Numa nova visita a São Paulo para
matar saudades, não pude deixar de dar meu passeio verde pela Cidade Matarazzo,
uma área arborizada junto da avenida Paulista, onde se pode imaginar estar numa
floresta. Ou que sentir o verde ou viver no verde é luxo e privilégio de uma
elite. Mas é preciso se reconhecer: uma elite ambientalista.
Diante de tanto respeito pela natureza com árvores das
diversas regiões brasileiras, é quase impossível não se lembrar e não se fazer
um paralelo com outro tipo de empreendimento imobiliário, no Alto da Lapa, onde
a construtora Tegra fez justamente o contrário: destruiu o Bosque dos
Salesianos com autorização do prefeito Ricardo
Nunes. O mesmo Nunes já havia autorizado o corte de 384 árvores no Butantã.
De um lado, um empreendimento investe no respeito da
natureza, vai buscar longe vegetação e árvores para valorizar uma região. Do
outro, não existe nenhuma avaliação da riqueza natural representada pelas
árvores centenárias, nem respeito pelo clamor da população das vizinhanças do
Bosque dos Salesianos.
Deixando a Cidade Matarazzo e sua floresta protegida,
cheguei logo à avenida Paulista e a tentação de visitar mais uma vez o MASP, com suas exposições atuais e
seu acervo. Esse acervo conheço desde minha época de estudante, quando ia ao
antigo museu ainda na rua 7 de Abril.
Mas, no caminho, um pequeno grupo me lembra haver a
guerra dos EUA e Israel contra o Irão, com um cartaz perguntando "Haverá
paz no mundo? Fazem parte das chamadas Testemunhas de Jeová. Um ramo
original derivado dos evangélicos norte-americanos, criado em 1872, cujos
missionários vieram ao Brasil em 1920 e hoje são um milhão e quatrocentos mil.
A mensagem dos Testemunhas é centrada na chamada Batalha
do Armagedom, profetizada pelo apóstolo João, quando na ilha de Patmos no mar
Egeu. Armagedom seria a última guerra, pois significaria a intervenção de Deus
numa guerra mundial. Essa crença é também partilhada pelos cristãos, embora sem
a mesma ênfase do Testemunhas. Entretanto, o clima de guerra atual parece estar
excitando os próprios evangélicos, esperançosos de ser chegada a época do
retorno de Cristo.
Essa situação, segundo denúncia do Daily Mail
publicada pelo Brasil 247, estaria ocorrendo
junto dos soldados e militares norte-americanos participando da guerra contra o
Irão. Sabendo-se da influência dos evangélicos junto aos trumpistas,
"comandantes militares associados ao governo do presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, foram acusados de transmitir mensagens religiosas a
tropas americanas em meio ao conflito com o Irão, afirmando que a guerra faria
parte de um plano divino ligado ao “Armagedom”.
A imprensa francesa também repercute
essa utilização das profecias do Apocalipse pelos comandantes trumpistas para
que os soldados entrem em combate julgando participar de uma guerra divina do
Bem contra o Mal. Do lado do Irão, os combatentes iranianos acreditam que se
tornarão mártires se morrerem na luta contra os EUA e Israel. Rui Martins –
Suíça
__________
Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
Sem comentários:
Enviar um comentário