Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

UE-CPLP - Protocolo entre ACRAL e UE-CPLP foi assinado

UE-CPLP assinou no passado dia 29 de outubro de 2015, um Protocolo de Colaboração com a ACRAL - Associação do Comércio e Serviços da Região do Algarve, com o objetivo de criar sinergias para o desenvolvimento de oportunidades de negócios, nos países da CPLP

A ACRAL e a União de Exportadores da CPLP celebraram um Protocolo de Colaboração que tem como objetivo o reforço do apoio às empresas nas suas estratégias de internacionalização no espaço económico de língua portuguesa.

O acordo de colaboração prevê o acesso das partes e respetivos parceiros a uma plataforma “de empresa para empresa” (B2B) para a apresentação de produtos e serviços para exportação. 

No âmbito deste protocolo, a ACRAL e a UE-CPLP poderão coorganizar ações de networking one2one, feiras, salões e missões empresariais em todos os países-membros e observadores da CPLP. 

A promoção conjunta de ações de consultoria empresarial direcionadas para a exportação, assim como de formação em hard skills para exportação, são outras das iniciativas previstas no protocolo. 

O acordo prevê também a disponibilização aos parceiros de serviços de consultoria em Comunicação e Marketing, à elaboração e apresentação de projetos e para a análise de mercados e oportunidades. 

A ACRAL, recorda Victor Guerreiro, presidente da associação multissectorial, “tem como missão a defesa e promoção dos interesses dos empresários seus associados, contribuindo para o desenvolvimento sustentado da atividade empresarial do Algarve, enquanto o objetivo da UE-CPLP é divulgar e implementar sistemas de incentivo à exportação, com selo de segurança e qualidade, em todos os países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa: esta parceria é a simbiose dos interesses das partes”. UE-CPLP

Brasil – Acordo de Transporte Fluvial com o Uruguai

Acordo facilita transporte hidroviário entre Brasil e Uruguai

Um dos objetivos é a revitalização da navegação comercial de cargas entre Lagoa Mirim e Lagoa dos Patos

O acordo de Transporte Fluvial entre o Brasil e Uruguai, que tem por objetivo facilitar a navegação comerciais, entrou em vigor no passado mês de outubro. A medida vai permitir o acesso livre e não discriminatório de empresas mercantes (que atuam no transporte de cargas) dos dois países no transporte fluvial e lacustre (transporte realizado pelos lagos) realizado na Hidrovia Brasil-Uruguai.

Umas das iniciativas previstas é a revitalização da navegação comercial de cargas entre Lagoa Mirim e Lagoa dos Patos, além de intervenções em rios e portos que compõem a bacia da hidrovia Brasil-Uruguai.

A hidrovia Brasil-Uruguai abrange o setor brasileiro da Lagoa Mirim e seus afluentes, especialmente o Rio Jaguarão; o Canal de São Gonçalo, os canais de acesso hidroviário ao porto de Rio Grande; a Lagoa dos Patos e o Rio Guaíba, Rio Grande do Sul. No Uruguai, envolve a Lagoa Mirim e seus afluentes, especialmente os rios Jaguarão, Cebollatí e Tacuarí, além de portos e terminais reconhecidos pelos países.

O acordo binacional, assinado em 2010 e promulgado no dia 23 de outubro de 2015, estabelece o alcance da hidrovia, as autoridades responsáveis, além da criação de Secretaria Técnica integrada por funcionários por ambos os países para garantir a efetiva aplicação. A Secretaria Técnica prevista no acordo já está exercendo suas atividades. In “Portal Brasil” - Brasil

Angola – Porto Amboim terá novo terminal

Um consórcio liderado pela Sonangol e Sogester e participado também por privados vai construir um novo terminal portuário na cidade de Porto Amboim, no Cuanza Sul, Angola, anunciou o director-adjunto para a área técnica do Instituto Marítimo e Portuário de Angola (IMPA).

Manuel Arménio, que falava no Fórum de Negócios e de Investimentos da cidade do Porto Amboim, disse que o terminal será construído em três fases, entre 2017 e 2024, e ficará localizado na zona de Torre-do-Tombo, arredores da cidade, numa área de 80 hectares.

