade de quem aprendeu que viver, é acima de tudo
interrogar-se. A vida não se revela aos que têm certezas absolutas. Revela-se
aos que aceitam duvidar. A dúvida, tantas vezes confundidas com fraqueza, pode
ser uma forma superior de equilíbrio. É ela que nos afasta do fanatismo das
convicções rígidas e nos devolve a nossa condição humana: imperfeita,
inacabada, em constante construção. Neste sentido, o espírito de Hermann Hesse
atravessa essas páginas. Em obras como Sidarta, o caminho não aparece
como linha reta, mas como uma travessia feita de erros, ruturas e reencontros.
Este livro nasce dessa travessia. Não é uma celebração do
sucesso, nem um lamento contínuo pelas quedas. É sobretudo um testemunho: o
testemunho de alguém que olhou para dentro de si e aceitou o desconforto de não
encontrar respostas fáceis. De alguém que percebeu que a maturidade não está em
saber mais, mas em duvidar melhor.
Vivemos num tempo que exige certezas rápidas, opiniões
firmes, identidades sólidas. Mas o ser humano não é sólido. É contraditório,
mutável, fragmentado. E talvez seja exatamente nessa fragmentação que reside a
sua verdade mais honesta.
Escrever sobre nós mesmos nunca é simples. Exige
permanecer diante do que somos o tempo suficiente para não mentir.
Durante muito tempo, pensei que viver era ter razão. Hoje
sei que viver é aprender a escutar, a hesitar, a voltar atrás. É aprender a
duvidar não como fraqueza, mas como respeito pela complexidade da vida.
Há uma geração, a que nasceu depois da independência, que
hoje pergunta: valeu a pena? Não fujo a esta pergunta.
Quem viveu antes… sabe o que foi sonhado. Quem vive agora
sabe o que ficou por cumprir. E eu, como muitos de nós, encontro-me no meio
disto tudo: entre o que fomos … e o que ainda não conseguimos ser.
Este livro não responde à pergunta se valeu a pena. Mas
também não a evita. Permanece diante dela.
Hermann Hesse escreveu sobre caminhos interiores, sobre
perder-se para encontrar-se.
Mas eu aprendi que nem sempre nos perdemos sozinhos. Por
vezes perdemo-nos como país.
E, se houver caminho de volta, teremos de o fazer juntos.
Cada fragmento aqui reunido é uma tentativa de encontrar
sentido. Mas é também o reconhecimento da sua impossibilidade plena. Viver é,
inevitavelmente, não compreender tudo e ainda assim continuar.
Se alguma sabedoria atravessa estas páginas, ela não está
nas respostas que oferecem, mas nas perguntas que se recusam a morrer:
perguntas sobre o amor, o tempo, o poder, a solidão, e a memória. Perguntas que
não pretendem encerrar-se, mas abrir caminhos.
Talvez seja esse, no fim, um dos sentidos da vida: não
alcançar uma verdade final, mas aprender a habitar a incerteza com serenidade.
Ao chegar ao fim, talvez o leitor descubra que não tenho
respostas para lhes dar.
Tenho apenas isto, fragmentos de uma vida, sem filtros e
sem defesas.
E talvez seja esse o ponto mais próximo a que conseguimos
chegar da verdade. E se, no meio destas páginas, alguém encontrar um pedaço de
si mesmo, então talvez tenha valido a pena.
Muito obrigado. Rafael Branco – São Tomé e Príncipe in “Téla Nón”
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