Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Brasil – Produtores apresentam-se na maior feira internacional de frutas

O Projeto Frutas do Brasil, parceria da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (ABRAFRUTAS) com a Agência Brasileira de Promoção de Investimentos (Apex-Brasil) para promoção das exportações do setor, coordenará a delegação brasileira na feira internacional “Fruit Logistica”, que começou hoje e terminará no próximo dia 5 de fevereiro, em Berlim, Alemanha.

Maior feira de frutas do mundo, o evento reunirá cerca de três mil empresas expositoras e 65 mil visitantes do mundo inteiro durante os três dias. A delegação brasileira contará com 20 estandes. Nesses espaços, estarão expostas empresas brasileiras exportadoras de uvas, melões, melancias, limões, mamões, abacaxis, laranjas, maçãs, bananas, abacates e mangas, além de polpas congeladas e hortaliças.

O pavilhão brasileiro no evento será decorado com painéis e banners que estampam a marca “Frutas do Brasil”. Criada pelo projeto para promover e ser a cara e a assinatura das frutas brasileiras para o mundo, a marca ressalta a riqueza de nossa fruticultura e tem feito parte de toda a comunicação visual de estandes brasileiros em feiras e convenções internacionais.

Mais informações aqui. In “Apex-Brasil” – Brasil

Macau - Rede online oferece aulas de Português, Espanhol e Chinês

José Pedro Farinha e Bernardo Mendia, fundadores da Federação Sino PLPE, querem facilitar a comunicação entre várias associações a um nível multi-sectorial através de uma rede de contactos online

Constituída no final de Março de 2015, a Federação Sino Países de Língua Portuguesa e Espanhola (Sino PLPE) está agora apostada em promover o intercâmbio linguístico via internet, oferecendo aulas de português e espanhol para empresários asiáticos e chinês para ocidentais, através de um programa online. Os países lusófonos e hispânicos eram o alvo prioritário inicial deste projecto, mas as necessidades de acesso ao mercado internacional por parte de associações de outros países africanos e orientais fizeram com que a Federação Sino PLPE estendesse a oferta a empresários asiáticos.

O objectivo da Federação passa por “promover sempre eventos, seminários, encontros, convidar as associações de vários países a participar em feiras e exposições para que consigamos atingir um nível de interacção” entre as diversas partes, salientou José Pedro Farinha, um dos fundadores da Federação Sino PLPE.

José Pedro Farinha e Bernardo Mendia decidiram sediar a Federação Sino PLPE em Macau, por entenderem que o território é o “melhor ponto de ligação” entre o Ocidente e o Oriente, desde logo pela posição que ocupa no mapa.

Cerca de um ano depois de ter sido formalmente criada, a Federação conta actualmente com oito dezenas de associados. “Ao fim de um ano ter 80 empresas associadas é um feito!”, considera José Pedro Farinha.

Reforçando o balanço positivo, Bernardo Mendia recorda, por sua vez, que o primeiro evento oficial da Federação Sino PLPE atraiu a participação de “pessoas da América Latina, do Brasil e muitos de África”.

De acordo com José Pedro Farinha, a Federação não tem quaisquer fins lucrativos. “Ganhamos dinheiro com as nossas empresas e não com a Federação”, assevera.

Entre as empresas e associações que aderiram à Sino PLPE, os dois empresários destacam a Associação de Estudantes Luso-Macaenses, a MAFFA (Macau Air Freight Forwarding (Logistics) Association), ou a AMICACHI (Associação de Amizade Cabo Verde-China), entre outras. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau

Brasil - Portos participam do combate ao Aedes Aegypti


O ministro Helder Barbalho, da Secretaria de Portos da Presidência da República (SEP), decidiu enviar nesta segunda-feira (01/02) ofício a todos os portos do Brasil e entidades representativas do setor portuário pedindo maior rigor no combate aos criadouros do mosquito Aedes Aegypti, vetor de transmissão das doenças dengue, zika e chikungunya, entre outras.