Numa primeira fase, o investimento será 500 milhões de dólares, valor que aumentará para 1 080 milhões quando o projecto estiver completamente concluído, acrescentou.

A nova infra-estrutura disporá de início de um cais com 500 metros de comprimento e fundos de -14,5 metros. Poderá assim operar dois navios em simultâneo, sendo que na fase final terá capacidade para sete navios.

O novo terminal de Porto Amboim deverá facilitar as exportações de algodão e café de Angola, disse o director do IMPA. In “Transportes & Negócios” - Portugal

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Galiza - Eduardo Maragoto eleito presidente da AGAL

Eduardo Maragoto, presidente da AGAL: «A língua é o melhor investimento para viabilizar a cultura galega»
«Na Galiza nom há nengum outro movimento social para o qual se modificassem tanto as expetativas de crescimento e êxito como o reintegracionista»

No passado sábado, dia 24 e outubro de 2015, a assembleia geral da Associaçom Galega da Língua (AGAL) elegeu Eduardo Maragoto novo presidente. Eduardo Sanches Maragoto (Barqueiro, Ortegal; 1976) é sócio da AGAL desde 2002, ainda que a sua vinculaçom à associaçom tem perto de duas décadas e mesmo seu pai foi já membro da associaçom.

Contodo, até há poucos anos a sua militáncia estivo mormente centrada noutros ámbitos do movimento reintegracionista, como o Movimento Defesa da Língua, a Assembleia Reintegracionista Bonaval, o periódico Novas da Galiza ou a Gentalha do Pichel. Ainda, é co-autor do Manual Galego de Língua e Estilo e dos documentários Entre Línguas e Em Companhia da Morte e atualmente ministra aulas de Português na Escola Oficial de Idiomas de Compostela.

Umha semana depois das eleiçons, entrevistamos no PGL Eduardo Maragoto para conhecermos de primeira mao tanto a sua valorizaçom do passado imediato da associaçom quanto dos projetos de futuro.

A assembleia em que foste eleito é a mais numerosa em que participaste? Sentiste o peso da responsabilidade?

Foi a mais numerosa para mim, sim, que sou sócio desde 2002 e já antes tinha estado vinculado, mas isso nom me fijo sentir o peso da responsabilidade. Foi o contrário. Teria sentido mais se as propostas que anunciamos e submetemos a debate nos dias prévios na Internet nom tivessem despertado o interesse dos sócios e sócias. Depois, quando soubemos o resultado, tam favorável, tivemos a sensaçom mui agradável de sentir-nos acompanhados no caminho que agora parece que encetamos, mas que realmente é o resultado de muitos anos de trabalho de outros conselhos.

Perante os sócios e sócias reivindicaste-te como reintegracionista «de gema», vinculado já de jovem e filho, aliás, de um sócio da AGAL. Com a perspetiva do tempo que se passou: mudou muito a AGAL? Mantém-se ainda fiel aos seus objetivos?

Nom mudárom os objetivos, mas mudárom muito as possibilidades de os alcançar. Penso que nom existe nenhum outro movimento social na Galiza para o qual se modificassem tanto as expetativas de crescimento e êxito. E aconteceu a umha velocidade vertiginosa. No outro dia, um dos meus grandes amigos nesta causa, o João Aveledo, lembrava-me como nos anos 90 o nosso objetivo era fazer cartazes em que aparecesse um nh ou um lh para que estes dígrafos fossem, simplesmente, vistos. Nos dias de hoje falamos de estender à sociedade um consenso de todas as forças parlamentares e o ensino do português cresce mais num ano que os sócios da AGAL, que também crescêrom, em 10. Isto logicamente mudou a maneira de trabalhar, mas nom o objetivo que toda a família reintegracionista, mui diversa e ao mesmo tempo mui unida dentro dessa diversidade, tem: viabilizar o futuro do galego através da convergência com o português no mundo. Se essa possibilidade nom existisse, talvez fosse diferente, mas o facto de irmos montados num cavalo ganhador dá-nos muita força e fai com que superemos qualquer adaptaçom a novos cenários ou qualquer discrepáncia com facilidade e até entusiasmo.

