Escritor
Lourenço Cazarré mergulha na criação poética voltada para a literatura infantil
I
Na língua portuguesa, a literatura
infantil ou literatura para a infância remonta ao século XIX com experiências
feitas por autores consagrados como Eça de Queirós (1845-1900), Antero de
Quental (1842-1891) e Guerra Junqueiro (1850-1923), em Portugal, e Monteiro
Lobato (1882-1948), Carlos Jansen (1829-1889) e Figueiredo Pimentel (1869-1914),
no Brasil, que abrangem narrativas, poemas, rimas e textos dramáticos, que
sempre cumpriram papel fundamental na transmissão de informações importantes
desde os primeiros anos de vida.
Apesar do que se vê hoje em dia com crianças e jovens que
passam quase todo o dia a olhar um aparelho celular ou telemóvel, a educação ainda
é (e, provavelmente, sempre será) um processo que se constrói em salas de aula,
a partir da capacidade pessoal do professor ou da professora de colocar em
prática aquilo que pode ser resumido no pensamento do educador e filósofo
brasileiro Paulo Freire (1921-1997), para quem educar sempre foi um ato de
libertação, diálogo e consciência crítica.
É nesse contexto que se pode ler dois livros recentes do escritor Lourenço Cazarré – um deles escrito em parceria com o próprio filho – que, com certeza, muito devem contribuir para a aprendizagem da leitura e da escrita, fatores imprescindíveis para o desenvolvimento da linguagem e da descoberta do mundo pela criança e pelo adolescente, no qual o professor exerce um papel fundamental como mediador, germinando em todos a vontade de ler e escrever.
Um deles é A bruxa e o poeta
(Campinas, Cedet/Textugo, 2023), de autoria de Juliano e Lourenço Cazarré, que
traz ilustrações de José Luiz Gozzo Sobrinho e que, segundo o autor, começou
com uma brincadeira. “Fui criando a bruxa maluca e quando mostrei o esboço ao
meu filho, ele resolveu entrar na brincadeira”, conta. É uma história em versos
em que uma bruxa vai se encontrar com o poeta, tradutor e jornalista gaúcho
Mário Quintana (1906-1994), que foi um dos expoentes da segunda geração do
Modernismo brasileiro. “É que eu e Juliano somos quintanistas fanáticos”,
justifica.
Nascida em Alegrete, a velha bruxa Picucha, que odiava água
e chuveiro, “decide partir para a cidade grande e provar que ainda consegue
matar todos de susto... até encontrar o poeta”, como se lê na contracapa da
obra. Em Porto Alegre, a bruxa passou apertada, foi viver debaixo de uma ponte,
“onde passou por um susto ao ver, de gente, um monte”. Escrito em versos de pé
quebrado, com rimas ocasionais, o poema atrai o leitor ingênuo desde a primeira
linha, como se comprova nestas linhas: “Picucha ficou com pena / daquela
sofrida gente / então num passe de mágica / fez surgir lá um banquete. / A
turma se empanturrou, / cantou e se divertiu, / Picucha virou a bruxa / mais
amada do Brasil”.
Ao final, pode-se saber o que foi o fim da bruxa Picucha,
no firmamento: “Picunha virou estrela, / linda, pura e sem jaça, / nas noites de muita lua / cintila em toda
vidraça. / Ela até trocou de nome / para Estrela Aldebarã, / primeira a brilhar
de noite / pra morrer só de manhã.
Como
se vê, trata-se de uma história que pode atrair e encantar também o leitor de
mais idade.
II
Já Cordel do Negrinho do Pastoreio
foi criado com base numa lenda reaproveitada pelo escritor igualmente sul-rio-grandense
João Simões Lopes Neto (1865-1916), principal autor da corrente literária
regionalista do Brasil, que procurou valorizar as tradições do Sul. A história
se passa em meados do século XIX, quando as estâncias do Rio Grande do Sul
ainda não eram demarcadas e muitos trabalhadores eram escravizados. E o
Negrinho do Pastoreio, ao perder uma corrida a cavalo, é supliciado até a morte
por um patrão violento e cruel.