O ministro Helder Barbalho inicia na próxima segunda-feira, dia 15/02, um tour pelos portos brasileiros para acompanhar pessoalmente as ações de combate à propagação do mosquito. O primeiro porto a receber a visita de Helder Barbalho será o do Rio de Janeiro, na segunda-feira, dia 15/02. O segundo porto será o de Belém, no dia 16/02. O ministro supervisionará ações de limpeza do terreno e de esclarecimentos sobre o ciclo reprodutivo do Aedes Aegypti, bem como as doenças que ele causa aos trabalhadores e servidores portuários. Nessa atividade a Secretaria de Portos contará com a ajuda de vários ministérios.

O documento assinado pelo ministro será enviado tanto aos portos públicos e quanto aos privados, e fará uma convocação de união de esforços de todos aqueles que trabalham no setor portuário brasileiro.

A estratégia da secretaria também buscará envolver as comunidades do entorno das áreas portuárias.

O combate ao mosquito já é uma ação feita rotineiramente nos portos brasileiros. Seguem alguns exemplos do que já vem sendo feito, em alguns casos desde 2014:

No Porto do Itaqui, no Maranhão, além de mutirão, já foi feita palestra nas dependências do porto por representante da Secretaria Municipal de Saúde para esclarecimento de dúvidas sobre prevenção e ensinamentos sobre como fazer armadilhas contra o mosquito da dengue a partir de garrafas PET.

O Porto de Manaus inseriu em seu site um pop-up com mensagem de combate ao Aedes Aegypti. Esse pop-up serve de link para mais informações sobre medidas de prevenção, doenças transmitidas por ele, sintomas e tratamento do zika vírus.

A Companhia Docas do Rio de Janeiro, distribui folhetos às embarcações para que elas façam a prevenção contra os criadouros do mosquito, além utilizar nas dependências do porto larvicidas e vaporização com produtos contra o inseto e de evitar o acúmulo de água.

Na Bahia, há a divulgação de cartilha na Internet e Intranet, por meio de mala direta para dirigentes, chefias e empregados, além de inspeção diária em busca de focos nos locais com maior risco.

A Companhia Docas do Pará trabalha em parceria com a Anvisa e com a Prefeitura de Barcarena. Também contratou uma empresa especializada que levanta os pontos críticos dentro das unidades portuárias, classifica e monitora os mesmos, além de fazer serviços de combate a vetores como o Aedes Aegypti.

Nos Portos de Paranaguá e Antonina, o Projeto Porto Escola ministra palestras sobre o tema, há divulgação de material informativo, inclusive nas ilhas.

O Porto de Itajaí, em Santa Catarina, promove campanhas com a comunidade e mutirões voluntários como o realizado para recolhimento do lixo disperso nas margens do rio Itajaí.

O Porto de Vitória realiza campanha permanente de conscientização e educação para funcionários e moradores da comunidade onde o porto está inserido.

A Companhia Docas do Rio Grande do Norte aciona fiscais da Anvisa constantemente para realizar inspeções sanitárias e conta com programa de controle e monitoramento de vetores, realiza aplicação de inseticidas em prédios e áreas adjacentes.

Em Pernambuco, o Porto de Suape tem um núcleo de prevenção da dengue e outras doenças relacionadas ao mosquito e uma extensa lista de ações. No Porto do Recife, uma empresa especializada combate o Aedes Aegypti e monitora as áreas de maior risco de proliferação.

No Porto de Maceió, são recolhidas semanalmente amostras para análise em laboratórios e está sendo preparado material de divulgação para o site do porto.

A Companhia Docas de São Paulo cobra a implantação obrigatória de Núcleos de Prevenção à Dengue por todas as arrendatárias, consignatárias e locatárias do Porto de Santos, sujeitas a sanções previstas em resolução da própria Codesp.

No Porto de Pecém, no Ceará, também há inspeções constantes aos locais mais vulneráveis. In “Secretaria de Portos” - Brasil

Portugal – Caravela portuguesa registada na praia do Guincho

Foi registada na manhã do passado dia 01 de fevereiro de 2016 uma caravela portuguesa (Physalia physalis) no areal da Praia do Guincho. A mesma espécie já tinha sido avistada pela mesma pessoa a 11 de janeiro passado. Esta é a primeira ocorrência para o mês de janeiro e uma das poucas ocorrências registadas para fevereiro na Península Ibérica. Esta espécie é frequentemente confundida com medusas (ou alforrecas) devido ao seu aspeto gelatinoso mas é, na verdade um sifonóforo. É constituído por um conjunto de vários indivíduos simbióticos (zooides), cada um com a sua função específica, que funcionam todos juntos como um único organismo.