Até há relativamente pouco tempo, a tua militáncia reintegracionista foi noutros frentes, muito variados, aliás. O que te levou a, cada vez mais, te envolveres nas dinámicas da AGAL e ires reduzindo o teu trabalho nesses outros coletivos e projetos?

Bom, a verdade é que a militáncia política já a deixara há bastante tempo; limitou-se praticamente à época estudantil. O foco do meu trabalho foi quase sempre a língua. O Novas da Galiza primeiro e a Gentalha do Pichel fôrom as minhas prioridades desde o primeiro lustro deste século, mas sempre fazendo trabalhos muito relacionados com a língua. Porquê? Pois a resposta está em parte contida nas anteriores. Nenhumha causa merece mais atençom do que as outras, mas, como em todo na vida, para sermos realmente úteis devemos escolher e descartar, e para mim, se o objetivo é viabilizar a cultura galega, penso que o melhor investimento é a língua, sobretodo se entendida como algo proveitoso para quem a usa, como de facto a entende o reintegracionismo. A sociedade galega tem perdido bastante tempo neste sentido, mas agora as cousas estám a mudar e é preciso empurrarmos com muita força para nom perder esta oportunidade. A AGAL, junto com muitos outros coletivos, é um espaço excelente para o fazer, por ser de carácter nacional e porque há muita motivaçom e alegria e este é o primeiro indício de que estamos a fazer as cousas bem.

Nos últimos três anos foste o coordenador da área audiovisual da AGAL. A AGAL caraterizou-se no novo século pola aposta na Internet, mas tem havido um défice quanto à produçom de vídeos. Achas que se conseguiu corrigir um pouco esta carência? Como concebes o trabalho de futuro neste aspeto?

Creio que o reintegracionismo e a AGAL nom descuidárom os produtos audiovisuais na Internet. Há muitos pequenos vídeos realizados por reintegracionistas para divulgar a nossa mensagem. Porém, devemos reconhecer que nom é fácil estar à altura dos tempos neste campo. A qualidade técnica dos filmes que todas as pessoas veem nos dias de hoje melhora muito de dia para dia e os produtos deste tipo exigem muito tempo de dedicaçom para concorrer num mundo que se irá comunicar cada vez mais deste modo. Mesmo assim, o reintegracionismo soubo escolher bem as ideias para tirar o máximo produto a qualquer filme, usando-os na altura mais adequada para que tivessem muita incidência. A AGAL apareceu em dous momentos precisos com produtos que surpreendêrom (O Mundial fala galego e Decreto Filgueira) e outros coletivos tenhem feito muito trabalho no sentido de vincular à Lusofonia o galego oral. Eis a maneira de estar neste mundo, com boas ideias e qualidade… por enquanto, a quantidade nom deve obcecar-nos.

A parte do vosso programa que criou mais controvérsia foi a proposta da confluência normativa no seio do reintegracionismo. Se afinal se chegar a um acordo a respeito, vai mudar a nossa maneira de escrever o galego?

Nom, simplesmente vai mudar a nossa maneira de explicar à sociedade as pequenas discrepáncias morfológicas que temos, mas as pessoas nom serám obrigadas a aceitar novas formas diferentes nem adotar outros hábitos gráficos. Para que o entenda quem nom sabe nada deste processo, até a assembleia em que foi eleita a nossa candidatura, no reintegracionismo conviviam duas normas que a sociedade mal distinguia, havendo entre as duas mui poucas discrepáncias. Entre os utentes de umha norma ou a outra praticamente nom havia, tampouco, projetos culturais e de país diferentes, e muito menos para o momento atual; simplesmente diferentes formas de escrever certas terminaçons, com maior ou menor proximidade do português de Portugal e do Brasil. Agora a assembleia decidiu que nom vale a pena apresentar isso como sendo duas normas diferentes, que cabe todo no mesmo ‘livrinho’, que reconhecerá, como muitas outras normas linguísticas do mundo, diferentes variantes opcionais. Isto permite-nos integrar o crescente ensino do português dentro da nossa estratégia, pois a nossa norma nom excluirá nengumha forma gráfica do mesmo, e, ao mesmo tempo, usar um galego-português mais chegado à língua popular quando o desejarmos, pois as formas mais coloquiais galegas também estarám admitidas. Serám as pessoas as que, no futuro, se vaiam inclinando por umhas ou outras se realmente o veem necessário. Temos a certeza que nom nos arrependeremos deste passo, que foi umha grande mostra de madureza do reintegracionismo.