Segundo Cazarré, a origem desse seu largo poema deu-se em
2014, quando Kledir Ramil, da dupla de cantores Kleiton e Kledir, convidou-o a
escrever uma letra de música sobre Pelotas, cidade natal dos três. Em seguida,
ambos criaram a letra da música “Mistérios do bule monstro
e brincando na Praça dos Enforcados”
(2019), que pode ser localizada na Google. “Foi, então, que Kledir me
apresentou a redondilha maior, que eu não conhecia. Comecei, então, a caminhar
pela poesia, levado por ele, autor de lindíssimas letras”, recorda. “Depois,
durante a pandemia de covid-19 (2020-2023), isolado em casa, resolvi passar
para a linguagem de cordel essa bela lenda de João Simões Lopes Neto”, diz.
Para se ter uma ideia da linguagem usada neste poema,
seguem estes trechos: “Na casa havia um Negrinho / Que servia o chimarrão /
Era gentil o Negrinho / E tinha um bom coração / Ai que lindo era o Negrinho! /
Mais escuro que carvão (...)”.
Mais adiante, depois que o personagem cai em desgraça com o
seu patrão, lê-se: “(...) Os açoites foram muitos / Porém não se ouvia um
pio / Negrinho sofreu calado / Mas quando por fim caiu / O Pampa foi sacudido /
Por tremendo arrepio / Negrinho caiu deitado / Em cima de um formigueiro / “Sou
homem de muita sorte” / Pensou logo o fazendeiro / “Não preciso usar enxada /
Vai ser comido inteiro”.
Três dias depois, o Negrinho reapareceu inteiro. Assustou o
fazendeiro e virou lenda no Pampa, como se lê nestes versos: “Diz o povo que
até hoje / Sempre risonho e sarado / O Negrinho corta os campos / Os arroios e
os banhados / Sobe até o alto dos cerros / Corre para todo o lado (...)”.
Como se constata aqui, a exemplo do abc nordestino, o poema
foi elaborado a partir de uma história pouco verídica, mas que estaria
enraizada nos corações e nas mentes das gentes, com uma versificação que facilitou
a sua organização. Enfim, como diz o professor Massaud Moisés (1928-2018), em A
criação literária. Poesia (São Paulo, Cultrix, 2003, pág.
156), “a literatura de cordel pertence antes ao universo da prosa de ficção que
da poesia, à semelhança dos contos em versos, como Canterbury Tales
(século XIV), de Chaucer (?-1400), Contos e Novelas
(1665), de La Fontaine (1621-1695), e Contos em Versos
(1909), de Artur Azevedo (1855-1908)”.
III
Nascido em Pelotas, Lourenço Cazarré (1953) é descendente
de portugueses de Cinfães que emigraram para o Brasil ao final do século XIX.
Fez o curso ginasial em Pelotas e formou-se radiotécnico “com a nota mínima”,
ao mesmo tempo em que devorava impiedosamente todos os livros da seção infantil
da Biblioteca Pública da cidade. Em 1975, graduou-se em Jornalismo pela Universidade
Católica de Pelotas.
Depois de breve período como operador de telex, trabalhou
um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais Correio do
Povo, Folha da Manhã e Folha da Tarde,
que pertenciam à empresa Caldas Júnior, de Porto Alegre. Em junho de 1976,
transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter
da sucursal local do grupo Caldas Júnior, antes de se transferir para a redação
do jornal O Estado.
Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª
Bienal Nestlé, em 1982, com o romance O calidoscópio e a
ampulheta (1983), em que conta as desventuras de um ditador livremente
inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954). Em 1977, transferiu-se para o Distrito
Federal, onde passou a trabalhar como redator do Jornal de Brasília.