A caravela portuguesa apresenta longos tentáculos providos de umas estruturas venenosas, os cnidócitos, que libertam um veneno forte, quando em contacto com outros organismos. As toxinas libertadas por estes organismos causam reações cutâneas e dor intensa, mesmo quando os organismos já se encontram mortos. Assim sendo, é aconselhado que os utilizadores das praias mantenham a distância, não toquem nos organismos.

As caravelas portuguesas são organismos cosmopolitas que habitam águas quentes e temperadas de todos os Oceanos, no entanto encontram-se maioritariamente em águas oceânicas. Em Portugal ocorrem com mais frequência nos Açores e Madeira e foram avistadas na costa continental com alguma raridade, embora existam registos recentes.

A ocorrência de caravelas portuguesas é no entanto difícil de prever. A sua distribuição é fortemente influenciada por fenómenos atmosféricos e oceânicos, especialmente pelo vento, que transporta estes organismos através do seu pneumatóforo, uma vesicula cheia de gás que se assemelha a um balão flutuante.

Assim sendo, novas ocorrências destes organismos ou ocorrências mais frequentes poderão estar associados a processos de alterações climáticas, tais como o aumento da temperatura ou alterações dos padrões dos ventos. O IPMA solicita a que todos os que avistem estes organismos nas praias que façam uma foto e indiquem o local onde o encontraram e enviem uma mensagem para plancton@ipma.pt. Também gostaríamos de contar com voluntários que se ofereçam para uma colaboração mais consistente. Instituto Português do Mar e da Atmosfera - Portugal

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Brasil - Insegurança: até quando?

SÃO PAULO – O incêndio que atingiu, no dia 14 de janeiro, 20 contêineres refrigerados que armazenavam produtos químicos no pátio alfandegado da Localfrio, na margem esquerda do porto de Santos, em Guarujá, não alcançou as proporções daquele que ocorreu na margem direita, no Distrito Industrial da Alemoa, em abril de 2015, mas serviu para deixar mais uma vez à mostra a flagrante falta de infraestrutura do País em quase todos os segmentos. Se um incêndio de pequenas proporções provocou tantos transtornos, é de se imaginar o que ocorreria num acidente de grandes proporções.   

Seja como for, os dois incêndios mostram a situação de calamidade pública que a Baixada Santista pode chegar, se vier a ocorrer um acidente de grandes proporções no porto, seja incêndio ou vazamento. Se o principal porto do País opera em condições tão precárias, sem plano de emergência que mereça a confiança da população, não se pode esperar que os demais portos brasileiros possam oferecer melhores condições.

Por enquanto, o Corpo de Bombeiros faz o monitoramento do local, enquanto especialistas da Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) preparam o trabalho de auditoria sobre as causas do acidente. Um laudo parcial da Localfrio está prometido para 30 dias, a contar de 17 de janeiro.

Até o momento, as causas do acidente não foram divulgadas. De qualquer modo, levando em conta a orientação dada pela Cetesb para que a Localfrio venha a segregar resíduos de dicloro que não queimaram e a sua cobertura para evitar o contato com águas da chuva, o que poderia desencadear nova reação química, provocando emissão de fumaça e, obviamente, transtornos à população, isso pode indicar que, em tese, os procedimentos não teriam sido os mais adequados.

Diante disso, o sentimento que fica é de impotência diante da inevitabilidade dos fatos. Mesmo que a auditoria aponte as causas e possíveis culpados, não se acredita que as autoridades venham a criar condições para um enfrentamento mais rápido diante de situações críticas. Também não se sabe até agora que as punições e multas aplicadas em casos anteriores tenham resultado em efetivas medidas de segurança e para melhorar a qualidade de vida da população. Assim, o mais provável é que, em semanas, o recente desastre caia no esquecimento e as prometidas medidas reparadoras também. Até quando a população terá de conviver com tamanha insegurança? Milton Lourenço – Brasil

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Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fernando Pessoa, empregado de escritório