A outra grande pata do programa tem a ver com o aproveitamento da Lei Paz-Andrade. Quais vam ser as principais açons que promova a AGAL neste sentido?

O ensino será sem dúvida a principal, embora a menos visível. O reintegracionismo tem que empurrar o português, ao lado de outros organismos, para chegar ao máximo número de centros de ensino nestes primeiros anos de LPA. O contacto direto com os centros é fundamental aqui. Mas também devemos aproveitar a lei para intensificar os contactos humanos e sociais com a Lusofonia, a começar por promover as trocas audiovisuais, algo que nem sempre é fácil sem certo amparo institucional. Temos muitas ideias para isso e haverá áreas para ordenar as medidas concretas que levarmos a cabo. Por outro lado, também haverá umha linha estratégica para divulgar a dimensom mais lusófona das falas galegas, algo desconhecido para muitas pessoas que continuam a ver incompatíves a sua identidade galega com o reintegracionismo. Temos de quebrar isso.

Para finalizar, como definirias, em poucas palavras, as pessoas que integram o novo Conselho?

Somos dous reintegracionistas históricos, dous/duas escritores, dous tesoureiros, dous trabalhadores da saúde, quatro docentes, umha velejadora e mais 6 tripulantes com vontade de singrar por mares nunca dantes navegados. De quase todo temos a pares, como vês. Mesmo ourensanos, que vam quatro. Gerardo Rodrigues – Galiza in “Portal Galego da Língua”

domingo, 1 de novembro de 2015

Cinco novelas e algumas surpresas

                                                           I
Com uma linguagem realista que descreve sem nenhum disfarce não só o mundo cão das favelas cariocas como as histórias de algumas das muitas vidas desfeitas pelo turbilhão produzido pela intervenção militar na vida constitucional do País em 1964, Helio Brasil contempla o leitor em Pentagrama acidental (Rio de Janeiro, Ponteio, 2014) com cinco novelas bem estruturadas e arquitetadas, não fosse ele um experiente arquiteto e urbanista, além de professor universitário com vasto currículo e experiência.

No posfácio que escreveu para este livro, o também professor Ivan Cavalcanti Proença, mestre e doutor em Literatura Brasileira, autor de obras clássicas como A ideologia do cordel, Futebol e palavra e O poeta do eu, este último sobre o poeta Augusto dos Anjos (1884-1914), diz que Helio Brasil é, hoje, um dos mais importantes ficcionistas brasileiros, embora não seja dado a procurar a divulgação de seu trabalho na mídia nem frequentar a roda-viva oficial dos intelectuais.

“Seus livros, inclusive o artesanal texto-memória, recente, sobre a infância em São Cristóvão, constituem prova de seriedade intelectual, competência e extrema lucidez na seleção de temas que compõem sua obra”, diz.

Proença aponta a novela “Corte e costura” como o carro-chefe do volume, incluindo-a entre os textos mais significativos da contemporânea ficção brasileira. De fato, poucos ficcionistas hoje no Brasil teriam tanta habilidade verbal e gênio para produzir uma narrativa tão realista como esta, sem perder o compromisso com o fazer literário, tornando os seus personagens figuras inesquecíveis para o leitor.

A novela conta a história de um casal separado pelas consequências nefastas do golpe militar, que tanta infelicidade trouxe para muitas famílias brasileiras. Loreta, 20 anos, dona de casa que fazia da atividade como costureira um meio para reforçar o orçamento doméstico, vivia no Rio de Janeiro com Erasmo, jovem professor universitário, que, de repente, envolvido nas malhas do movimento de resistência pelas armas ao regime militar (1964-1985).