Por essa época, já escrevia contos que publicava em jornais
e revistas. Em 1979, começou a escrever Agosto, Sexta-Feira,
Treze, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao
Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa Oeste da
Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os
prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Dessa época, são os contos
da primeira edição de Enfeitiçados todos nós (São Paulo,
Melhoramentos, 1984).
Em 1983, em Brasília, passou a trabalhar em uma assessoria
de imprensa na Câmara dos Deputados. Em seguida, tendo sido aprovado em
concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre
o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira
e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns
meses a função de chefe de editoração da Editora da Universidade de Brasília
(UnB), até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de
redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar. Atualmente, é
colaborador do jornal Correio Braziliense. Hoje, vive em
Brasília.
Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde
romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o
romance A longa migração do temível tubarão
(2008), as novelas Estava nascendo o dia em que
conheceriam o mar (2011) e Os filhos do
deserto combatem na solidão (2016), as coletâneas
de contos A arte excêntrica dos goleiros (2004)
e Exercícios espirituais para insônia e incerteza
(2012) e as novelas juvenis Kandimba (2019) e Amor e guerra
em Canudos (2021).
Em 2018, com Kzar, Alexander, o louco
de Pelotas (Curitiba, Editora Paraná, 2018), venceu na categoria
romance o Prêmio Paraná de Literatura, promovido pela Biblioteca Pública daquele
Estado. É autor também de A fabulosa morte do
professor de Português (Belo Horizonte, Editora Yellowfante,
2026) e Um velho velhaco e seu neto bundão
(Belo Horizonte, Editora Yellowfante, 2024), ambos classificados como
literatura infantojuvenil.
Juliano Cazarré (1980), nascido em Pelotas, estudou artes
cênicas na Universidade de Brasília (UnB). Atuou em peças de teatro,
telenovelas e filmes. Publicou, em 2012, Pelas janelas, poemas,
seu primeiro livro. Seu trabalho favorito como ator é inventar as vozes dos
heróis e vilões quando conta histórias para os seus cinco filhos, com os quais
vive em São Paulo. Esta foi a primeira vez que escreveu uma história com o pai.
José Luiz Gozzo Sobrinho, nascido em Jundiaí, a partir de
13 anos mudou-se com a família para Campinas, onde começou a trabalhar na
indústria, mas sem deixar de lado o sonho infantil de se tornar ilustrador, o que
se daria dez anos mais tarde. Depois de muitas caricaturas, mascotes e
logotipos e de uma participação no 35º Salão de Humor de Piracicaba, teve a
oportunidade de ilustrar A bruxa e o poeta.
Laerte Silvino, nascido em Recife, é ilustrador, designer
gráfico, quadrinista e autor de livros infantis. Já ilustrou mais de 50 livros de
literatura infantojuvenil, alguns deles escritos por ele mesmo, quase sempre
com inspiração na cultura popular nordestina. Também pratica a xilogravura. Adelto
Gonçalves - Brasil
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A bruxa e o
poeta, de Juliano e Lourenço Cazarré, com ilustrações de José
Luiz Gozzo Sobrinho. Campinas-SP, Centro de Desenvolvimento Profissional e
Tecnológico (Cedet)/Textugo, 38 páginas, R$ 28,90, 2023. Cordel do
Negrinho do Pastoreio, de Lourenço Cazarré, com
ilustrações de Laerte Silvino. São Paulo, Edições Paulinas, 48 páginas, R$
37,83, 2023. E-mails: livros@cedet.com.br;
editora@paulinas.com.br
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Nova Fronteira, 1999), Barcelona
Brasileira (Lisboa, Nova
Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp)/Academia Brasileira de Letras,
2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp,
2015), Os Vira-Latas da Madrugada
(José Olympio Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O Reino, a Colônia e o
Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019),
entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on
Global Trends (Robbin Laird, editor, 2024), publicado os Estados
Unidos e na Inglaterra. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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