Para aqueles que hoje medem a importância de um homem pelo saldo de sua conta bancária, decididamente, Fernando Pessoa não teria sido alguém que pudesse dar lições de empreendedorismo

Em janeiro de 1926, aos 38 anos de idade, com alguma experiência no campo econômico e comercial, o poeta Fernando Pessoa (1888-1935) entendeu que tinha conhecimentos suficientes para editar uma publicação mensal ligada a esses dois setores, a “Revista de Comércio e Contabilidade”, que fundou em Lisboa em parceria com seu cunhado Francisco Caetano Dias. Mas, olhando sem “parti pris”, o currículo que o poeta carregava era a de empreendedor desastrado e de empregado de escritório, um guarda-livros, tal como o seu heterônimo Bernardo Soares, que, se experiência tinha, seria só para ensinar a arte do trabalho contábil. Na verdade, Pessoa ganhava a vida mais como tradutor de inglês para o português, o que lhe permitia desempenhar a atividade para várias casas comerciais, aproveitando-se da larga dependência de Portugal em relação a Inglaterra.

Como empreendedor, de fato, nunca teve êxito: a própria publicação dedicada ao comércio e à contabilidade teria vida efêmera, apenas seis números, assim como a editora e tipografia Íbis, que, instalada em 1907 no bairro da Glória, mal chegou a funcionar. Em 1921, fundou a Editora Olisipo, de ruinosa carreira comercial. Nela publicou os seus “English Poems I e II” e “English Poems III”, e “A Invenção do Dia Claro”, de Almada Negreiros (1893-1970). Em 1923, a Olisipo lançou o folheto “Sodoma Divinizada”, de Raul Leal (1886-1964), que foi alvo de um ataque moralizador da Liga dos Estudantes de Lisboa e apreendido por ordem do governo, junto com as “Canções”, de António Botto (1897-1959).

Pela Olisipo, Pessoa pretendia lançar uma série de livros importantes — a maioria traduzida (ou com tradução prevista) por ele mesmo, talvez para evitar maiores custos. Na acanhada Lisboa de sua época, com meia dúzia de livrarias e editoras, esse também não seria um ramo muito promissor para quem não dispunha de maiores recursos para empreendimentos mais ousados num mercado restrito. E já ocupado por algumas casas tradicionais, que se acotovelavam no Chiado e na Baixa.

Levando em conta, porém, a boa formação que Pessoa recebera na África do Sul, de 1896 a 1905, seria de esperar que tivesse tido uma carreira profissional de maior sucesso — “a vida que podia ter sido, e que não foi”, como diria o poeta Manuel Bandeira (1886-1968) —, e não a obscura vida de empregado de escritório, o que lhe permitiu apenas viver em quartinhos em casas de familiares ou alugados na rua da Glória, no largo do Carmo, nas ruas Passos Manuel, Pascoal de Melo, D. Estefania e Almirante Barroso, entre outros locais, até que se transferiu de vez para a casa da família na rua Coelho da Rocha, 16, onde viveu os últimos 15 anos de sua vida  e hoje está a fundação que leva o seu nome.

Para aqueles que hoje medem a importância de um homem pelo saldo de sua conta bancária, decididamente, Fernando Pessoa não teria sido alguém que pudesse dar lições de empreendedorismo ou organização comercial. Nem mesmo ânimo — ou, quem sabe, maiores recursos financeiros — teve para estudar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, quando retornou de sua temporada africana, como pretendia. Talvez tivesse tido uma boa carreira como professor, se houvesse primeiro superado a timidez, o que nunca fez.

Ao passar os anos de sua formação em Durban, na África do Sul, à época colônia britânica, em companhia da mãe e do padrasto, o jovem Pessoa teve a oportunidade de estudar na Convent School, uma escola privada (liceu) e, depois, na Commercial Schoool, de 1902 a 1903, e na Durban High School, sob a orientação de Mr. W.H. Nicholas, homem de personalidade notável que, possivelmente, serviu de modelo para o seu heterônimo Ricardo Reis.