Erasmo é obrigado a abandoná-la sem qualquer aviso ou explicação, à época da Copa do Mundo de Futebol em 1970, auge da repressão política, partindo para o exílio na França, onde constituiria família, depois de um tempo de clandestinidade no Brasil e no Paraguai. Sozinha, depois de inutilmente procurar o corpo do marido desaparecido, Loreta refaz a vida com um vendedor de cadernos de corte e costura, o gaúcho Greco, 20 anos mais velho. O ponto alto da novela é o reencontro daquelas vidas desfeitas no cemitério em 1998, quase três décadas depois, por ocasião do enterro de Greco, vítima de mal súbito.

                                               II
Gustavo Barbosa, na apresentação deste livro, além de ressaltar a perspectiva realista de Helio Brasil na descrição de personagens, destaca a “densidade emocional dos protagonistas e a indicação precisa de quem são, de onde vêm e o mistério de seus destinos, quase sempre essa a motivação das histórias”. É o caso se constata na novela “O bem mais precioso”, que abre o volume, em que o autor reconstitui o dia-a-dia de uma família desestruturada que vive numa favela, descrevendo em detalhes o avanço do amante alcoólatra sobre a enteada de poucos anos de vida, até ser surpreendido pelo irmão da menina, que o despacha para o outro mundo. Eis um trecho:

“Através da cortina que protegia a cama da menina viu a silhueta de Mazinho dobrando-se sobre o corpo da criança, o braço espichado. O rapaz levou a mão à pistola. O estampido, embora não fosse um ruído estranho aos ouvidos dos moradores, chamaria a atenção dos moradores. Olhou em torno. Cravada na carne assada, a faca: lembrança e sugestão. Em gesto rápido, afastou a cortina e empunhando a arma com firmeza mergulhou-a no cachaço de Mazinho. Uma, duas, dez vezes, o sangue escurecendo o vermelho da camisa e fazendo desaparecer o enorme número branco. Um grunhido abafado pelo gargarejo mortal, jugulado pelo braço musculoso do jovem, o homem bambeou o corpo. A menina fez um leve movimento, ajeitou-se na cama e continuou o sono inocente”.

                                                           III
Esse estilo cruento, cheio de violências, erotismo e irreverência, que faz lembrar os contos de Rubem Fonseca (1925), também se constata na novela “Seis vezes seis. Noves fora: nada”, que reproduz a solidão da velhice de alguns tipos bem sucedidos na vida burguesa, não raro em meio a falcatruas, que se reúnem para participar de um bacanal no sítio do mais bem afortunado deles.

Já em “Os riscos da paixão”, o autor deixa à mostra também os seus dotes como historiador e arquiteto, reconstituindo a época do Império numa narrativa em que o protagonista é o adolescente José Augusto, que se apaixona por D. Domitila, a marquesa de Santos, exatamente a amante do imperador, D. Pedro I. Como bem observa Cavalcanti Proença, a história remete para outras “cenas de atração” clássicas na bibliografia de Machado de Assis (1839-1908), como as que se lê em contos como “Uns braços” e “Missa do galo”.

Por aqui, vê-se que o leitor que “descobrir” o ficcionista Helio Brasil, ainda que tardiamente como este resenhista, não vai se arrepender. São novelas (talvez algumas possam ser tidas como contos, ainda que extensos) que, realmente, envolvem o leitor da primeira à última linha, sem deixar de surpreendê-lo com finais insólitos. Ou seja, são novelas que estavam no “fundo da gaveta”, como diz o autor, mas que reúnem tudo o que se poderia esperar de um grande ficcionista. E que mostram que a Literatura Brasileira ainda pode oferecer boas surpresas.

                                                           IV
Helio Brasil (1931), nascido no Rio de Janeiro, é formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES), entre 1955 e 1984, tendo realizado projetos para as instalações do banco. Projetou edifícios comerciais, industriais e residenciais no Rio de Janeiro e em outros Estados. Foi professor da disciplina Projeto de Arquitetura, durante vinte anos, nas Universidade Santa Úrsula e nas universidades Federal do Rio de Janeiro e Federal Fluminense (UFF).