Na Durban High School, fez um curso de contabilidade e comércio, depois de ter sido um aluno brilhante no liceu nas disciplinas de Humanidades, como se pode constatar no livro “Fernando Pessoa na África do Sul: a Formação Inglesa de Fernando Pessoa”, de Alexandre E. Severino (Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1983). Se a sua educação havia sido essencialmente humanista até àquela altura, o que o teria levado à mudança tão brusca? Provavelmente, porque sua família entendia que um curso comercial lhe daria conhecimentos mais práticos para ganhar a vida. Até porque na colônia britânica não havia, àquela altura, escolas superiores, o que se deu só a partir de 1918. Se quisesse (e pudesse), teria de fazer o curso superior em Londres.

Fosse como fosse, foi em seu arsenal de conhecimentos comerciais que Fernando Pessoa se baseou quando decidiu escrever textos para a “Revista de Comércio e Contabilidade”. São textos um tanto ingênuos, do ponto de vista comercial, que incluem uma visão do mundo da publicidade, mas que trazem a marca inconfundível do literato que os produziu. Tanto que levou o ficcionista, poeta e jornalista português António Mega Ferreira, ex-editor do “Jornal de Letras”, a recolhê-los em “Fernando Pessoa. O Comércio e a Publicidade” (Lisboa, Cinevoz/Lusomedia, 1986).

São estes textos que agora ganham versão em italiano em “Fernando Pessoa: Economia & Commercio: Impresa, Monopólio, Libertà” (Perugia, Edizioni dell´Urogallo, 2011), traduzidos pelo professor Brunello De Cusatis, da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade de Perugia,  autor de uma esclarecedora introdução. O volume inclui ainda o iluminado ensaio-posfácio “O Evolucionismo Comercial de Fernando Pessoa”, do poeta, tradutor e ensaísta Alfredo Margarido (1928-2010), recentemente falecido, a cuja memória o livro é dedicado.

Tudo o que se disse linhas acima se pode constatar neste trecho: “Um comerciante, qualquer que seja, não é mais do que um servidor do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama o seu “lucro”, pela prestação desse serviço. Ora toda gente que serve deve, parece-nos, buscar a agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve (...); partindo não do princípio de que os outros pensam como nós, ou devem pensar como nós (...), mas do princípio de que, se queremos servir os outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar como eles” (FERREIRA, 1986, p. 46).

Pode-se a partir deste texto concluir que Pessoa pensava um pouco longe para o seu tempo. Afinal, naqueles anos em que a publicidade ainda começava a se impor, poucos fabricantes levavam em conta pesquisa de mercado antes de lançar qualquer produto. Funcionavam como senhores todo-poderosos que seguiam só a própria intuição e gosto - o público que tratasse de consumir o que ofereciam. Até porque a concorrência era mínima. E Pessoa já advogava que se devia consultar o gosto do consumidor antes de colocar qualquer novidade no mercado. Era um pensamento revolucionário.

Foi a partir de 1925 que Pessoa passou a trabalhar também na área de publicidade e propaganda, ao conhecer Manuel Martins da Hora, que seria o fundador da Empresa Nacional de Publicidade, a primeira agência de publicidade de Portugal. Mas a experiência não foi bem sucedida, como lembra De Cusatis na introdução. Foi por volta de 1926-1927 que o poeta imaginou um slogan para a Coca-Cola, que então estava sendo lançada em Portugal, representada pela firma Moitinho d´Almeida Lda., empresa para a qual o poeta prestou serviços como profissional autônomo.

O slogan dizia: “Primeiro estranha-se. Depois entranha-se”. Há um jogo de palavras que se pode chamar de inventivo ou genial, mas, por trás, havia certa sugestão que hoje nem mesmo um publicitário muito ousado seria capaz de formular, ainda mais pensando nas conveniências de seu cliente. Em outras palavras: o que se queria dizer com aquilo é que, primeiro, a bebida teria um gosto um tanto estranho para a época, mas que, depois, com a continuidade, poderia oferecer certo êxtase, obviamente em função de sua toxicidade.