É autor de São Cristóvão – memória e esperança (Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2004); O anjo de bronze, contos (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 1994); A última adolescência, romance (Rio de janeiro, Bom Texto, 2004); Tempos de Nassau: um príncipe em Pernambuco, ficções, com vários autores (Rio de Janeiro, Bom Texto, 2004); e O solar da fazenda do Rochedo – memórias (edição dos autores, 2010). É co-autor com Nireu Cavalcanti de O Tesouro – O Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Pébola Casa Editorial, 2015). Participou ainda de coletâneas de contos das editoras Uapê, Bom Texto e 7Letras. Adelto Gonçalves - Brasil

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Pentagrama acidental, novelas, de Helio Brasil, com pósfácio de Ivan Cavalcanti Proença e apresentação de Gustavo Barbosa. Rio de Janeiro: Editora Relume Dumará/Ponteio, 200 págs., R$ 35,00, 2014. Site: www.ponteioedicoes.com.br
E-mail: ponteio@ponteioedicoes.com.br

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Portugal - Novo projeto para proteger o britango e a águia-perdigueira no Douro Internacional

Com início em julho de 2015, o LIFE Rupis é um dos mais recentes projetos financiados pela União Europeia a decorrer em território português e espanhol, mais concretamente na Zona de Proteção Especial (ZPE) do Douro Internacional e Vale do Rio Águeda e na ZEPA de Arribes del Duero. Com uma duração de 4 anos, este projeto pretende implementar ações que visam reforçar as populações de águia-perdigueira e britango no Douro transfronteiriço, através da redução da mortalidade destas aves e do aumento do seu sucesso reprodutor. O abutre-preto e o milhafre-real são espécies também beneficiadas por este novo projeto.

Coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), o novo projeto tem mais oito parceiros, a Associação Transumância e Natureza, a Palombar, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas, a Junta de Castilla y León, a Fundación Patrimonio Natural de Castilla y León, a Vulture Conservation Foundation, a EDP Distribuição e a Guarda Nacional Republicana. O projeto é cofinanciado pelo programa LIFE da União Europeia.

O britango e a águia-perdigueira estão em perigo de extinção, tanto em Portugal como em Espanha. O britango é o abutre mais pequeno da Europa. Está classificado como “Em Perigo” no território Europeu, onde as suas populações registaram um decréscimo de 50% nos últimos 40 anos, e uma elevada perda de habitat. A água-perdigueira tem um estatuto de “Quase Ameaçada” na Europa, devido ao decréscimo populacional e à pressão sobre as suas populações. Na área abrangida pelo projeto existem 13 casais de águia-perdigueira e uma das mais importantes populações de britango da Península Ibérica, com 116 casais.

O LIFE Rupis, destaca-se por ser um projeto transfonteiriço, com ações concertadas dos dois lados da fronteira. Entre as várias ações destaca-se a alimentação artificial dirigida ao britango, baseada numa rede de alimentadores fixos e móveis, que irá permitir o aumento da disponibilidade de alimento perto dos locais de reprodução da espécie. Pela primeira vez em Portugal vão ser marcados britangos com emissores de satélite, para seguimento à distância e investigação dos seus hábitos dispersivos e migratórios.

Serão desenvolvidas acções pioneiras de combate ao uso ilegal de venenos, com equipas da GNR que utilizam cães treinados, serão corrigidas linhas eléctricas com equipamentos anti-electrocussão e anti-colisão de aves dos dois lados da fronteira e será elaborado um plano de ação transfronteiriço para a conservação do britango. Serão geridos mais de mil hectares de habitats importantes para as espécies alvo e criada uma cerca móvel para alimentação de aves necrógafas, para reforçar territórios com escassez acentuada de alimento. O resultado esperado do projeto será o aumento da taxa de reprodução e a diminuição da mortalidade não natural destas aves, nesta região justamente conhecida pela sua riqueza faunística e beleza natural.

Domingos Leitão, coordenador do projecto, salienta que “para além dos resultados positivos que se esperam ao nivel das populações das espécies alvo, serão promovidas a agricultura e o pastoreio tradicionais, bem como os seus produtos e serviços.” “Ao longo dos quatro anos do projecto Rupis vamos promover e publicitar o Douro Internacional, através da visitação, do turismo de natureza e dos produtos de qualidade, que serão motores da conservação da natureza após o seu terminus.” In “SPEA” – Portugal


Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves – A SPEA é uma Organização Não Governamental de Ambiente que trabalha para a conservação das aves e dos seus habitats em Portugal. A SPEA faz parte da BirdLife International, uma aliança de organizações de conservação da natureza em mais de 100 países, considerada uma das autoridades mundiais no estudo das aves, dos seus habitats e nos problemas que os afetam

Galiza - A unidade do reintegracionismo

Todos temos, nalgum momento, reparado nessa linha do horizonte; num dia muito tranquilo, olhando a pé de praia, ali onde o mar se funde com as nuvens baixas… Para alguns, essa linha significa o começo da divisão entre esse mar e as nuvens à sua frente; para outros, simplesmente é o símbolo da sua unidade: início da fusão.

Alguns olham e deixam-se embalar. Alguns ainda tentam averiguar qual é essa essência única, que une ou separa — à vontade própria— céu e oceano. Há quem chama essa origem do Incognoscível, outras pessoas preferem mencioná-lo como Deus; alguém nomeia-o de Vacuidade, outras, outros, preferem chamá-lo Campo Unificado. Ainda há quem precise dizer-lhe O Inexistente… Na mesma, sem saber, eles estão a referir-se à mesma natureza virginal: aquela força que tem a capacidade de unificar ou dividir, dentro si própria (dentro da mesma essência).

No entanto, o ser humano não gosta da Unicidade — isso é mesmo bom—. O problema é quando confundimos unicidade com unidade. Este ser dotado de grande inteligência acha que para quebrar essa unicidade — que ele confunde com unidade— tem de elevar a diferenciação ate um conceito divergente.

Essa divergência tem um lado positivo ao criar polaridade e sublinhar os diferentes aspetos de uma mesma questão. Mas também tem um lado negativo ao gerar um contínuo multiplicar de tendências, que constroem uma inércia perpétua de separação, dentro da unidade. E apesar das múltiplas cisões, impossível resulta despegar as diversas visões da primogénita raiz, donde todas surgiram.

O reintegracionismo, durante anos quis transitar dentro dessa polaridade; desse lógico percorrer, necessário para aprendizagem dentro da experiência humana. Reivindicando, no entanto, ambos os caminhos o mesmo berço: idêntica fonte. Porém, nas dinâmicas de guerra impostas nas nossas sociedades — talvez, como afirmava Mircea Eliade, desde a sublimação paleolítica da figura do “caçador”—, a concorrência pela supremacia torna-se uma lógica muito ligada ao princípio da sobrevivência, portanto, ao medo. O medo a ficar marginalizado por quem detém o poder temporário. O medo à imposição pela força. O medo a desaparecer.

Por outro lado, a tendência natural humana à identificação e ao apego, complica ainda mais a capacidade de consenso. Ao identificarmos a nossa psique com nosso pensamento — o «penso, logo existo», de Descartes— ficamos emocionalmente atrelados às nossas construções mentais, que sempre são subjetivas. Desapegar-se dessa dinâmica também facilita um trânsito, a prol de um novo modo de olhar muito mais flexível, mais amplo, mais abrangente e mais em concordância com a continuada mudança — que se verifica por toda a rede natural da vida.

Dentro da velha compreensão de apego ao pensamento, ao se verificar uma mudança grupal sentimos um ataque à nossa integridade — se estivermos fora da posição maioritária—, criando uma certa tensão psicológica que vai em aumento — segundo a perceção da ameaça for sentida com maior intensidade.