O resultado foi óbvio: não durou muito para que a autoridade sanitária de Lisboa proibisse a distribuição do produto e determinasse o seu sequestro. Convenhamos: do ponto de vista comercial, foi um desastre. A tal ponto aquilo ficou marcado que a Coca-Cola só haveria de voltar ao mercado português quase meio século depois, ao final da ditadura fascista (1928-1974), cujo grande ícone foi o professor António de Oliveira Salazar (1889-1970). Olhando com olhos comerciais, o slogan só poderia ter saído da cabeça de um inconsequente. Só mesmo um nefelibata seria capaz de imaginar que aquilo não poderia trazer consequências funestas para seu cliente, ainda mais na sociedade portuguesa de então em que as forças do fascismo começavam a cobrir a nação com suas asas funéreas. Isso não significa dizer que o slogan não tenha qualidades.

Pelo contrário. Preenche todos os requisitos modernos que se exigem de um bom slogan publicitário. Tanto que, recentemente, em Portugal, por ocasião do lançamento do “Frize”, uma água limão-cola, o slogan foi recriado para: “Primeiro prova-se; depois aprova-se”, como observou Andréia Galhardo, da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Fernando Pessoa (UFP), do Porto, no artigo “Sobre as práticas e reflexões publicitárias de Fernando Pessoa” (http://bit.ly/hStOCn).

É claro que, ao que se saiba, até hoje, ninguém escreveu isto com todas as letras, até porque Pessoa foi canonizado e entronizado no altar dos pais da pátria portuguesa, ainda que, em vida, nunca ninguém lhe tenha dado muita importância. Até para publicar seus versos sempre encontrou dificuldades, o que o levou a acumular seus escritos numa arca, que foi o inestimável espólio que legou à Literatura Portuguesa.

Mas, seja como for, Pessoa não pode ser tomado como gênio das finanças ou da publicidade — até porque, nestes dois campos de negócios, a genialidade está diretamente ligada à capacidade de fazer os clientes obterem lucros e, obviamente, também lucrar muito com eles. Nem por isso se pode deixar de reconhecer em Pessoa, depois da leitura destes textos didáticos, um funcionário de boa formação comercial e econômica, mas daí a imaginá-lo um mago das finanças ou do mercado é ir além da conta.

Não se pode deixar de assinalar também que Pessoa sempre foi um antidemocrata pagão, antiliberal e anticatólico, mais propenso a aceitar as ideias da maçonaria, o que fez no artigo “As Associações Secretas: análise serena e minuciosa a um projeto de lei apresentado ao Parlamento”, publicado em 1935 no “Diário de Lisboa”, e de certo esoterismo, características que De Cusatis ressaltou com sagacidade em “Esoterismo, Mitogenia e Realismo Político em Fernando Pessoa. Uma Visão de Conjunto” (Porto, Edições Caixotim, 2005).

Era um homem um tanto contraditório, uma alma angustiada, o que, provavelmente, o levou à dependência alcoólica. Mas era, sobretudo, um excepcional poeta. Educado em escolas que seguiam as mais puras tradições britânicas, se tivesse ido para Londres, em 1905, em vez de Lisboa, como era de sua pretensão, para tornar-se um poeta inglês, é de imaginar que teria tido melhor sorte na vida, mas aqui de novo adentramos o perigoso terreno do imponderável: “a vida que podia ter sido, e que não foi...” Adelto Gonçalves – Brasil in “Jornal Opção”



Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Moçambique – Camponeses locais convidados a depositarem excedentes nos silos de Lichinga

O Governo do Niassa convida os camponeses a depositarem os seus excedentes agrícolas nos cinco silos instalados na cidade de Lichinga.

O convite surge pelo facto de se ter constado que aqueles empreendimentos estão subaproveitados, mesmo sabendo que a província do Niassa possui cerca de quinhentas toneladas de excedentes agrícolas da última safra.

Neste momento, apenas se encontram nos silos mil toneladas de uma capacidade instalada de cinco mil.

O director Provincial da Indústria e Comércio no Niassa, Horácio Linaula, disse que neste ano, a Bolsa de Mercadorias, gestora dos empreendimentos vai iniciar a emitir certificados de depósito como títulos de crédito para atrair os produtores a armazenar os seus excedentes agrícolas nos silos.

Os cinco silos da cidade de Lichinga foram inaugurados em Dezembro de 2014 e para a sua construção, o governo em parceria com a União Europeia, desembolsaram dois milhões de dólares, o equivalente a cerca de sessenta milhões de meticais. In “Rádio Moçambique” - Moçambique