Curiosamente, o verdadeiro motivo da mudança muitas vezes é proporcionar o material psicológico necessário para a aceitação da nova realidade. Fora da dinâmica de guerra, essa aceitação verifica-se com naturalidade e confiança, permitindo uma confluência das diversas visões e perceções… Ajudando à assimilação por parte de todo grupo, somando a diversas perceções ao todo; evitando cisões e confrontos. Ao retirarmos os condicionantes de medo, podemos observar com claridade o movimento contínuo — interior e exterior— que impele essa mudança.

A unidade, pois cimenta-se na confluência de diversos caminhos e diversas caminhadas, num clima de paz e compreensão mútua; mas aberto à necessidade de mudança.

O pequeno e muito ativo movimento de vanguarda que se tornou o reintegracionismo, tem pela frente importantes desafios de futuro que só serão possíveis realizar com coesão, flexibilidade, integração e unidade — dentro do respeito a diversidade—. Com confiança e sem medo.

No nível geoestratégico, muita pouca gente se tem apercebido da importância futura que o galego português, como língua, vai ter a nível global.

Utopicamente falando, vemos uma alternativa certa a construir no nível planetário. O Império Ocidental, em franca decadência não tem nada que oferecer à nova humanidade — além do grande avanço cientifico-tecnológico de que foi grande impulsor.— A Rússia e a China continuam atreladas também às velhas dinâmicas de guerra e concorrência hegemónica. Ocidente representa o velho esquema de domínio mercantilista dentro das dinâmicas de guerra. China e Rússia, o velho organograma de controlo estatal, receoso da autonomia individual e coletiva. Ambos só podem oferecer confronto e sofrimento; dominação mais subtil ou mais bruta, repressão do saber alternativo e da universalidade do pensamento — que é enfrentada como ameaça—. Uma nova humanidade precisa dum novo centro, nascido dum novo paradigma de paz, que só será possível modificando a visão de luta dentro da polaridade.

Uma nova visão de confraternização e unidade dos contrários, pela analogia, será precisa. Chegado o momento do ser humano ficar saciada da guerra, dor e sofrimento — sempre em contínuo aumento dentro desta tendência.

A humanidade terá que compreender que as correntes que atrelam ao oprimido também atam o opressor. O oprimido sofre imensamente lutando pela libertação momentânea — até se tornar opressor e sofrer o processo contrário; única opção dentro das dinâmicas de guerra, polarizadas—. O opressor desenvolve paranóia e tensão patogénica por medo a perder a sua posse; sofrendo imensamente numa experiência de aparência material abundante. Mas em ambas as dinâmicas se verifica escassez ou material ou de bem-estar psíquico.

Um novo paradigma precisa de um novo centro de irradiação, que não poderá ser nem o Império Ocidental, nem a Rússia ou a China. Acreditamos, pois que a deslocação hegemónica, no tempo, se verificará do Atlântico Norte ao Atlântico Sul… E não podemos esquecer que no hemisfério Sul a língua mais extensa é o galego-português. Galiza, pois, terá um certo papel de relevância nessa transação cultural devido à sua ligação com o mundo lusófono e à América do Sul. No tempo, as mudanças contínuas trarão a mudança linguística no território galego também. O reintegracionismo não pode evitar a perda alarmante de falantes, mas quando se detêm os planos, podem-se voltar a construir as cidades. Devemos também lembrar que o poder da unidade transcende ao da soma das suas partes.

A força do reintegracionismo está precisamente nessa unidade. Para mantê-la, precisamos mudar para um novo paradigma de paz e comunhão… Com aceitação e respeito à diversidade, que é riqueza; mas também com compreensão da fonte comum e da necessidade vital da constante mudança… Trabalhar esse caminho é nosso grande reto. Artur Alonso – Galiza in “Portal Galego da Língua”


Artur Alonso Novelhe - Galego, mas nascido no México, é diplomado pela Escola Pericial de Comércio de Ourense. Exerce como funcionário do Serviço Galego de Saúde do Governo da Galiza. Publicou várias obras de poesia e colabora habitualmente com diferentes publicações, entre as quais o PGL. É sócio da Associaçom Galega da Língua (AGAL) desde os meados dos anos 80 e académico da AGLP.